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15 de agosto de 2005
PERSONALIDADE
Quem foi Miguel Arraes
Arraes governador pela 1ª vez, em 1962
Por Joana Rozowykwiat*
Miguel Arraes de
Alencar nasceu em 15 de dezembro de 1916, no município Araripe, Ceará, onde
freqüentou os primeiros anos de escola. Sétimo filho e único homem de uma
família de pequenos agricultores, construiu sua brilhante carreira política no
Recife, aonde chegou ainda jovem, para concluir os estudos e iniciar uma
carreira profissional.
Em 1933, tornou-se funcionário do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), por
meio de concurso público. Quatro anos depois, formou-se na Faculdade de Direito
do Recife. No IAA, conheceu Barbosa Lima Sobrinho, que chegou à presidência do
Instituto e terminaria por tornar o nome de Arraes conhecido. Primeiro, nomeou
Arraes Delegado Regional do Instituto e, mais tarde, quando assumiu o Governo
do Estado, o convocou para o cargo de secretário estadual da Fazenda.
Era 1948 e começava, então, a vida política do homem que se tornaria um mito
para muitos Pernambucanos e um símbolo para todo o Brasil. Dois anos depois,
Arraes elegeu-se suplente e terminou assumindo o mandato de deputado estadual.
Em 1958, consegue novamente a vaga na Assembléia, de onde saiu para assumir a
Secretaria da Fazenda, no governo de Cid Sampaio.
Frente, governo, mito
Ainda em 1959, Arraes foi eleito prefeito do Recife, pela "Frente do
Recife", com apoio de comunistas, socialistas e trabalhistas. Nas eleições
seguintes, em 1962, o habilidoso político chegava, pela primeira vez, ao
Governo de Pernambuco, com 47,98% dos votos, novamente à frente de uma coalizão
des esquerda, derrotando os candidatos João Cleofas (UDN) e Armando Monteiro
(PSD).
Arraes deu início a uma
avançada administração popular, na qual se destacaram as ações voltadas para os
trabalhadores rurais - Pernambuco era o epicentro do movimento das Ligas
Camponesas, que na época vivia o seu auge.
Data dessa época o nascimento do mito Arraes. Ele era adorado quase como um
santo por milhares de moradores do interior do Estado. Lá, dizem que o
socialista era capaz de fazer chover e que, apenas com um toque, podia realizar
milagres. A fé do povo em Arraes era tanta que as pessoas disputavam um pedaço
de roupa dele, como sendo a relíquia maior do mundo.
Arraes é responsável, por exemplo, pelo Acordo do Campo, uma negociação entre
os camponeses e os usineiros de Pernambuco, que estendeu, pela primeira vez no
Brasil, o salário mínimo aos trabalhadores rurais. Foi ele também que iniciou o
processo de eletrificação no Sertão, interrompido pela Ditadura, mas retomado
em seu segundo Governo. Projetou-se também nacionalmente: chegou a ter seu nome
lançado, assim como Leonel Brizola,como candidato das forças progressistas nas
eleições presidenciais de 1965 - que terminaram não ocorrendo, suprimidas pela
ditadura militar implantada pelo golpe de abril de 1964.
Golpe, prisão, "desterro"
Miguel Arraes não chegou a concluir o seu primeiro mandato de governador. No
dia 1º de abril de 1964, uma quarta-feira, o Palácio das Princesas, sede do
Governo, amanheceu sob a mira de canhões. Numa histórica cena, Arraes é deposto
pelo golpe. Tropas militares cercaram o Palácio do Governo, exigindo a renúncia
do governador. Ele se recusou a renunciar e acabou sendo preso e privado dos
direitos políticos.
A data ficou marcada, ainda, pelo assassinato de três pessoas, durante uma
passeata em prol da legalidade, no centro do Recife. Outras foram presas em
todo o Estado. Arraes foi levado para o Quartel de Socorro, em Jaboatão dos
Guararapes, e depois partiu para a ilha de Fernando de Noronha, onde ficou
detido por onze meses.
