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15 de agosto de 2005

PERSONALIDADE

Quem foi Miguel Arraes

 

Arraes governador pela 1ª vez, em 1962

Por Joana Rozowykwiat*

Miguel Arraes de Alencar nasceu em 15 de dezembro de 1916, no município Araripe, Ceará, onde freqüentou os primeiros anos de escola. Sétimo filho e único homem de uma família de pequenos agricultores, construiu sua brilhante carreira política no Recife, aonde chegou ainda jovem, para concluir os estudos e iniciar uma carreira profissional.

Em 1933, tornou-se funcionário do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), por meio de concurso público. Quatro anos depois, formou-se na Faculdade de Direito do Recife. No IAA, conheceu Barbosa Lima Sobrinho, que chegou à presidência do Instituto e terminaria por tornar o nome de Arraes conhecido. Primeiro, nomeou Arraes Delegado Regional do Instituto e, mais tarde, quando assumiu o Governo do Estado, o convocou para o cargo de secretário estadual da Fazenda.

Era 1948 e começava, então, a vida política do homem que se tornaria um mito para muitos Pernambucanos e um símbolo para todo o Brasil. Dois anos depois, Arraes elegeu-se suplente e terminou assumindo o mandato de deputado estadual. Em 1958, consegue novamente a vaga na Assembléia, de onde saiu para assumir a Secretaria da Fazenda, no governo de Cid Sampaio.

Frente, governo, mito

Ainda em 1959, Arraes foi eleito prefeito do Recife, pela "Frente do Recife", com apoio de comunistas, socialistas e trabalhistas. Nas eleições seguintes, em 1962, o habilidoso político chegava, pela primeira vez, ao Governo de Pernambuco, com 47,98% dos votos, novamente à frente de uma coalizão des esquerda, derrotando os candidatos João Cleofas (UDN) e Armando Monteiro (PSD).

Arraes deu início a uma avançada administração popular, na qual se destacaram as ações voltadas para os trabalhadores rurais - Pernambuco era o epicentro do movimento das Ligas Camponesas, que na época vivia o seu auge.

Data dessa época o nascimento do mito Arraes. Ele era adorado quase como um santo por milhares de moradores do interior do Estado. Lá, dizem que o socialista era capaz de fazer chover e que, apenas com um toque, podia realizar milagres. A fé do povo em Arraes era tanta que as pessoas disputavam um pedaço de roupa dele, como sendo a relíquia maior do mundo.

Arraes é responsável, por exemplo, pelo Acordo do Campo, uma negociação entre os camponeses e os usineiros de Pernambuco, que estendeu, pela primeira vez no Brasil, o salário mínimo aos trabalhadores rurais. Foi ele também que iniciou o processo de eletrificação no Sertão, interrompido pela Ditadura, mas retomado em seu segundo Governo. Projetou-se também nacionalmente: chegou a ter seu nome lançado, assim como Leonel Brizola,como candidato das forças progressistas nas eleições presidenciais de 1965 - que terminaram não ocorrendo, suprimidas pela ditadura militar implantada pelo golpe de abril de 1964.

Golpe, prisão, "desterro"

Miguel Arraes não chegou a concluir o seu primeiro mandato de governador. No dia 1º de abril de 1964, uma quarta-feira, o Palácio das Princesas, sede do Governo, amanheceu sob a mira de canhões. Numa histórica cena, Arraes é deposto pelo golpe. Tropas militares cercaram o Palácio do Governo, exigindo a renúncia do governador. Ele se recusou a renunciar e acabou sendo preso e privado dos direitos políticos.

A data ficou marcada, ainda, pelo assassinato de três pessoas, durante uma passeata em prol da legalidade, no centro do Recife. Outras foram presas em todo o Estado. Arraes foi levado para o Quartel de Socorro, em Jaboatão dos Guararapes, e depois partiu para a ilha de Fernando de Noronha, onde ficou detido por onze meses.

