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11 de agosto de 2005
ENTREVISTA SENADOR SIBA MACHADO
Sibá: deram uma punhalada nas costas da história do PT e de Lula
Presidente regional do
PT fala da crise nacional, defende o presidente e aposta na recuperação do
partido
Romerito Aquino
O envolvimento de
membros da cúpula do PT com o empresário Marcos Valério significou uma
“punhalada” nas costas da história tanto do partido quanto do presidente Lula.
É o que diz o senador Sibá Machado, presidente do diretório regional do PT, durante entrevista que concedeu sexta-feira ao Pagina 20 para falar exclusivamente do teor, do tamanho e da duração da grande crise política que se abate hoje sobre o país depois da descoberta do envolvimento de dirigentes petistas e membros do governo em esquemas de repasses ilegais de dinheiro por parte do publicitário mineiro Marcos Valério.
Para o senador petista, que é candidato à reeleição na presidência do PT acreano, o presidente Lula não sabia “absolutamente” dos esquemas de caixa-dois e do mensalão pago a deputados da base aliada, que entraram para o corredor da cassação depois que a CPI dos Correios descobriu depósitos em suas contas ou nas contas de seus assessores.
Segundo Sibá, mesmo sendo o carro-chefe da crise, o PT tem tudo para recuperar a sua história a partir do momento em que o próprio presidente Lula se dispôs a cortar na própria carne, demitindo gente do governo envolvida e colocando alguns de seus ex-ministros para fazer uma limpeza na direção do partido. Na entrevista, Sibá Machado também nega qualquer repasse de recursos ao PT acreano tanto da parte do ex-tesoureiro Delúbio Soares quanto da parte do deputado Roberto Jefferson ou de quem quer que seja.
Por que a crise foi gerada justamente pelo PT, um partido considerado ético e honesto?
As pessoas do PT que trabalhavam com essas finanças em grandes eventos e em grandes campanhas somente agora estão admitindo que praticaram o uso de dinheiro não contabilizado ou de caixa-dois. E muita gente concorda que todos os partidos no Brasil acabam tendo que fazer isso. Por que isso? Porque a maioria dos financiadores de campanha se recusa a emprestar seus nomes. Não querem seus nomes vinculados a nenhum político, nem aos vitoriosos nem aos derrotados.
Mas a lei não permite o caixa-dois?
Essa história de caixa-dois de campanha induziu que alguém acabou indo longe demais. E acabou se envolvendo com pessoas que devem estar participando, há muitos anos, de uma alta inteligência nacional de corrupção. Este levantamento de dinheiro para campanhas eleitorais até que têm, embora sendo ilegal, uma justificativa política. Porém, quando alguém vai atrás de uma pessoa da marca de Marcos Valério (publicitário mineiro, que repassou dezenas de milhões de reais ao PT) e se emprenha com essa pessoa, a ponto dessa pessoa se tornar amiga, usar o nome do PT e de pessoas do partido e aparecer troca de dinheiro em altos volumes, isso realmente eu considero como uma punhalada nas costas da história do PT e da história do presidente Lula.
Não foi falta de amadurecimento do PT para governar o país?
Isso não tem nada a ver porque a gestão de governo é outra coisa. Na gestão de governo, as coisas estão indo muito bem. Muito além daquilo que muitos esperavam. O governo Lula é show, é sucesso. Na sua política internacional, dispensa-se comentários. A política econômica é uma unanimidade. O governo não rompeu nem os contratos do Fernando Henrique para não deixar os investidores internacionais e nacionais preocupados. O país continua ordeiro, crescendo, com suas contas cada vez mais equilibradas e melhores. Na gestão de governo, não há absolutamente nada que comprometa ninguém.
Mas gente do governo participou das ilegalidades.
Quanto à gestão de levantamento financeiro e o uso de influência aí eu acho que houve exagero de alguém. Vejo mais claramente o ex-tesoureiro (Delúbio Soares) e alguns membros do PT, que chegaram lá no topo, começaram a viajar, vestiram uma roupa melhor, passaram a ter outro padrão de vida. Foram consumidos pelo poder. Começaram a se relacionar com pessoas da estirpe de Marcos Valério. Já está provado que Marcos Valério era operador financeiro há quase 20 anos. E sempre foi operador financeiro do PSDB, do PFL. E agora, o petista pega um cara desses para se ligar. Está querendo mesmo confusão na sua cabeça!