Em 25 de maio de 1965, numa prisão no Rio de Janeiro, Arraes obteve um habeas
corpus no Supremo Tribunal Federal, recuperou a liberdade e embarcou para a
Argélia, "desterrado", como costumava dizer. Passou 14 anos no exílio
e só em 1979, com a anistia, voltou ao Brasil. A chegada de Arraes ao Recife
foi um momento de grande comoção, que reuniu cerca de 60 mil pessoas. O
comício, que aconteceu em Santo Amaro, talvez tenha sido a maior manifestação
popular realizada na cidade até então e foi a maior entre as muitas
manifestações ocorridas na época, em todo o país, para homenagear
personalidades que retornavam do exílio.
Anistia; "A Esperança está de Volta"
Filiado ao PMDB, Arraes é eleito, em 1982, o deputado federal mais votado do
Norte e Nordeste. Quatro anos depois, ainda pelo PMDB, recupera, nas urnas, o
posto de governador de Pernambuco, conquistando 53,5% dos votos. Conseguiu
reunir a maioria dos partidos de esquerda e a campanha, sob o slogan "A
Esperança está de Volta", teve grande participação popular. O povo foi às
ruas pedir para Arraes "entrar pela porta que saiu", ou seja, para
ele retomar o governo interrompido pelo golpe.
A posse ficou marcada na história política pernambucana. A polícia não
conseguiu deter o povo, que rompeu os cordões de isolamento, para chegar mais
perto do novo governador. Arraes fez um discurso emocionado da sacada do Palácio
e, a partir de então, deu continuidade às ações desenvolvidas na primeira
gestão. Nesse segundo mandato, investiu muito na eletrificação rural e em
habitação.
Conflitos com FHC
Em 1990, após ingressar no Partido Socialista Brasileiro (PSB), retornou ao
Congresso Nacional como o deputado federal mais votado do Brasil. Em 1994, foi
eleito, pela terceira vez, governador de Pernambuco. Nesse período, o político
enfrentou grande dificuldade com o governo federal. O presidente era Fernando
Henrique Cardoso, que deixou o Estado a pão e água, não aprovando os projetos
de Miguel Arraes. O conflito entre os dois tinha origem na insatisfação de
Arraes com a política neoliberal adotada por FHC.
A prioridade do governo foi levar água e eletricidade à população carente do
Estado. Foi implantado também o Projeto Cidadão, que tinha por objetivo emitir
documentos para grande parte da população que nunca tinha tido um registro. O
político preocupou-se muito com questão de segurança, especialmente na Zona da
Mata Sul, local que decretou área de exclusão, por conta dos altos índices de
violência, que em grande parte tinham motivação política.
Nas eleições seguintes, Arraes tentou reeleger-se, mas foi derrotado por Jarbas
Vasconcelos, atual governador de Pernambuco, por mais de um milhão de votos.
Jarbas tinha sido antigo aliado de Arraes. Com a anistia, no entanto, houve um
conflito entre as lideranças que surgiram durante o exílio e as que retornavam.
Desde então, a relação entre os dois foi ficando abalada. Mas foi na disputa de
1998, que os dois romperam. Jarbas transformou-se em um dos principais
adversários do socialista e um aliado de Fernando Henrique.
Hoje, 13 de agosto de 2005 Miguel Arraes faleceu, aos 88 anos, depois de 58
dias internado no Hospital Esperança, no Recife. Ocupava a Presidência Nacional
do PSB e uma vaga na Câmara Federal, conquistada no pleito de 2002. Seu neto, o
deputado federal e ex-ministro Eduardo Campos (PSB-PE), é visto como o herdeiro
do mito Arraes, que continua enraizado na memória popular pernambucana.
* Do Recife
PERSONALIDADE
Arraes
Por Haroldo Lima*
Não
faltarão depoimentos e testemunhos valiosos sobre a rica e longa experiência
política de Miguel Arraes de Alencar. Mas, logo ao saber de sua morte,
ocorreu-me homenageá-lo como homem de esquerda que foi, com as características
que tomou da esquerda tradicional brasileira: objetivos claros no sentido do
socialismo, coerência política e ideológica, ligação com o povo, sentimento
nacional, lisura, simplicidade.
