ESPECIAL
14 de novembro de 2005
LITERATURA
"A religião se
alimenta da morte", diz Saramago
Escritor português
fala de política e do seu
novo romance para o jornal espanhol El País
José Saramago (nascido em
Azinhaga, 1922) publica um novo romance, "As Intermitências da
Morte", segundo ele o melhor desde que recebeu o Prêmio Nobel. Nele o
escritor reflete com humor sobre a impossibilidade de ser imortal: a morte é um
grande negócio e nem sempre limpo, é difícil imaginar uma velhice extrema, e as
religiões cristãs se alimentam da morte, diz Saramago.
Aos 83 anos, José Saramago estréia uma casa e um romance. A casa fica num
bairro tranqüilo do centro de Lisboa e se chama Blimunda, como seu personagem
feminino de "Memorial do Convento". O romance se intitula "As
Intermitências da Morte" e foi editado simultaneamente (com uma primeira
tiragem de 100 mil exemplares) em português, espanhol, italiano e catalão.
O prêmio Nobel de 1998 apresentou o livro na última sexta-feira (11/11) em uma
sessão dupla
O autor de "O Ano da Morte de Ricardo Reis" mantém uma relação
difícil com Portugal, país que abandonou simbolicamente em 1993 depois que um
subsecretário de Cultura do governo de Cavaco Silva impediu que seu romance
"O Evangelho Segundo Jesus Cristo" representasse seu país em um
prêmio literário europeu.
E agora que Cavaco volta ao primeiro plano, com a pré-campanha presidencial,
Saramago redobrou seus ataques contra "o censor", com a mesma energia
com que escreveu e defende esse novo romance, "talvez o melhor desde o
Nobel", segundo afirma.
"As Intermitências da Morte" parte de uma idéia-catapulta, como todos
os romances de Saramago: em um país imaginário, de repente a morte deixa de
matar. A partir daí, o relato indaga com ironia, humor, humanismo e pessimismo
essa situação de imortalidade transitória que perturba os poderosos, ilude os
ingênuos e acaba se revelando um caos muito difícil administrar.
O livro começa com a frase "No dia seguinte ninguém morreu", e às
vezes parece uma sátira, embora poucos associem o senhor a esse gênero.
José Saramago - Não é exatamente uma sátira, embora haja sátira em
parte, ou melhor, talvez crítica, dos costumes e das instituições e das reações
das pessoas diante da morte e a falta de morte... A pergunta é: o que
aconteceria se fôssemos eternos?
E a primeira resposta do romance é que sem a morte muita gente se
arruinaria.
Saramago - A morte é um grande negócio, e nem sempre muito limpo. Embora
esse não seja o tema principal do romance, se a morte desaparecesse de repente,
se a morte deixasse de matar, muita gente entraria em pânico: funerárias,
seguradoras, residências de idosos... Isso sem falar no Estado, que não saberia
como pagar as pensões.
Parece uma piada, embora a coisa seja séria porque a velhice dura cada vez
mais.
Saramago - É sério, sim. Só podem pagar as pensões até
Mais que com ironia, com sarcasmo, o que também parece novo...
Saramago - A ironia não é nova em meus livros, e creio que de uma
maneira ou de outra, agressiva, ativa, direta ou menos, está em tudo o que
escrevo. O que é novo é o humor; há um olhar do narrador muito mais
humorístico, mais que em nenhum outro romance, pelo menos é o que dizem algumas
pessoas, que parece que deram gargalhadas com o livro.
O humor costuma cair bem para falar de coisas tão transcendentes como a
morte.
Saramago - A verdade é que não o fiz de forma deliberada. Simplesmente
saiu assim. E devo confessar que me diverti muito escrevendo sobre um tema tão
sério quanto a morte. Embora já se saiba que com a morte não se pode rir muito,
porque ela acaba rindo de nós. É melhor pensar que a morte não é uma entidade,
nem uma dama que esteja aí fora nos esperando, mas sim que está dentro de nós,
que cada um a leva dentro de si, e quando o corpo e ela entram em acordo,
acabou...
O romance também trata da impossibilidade da imortalidade.
Saramago - É que a imortalidade seria um horror; mesmo que uma pessoa
vivesse 20 anos de infância, 50 de adolescência e 80 ou 90 de maturidade, a
velhice acabaria chegando, e a partir daí começaria o drama. Alguém pode
imaginar uma velhice eterna? Melhor não imaginar, melhor pensar que morrer não
é nenhum ato heróico, mas uma coisa das mais corriqueiras.
É aí que aparece o Saramago pessimista?
Saramago - Neste caso, nada pessimista, apenas se rende às evidências.
E esse violoncelista que se enamora da morte encarnada em mulher sem saber
quem é, sente algo do que o senhor sente?
Saramago - Se olho para trás, em todos os meus romances o protagonista é
um homem só; este também, e além disso é muito tímido, não tem família... Eu
nunca vivi só e jamais gostei de colocar minhas experiências pessoais nos
romances...
Como surgiu a idéia deste?
Saramago - Eu estava em Madri, relendo Rilke, e não sei se por sugestão
direta do livro, "Malte Laurids Brigge", ou não, quando acabei de
colocá-lo de lado surgiu a idéia. Sempre acontece assim, por isso digo que
talvez este seja meu último romance, porque não escrevo qualquer coisa, é
preciso que primeiro venha essa idéia. Pensei: e se a morte não fosse capaz de
matar uma determinada pessoa? Esse foi o embrião, a trama. Não pensei no início
que a morte fizesse greve em um país inteiro, que afinal é o que ocupa a
primeira parte. Isso veio depois, ao inventar uma situação geral...
Para lembrar, entre outras coisas, que a idéia da morte contribui para que
perdure o poder da Igreja...
Saramago - Pior que isso. O problema da Igreja é que precisa da morte
para viver. Sem morte não poderia haver Igreja porque não haveria ressurreição.
As religiões cristãs se alimentam da morte. A pedra angular sobre a qual se
assenta o edifício administrativo, teológico, ideológico e repressor da Igreja
desmoronaria se a morte deixasse de existir. Por isso os bispos no romance
convocam uma campanha de oração para que a morte retorne. Parece cruel, mas sem
a morte e a ressurreição a religião não poderia continuar dizendo para nos
comportarmos bem para viver a vida eterna no além. Se a vida eterna estivesse
aqui...
Por enquanto, aqui está Cavaco Silva como candidato a presidente.
Saramago - Sim, e seu aparecimento me obrigou a desenterrar o cadáver
daquela censura que me aconteceu quando ele era primeiro-ministro. Seu governo
fez uma coisa própria de uma ditadura fascista. Por isso apoiarei Mário Soares
se houver um segundo turno. Embora meu candidato seja Jerónimo de Sousa, do meu
partido, o Bloco de Esquerda, se Cavaco chegar ao segundo turno com Soares
votarei
Fonte: El
País
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves