ESPECIAL
16 de janeiro de 2006
Entrevista
n Beth Carvalho
Beth Carvalho é uma das cantoras mais
executadas em toda a galáxia. Ou, pelo menos, em nosso Sistema Solar, depois
que um jipe espacial acordou em Marte ao som de um samba em sua voz, programado
por uma brasileira na Nasa. Mas, para Beth, glória mesmo foi ter sido enredo de
escola de samba. Para mim, seu maior feito foi ter revelado tantos compositores
de excelente qualidade. Ela é uma cantora de compositores. A voz do morro. E
foi assim em todas as fases de seus 40 anos de carreira, celebrados há pouco
num espetáculo no Teatro Municipal. Os compositores mais novos que participavam
regularmente dos festivais nos anos 60 passavam suas músicas para Beth cantar.
Quando houve a retomada do samba, na virada dos anos 70, foi ela quem voltou os
refletores para luminares esquecidos como Cartola e Nelson Cavaquinho e gravou
os talentos formados nas escolas de samba cariocas. Na virada para os 80, foi
Beth a porta-bandeira dos bambas de um novo samba que surgia nos pagodes de
fundo de quintal. É impressionante o carinho e o respeito que essa cantora tem
para com os compositores. Isto fica evidente nesta entrevista, onde em cada
música citada ou cantada ela frisa o nome de seus autores. Acompanhem agora
esta história de como uma garota branca de classe média, estudante de colégios
de elite, mergulhou no popular e lavou a alma do povo. Virou artista, sambista
e esquerdista. Da entrevista participam Ziraldo, Tárik de Souza, Arthur
Poerner, Luís Pimentel, Zezé Sack, Antonia Leite Barbosa e eu. (Ricky
Goodwin)
Tárik de Souza - Você nasceu mesmo na Gamboa?
Beth Carvalho - Só nasci na Gamboa porque minha mãe estava na
Pro-Matre. Meus pais moravam no Catete: Bento Lisboa 10.
Arthur Poerner - Quais os marcos que te levaram a ser uma
cantora popular e uma pessoa de esquerda?
Beth - Meu pai sempre foi um homem de esquerda. Seus ídolos
eram Prestes, Brizola, Lênin, Guevara, Fidel. Um homem de coragem, que veio do
Piauí para fazer faculdade no Rio, tornando-se Bacharel em Direito, embora
exercesse a profissão de conferente de alfãndega, porque queria cuidar das
fronteiras do Brasil. Ofereceram milhões para se corromper, mas não, estava
cuidando do patrimônio brasileiro. Ele morou sete anos em Santos, e todo fim de
semana eu ia para lá, num DC-3. Minha mãe não tinha grandes instruções mas
tinha um português perfeito. Adolescente, fomos morar em Ipanema, mas minha mãe
continuou popular, era amiga do borracheiro, do dono da venda, do empregado da
farmácia. Dela herdei a alma popular. A mãe dela era dona de uma pensão na Rua
do Rezende, uma mulher avançada, que criou duas filhas sozinha, embora em
família fosse rígida. No dia em que viu minha mãe sendo beijada por meu pai deu
um tapa na cara dela.
Ricky Goodwin - Como foi a sua infância no Catete?
Beth - Na minha infância mesmo morei em Niterói, em
Laranjeiras e na Urca. Estudei nos melhores colégios. Meus pais me davam do
melhor. No Andrews conheci algo que não existia na minha casa: o preconceito.
Era um colégio de milionários, com só um ou dois negros, e onde eu era amiga do
porteiro e do cara que vendia balas.
Ricky Goodwin - O que você ouvia de música?
Beth - Samba, desde criança! Meu ídolo foi Blecaute.
Diferente de todas as meninas da minha idade, eu tinha fascínio pelos negros.