Quando o PT pode recuperar sua imagem de ético, de honesto?
Não vai ser muito rápido essa recuperação porque, para todos os efeitos, os nomes envolvidos são da alta cúpula do PT. E aí qualquer pessoa olha e diz: ah, isso é o PT e faz uma ligação completa ao partido. Então, a sigla partidária PT e todos os seus membros estarão de certa forma carregando essa pecha, essa marca por algum tempo.
Essa recuperação pode ocorrer antes das eleições de 2006?
Depende, pode ser que sim e pode ser que não. Mesmo que isso
não se prolongue até lá, com certeza os adversários do PT vão utilizar na
campanha eleitoral. Isso nós já estamos esperando. Mas o que importa é o que o
PT vai fazer verdadeiramente. E eu sinto que a nova direção, o presidente Tarso
Genro tem dado esses sinais. E o próprio presidente Lula está provando todos os
dias que quer a apuração definitiva. Ou seja, não faz nenhuma orientação à
Polícia Federal, que está livre para trabalhar, assim como o Ministério Público
e todas as instâncias de investigação, como o Congresso Nacional e as CPIs são
livres para trabalhar e estão trabalhando. Todos estão cumprindo os seus papéis
constitucionais.
O que está fazendo a nova direção do
partido?
O presidente Tarso Genro diz que quer primeiro saber de fato sobre o tamanho desse rombo nas contas do partido. Depois de saber quanto, ele quer saber aquilo que de fato é de responsabilidade partidária. E o partido vai apresentar uma proposta de quitação dessas contas. E aquilo que não for de responsabilidade partidária, será assumido por quem teve a responsabilidade. Quanto aos nomes que foram envolvidos, Tarso Genro está dizendo claramente que vai mandar o conselho de ética para cima destes nomes. Além disso, ele está dizendo que qualquer deputado do PT que pedir renúncia de mandato para ser candidato no ano que vem pelo partido, está redondamente enganado, pois não haverá legenda para aqueles cabras que pedirem a renúncia. Porque se pedir renúncia está com medo de alguma coisa, então tem que se explicar.
A forma de organização centralizada praticada pelo PT não contribuiu também para esses desvios?
Embora o PT seja o partido que mais dá chances aos militantes dizerem o que pensam, a militância dá aos líderes do partido a credibilidade total. A gente olha para as lideranças, o que elas passaram na vida, o sofrimento que enfrentaram. Então, quando a gente olha, olha com muito respeito. Alguns foram guerrilheiros, clandestinos, não tinham pátria, não tinham casa, não tinham família, eram escorraçados, torturados, deportados. Tudo isso, quando a gente olha, olhamos com profundo respeito. Então, muitas dessas pessoas quando falam, a gente dá a elas credibilidade total.
O senhor acha que a crise atual já chegou ao ápice ou vai se agravar ainda mais?
O deputado Roberto Jefferson era o ícone de todas as acusações que geraram isso que nós estamos vendo. A partir da última oitiva do deputado, ele deixou muito claro aonde quer chegar e qual o seu limite. Ou seja, estabeleceu que a luta dele é contra o José Dirceu (ex-ministro e atual deputado) e encerra aí. Quanto aos que querem passar pra frente e chegar até Lula, que é o caso do PSDB e do PFL, Jefferson deixou muito claro que não aceita, pois todas as perguntas com relação a Lula ele foi enfático em negar o envolvimento do presidente. Com o Roberto Jefferson, o limite da crise já foi estabelecida.
O presidente Lula sabia do esquema do dinheiro ilegal?
Absolutamente. Um comentário que ouvi, e que comecei a achar que tem procedência, é que Lula, durante o ano de 2003 e até julho de 2004, se colocou como chefe de estado e deixou o José Dirceu como chefe de governo. Portanto, o Zé Dirceu tinha o gerenciamento de tudo no governo, político, administrativo. E o presidente viajou para colocar o Brasil lá fora num outro patamar. E se colocou como um grande líder, um novo líder no mundo.