Em 25 de maio de 1965, numa prisão no Rio de Janeiro, Arraes obteve um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal, recuperou a liberdade e embarcou para a Argélia, "desterrado", como costumava dizer. Passou 14 anos no exílio e só em 1979, com a anistia, voltou ao Brasil. A chegada de Arraes ao Recife foi um momento de grande comoção, que reuniu cerca de 60 mil pessoas. O comício, que aconteceu em Santo Amaro, talvez tenha sido a maior manifestação popular realizada na cidade até então e foi a maior entre as muitas manifestações ocorridas na época, em todo o país, para homenagear personalidades que retornavam do exílio.

Anistia; "A Esperança está de Volta"

Filiado ao PMDB, Arraes é eleito, em 1982, o deputado federal mais votado do Norte e Nordeste. Quatro anos depois, ainda pelo PMDB, recupera, nas urnas, o posto de governador de Pernambuco, conquistando 53,5% dos votos. Conseguiu reunir a maioria dos partidos de esquerda e a campanha, sob o slogan "A Esperança está de Volta", teve grande participação popular. O povo foi às ruas pedir para Arraes "entrar pela porta que saiu", ou seja, para ele retomar o governo interrompido pelo golpe.

A posse ficou marcada na história política pernambucana. A polícia não conseguiu deter o povo, que rompeu os cordões de isolamento, para chegar mais perto do novo governador. Arraes fez um discurso emocionado da sacada do Palácio e, a partir de então, deu continuidade às ações desenvolvidas na primeira gestão. Nesse segundo mandato, investiu muito na eletrificação rural e em habitação.

Conflitos com FHC

Em 1990, após ingressar no Partido Socialista Brasileiro (PSB), retornou ao Congresso Nacional como o deputado federal mais votado do Brasil. Em 1994, foi eleito, pela terceira vez, governador de Pernambuco. Nesse período, o político enfrentou grande dificuldade com o governo federal. O presidente era Fernando Henrique Cardoso, que deixou o Estado a pão e água, não aprovando os projetos de Miguel Arraes. O conflito entre os dois tinha origem na insatisfação de Arraes com a política neoliberal adotada por FHC.

A prioridade do governo foi levar água e eletricidade à população carente do Estado. Foi implantado também o Projeto Cidadão, que tinha por objetivo emitir documentos para grande parte da população que nunca tinha tido um registro. O político preocupou-se muito com questão de segurança, especialmente na Zona da Mata Sul, local que decretou área de exclusão, por conta dos altos índices de violência, que em grande parte tinham motivação política.

Nas eleições seguintes, Arraes tentou reeleger-se, mas foi derrotado por Jarbas Vasconcelos, atual governador de Pernambuco, por mais de um milhão de votos. Jarbas tinha sido antigo aliado de Arraes. Com a anistia, no entanto, houve um conflito entre as lideranças que surgiram durante o exílio e as que retornavam. Desde então, a relação entre os dois foi ficando abalada. Mas foi na disputa de 1998, que os dois romperam. Jarbas transformou-se em um dos principais adversários do socialista e um aliado de Fernando Henrique.

Hoje, 13 de agosto de 2005 Miguel Arraes faleceu, aos 88 anos, depois de 58 dias internado no Hospital Esperança, no Recife. Ocupava a Presidência Nacional do PSB e uma vaga na Câmara Federal, conquistada no pleito de 2002. Seu neto, o deputado federal e ex-ministro Eduardo Campos (PSB-PE), é visto como o herdeiro do mito Arraes, que continua enraizado na memória popular pernambucana.

* Do Recife

 

PERSONALIDADE

Arraes

Por Haroldo Lima*

Não faltarão depoimentos e testemunhos valiosos sobre a rica e longa experiência política de Miguel Arraes de Alencar. Mas, logo ao saber de sua morte, ocorreu-me homenageá-lo como homem de esquerda que foi, com as características que tomou da esquerda tradicional brasileira: objetivos claros no sentido do socialismo, coerência política e ideológica, ligação com o povo, sentimento nacional, lisura, simplicidade.

