ESPECIAL
10 de novembro de 2005
por
Onze dias depois de iniciada, na localidade suburbana Clichy-sous-Bois,
contígua a Paris, a onda de violência em França estendeu-se de forma sustentada
e crescente a outras cidades francesas: Rouen, Le Havre, Nantes, Orleans,
Rennes, Saint-Etienne, Toulouse, Lille, Pau, Cannes, Avignon, Rennes, Dijon,
Marselha, Estrasburgo, entre outras. Deixou dezenas de feridos, centenas de
detidos e enorme destruição material, e já chegou à Praça da República, no
centro da capital, em cujos arredores, Corbeil-Essones, Evry, Grigny, Evreux,
Epinay-sur-Seine, Aulnay-sous-Boisse generalizaram-se os incêndios deliberados
de locais e automóveis, bem como os choques entre marginalizados e polícia. Na
noite passada, em Grigny, os efectivos policiais foram alvo de disparos
realizados com espingardas de caça, que deixaram um saldo de 10 polícias
lesionados.
Este despertar da violência no que se evidencia um extremo descontentamento
social teve origem num acontecimento trágico: dois jovens árabes de 15 e 17
anos, Bouna Traore e Zyed Benna, morreram electrocutados em Clichy-sous-Bois na
subestação eléctrica em que tentaram esconder-se quando fugiam da polícia. O
acidente detonou um ressentimento larvado durante anos entre jovens marginalizados
dos bairros pobres dos arrabaldes parisiences, nos quais sobrevivem várias
gerações de imigrantes discriminados e despojados de futuro.
O incêndio social foi alimentado pela quase inconcebível estupidez do ministro
do Interior, Nicolas Sarkozy, que nos primeiros momentos da revolta proferiu
insultos e provocações contra os jovens dos arrabaldes; pela inacção do
primeiro-ministro Dominique de Villepin, pela evidente rivalidade entre ambos e
pela tardia intervenção do presidente Jacques Chirac, que demorou 10 dias para
perceber que a actual crise devia ser tratada como um assunto de Estado.
À primeira vista pode parecer incompreensível que num país democrático,
próspero e desenvolvido, pilar da União Europeia (UE), tenha podido
verificar-se uma revolta de marginalizados de tal magnitude. Mas, se se revisar
a história da potência colonial e a situação social no país actual, torna-se um
tanto surpreendente que o protesto não haja acontecido antes. Há que recordar
que os estados da actual Europa civilizada e moderna foram, em séculos
passados, verdugos coloniais implacáveis na África, Ásia, Médio Oriente e
América, onde escreveram uma história de rapina, saque, destruição e
escravidão. No caso específico da França, o seu domínio colonial em África deixou
atrás de si circunstâncias nacionais miseráveis e de escassa visibilidade
sócio-política, o que por sua vez originou, nem bem terminaram os processos de
descolonização de meados do século passado, um fluxo migratório sustentado das
ex-colónias para a antiga metrópole.
Em território francês, os migrantes magrebianos e sub-saharianos acomodram-se,
durante décadas, a um estatuto de segunda classe e a uma discriminação que
ultrapassa as proibições formais e contradiz o lema da República
("liberdade, igualdade, fraternidade"). Os índices de desemprego,
insalubridade e abuso policial, para mencionar só três factores, são muito mais
elevados nos bairros da imigração do que nas áreas maioritariamente povoadas
por franceses de origem metropolitana.
A uns quilómetros da Cidade Luz, as condições de habitação que sofrem os
primeiros chegados de África, além dos seus filhos e netos, cidadãos franceses
por nascimento, costumam ser comparáveis às das cidades perdidas do terceiro
mundo. Se se acrescentam as atitudes cada dia mais racistas de importantes
sectores da sociedade francesa "europeia", a combinação torna-se
explosiva. Na selecção de futebol da França há sete jogadores de origem
africana, e o país sagrou-se campeão do mundo graças a um jogados de origem
argelina, Zinedine Zidane, mas não há um só francês de origem africana na
Assembleia Nacional nem no Senado, nem entre os apresentadores de televisão. Em
França, o desemprego entre os graduados universitários em geral é de 5 por
cento, mas entre os graduados de origem magrebiana o desemprego ascende a 26,5
por cento.
Com estes dados em mente, uma segunda surpresa é que nos violentos distúrbios
destes dias não participe o grosso dos habitantes dos bairros pobres da
migração. Mas, como assinalou num comunicado a organização humanitária SOS
Racisme, os actos de violência são protagonizados por uma minoria, "sempre
bem colocada diante das câmaras", enquanto a maioria "prefere fazer
valer os seus direitos com calma e dignidade". Para o sensacionalismo dos
meios informativos franceses, anota o organismo, é oportuno apresentar os
factos como "uma guerra civil" ou uma "intifada dos
subúrbios", com o que se aprofundam as fobias e os desencontros.
Os acontecimentos destes dias tornaram evidentes duas coisas: por um lado, o
governo francês carece de uma ideia clara de como enfrentar a crise, e pelo
outro o conjunto do mundo rico e desenvolvido que concebeu, gestou e impôs esta
desordem global injusta e polarizada, geradora de migrações, está minado por
conflitos em potência como o que agora sacode a França.
07/Novembro/2005
·
Mais esclarecimentos acerca da situação francesa em http://www.legrandsoir.info/
·
Um professor de história e geografia de Clichy-sous-Bois testemunha aquilo
que realmente se passou no terreno
O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/2005/11/07/edito.php
Este editorial encontra-se em http://resistir.info/
.