Arraes
entrou na política em 1948, já com 32 anos, como secretário de outro
proeminente brasileiro, o governador de Pernambuco nos idos de então, Barbosa
Lima Sobrinho. Mais à frente substituiu Pelópidas da Silveira como Prefeito de
Recife, o mesmo que parece ser o introdutor no Brasil das audiências diretas de
prefeito com o povo. E em 1962 Miguel Arraes aparece na cena política nacional,
como governador eleito de Pernambuco.
No
ano anterior, Jânio Quadros havia renunciado à Presidência da República,
originando a chamada “Crise da Legalidade”, onde avulta no Rio Grande do Sul
outra figura destacada da esquerda, Leonel Brizola. Daí por diante, nesses
primeiros anos sessenta, a esquerda brasileira tinha dois nomes de destaque em
cargos executivos importantes, Brizola no Sul, Arraes no Nordeste.
A
esquerda dos anos 60
No
ano de 1962 ocorrem outros fatos importantes na política brasileira. Em plano
mundial já houvera a cisão do movimento comunista e aqui no Brasil, também em
1962, reorganiza-se o PC do Brasil. Ainda em 1962, a Ação Popular, organização
que iria ter papel importante na futura resistência à ditadura, realiza seu
congresso de fundação, em Salvador. E em 1962 também aparece em Minas a antiga
organização Política Operária, Polop. Tudo isso assinala os primórdios da
grande mobilização que iria preceder o golpe de estado de 1964. Toda uma
geração de políticos incorpora-se à atividade de esquerda nesse período.
Conheci
Arraes logo depois, em 1963, quando ele veio a Salvador participar do grande
comício realizado no Campo Grande para homenagear os “10 anos da Petrobrás”. A
AP, de cuja Direção Nacional eu participava, sendo também seu coordenador na
Bahia, resolveu saudar o líder nordestino “pichando” os muros de Salvador com
as palavras “Arraes 65, o povo no poder”. No antigo Hotel Oxumaré, onde esteve
hospedado, Arraes ouviu atentamente o relato das movimentações que estávamos
fazendo levantando o “Arraes 65” para Presidente da República, que incluiria
“puxar essa palavra de ordem” quando o Governador estivesse discursando no
comício dos “10 anos”. Sorriu, animou-nos, gracejou. Não se comprometeu com
aquela posição, tampouco a repeliu. Quando falou no comício, teve que
interromper sua fala ante os brados de “Arraes 65, o povo no poder” que vinham
da juventude entusiasmada com os caminhos que a esquerda tentava desbravar no
Brasil.
No
golpe de 1964 Arraes foi preso, no mesmo Palácio onde agora foi velado. Foi
para Fernando de Noronha e depois para o exílio, na Argélia.
Clandestinidade
e exílio
Tempos
difíceis seguiram-se, onde a esquerda brasileira não se acomodou, na sua
labuta. A clandestinidade restou, para muitos, como alternativa à prisão, ou à
morte. E na clandestinidade muita coisa foi feita, muita esperança foi
sustentada com dedicação, amor à causa e sacrifício, por anos a fio.
Articulações se sucediam. Planos. Planos refeitos. Era a esquerda em ação. Em
AP, vez por outra companheiros faziam viagens clandestinas ao exterior, de onde
traziam opiniões de "Miguel A" e "Miguel B", os nomes
cifrados de Arraes e Brizola. A resistência crescia dentro e fora do Brasil,
com gente que se incorporava aqui e gente que saía do país. A partir de 1972,
chegou ao Velho Mundo outro nordestino de esquerda, este comunista, recém-saído
da prisão no Brasil, Diógenes de Arruda Câmara, amigo de Arraes. Mais à frente
chegam e não conseguem voltar João Amazonas e Renato Rabelo.