Arraes entrou na política em 1948, já com 32 anos, como secretário de outro proeminente brasileiro, o governador de Pernambuco nos idos de então, Barbosa Lima Sobrinho. Mais à frente substituiu Pelópidas da Silveira como Prefeito de Recife, o mesmo que parece ser o introdutor no Brasil das audiências diretas de prefeito com o povo. E em 1962 Miguel Arraes aparece na cena política nacional, como governador eleito de Pernambuco.

No ano anterior, Jânio Quadros havia renunciado à Presidência da República, originando a chamada “Crise da Legalidade”, onde avulta no Rio Grande do Sul outra figura destacada da esquerda, Leonel Brizola. Daí por diante, nesses primeiros anos sessenta, a esquerda brasileira tinha dois nomes de destaque em cargos executivos importantes, Brizola no Sul, Arraes no Nordeste.

A esquerda dos anos 60

No ano de 1962 ocorrem outros fatos importantes na política brasileira. Em plano mundial já houvera a cisão do movimento comunista e aqui no Brasil, também em 1962, reorganiza-se o PC do Brasil. Ainda em 1962, a Ação Popular, organização que iria ter papel importante na futura resistência à ditadura, realiza seu congresso de fundação, em Salvador. E em 1962 também aparece em Minas a antiga organização Política Operária, Polop. Tudo isso assinala os primórdios da grande mobilização que iria preceder o golpe de estado de 1964. Toda uma geração de políticos incorpora-se à atividade de esquerda nesse período.

Conheci Arraes logo depois, em 1963, quando ele veio a Salvador participar do grande comício realizado no Campo Grande para homenagear os “10 anos da Petrobrás”. A AP, de cuja Direção Nacional eu participava, sendo também seu coordenador na Bahia, resolveu saudar o líder nordestino “pichando” os muros de Salvador com as palavras “Arraes 65, o povo no poder”. No antigo Hotel Oxumaré, onde esteve hospedado, Arraes ouviu atentamente o relato das movimentações que estávamos fazendo levantando o “Arraes 65” para Presidente da República, que incluiria “puxar essa palavra de ordem” quando o Governador estivesse discursando no comício dos “10 anos”. Sorriu, animou-nos, gracejou. Não se comprometeu com aquela posição, tampouco a repeliu. Quando falou no comício, teve que interromper sua fala ante os brados de “Arraes 65, o povo no poder” que vinham da juventude entusiasmada com os caminhos que a esquerda tentava desbravar no Brasil.

No golpe de 1964 Arraes foi preso, no mesmo Palácio onde agora foi velado. Foi para Fernando de Noronha e depois para o exílio, na Argélia.

Clandestinidade e exílio

Tempos difíceis seguiram-se, onde a esquerda brasileira não se acomodou, na sua labuta. A clandestinidade restou, para muitos, como alternativa à prisão, ou à morte. E na clandestinidade muita coisa foi feita, muita esperança foi sustentada com dedicação, amor à causa e sacrifício, por anos a fio. Articulações se sucediam. Planos. Planos refeitos. Era a esquerda em ação. Em AP, vez por outra companheiros faziam viagens clandestinas ao exterior, de onde traziam opiniões de "Miguel A" e "Miguel B", os nomes cifrados de Arraes e Brizola. A resistência crescia dentro e fora do Brasil, com gente que se incorporava aqui e gente que saía do país. A partir de 1972, chegou ao Velho Mundo outro nordestino de esquerda, este comunista, recém-saído da prisão no Brasil, Diógenes de Arruda Câmara, amigo de Arraes. Mais à frente chegam e não conseguem voltar João Amazonas e Renato Rabelo.

