ESPECIAL
06 de dezembro de 2005
Vamos boicotar a repugnante
Veja!
Altamiro Borges *
Adital - Desde a posse do presidente Lula, em janeiro de
Criada em 1968, três meses antes do golpe do AI-5, no início
a revista até jogou um papel positivo na luta pela democracia. Editada na época
por Mino Carta, um dos mais respeitados jornalistas brasileiros, ela foi
censurada e sofreu apreensões
Já na fase de ascenso da luta pela redemocratização do país, a revista Veja passou a defender abertamente os princípios liberais de mercado, pregando a privatização das empresas estatais, e não vacilou em atacar o nascente movimento grevista. Ela também deu pouca cobertura à campanha das Diretas-Já, que exigia o fim da ditadura. Após o fim do regime militar, a publicação voltou as suas bandeiras contra as esquerdas. Com a débâcle da URSS e a brutal ofensiva do neoliberalismo, ela se tornou o principal porta-voz deste ideário. Assustada com a chance de vitória de Lula na sucessão presidencial de 1989, ela fez de tudo para embelezar a imagem de Collor de Mello, apresentando-o numa capa como "O caçador de Marajás" [2].
Durante o triste reinado de FHC, várias capas da revista deram apoio explícito à sua política de abertura indiscriminada das importações, de privatização das estatais, de satanização dos servidores públicos e de revisão da Constituição nos seus artigos mais avançados. O presidente tucano sempre foi tratado como um hábil estadista, até quando surgiram contra ele graves acusações de corrupção. Segundo denúncias, "FHC e Civita mantêm uma antiga amizade". O dono da Editora Abril seria freqüentador da residência do ex-presidente, um luxuoso apartamento na Rua Rio de Janeiro, no bairro paulistano de Higienópolis [3]. A Veja também reforçou as investidas autoritárias de FHC para desqualificar qualquer crítica das oposições.
Oposição raivosa
O governismo exacerbado e envolto em interesses suspeitos só mudou com a posse do presidente Lula. A revista Veja virou o mais agressivo partido da oposição raivosa. Toda semana ela destila veneno contra o governo, geralmente com estardalhaço na capa. Mesmo sem provas, ela já acusou o presidente de receber dólares na campanha eleitoral de Cuba, das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia ou de doleiros. O governo já foi ilustrado na capa com as orelhas de burro e o presidente com o mesmo símbolo de Collor de Mello, numa sub-reptícia manobra pelo impeachment. Articulistas com altos soldos, notórios por suas posições fascistóides, esbanjam arrogância desancando ministros, intelectuais e partidos de esquerda.
A campanha de desestabilização é sistemática e implacável. Para o especialista Venício Lima, do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política da Universidade de Brasília, a revista perdeu os parâmetros jornalísticos e trabalha pela derrota do governo Lula. "A Veja não é uma revista de informação. Ela editorializa todas as matérias, é uma revista opinativa". Analisando a asquerosa capa com o símbolo de Collor, ele concluiu que "a Veja está jogando numa mobilização da classe média, inclusive ao mostrar fotos de manifestações populares que ninguém viu ou que foram pontuais. Isso significa um apoio, uma conclamação à manifestação dessa classe média". Para ele, "a Veja entrou num caminho que não tem mais retorno" [4].
O intelectual Emir Sader é ainda mais duro nas críticas à revista. "Seus colunistas são o melhor exemplo da vulgaridade e da falsa cultura na imprensa brasileira. Uma lista de propagandistas do bushismo, escolhidos seletivamente, reunindo de escritores fracassados, a ex-jornalistas aposentados, a autores de auto-ajuda, a profissionais mercantis da educação, misturando e mesclando esses temas em cada uma das colunas e nos editoriais do dono da revista... O MST, o PT, a CUT e os intelectuais de esquerda são seus alvos prioritários no Brasil. Para isso tem que desqualificar o socialismo, Cuba e Venezuela, assim como tudo o que desminta o Consenso de Washington, do qual é o Diário Oficial no Brasil" [5].