Eu já era musical - gostava de cantar, de dançar, meio exibida, sabe - e os
negros é que tinham ritmo. Meu pai era amigo de Sílvio Caldas, Elizeth Cardoso,
Aracy de Almeida e Dorival Caymmi. Sílvio era seu companheiro de pescaria e
cantou no meu aniversário de cinco anos. Me lembro que se recusou a cantar o
“Parabéns pra Você”: “Não, essa aí é americana”! Cantou: “Parabéns pra você
parabéns / muitas felicidades/ muitos anos de vida também / e sempre a nossa
amizade”. Com minha mãe eu ia ver desfile de escola de samba, subindo num
caixote alugado para poder ver. Ninguem mais da minha classe social fazia isso!
Foi ali que escolhi a Mangueira. Eu sabia todos os samba-enredos, decorava mais
de 70 músicas de carnaval por ano! . A Rádio Nacional fez a minha cabeça. Toda
quinta-feita eu ia com minha mãe à Rádio Mayrink Veiga ver o programa “Trem da
Alegria” com o Trio Osso: Lamartine Babo, Yara Salles e Héber de Bôscoli.
Ricky - Você inclusive foi caloura de rádio, né?
Beth - Uma vez quando eu tinha sete anos e fomos ver “Trem da
Alegria” com minha tia e minha prima. Época de carnaval. Héber perguntou: “Quem
quer cantar para ganhar uma boneca”? Eu logo: (levanta a mão entusiasmada).
Minha prima cantou uma marcha do César de Alencar: “Chora palhaço / chora que
passa / Pimenta nos olhos dos outros é refresco / acho-te uma graça”. Ganhou
bonezinhode motorneiro. Eu cantei a minha ídola: “Lata dágua na cabeça / lá vai
Maria / lá vai Maria”. Eu amava Marlene! E essa música era política. Ganhei
boné. Aí veio uma menina tocar Chopin e perdi a boneca.
Poerner - Mas você começou cantando bossa-nova.
Beth - Eu cantava de tudo. Éramos de uma geração depois da
geração dos festivais, que era Chico, Nara, Gil, Edu Lobo.
Tárik - Uma terceira geração da bossa-nova, depois daquela do
Marcos Valle.
Beth - Marcos Valle fazia reunião na casa dele toda segunda e
nos íamos para lá. A bossa-nova também era um tipo de samba. João Gilberto
pegou o jeito de cantar com Ciro Monteiro, Jorge Veiga, Alberto Silva, Mário
Reis e Geraldo Pereira.
Tárik - Orlando Silva era seu grande guia. Antes de ficar
ruim, Orlando cantava pequeno.
Luís Pimentel - Mas o pessoal acha que ele ficou bom quando
começou a cantar feito trovão e virou o Cantor das Multidões.
Beth - Como quase todas as meninas de Ipanema, passei a tocar
violão por causa de João Gilberto, mas depois veio Baden, outro gênio. A
bossa-nova tinha tirado toda a negritude do samba, veio Baden e empreteceu tudo
de novo. Vinícius começou a falar de umbanda e de camdonblé. Aí veio o Teatro
Opinião e Nelson Cavaquinho e Cartola. Eu ia toda segunda-feira ao Opinião!
Tereza Aragão trouxe o samba para Zona Sul e Nara Leão, a musa da bossa-nova,
assinou embaixo. Eu ia também todo sábado à casa do Tom Jobim com o Susto, do
Quarteto 004, beber daquela fonte maravilhosa, com aqueles acordes... Em 64 meu
pai foi cassado pelo golpe, nosso nível de vida baixou, e tive que dar aula de
violão para poder ter minhas coisinhas. Sabe o que meu pai foi fazer no fim da
vida? Massagem em pessoas idosas. Menescal e Carlinhos Lyra tinham alunos
demais e mandavam para mim. Um de meus alunos de violão era meu parceiro de
danças, Eduardo Conde.
Luís Pimentel - Você disse que é de uma geração
pós-festivais, mas a sua grande revelação foi “Andança”, no Festival
Internacional da Canção.