Então, o ex-ministro Zé Dirceu é que armou tudo?
Não digo que o Zé Dirceu elaborou tudo isso, mas pessoas próximas a ele se aproveitaram da ocasião para fazer essa festa. Portanto, eu acho que o presidente Lula é isento totalmente dessas coisas, tanto é que ele não teve problema de tirar nem o Zé Dirceu (Casa Civil) e nem o Gushiken (Comunicação Social), que é amigo pessoal dele, de morarem juntos, que saiu do estágio de ministro e foi para o terceiro escalão de governo.
Mas dizem que se o presidente Lula não sabia do esquema, teria sido irresponsável porque fora avisado antes por Roberto Jefferson
Mas não está provado que essa conversa do Roberto Jefferson alertando o presidente tenha acontecido. O Palácio do Planalto não confirmou o teor dessa conversa. O Jefferson quer que o presidente venha à imprensa e confirme que o recebeu para tal conversa. Por enquanto, é só a palavra do Roberto Jefferson. A única pessoa que assegura que o Jefferson disse que estava havendo o esquema do mensalão foi o deputado e ex-ministro Miro Teixeira, que convidou Jefferson para ir ao presidente e ele não foi. Ou seja, o momento da prova que a conversa com o presidente aconteceu foi o momento em que Jefferson se negou a ir falar com ele.
E por que o presidente não vem a público negar sua participação?
Eu falo por mim, quando algumas pessoas me atingem. Fico olhando para o tamanho da pessoa e o nível de envolvimento na sociedade que ela está tendo. Então, o presidente Lula nunca vai dar resposta para o Roberto Jefferson. Nunca ele vai dar importância para uma pessoa como Roberto Jefferson. Ele não deve fazer isso nunca. O presidente já disse o que tinha a dizer ao Jefferson naquela época, que assinava um cheque em branco para ele. O que se precisa de um presidente da República são os gestos, muitos gestos. O presidente podia estar falando, falando e não fazendo. O que importa é que ele faça e ele está fazendo. O presidente indicou um ministro seu para presidir o PT. Tirou os ministros envolvidos todos. Renovou o PT e o governo.
O país parou com a crise?
Isso é conversa da oposição. O país não está parado coisa nenhuma. Como pode o país estar parado se está batendo recorde de exportação mesmo o dólar caindo abaixo de 2,4 reais. A Petrobrás, além de ter colocado o país como auto-suficiente em petróleo, já vai vender o primeiro lote de petróleo nacional para a China. A máquina do governo está azeitadinha, está funcionando normal. Se o país estivesse parado, os sinais de queda na economia já seriam visíveis.
O senhor acha que o presidente está certo de, no meio da crise, começar a fazer uma agenda nos estados?
Está perfeito. Isso foi uma orientação e aqui eu faço um elogio ao governador Jorge Viana, que vivia dizendo para ele que saísse de perto dessa moçada porque essa moçada só traz pepino para ele resolver. Sai daqui, vai pra rua, vai para o meio da sociedade, vai representar o seu governo, discuta as coisas, vá para onde as coisas estão funcionando.
E o PT do Acre? A oposição no estado está acusando o partido de ter feito também caixa-dois.
No dia que o deputado Jefferson falou na CPI do Mensalão, a resposta para essa acusação foi dada. Dois deputados, um do Acre e outro do PPS, fizeram questão de indagar a ele sobre envio de recursos para o estado. E o deputado Jefferson deixou muito claro que o PTB não mandou nenhum centavo para o PT do Acre. E não mandou mesmo. Não só o Roberto Jefferson e o PTB não mandaram, como aconteceu a mesma coisa com o PT e com o Delúbio Soares. A campanha do Acre, como em todas as campanhas, eles não nos dão nem um copo d’água. Nunca deram e falam: te vira, dá teu jeito, faz o que vocês puderem. E graças a Deus que nós não pegamos nenhum centavo do Delúbio, nem em 2004 e nem em campanha nenhuma.