A Anistia chegou em 1979, com limitações, mas como resultado de muita luta. As prisões se abrem e de lá saem companheiros da esquerda, como Aldo Arantes, Elza Monerat, eu. E chega a turma que estava no exílio, diversos, entre os quais, na seqüência, Arruda, Prestes, Amazonas, Renato Rabelo, Brizola, e muitos outros. Chamou a atenção a recepção que o povo deu a Arraes. Todo o Nordeste acorreu a Recife para rever seu filho exilado que voltava.

A esquerda dos anos 80

Em 1982 Arraes é eleito deputado federal pelo PMDB e chega à Câmara com a auréola de grande líder da esquerda. O regime militar agonizava. E ia surgindo um novo quadro nas forças de esquerda no Brasil.

O PCdoB, ao qual se somara a Ação Popular Marxista-Lenista, saía da prolongada resistência à ditadura com forças renovadas, com a legenda do Araguaia, com perspectiva histórica e com um líder respeitado, João Amazonas.

O Partido Democrático Trabalhista organizou-se por iniciativa de Leonel Brizola em 1979 em Portugal, para abrigar forças do antigo trabalhismo, já que os generais deram ao PTB outro destino.

O antigo Partido Socialista Brasileiro, que vem de 1947, buscou sua reorganização em 1985, com Antonio Houais, Jamil Haddad e Roberto Amaral, lançando um manifesto assinado por nomes como Evandro Lins e Silva, Jader Carvalho, Rubem Braga e Joel Silveira e apresentando um programa que era o de 1947, redigido pelo próprio João Mangabeira. É nesse partido que Miguel Arraes entra, em 1990, e em 1993, se torna seu presidente.

Finalmente, do movimento sindical do ABC Paulista, brotara um agrupamento com sólidas raízes no sindicalismo brasileiro, apoio nas Comunidades Eclesiais de Base da Igreja e na intelectualidade - era o Partido dos Trabalhadores, fundado em 1980 e legalizado em 1982. O seu grande líder era Lula. Outros agrupamentos na esquerda também apareciam, mas com menor expressão.

A visão de Arraes: três correntes

Durante o primeiro mandato de deputado federal de Arraes uma aproximação política maior ocorreu entre ele, o bravo deputado federal pela Bahia Francisco Pinto, seu grande amigo, e eu. Havia proximidade de residências e, sobretudo proximidade política. Planejamos uma frente parlamentar ampla, que intitulamos Articulação Progressista, da qual Arraes veio a ser o Presidente. Veio depois a campanha das Diretas Já, de 1984, com manifestações esplendorosas por todo o país, e a eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, em 1985. De tudo participou Arraes, sempre coerente, sempre com a esquerda, sempre com o povo brasileiro.

Arraes volta ao Governo de Pernambuco em 1990, ainda pelo PMDB, retorna à Câmara em 1990, já pelo PSB e em 1994é praticamente aclamado, pela terceira vez, governador de Pernambuco. Foi derrotado na eleição de 1998, mas retornou à Câmara pela eleição de 2002. Aos 88 anos morre como deputado federal e presidente do PSB.

Um pensador do tema nacional

Arraes era um pensador. O tema nacional era um de seus prediletos, “A Questão Nacional” é um texto fecundo de sua autoria. Considerava importante buscar as raízes das instituições, dos processos, dos problemas. Por mais de uma vez escutei-o falar sobre as raízes das três correntes históricas principais da esquerda brasileira, a do “comunismo” – que vem desde 1922, com a fundação do Partido Comunista do Brasil, PCB; a do “socialismo” – que se originou no Partido Socialista Brasileiro, regulamentado em 1947; e a do “trabalhismo” – que vem da fundação do antigo Partido Trabalhista Brasileiro por Getúlio Vargas, em 1945, e teve continuidade na fundação do PDT de Leonel Brizola. Via Arraes, por aí, a proximidade histórica natural dessas três correntes da esquerda tradicional brasileira.