Beth - Eu já tinha participado de outros festivais. O
primeiro foi um universitário em Porto Alegre. Toda essa geração participou:
Paulinho Tapajós, Danilo Caymmi, Artuir Verocai, Edmundo Souto, Arnoldo
Medeiros, Antonio Adolfo, Tibério Gaspar.... Eu era a cantora deles todos.
Neste festival cantei “Domingo Antigo” e “Tá na Roda”. Tudo na nossa vida era
festival, não tinha outro canal para os artistas. No Festival da Tupi cantei o
samba urbano “Meu Tamborim” e tirei terceiro lugar, na frente de Elis Regina!
Taiguara ganhou com “Modinha”. Participei do Festival da Excelsior cantando o
samba “Berenice”. E no III FIC tirei terceiro lugar com “Andança”. Naquele
momento eu já tinha gravado um disco, mas os tres autores da música eram
inéditos: Edmundo Souto, Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós. E só perdemos para
Geraldo Vandré com “Caminhando” e Tom & Chico com “Sabiá”. Eu abro mão de
qualquer coisa por minha questão política: foi uma glória perder para duas
músicas políticas como aquelas.
Tárik de Souza - Mas “Andança” virou um enorme sucesso.
Pimentel - Nos dias subsequentes ao FIC foi mais tocada do
que “Sabiá”. Só não foi mais do que “Caminhando”, mas essa logo teve que parar
de caminhar.
Beth - A Odeon então me contratou e gravei meu primeiro LP,
“Andança”, com música de Marcos Valle. Milton Nascimento me acompanhando em
“Sentinela”, samba de Carlos Elias da Portela com Elton Medeiros na caixa de
fósforo...
Tárik - Nesse disco você gravou mais a toada moderna. Quando
é que você passou totalmente para o lado do samba?
Beth - Com esse disco que está aí na sua mão (mostra o “Canto
por um Novo Dia”. ) Mas eu já tinha uma vivência no samba, né, tanto que
consegui levar esse pessoal todo para a Quinta da Boa Vista às dez horas da
manhã para fotografar a capa... (Ziraldo e Pimentel pegam a capa e brincam de
reconhecer as pessoas nas fotos)
Pimentel e Ziraldo - Nelson Cavaquinho, João Nogueira, Mário
Lago, Martinho da Vila, Paulo César Pinheiro, Edmundo Souto, Darcy da
Mangueira, Mano Décio, Carlos Elias, Giza Nogueira, Garoto da Portela...
Tárik - Arranjos e regência de César Camargo Mariano, que era
do Som Tres.
Beth - Em 69 continuei participando de festival, cantando “O
Tempo e o Vento”, de Billy Blanco. Em 70 ganhei o prêmio de melhor intérprete
com uma música de minha autoria: “Velha Porta”. Entre uma coisa e outra fui
representar o Brasil num festival na Grécia, cantando “Rumo Sul”, de Edmundo
Souto. Tirei sexto lugar e fizeram até um busto meu na Grécia!
Ziraldo - Aliás, glória maior do que essa é ter música sua
tocando em Marte!
Beth - Ó, já soube que os robozinhos viraram todos
mangueirenses! Mas aí o que fez minha cabeça mesmo para ser sambista foi o
espetáculo “Rosa de Ouro”. Vi Clementina de Jesus e entendi tudo o que essa
mulher era! No mesmo palco eu participei do “Sexta-feira é dia de samba”, com o
Trio ABC da Portela, Rildo Hora, Antonio Houaiss, olha que maluquice!
Poerner - Houaiss falava de gastronomia, dissertava sobre a
feijoada...
Beth - Naquele tempo o intelectual estava muito ligada ao
sambista. Eu ia lá para o Antonio´s, aquele menininha ouvindo a conversa de
Ziraldo, Rubem Braga, Sérgio Cabral, Carlinhos Oliveira, Tarso de Castro,
Roniquito...
Ziraldo - Todo mundo interessada em você e você namorando o
Susto!
Beth - Depois fiquei noiva de Edmundo Souto, uma presença
forte na minha vida. Foram seis anos...