Ninho Tucano
O ódio da revista Veja contra o governo Lula e as esquerdas em geral têm vários motivos. O primeiro é a sua própria origem de classe. A Editora Abril, que faz parte do restrito e fechado clube das nove famílias que dominam a mídia brasileira, defende com unhas e dentes os mesquinhos interesses da poderosa elite burguesa - nacional e estrangeira. Ela não tolera a hipótese de um dia perder os seus privilégios de classe. Teme qualquer acúmulo de forças dos setores populares da sociedade brasileira. Nunca engoliu a chegada ao Palácio do Planalto de um ex-operário, ex-sindicalista, ex-grevista. Em síntese, a revista Veja tem nojo dos trabalhadores! É, como afirma o teólogo Leonardo Boff, um problema de "cultura de classe".
Não é para menos que ela sempre teve relações estreitas com o PSDB, que é o núcleo orgânico do capital rentista, e com o PFL, que representa a velha oligarquia conservadora. Emílio Carazzai, por exemplo, que hoje exerce a função de vice-presidente de Finanças do Grupo Abril, foi presidente da Caixa Econômica Federal na gestão de FHC. Quando deixou o cargo, divulgou uma carta cheia de bajulação. "O presidente Fernando Henrique Cardoso reafirmou a confiança em meu nome. Sinto-me honrado por ter feito parte desse governo", afirmou. Pelo jeito, ele continua prestando seus serviços ao ex-chefinho! Outra tucana influente na família Civita é Claudia Costin, ministra de FHC responsável pela demissão de servidores, ex-secretária de Cultura do governo Geraldo Alckmin e atual vice-presidente da Fundação Victor Civita.
Afora os possíveis apoios de bastidores, que só uma rigorosa investigação, inclusive da Justiça Eleitoral, poderia comprovar, a Editora Abril doou, nas eleições de 2002, R$ 50,7 mil a dois candidatos do PSDB. O deputado federal Alberto Goldman, hoje um vestal da ética, recebeu R$ 34,9 mil da influente família; já o deputado Aloysio Nunes, ex-ministro de FHC e atual secretário do prefeito José Serra, foi agraciado com R$ 15,8 mil. A Editora Abril também depositou R$ 303 mil na conta da DNA Propaganda, a famosa empresa de Marcos Valério que inaugurou um ilícito esquema de financiamento de campanha eleitoral para Eduardo Azeredo, ex-presidente do PSDB, que depois foi utilizado pelo ex-tesoureiro do PT.
O deputado Dr. Rosinha (PT-PR) ainda lembra que Alberto Goldman foi relator, no governo FHC, da Lei Geral de Telecomunicações, que permitiu investimentos externos na mídia. "A Abril possuía uma dívida líquida, em 2002, de R$ 699 milhões. Em julho de 2004, fundos de investimento da Capital International Inc se associaram ao Grupo Abril, beneficiando-se da lei relatada por Goldman". Estes e outros episódios esclarecem o ódio "das opções editoriais da revista Veja, que chegou a recorrer à Justiça para ter o direito de chamar a ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, de ‘perua do mensalão’... As afinidades político-partidárias dos donos da revista talvez forneçam uma explicação mais razoável para tanta fúria" [6].
Interesses tenebrosos
Mas as ligações da revista Veja são ainda mais tenebrosas.
Hoje ela serve aos interesses de poderosas corporações dos EUA. A Capital
International, o terceiro maior gestor de fundos de investimentos desta
potência imperialista, tem dois representantes no Conselho de Administração do
Grupo Abril - o ianque Willian Parker e o nativo Guilherme Lins, que operava no
escritório da Capital Group
A Editora Abril também têm vínculos com a Cisneros Group, holding controlada por Gustavo Cisneros, um dos principais mentores do frustrado golpe midiático contra o presidente Hugo Chávez, em abril de 2002. O inimigo declarado do líder venezuelano é proprietário de um império que congrega 75 empresas no setor da mídia, espalhadas pela América do Sul, EUA, Canadá, Espanha e Portugal. Segundo Gustavo Barreto, pesquisador da UFRJ, as primeiras parcerias da Abril com Cisneros datam de 1995 em torno das transmissões via satélites. O grupo também é sócio da DirecTV, que já teve presença acionária da Abril. Desde 2000, os dois grupos se tornaram sócios na empresa resultante da fusão entre AOL e Time Warner.
Ainda segundo Gustavo Barreto, "a Editora Abril possui relações com instituições financeiras como o Banco Safra e a norte-americana JP Morgan - a mesma que calcula o chamado ‘risco-país’, índice que designa o risco que os investidores correm quando investem no Brasil. Em outras palavras, ela expressa a percepção do investidor estrangeiro sobre a capacidade deste país ‘honrar’ os seus compromissos. Estas e outras instituições financeiras de peso são os debenturistas - detentores das debêntures (títulos da dívida) - da Editora Abril e de seu principal produto jornalístico. Em suma, responsáveis pela reestruturação da editora que publica a revista com linha editorial fortemente pró-mercado e antimovimentos sociais" [7].