O tino político de Arraes sempre enxergava a necessidade do homem simples, do homem do campo, do espoliado. Suas idéias administrativas, suas iniciativas para melhorar a vida do povo eram originais e eficientes, o povo delas gostava. Tornaram-se lendários seus programas como “A vaca na corda”. Antonio Callado fixou suas impressões sobre parte dessas experiências em um clássico - “Tempos de Arraes: a revolução sem violência”.

Com a morte de Miguel Arraes perde a esquerda um de seus tipos clássicos, o último dos mais conhecidos que fizeram a história do Brasil desde a década de sessenta do século passado. E que tinha a postura típica da esquerda brasileira, que honra suas raízes históricas, que tem espírito de luta, fidelidade com a causa socialista, crê no Brasil e em sua gente e comporta-se com lisura e simplicidade.

* Vice-Presidente do PCdoB.

 

Memórias de Arraes sobre o golpe de 1964, a prisão, o exílio

1964: Arraes sai preso do Palácio

Por motivo da morte de Miguel Arraes neste sábado (13), a Agência Brasil republicou em seu site trechos de uma entrevista com o dirigente socialista, por motivo dos 40 anos do golpe de 1964, no ano passado. Além de recapitular um dos momentos cruciais da trajetória de Arraes - ele foi deposto do governo de Pernambuco, preso e, como dizia, "desterrado" do país por 14 anos -, a entrevista retrata a concepção de mundo, de Brasil e de história do dirigente histórico da esquerda reformadora. Veja:

Prisão relâmpago
"Eu estava em Pernambuco, era governador e fui preso no Palácio do Governo, que estava cercado. Prenderam-me no exercício do cargo de governador e não pude fazer nada. Não restava outra coisa a fazer, as resistências já tinham caído no país todo. Fui preso na tarde de 1° de abril, esperando que houvesse alguma manifestação de reação, que não aconteceu".

Sem surpresas
"Eu sabia que o golpe iria acontecer porque estive no comício de 13 de março de 64 na Central do Brasil, no Rio de Janeiro. De lá fui para Juiz de Fora participar de uma concentração, e quase não consigo discursar, porque existiam 200 homens civis armados nas ruas. Eles eram comandados por um cidadão chamado Adão Rafael, que, acho, era deputado, sustentado pelo general Olympio Mourão. Depois fui para Belo Horizonte, conversei com Magalhães Pinto, que era governador de Minas, e segui para Brasília. No dia 17 ou 18 de março conversei com Jango e disse a ele que o golpe estava na rua. Então não fiquei surpreso".

Organizar a reação
"Retornei a Pernambuco disposto a me organizar para a reação contra o Golpe. Isso se fosse possível, se fosse o caso. Não consegui dar inicio, porque não havia mais ninguém resistindo. Ninguém resistiu e seria um suicídio e um banho de sangue em Pernambuco. Seria uma decisão isolada, solitária. Fiquei esperando essa reação até a madrugada do dia 1° de abril. Amanheci cercado pelo Exército e tive que tomar posições para evitar, que alguns loucos partissem para uma reação contra o golpe, que eles pudessem agir isoladamente, emocionalmente, o que não era aconselhável. E aguardei passivo para ser preso, para o que o destino me reservaria naquela situação".

Golpe permanente
"O golpe sempre existiu e foi mais ou menos permanente desde que Getulio Vargas reassumiu o poder. É preciso recordar que, quando ele se elegeu, em 50, em uma grande campanha - e aqui quero ressaltar que não sou getulista, nunca fui do PTB e sou uma pessoa que sempre lutou com uma certa independência no campo político -, essa história começou. A conspiração data da hora em que Getúlio se elegeu. Ele tomou posse porque as forças nacionalistas de esquerda dentro do Exército foram vitoriosas. Quando o general Newton Estilac (ministro da Guerra de Getúlio) se elegeu presidente do Clube Militar, ficou claro que a maioria da oficialidade defendia a posse de Getúlio".