A
Anistia chegou em 1979, com limitações, mas como resultado de muita luta. As
prisões se abrem e de lá saem companheiros da esquerda, como Aldo Arantes, Elza
Monerat, eu. E chega a turma que estava no exílio, diversos, entre os quais, na
seqüência, Arruda, Prestes, Amazonas, Renato Rabelo, Brizola, e muitos outros.
Chamou a atenção a recepção que o povo deu a Arraes. Todo o Nordeste acorreu a
Recife para rever seu filho exilado que voltava.
A
esquerda dos anos 80
Em
1982 Arraes é eleito deputado federal pelo PMDB e chega à Câmara com a auréola
de grande líder da esquerda. O regime militar agonizava. E ia surgindo um novo
quadro nas forças de esquerda no Brasil.
O
PCdoB, ao qual se somara a Ação Popular Marxista-Lenista, saía da prolongada
resistência à ditadura com forças renovadas, com a legenda do Araguaia, com
perspectiva histórica e com um líder respeitado, João Amazonas.
O
Partido Democrático Trabalhista organizou-se por iniciativa de Leonel Brizola
em 1979 em Portugal, para abrigar forças do antigo trabalhismo, já que os
generais deram ao PTB outro destino.
O
antigo Partido Socialista Brasileiro, que vem de 1947, buscou sua reorganização
em 1985, com Antonio Houais, Jamil Haddad e Roberto Amaral, lançando um
manifesto assinado por nomes como Evandro Lins e Silva, Jader Carvalho, Rubem
Braga e Joel Silveira e apresentando um programa que era o de 1947, redigido
pelo próprio João Mangabeira. É nesse partido que Miguel Arraes entra, em 1990,
e em 1993, se torna seu presidente.
Finalmente,
do movimento sindical do ABC Paulista, brotara um agrupamento com sólidas
raízes no sindicalismo brasileiro, apoio nas Comunidades Eclesiais de Base da
Igreja e na intelectualidade - era o Partido dos Trabalhadores, fundado em 1980
e legalizado em 1982. O seu grande líder era Lula. Outros agrupamentos na
esquerda também apareciam, mas com menor expressão.
A
visão de Arraes: três correntes
Durante
o primeiro mandato de deputado federal de Arraes uma aproximação política maior
ocorreu entre ele, o bravo deputado federal pela Bahia Francisco Pinto, seu
grande amigo, e eu. Havia proximidade de residências e, sobretudo proximidade
política. Planejamos uma frente parlamentar ampla, que intitulamos Articulação
Progressista, da qual Arraes veio a ser o Presidente. Veio depois a campanha
das Diretas Já, de 1984, com manifestações esplendorosas por todo o país, e a
eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, em 1985. De tudo participou
Arraes, sempre coerente, sempre com a esquerda, sempre com o povo brasileiro.
Arraes
volta ao Governo de Pernambuco em 1990, ainda pelo PMDB, retorna à Câmara em
1990, já pelo PSB e em 1994é praticamente aclamado, pela terceira vez, governador
de Pernambuco. Foi derrotado na eleição de 1998, mas retornou à Câmara pela
eleição de 2002. Aos 88 anos morre como deputado federal e presidente do PSB.
Um
pensador do tema nacional
Arraes
era um pensador. O tema nacional era um de seus prediletos, “A Questão
Nacional” é um texto fecundo de sua autoria. Considerava importante buscar as
raízes das instituições, dos processos, dos problemas. Por mais de uma vez
escutei-o falar sobre as raízes das três correntes históricas principais da
esquerda brasileira, a do “comunismo” – que vem desde 1922, com a fundação do
Partido Comunista do Brasil, PCB; a do “socialismo” – que se originou no
Partido Socialista Brasileiro, regulamentado em 1947; e a do “trabalhismo” –
que vem da fundação do antigo Partido Trabalhista Brasileiro por Getúlio
Vargas, em 1945, e teve continuidade na fundação do PDT de Leonel Brizola. Via
Arraes, por aí, a proximidade histórica natural dessas três correntes da
esquerda tradicional brasileira.