Pimentel - E a paixão pela Mangueira? Porque aí veio Nelson
Cavaquinho e Cartola.
Beth - Eu era apaixonada pela Mangueira desde criança mas
naquela época não tinha acesso a escola de samba. Até que o Salgueiro abriu a
quadra do morro para a classe média.
Ziraldo - Com Fernando Pamplona.
Beth - Eu passava fim de semana na casa dos meus primos na
Tijuca para ir ao Salgueiro aos domingos. Todo domingo! Ali já conheci alguns
compositores.
Antonia Leite Barboisa - Você tinha samba no pé?
Beth - Tinha e as pessoas achavam interessantísima uma branca
sambando! Aí do lado da minha casa surgiu a Banda de Ipanema. Eu era amiga de
Célia e Celma e tinha saído na Banda de Ubá. Foi inspirada na Banda de Ubá que
Ferdy Carneiro criou a Banda de Ipanema. Tinha Albino Pinheiro, Hugo Bidet,
Leila Diniz, “Tem Banana na Banda”, a General Osório fervendo. Saí na primeira
Banda, claro, a coisa que mais amo na vida é carnaval.
Ziraldo - Fundou o bloco mais original do Brasil que é o
Concentra mas não Sai.
Beth - Esse pessoal intelectual que se reunia na casa do
Albino, do Joel Ghivelder e da Sabina Barroso recebia os compositores
sambistas. Tereza Aragão era o elo entre a intelectualidade da Zona Sul e estes
sambistas. Foi assim que conheci Pandeirinho, Darcy da Mangueira, Tijolo...
Todo sábado essa mesma turma saía do Teatro Opinião e ia para a Mangueira e eu
ia com eles. Passei a ser a Beth Carvalho da Mangueira. Convivi muito com
Cartola, Nélson Cavaquinho, Darcy, Candeira, Mano Décio, Colombo, Picolino,
Noca da Portela...
Pimentel - Beth, estou vendo que seu carinho pelos
compositores é uma coisa antiga. É bacana também como você passou por várias
gerações de compositores. No seu show de 40 anos de carreira você recebeu no
palco de Nelson Sargento a Diogo Nogueira. Você continua tendo tempo para
pesquisar novos compositores?
Beth - Veja o Vanderlei Monteiro. Conheci ele num bar em Vila
Isabel. “Vida de Compositor” é uma obra-prima. (canta) “Linda melodia, linda poesia
/ não achei defeito algum / Mas samba-enredo / só ganha um // O samba é um
pedaço de nós / Inspirado e feito com amor / Caiu / Vou consolar o parceiro /
Primeiro, vou controlar minha dor / minha dor / Essa é a vida de um
compositor.”
Ziraldo - Eu trouxe um samba meu pra te mostrar mas depois
dessa...
Beth - As escolas de samba todas do Rio adotaram essa música
como pacificadora. Enquanto decidem o enredo vencedor tocam essa música na
quadra. Hoje Vanderlei é um compositor conhecido, “Água de Chuva no Mar” se
tornou um hit. Vou lançando compositores: Zeca Pagodinho, Almir Guineto...
Gravei “Geografia Popular” do Marquinho do Oswaldo Cruz, que virou um hino.
Ziraldo - Você inventou também a sambista de asfalto. Depois
de você veio Clara Nunes e mais tarde Alcione.
Tárik - Criou todo o mercado de cantora de samba, porque a
tese era que cantora não vendia disco.
Beth - Mas em 72 quando falei na Odeon que eu ia fazer um
disco só de samba, não quiseram, e tive que ir para uma gravadora pequena, a
Tapecar. Aí gravei Cartola e Nelson Cavaquinho, que estavam esquecidos, e
fiquei estouradíssima com “As Rosas não Falam” e “Folhas Secas”. . Nelson para
mim é o maior compositor do mundo! Fiz um disco inteiro só com músicas dele.
Quando estourei as pessoas começaram a me mandar fitas e foi aí que conheci
Monarco. Gravei então os discos “Pra seu Governo”, com sambas bem políticos, e
“Mundo Melhor”, com capa de Ziraldo.