Revolta com a repressão
"Quem luta politicamente não tem direito de ter mágoa, nem alegria, só pode pensar naquilo que deve fazer. Tenho revolta pelos excessos cometidos pela repressão do regime militar sobre outros companheiros, alguns que morreram, outros sofreram torturas, prisão, discriminação, perseguição. Enfim, acho que nós devemos sempre comentar para que isso também não volte a se repetir no Brasil".

Clandestinidade
"Fiquei pouco mais de um ano na prisão e fui libertado por um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal. Depois fui novamente preso e libertado pelos militares. Fui libertado no Rio de Janeiro. Era preso, me soltavam, era chamado para depor, nem incomodava mais meu advogado, que era o doutor Sobral Pinto. Ele tinha ilusões com a abertura, e eu não tinha ilusão nenhuma, mas não podia sair sem ele, sem que ele concordasse. Em determinada altura lhe disse que não dava mais: entrei na clandestinidade por um mês, mais ou menos, enquanto tentava conseguir uma embaixada. A que consegui foi a da Argélia, país onde fiquei exilado durante 14 anos".

Compromisso com a história
"Passei isso tudo, mas quero registrar que não tenho queixas a fazer, e que nem sou uma pessoa que tinha feito algo de extraordinário. Fiz menos que muitas pessoas nesse país. Fiz o que me competia e tinha que fazer".

Em defesa de Jango
"Veja, sou do Nordeste, sempre tinha feito política no Nordeste. Tinha sido deputado estadual duas vezes, fui prefeito do Recife e depois governador. Tinha muito poucos contatos políticos. Conhecia o Jango, conhecia outras pessoas aqui do Sul, mas não tinha uma relação pessoal, de convivência com as pessoas daqui. Mas me dei muito bem com Jango. Acho que ele é muito injustiçado. Ele era um homem que era o que era. Ele nunca disse que era estadista, nunca disse que iria fazer e acontecer neste país. Ele ficava naquilo que era e podia fazer. Era um homem paciente. Sabia ouvir. Dentro disso, acho que cumpriu um papel importante para o país. Naquela oportunidade, Jango, politicamente, tinha muito boas relações públicas. Isso se via perfeitamente".

Influência americana
"Todo mundo sabe que os americanos estavam presentes no Brasil. Eu era governador e tinha em Pernambuco um cônsul americano e 15 vice-cônsules, coisa que nunca aconteceu neste país. Além de assessores por todos os lados. Chegou ao ponto que mandaram para lá, no governo de John Kennedy, um embaixador extraordinário para ver a situação do estado. Aqui eles estavam presentes mais do que em outros lugares da América do Sul. Todo mundo sabe que os americanos tinham despachado uma força-tarefa para cá. Mas acho que o golpe não tinha inteiramente razões para existir, porque o próprio Jango preparou a sucessão dele com muita antecedência. Foram lançados dois candidatos para a Presidência da República, que eram Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda. Políticos confiáveis, digamos assim. Representantes da esquerda e de outros setores da sociedade queriam outras saídas do ponto de vista político, mas agiram sozinhos, isoladamente, porque também queriam mudar o país".

Comunismo não. Idéias justas
"Pernambuco não tinha nada de mais. Havia uma mobilização popular muito forte, o que é natural, e estávamos promovendo o Acordo do Campo, que nós fizemos. Queríamos romper, pelo menos, com aquilo que era socialmente insuportável. Os trabalhadores da cana ganhavam um terço do salário mínimo. Não dava para concordar com uma coisa daquelas. Tinham que ganhar pelo menos um salário mínimo, que era o que eles mereciam. Isso não tem nada de comunismo, de socialismo. Tratava-se de justiça concreta".