O
tino político de Arraes sempre enxergava a necessidade do homem simples, do
homem do campo, do espoliado. Suas idéias administrativas, suas iniciativas
para melhorar a vida do povo eram originais e eficientes, o povo delas gostava.
Tornaram-se lendários seus programas como “A vaca na corda”. Antonio Callado
fixou suas impressões sobre parte dessas experiências em um clássico - “Tempos
de Arraes: a revolução sem violência”.
Com
a morte de Miguel Arraes perde a esquerda um de seus tipos clássicos, o último
dos mais conhecidos que fizeram a história do Brasil desde a década de sessenta
do século passado. E que tinha a postura típica da esquerda brasileira, que
honra suas raízes históricas, que tem espírito de luta, fidelidade com a causa
socialista, crê no Brasil e em sua gente e comporta-se com lisura e
simplicidade.
*
Vice-Presidente do PCdoB.
Memórias de Arraes sobre o golpe de 1964, a
prisão, o exílio
1964: Arraes sai preso do Palácio
Por motivo da morte de
Miguel Arraes neste sábado (13), a Agência Brasil republicou em seu site
trechos de uma entrevista com o dirigente socialista, por motivo dos 40 anos do
golpe de 1964, no ano passado. Além de recapitular um dos momentos cruciais da
trajetória de Arraes - ele foi deposto do governo de Pernambuco, preso e, como
dizia, "desterrado" do país por 14 anos -, a entrevista retrata a
concepção de mundo, de Brasil e de história do dirigente histórico da esquerda
reformadora. Veja:
Prisão relâmpago
"Eu estava em Pernambuco, era governador e fui preso no Palácio do
Governo, que estava cercado. Prenderam-me no exercício do cargo de governador e
não pude fazer nada. Não restava outra coisa a fazer, as resistências já tinham
caído no país todo. Fui preso na tarde de 1° de abril, esperando que houvesse
alguma manifestação de reação, que não aconteceu".
Sem surpresas
"Eu sabia que o golpe iria acontecer porque estive no comício de 13 de
março de 64 na Central do Brasil, no Rio de Janeiro. De lá fui para Juiz de
Fora participar de uma concentração, e quase não consigo discursar, porque
existiam 200 homens civis armados nas ruas. Eles eram comandados por um cidadão
chamado Adão Rafael, que, acho, era deputado, sustentado pelo general Olympio
Mourão. Depois fui para Belo Horizonte, conversei com Magalhães Pinto, que era
governador de Minas, e segui para Brasília. No dia 17 ou 18 de março conversei
com Jango e disse a ele que o golpe estava na rua. Então não fiquei
surpreso".
Organizar a reação
"Retornei a Pernambuco disposto a me organizar para a reação contra o
Golpe. Isso se fosse possível, se fosse o caso. Não consegui dar inicio, porque
não havia mais ninguém resistindo. Ninguém resistiu e seria um suicídio e um
banho de sangue em Pernambuco. Seria uma decisão isolada, solitária. Fiquei
esperando essa reação até a madrugada do dia 1° de abril. Amanheci cercado pelo
Exército e tive que tomar posições para evitar, que alguns loucos partissem
para uma reação contra o golpe, que eles pudessem agir isoladamente,
emocionalmente, o que não era aconselhável. E aguardei passivo para ser preso,
para o que o destino me reservaria naquela situação".
Golpe permanente
"O golpe sempre existiu e foi mais ou menos permanente desde que Getulio
Vargas reassumiu o poder. É preciso recordar que, quando ele se elegeu, em 50,
em uma grande campanha - e aqui quero ressaltar que não sou getulista, nunca
fui do PTB e sou uma pessoa que sempre lutou com uma certa independência no
campo político -, essa história começou. A conspiração data da hora em que
Getúlio se elegeu. Ele tomou posse porque as forças nacionalistas de esquerda
dentro do Exército foram vitoriosas. Quando o general Newton Estilac (ministro
da Guerra de Getúlio) se elegeu presidente do Clube Militar, ficou claro que a
maioria da oficialidade defendia a posse de Getúlio".