Estas tenebrosas relações com corporações empresariais, instituições financeiras e direitistas renomados talvez explique a enérgica resposta de Cuba quando da capa da revista Veja acusando o envio de U$ 3 milhões para a campanha de Lula. "O governo cubano responsabiliza essa manobra de propaganda aos agressivos planos do imperialismo contra Cuba e Lula", afirmou em nota oficial. O líder Fidel Castro, que costuma possuir privilegiadas fontes de informação, não se cansa de denunciar a existência de um plano dos EUA para desestabilizar os governos progressistas do continente e para inviabilizar a unidade latino-americana na resistência à Alca, à militarização da região e outros intentos imperiais.
Jornada democrática
Diante de fatos irretocáveis, não há porque deixar a
sociedade ser envenenada por esta repugnante revista. Durante o Fórum Social
Brasileiro, realizado em novembro de 2003
Mas é preciso intensificá-la ainda mais. A imprensa sindical, com seus 7 milhões de exemplares mensais, poderia cumprir importante papel nesta estratégica batalha de idéias, incluindo artigos e anúncios contra a Veja nas suas edições. As assembléias e outras iniciativas dos movimentos sociais também poderiam ser um palanque da campanha. Além disso, é plenamente cabível que todo cidadão ou entidade que se sinta prejudicado pelas matérias mentirosas da revista ingressem com processo jurídico contra a mesma. Como lembra o jornalista José Arbex Jr, autor do livro "O jornalismo canalha", o MST até ganhou em primeira instância um processo contra a Veja de maio de 2000 que trouxe na capa o título "A tática da baderna" [8]. O PT também anunciou recentemente que vai processá-la, informou o líder Arlindo Chinaglia [9].
Não dá mais para silenciar diante dos abusos da Editora Abril, que se sente acima do Estado de Direito, da democracia e da sociedade civil. A omissão é quase um atestado de culpa. O mesmo cabe para muitos jornalistas que, por necessidade material ou puxa-saquismo, renegam sua formação profissional e ética. Como afirma Renato Rovai, editor da revista Fórum, "esse jornalismo farsante e sangue-azul da Veja não atenta apenas contra os valores da democracia e da ética profissional... Ele expõe ao ridículo a imprensa enquanto instituição e o jornalismo como profissão. Os profissionais mais jovens até merecem desconto. Os mais experientes, calados, são cúmplices. Estão ajudando a desmoralizar a profissão" [10].
um país sério haveria uma legislação específica para inibir as manipulações da Veja e de outros veículos da mídia, como já ocorre em várias nações do mundo. Enquanto isto não ocorre, até por ilusão dos governantes que ainda acreditam na isenção da mídia burguesa, o desafio dos lutadores sociais e de todos os democratas é o de fortalecer a campanha "Veja que mentira". Cada assinante a menos será uma vitória parcial nesta guerra. Cada processo jurídico a mais será uma nova fustigada no Grupo Abril.
NOTAS
1- Adriana Souza Silva. "A mídia implorava pela intervenção militar". Redação AOL, 26/03/04.
2- "O caçador de Marajás". Capa da edição 1020 da revista Veja, de 23/03/1988.
3- Chico Nader. "A mídia e os bastidores da crise política". Carta O Berro.
4- Marcelo Netto Rodrigues. "Mídia fabrica clima de impeachment". Jornal Brasil de Fato, 12/08/05.
5- Emir Sader. "Por que a Veja mente, mente, mente, desesperadamente?". Carta Maior, 30/10/05.
6- Marco Aurélio Weissheimer. "Veja, os tucanos e Marcos Valério". Carta Maior, 27/07/05.
7- Gustavo Barreto. "Abril parceira do capital especulativo". Agência Novae.
8- José Arbex Jr. "Os assinantes pagam, a Veja mente". Revista Caros Amigos, 17/03/05.
9- "Deputados protestam em plenário contra reportagem da Veja". Portal Vermelho, 01/11/05.
10- Renato Rovai. "O jornalismo covarde de Veja e o silêncio profissional". Fórum, novembro/05.
* Jornalista, editor
da revista Debate Sindical