Semelhança com o Vietnã
"Internamente, não havia nenhuma motivação para o Golpe. Acho que há certas interpretações sobre o Golpe Militar no Brasil: uma delas é de que havia um movimento de massa muito forte no mundo inteiro. Esse movimento de massa, reivindicatório, era muito avançado no Vietnã, onde já tinham as forças de Ho Chi Min se instalando. As forças americanas pretendiam desalojá-los de lá. Esse movimento geral de massa fez com que isso aqui tenha parecido um golpe preventivo, para não se abrir uma outra frente em outro continente, e num país da dimensão do nosso. Então, esse golpe preventivo foi dado poucos meses antes do avanço americano dentro do Vietnã. Eles só se lançaram efetivamente lá, quando o golpe se consolidou aqui. Não posso afirmar que uma coisa esteja ligada a outra, mas os fatos são esses. Há quem interprete dessa forma".

Militarização do mundo
"Vê-se que a partir do golpe no Brasil houve o da Indonésia, em 65, onde morreram 500 mil pessoas fuziladas. Sucederam-se depois os golpes no Extremo Oriente e na América Latina, a ponto de, a certa altura, a América Latina estar coberta por regimes militares, um dos quais o de Pinochet, no Chile. Outro na Argentina. Este, um golpe extremamente violento. A militarização do mundo se deu então, naquela hora. Esse panorama só começou a se alterar perto dos anos 70, quando o Vietnã, os vietnamitas começaram a avançar na sua luta, a levar vantagens contra a brutal maquina de guerra que invadiu o território deles. As outras reações que apareciam em várias partes isoladamente, porque havia uma insatisfação generalizada. Houve então a decisão de desmilitarizar. Essa desmilitarização foi apontada num relatório feito por Nelson Rockfeller (prefeito de Nova Iorque), que andou por aqui a certa altura com 200 assessores, dois aviões. Esse relatório não foi muito difundido aqui. A imprensa noticiou apenas os fatos que podia publicar".

Metralhadora e televisão
"O mal trazido ao Brasil pela ditadura foi a falta de informação da população, a manipulação do ensino, aquilo que foi jogado na cabeça das pessoas. Além disso, o silêncio sobre as lutas do povo, que não eram ensinadas aos jovens. A geração que nasceu por volta do ano de 64 não entende a formação de quem se formou antes, daqueles que desde muito cedo foram ensinados conhecendo os problemas brasileiros, os problemas da nossa população. Acho que esse é o prejuízo principal, e acho que a arma principal que está sendo utilizada - disse isso há muito tempo - para substituir as metralhadoras dos militares é a câmera da televisão".

Ligas camponesas
"As Ligas Camponesas eram um movimento paralelo à sindicalização e à união que havia entre os trabalhadores rurais. Eles tinham começado esse movimento entre pequenos proprietários, foreiros, arrendatários de terra. Agora esse movimento comandado por Francisco Julião era mais visível do ponto de vista geral, inclusive porque ele era uma pessoa que tinha uma certa capacidade de transitar em muitos lugares, e fazer dessa bandeira - que é uma bandeira que todos nós concordávamos - conhecida nacionalmente. Mas, do ponto de vista do volume de gente engajada nas Ligas, não era muito expressivo. Não era não. Pegue a votação de Julião (eleito deputado federal). Ele não tinha muita votação, principalmente junto à classe média. Era uma pessoa considerada por todos nós. Fui seu colega na Assembléia Legislativa e atuei ao seu lado depois, nas questões rurais. Também dávamos apoio ao trabalho dele. Não o deixamos para trás".