Revolta com a repressão
"Quem luta politicamente não tem direito de ter mágoa, nem alegria, só
pode pensar naquilo que deve fazer. Tenho revolta pelos excessos cometidos pela
repressão do regime militar sobre outros companheiros, alguns que morreram,
outros sofreram torturas, prisão, discriminação, perseguição. Enfim, acho que
nós devemos sempre comentar para que isso também não volte a se repetir no
Brasil".
Clandestinidade
"Fiquei pouco mais de um ano na prisão e fui libertado por um habeas
corpus do Supremo Tribunal Federal. Depois fui novamente preso e libertado
pelos militares. Fui libertado no Rio de Janeiro. Era preso, me soltavam, era
chamado para depor, nem incomodava mais meu advogado, que era o doutor Sobral
Pinto. Ele tinha ilusões com a abertura, e eu não tinha ilusão nenhuma, mas não
podia sair sem ele, sem que ele concordasse. Em determinada altura lhe disse
que não dava mais: entrei na clandestinidade por um mês, mais ou menos, enquanto
tentava conseguir uma embaixada. A que consegui foi a da Argélia, país onde
fiquei exilado durante 14 anos".
Compromisso com a história
"Passei isso tudo, mas quero registrar que não tenho queixas a fazer, e
que nem sou uma pessoa que tinha feito algo de extraordinário. Fiz menos que
muitas pessoas nesse país. Fiz o que me competia e tinha que fazer".
Em defesa de Jango
"Veja, sou do Nordeste, sempre tinha feito política no Nordeste. Tinha
sido deputado estadual duas vezes, fui prefeito do Recife e depois governador.
Tinha muito poucos contatos políticos. Conhecia o Jango, conhecia outras
pessoas aqui do Sul, mas não tinha uma relação pessoal, de convivência com as
pessoas daqui. Mas me dei muito bem com Jango. Acho que ele é muito
injustiçado. Ele era um homem que era o que era. Ele nunca disse que era
estadista, nunca disse que iria fazer e acontecer neste país. Ele ficava
naquilo que era e podia fazer. Era um homem paciente. Sabia ouvir. Dentro
disso, acho que cumpriu um papel importante para o país. Naquela oportunidade,
Jango, politicamente, tinha muito boas relações públicas. Isso se via
perfeitamente".
Influência americana
"Todo mundo sabe que os americanos estavam presentes no Brasil. Eu era
governador e tinha em Pernambuco um cônsul americano e 15 vice-cônsules, coisa
que nunca aconteceu neste país. Além de assessores por todos os lados. Chegou
ao ponto que mandaram para lá, no governo de John Kennedy, um embaixador
extraordinário para ver a situação do estado. Aqui eles estavam presentes mais
do que em outros lugares da América do Sul. Todo mundo sabe que os americanos
tinham despachado uma força-tarefa para cá. Mas acho que o golpe não tinha
inteiramente razões para existir, porque o próprio Jango preparou a sucessão
dele com muita antecedência. Foram lançados dois candidatos para a Presidência
da República, que eram Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda. Políticos
confiáveis, digamos assim. Representantes da esquerda e de outros setores da
sociedade queriam outras saídas do ponto de vista político, mas agiram
sozinhos, isoladamente, porque também queriam mudar o país".
Comunismo não. Idéias justas
"Pernambuco não tinha nada de mais. Havia uma mobilização popular muito
forte, o que é natural, e estávamos promovendo o Acordo do Campo, que nós fizemos.
Queríamos romper, pelo menos, com aquilo que era socialmente insuportável. Os
trabalhadores da cana ganhavam um terço do salário mínimo. Não dava para
concordar com uma coisa daquelas. Tinham que ganhar pelo menos um salário
mínimo, que era o que eles mereciam. Isso não tem nada de comunismo, de
socialismo. Tratava-se de justiça concreta".
Semelhança com o Vietnã
"Internamente, não havia nenhuma motivação para o Golpe. Acho que há
certas interpretações sobre o Golpe Militar no Brasil: uma delas é de que havia
um movimento de massa muito forte no mundo inteiro. Esse movimento de massa,
reivindicatório, era muito avançado no Vietnã, onde já tinham as forças de Ho
Chi Min se instalando. As forças americanas pretendiam desalojá-los de lá. Esse
movimento geral de massa fez com que isso aqui tenha parecido um golpe
preventivo, para não se abrir uma outra frente em outro continente, e num país
da dimensão do nosso. Então, esse golpe preventivo foi dado poucos meses antes
do avanço americano dentro do Vietnã. Eles só se lançaram efetivamente lá,
quando o golpe se consolidou aqui. Não posso afirmar que uma coisa esteja
ligada a outra, mas os fatos são esses. Há quem interprete dessa forma".
Militarização do mundo
"Vê-se que a partir do golpe no Brasil houve o da Indonésia, em 65, onde
morreram 500 mil pessoas fuziladas. Sucederam-se depois os golpes no Extremo
Oriente e na América Latina, a ponto de, a certa altura, a América Latina estar
coberta por regimes militares, um dos quais o de Pinochet, no Chile. Outro na
Argentina. Este, um golpe extremamente violento. A militarização do mundo se
deu então, naquela hora. Esse panorama só começou a se alterar perto dos anos
70, quando o Vietnã, os vietnamitas começaram a avançar na sua luta, a levar
vantagens contra a brutal maquina de guerra que invadiu o território deles. As
outras reações que apareciam em várias partes isoladamente, porque havia uma
insatisfação generalizada. Houve então a decisão de desmilitarizar. Essa
desmilitarização foi apontada num relatório feito por Nelson Rockfeller
(prefeito de Nova Iorque), que andou por aqui a certa altura com 200
assessores, dois aviões. Esse relatório não foi muito difundido aqui. A
imprensa noticiou apenas os fatos que podia publicar".
Metralhadora e televisão
"O mal trazido ao Brasil pela ditadura foi a falta de informação da
população, a manipulação do ensino, aquilo que foi jogado na cabeça das
pessoas. Além disso, o silêncio sobre as lutas do povo, que não eram ensinadas
aos jovens. A geração que nasceu por volta do ano de 64 não entende a formação
de quem se formou antes, daqueles que desde muito cedo foram ensinados
conhecendo os problemas brasileiros, os problemas da nossa população. Acho que
esse é o prejuízo principal, e acho que a arma principal que está sendo utilizada
- disse isso há muito tempo - para substituir as metralhadoras dos militares é
a câmera da televisão".
Ligas camponesas
"As Ligas Camponesas eram um movimento paralelo à sindicalização e à união
que havia entre os trabalhadores rurais. Eles tinham começado esse movimento
entre pequenos proprietários, foreiros, arrendatários de terra. Agora esse
movimento comandado por Francisco Julião era mais visível do ponto de vista
geral, inclusive porque ele era uma pessoa que tinha uma certa capacidade de transitar
em muitos lugares, e fazer dessa bandeira - que é uma bandeira que todos nós
concordávamos - conhecida nacionalmente. Mas, do ponto de vista do volume de
gente engajada nas Ligas, não era muito expressivo. Não era não. Pegue a
votação de Julião (eleito deputado federal). Ele não tinha muita votação,
principalmente junto à classe média. Era uma pessoa considerada por todos nós.
Fui seu colega na Assembléia Legislativa e atuei ao seu lado depois, nas
questões rurais. Também dávamos apoio ao trabalho dele. Não o deixamos para
trás".
Em nome dos trabalhadores
"O Acordo do Campo, o primeiro feito no país, entre donos de terra e
trabalhadores, deu bastante trabalho, mas os próprios proprietários constataram
que essa era a saída que tinha que haver, porque eu disse que os trabalhadores
tinham conquistado o direito de sindicalização naquela época. Os sindicatos
rurais estavam organizados, quando assumi o governo de Pernambuco. Foi aí que
começaram essas negociações. O pessoal da cana-de-açúcar se organizou unificadamente,
havia uma unidade muito grande entre eles, portanto era uma força poderosa,
disposta a negociar. Então, era apenas uma questão de ajuste, porque estavam
vendo que, se não negociassem, seria um desastre, porque ninguém ia botar a
polícia para segurar 100 mil trabalhadores. Foi diante disso que eles
(usineiros, produtores e revendedores de cana) negociaram. Fui mediador de tudo
isso e esse acordo nem a ditadura conseguiu destruir. Ele ficou. Como era uma
coisa autêntica, que vinha de uma realidade dura, concreta, eles não puderam
mexer. Eles foram procurando cortar as beiradas do acordo, reduzir as
vantagens, mas ele é referência até hoje na questão da cana-de-açúcar".
Energia
"O povo nordestino ainda carece de coisas mínimas, e nós estamos nos atrasando,
distanciando muito do resto do país pela ausência de infra-estrutura, de
condições de crescimento. Em 1963, eu estava no governo de Pernambuco, Celso
Furtado era presidente da Sudene (Superintêndencia de Desenvolvimento do
Nordeste) e lhe falei sobre a necessidade de aumentar a oferta de eletricidade
no Estado com a chegada da rede da Chesf (Companhia Hidroelétrica do Vale do
Rio São Francisco), que estava sendo inaugurada com atraso de meio século em
relação ao futuro. Queria que a Chesf levasse energia aos povoados, às
populações rurais. Foi enviado um projeto para o Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID). Foi o Celso que o viabilizou. E veio o golpe, e esse
projeto foi aprovado e executado pelos governos militares de forma totalmente diferente
daquela que tinha sido prevista. O que se pretendia era democratizar a energia.
O que eles fizeram: colocaram energia nas grandes propriedades, e a rede
elétrica passava por cima dos pequenos. Então, eram 29 mil propriedades grandes
- a menor tinha 200 hectares. Minifúndios e pequenas propriedades não foram
atendidos.
Quando volto ao governo, retomo aquele projeto de 1963. Ora, de 63 para 86 já
fazia um bocado de tempo. Então havia uma preferência dos governos militares
pelos grandes proprietários e não pela população. Devia haver preocupação com
todo mundo, com os grandes, com os pequenos e com os médios. E nesses dois
governos que fiz depois de voltar, eletrifiquei cerca de 80% das propriedades.
Em qualquer lugar tinha energia. Coisas desse tipo são elementares. A população
quando vota não está querendo saber se o candidato é do PFL ou de um partido de
esquerda. Quer é infra-estrutura para viver com dignidade. É que sempre
procurei demonstrar que se faz muito pouco, muito pouco mesmo em coisas que o
povo já deveria ter desde o começo do século passado. Só sobrevivi
politicamente no Nordeste por ser defensor dessas causas".
Fonte: Agência Brasil
SOLIDARIEDADE
Fidel: "Sempre lembraremos atitude valente de Arraes"
O presidente de Cuba, Fidel Castro, enviou nota de pesar pelo falecimento do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, morto neste sábado (13). O Governo cubano também enviou uma coroa de flores. Confira a íntegra da nota.
"Com grande tristeza e consternação, recebemos a infausta notícia da morte do nosso amigo e companheiro de luta antiimperalista, Miguel Arraes de Alencar. Sua vida política o consagrou por inteiro a favor dos humildes e despossuídos, tanto do seu estimado Nordeste brasileiro como do resto do Brasil, que foi interrompida momentaneamente quando era governador do Estado de Pernambuco por conta do golpe militar de 1964. E continuou no exílio e retomou o cargo quando foi anistiado.
Seu exemplo servirá de estímulo para as gerações atuais e futuras do Braiil e América Latina. Sempre recordaremos sua atitude valente, solidária para com o nosso povo e a revolução.
A sua estimada esposa e companheira de lutas, Maria Madalena Fiúza Arraes de Alencar, a seus filhos Maurício e Pedro, aos dirigentes e militantes do Partido Socialista Brasileiro do qual Arraes era presidente, expressamos nossa solidariedade e condolências neste triste momento."
Fonte: JC Online