Em nome dos trabalhadores
"O Acordo do Campo, o primeiro feito no país, entre donos de terra e trabalhadores, deu bastante trabalho, mas os próprios proprietários constataram que essa era a saída que tinha que haver, porque eu disse que os trabalhadores tinham conquistado o direito de sindicalização naquela época. Os sindicatos rurais estavam organizados, quando assumi o governo de Pernambuco. Foi aí que começaram essas negociações. O pessoal da cana-de-açúcar se organizou unificadamente, havia uma unidade muito grande entre eles, portanto era uma força poderosa, disposta a negociar. Então, era apenas uma questão de ajuste, porque estavam vendo que, se não negociassem, seria um desastre, porque ninguém ia botar a polícia para segurar 100 mil trabalhadores. Foi diante disso que eles (usineiros, produtores e revendedores de cana) negociaram. Fui mediador de tudo isso e esse acordo nem a ditadura conseguiu destruir. Ele ficou. Como era uma coisa autêntica, que vinha de uma realidade dura, concreta, eles não puderam mexer. Eles foram procurando cortar as beiradas do acordo, reduzir as vantagens, mas ele é referência até hoje na questão da cana-de-açúcar".

Energia
"O povo nordestino ainda carece de coisas mínimas, e nós estamos nos atrasando, distanciando muito do resto do país pela ausência de infra-estrutura, de condições de crescimento. Em 1963, eu estava no governo de Pernambuco, Celso Furtado era presidente da Sudene (Superintêndencia de Desenvolvimento do Nordeste) e lhe falei sobre a necessidade de aumentar a oferta de eletricidade no Estado com a chegada da rede da Chesf (Companhia Hidroelétrica do Vale do Rio São Francisco), que estava sendo inaugurada com atraso de meio século em relação ao futuro. Queria que a Chesf levasse energia aos povoados, às populações rurais. Foi enviado um projeto para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Foi o Celso que o viabilizou. E veio o golpe, e esse projeto foi aprovado e executado pelos governos militares de forma totalmente diferente daquela que tinha sido prevista. O que se pretendia era democratizar a energia. O que eles fizeram: colocaram energia nas grandes propriedades, e a rede elétrica passava por cima dos pequenos. Então, eram 29 mil propriedades grandes - a menor tinha 200 hectares. Minifúndios e pequenas propriedades não foram atendidos.
Quando volto ao governo, retomo aquele projeto de 1963. Ora, de 63 para 86 já fazia um bocado de tempo. Então havia uma preferência dos governos militares pelos grandes proprietários e não pela população. Devia haver preocupação com todo mundo, com os grandes, com os pequenos e com os médios. E nesses dois governos que fiz depois de voltar, eletrifiquei cerca de 80% das propriedades. Em qualquer lugar tinha energia. Coisas desse tipo são elementares. A população quando vota não está querendo saber se o candidato é do PFL ou de um partido de esquerda. Quer é infra-estrutura para viver com dignidade. É que sempre procurei demonstrar que se faz muito pouco, muito pouco mesmo em coisas que o povo já deveria ter desde o começo do século passado. Só sobrevivi politicamente no Nordeste por ser defensor dessas causas".

Fonte: Agência Brasil

 


SOLIDARIEDADE

Fidel: "Sempre lembraremos atitude valente de Arraes"

 O presidente de Cuba, Fidel Castro, enviou nota de pesar pelo falecimento do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, morto neste sábado (13). O Governo cubano também enviou uma coroa de flores. Confira a íntegra da nota.

"Com grande tristeza e consternação, recebemos a infausta notícia da morte do nosso amigo e companheiro de luta antiimperalista, Miguel Arraes de Alencar. Sua vida política o consagrou por inteiro a favor dos humildes e despossuídos, tanto do seu estimado Nordeste brasileiro como do resto do Brasil, que foi interrompida momentaneamente quando era governador do Estado de Pernambuco por conta do golpe militar de 1964. E continuou no exílio e retomou o cargo quando foi anistiado.

Seu exemplo servirá de estímulo para as gerações atuais e futuras do Braiil e América Latina. Sempre recordaremos sua atitude valente, solidária para com o nosso povo e a revolução.

A sua estimada esposa e companheira de lutas, Maria Madalena Fiúza Arraes de Alencar, a seus filhos Maurício e Pedro, aos dirigentes e militantes do Partido Socialista Brasileiro do qual Arraes era presidente, expressamos nossa solidariedade e condolências neste triste momento."

Fonte: JC Online

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