Poerner - Em 79 você lançou uma música muito importante na
luta pela redemocratização do Brasil que foi o “Samba da Virada”, de Noca da
Portela.
Beth - Foi o ano em que casei com Edson barbosa, pai da
Luana, que hoje é atriz.
Tárik - Outro momento importante de sua carreira foi quando
você foi ao Cacique de Ramos e descobriu um samba diferente. Quem te falou que
tinha um pagode lá que era legal?
Beth - Quando eu era menina era fascinada por esse bloco e
pelo Bafo da Onça, que depois frequentei e de quem cheguei a gravar um samba
por sugestão do Carlos Imperial. Em 77 tive um re-encontro com o Cacique.
Alcir, ex-capitão do Vasco, era meu amigo e frequentador de samba e me levou
lá. Era o segundo dia em que essas pessoas estavam se reunindo, uma turma
sentada numa mesa tosca, uma coisa paupérrima, uma tendinha caindo aos pedaços.
Como é até hoje. Não tinha nem banheiro de mulher. Havia um jogo de futebol,
depois ficavam ali bebendo cerveja e comendo um churrasquinho. Nessa pelada
jogavam os craques da época como Marinho, Paulo César Caju e Jairzinho. Um
bando de homem e eu! Depois é que começaram a chamar umas mulheres para ficar
mais animado.
Ricky - Quem eram essas pessoas?
Beth - Bira, Sereno, Jorge Aragão, Almir Guineto, Neoci,
Dida, todos ilustres desconhecidos. Era um Fundo de Quintal amador. Não havia
mais espaço para eles nas escolas de samba que não ligavam para compositor. Na
época em que eu ia para o Salgueiro e para a Mangueira os caras subiam no
palanque cantar sambas que tinham acabado de fazer. Agora é só samba-enredo.
Samba de quadra nunca mais. Aí quando cheguei e ouvi aquelas maravilhas... João
Nogueira e Miltinho Tristeza tinham sido da ala de compositores do bloco
Cacique de Ramos. Aquela música do João, “Chinelo Novo” é do Cacique. E
Miltinho é o compositor da música brasileira mais famosa do mundo, que não é
“Aquarela do Brasil” mas “Tristeza”. As pessoas só cantam a introdução de
“Aquarela”: (cantarola)
Tárik - Que é do Radamés Gnatalli.
Beth - “Tristeza” cantam tudo: (canta) “Tristeza / por favor
va embora / minha alma que chora...” Então cheguei e encontrei aquelas
harmonias, aquele suingue, a negritude, batido com a mão! Um som tribal, mais
África. Até “Os Botequins da Vida” eu tinha um som, com surdo pandeiro,
tamborim, os instrumentos tradicionais do samba. Já “Beth Carvalho Pé no Chão”
é outro som, com banjo, tantã e repique de mão. A partir dali é “Vou festejar”
- de Jorge Aragão, Dida e Neoci - que mudou o samba brasileiro. (canta) “Chora
/ não vou negar / chegou a hora / vais me pagar / pode chorar, pode chorar”.
Mas isso foi um ano depois. Fiquei um ano convivendo com aquela gente
assimilando o que era aquilo. Engraçado. eu não via aquilo profissionalmente,
era como um lugar de lazer. Claro, eu indo lá começou a virar um buchicho, e os
sambistas das grandes escolas, que não tinham mais espaço, passaram a
frequentar lá.
Zezé Sack - Os sambistas puristas não te questionaram?
Beth - Tem sempre uma meia dúzia de dois ou tres que é
contra, mas não viam que com isso os jovens se interessaram novamente pelo
samba. Para começar, passou a haver maior facilidade para levarem os instrumentos.
Um repique de mão é mais fácil de carregar que um surdo. Agora, quero deixar
bem claro que o banjo nesse som é o africano e não o americano. Almir inclusive
criou um banjo diferente, com braço curto e afinação de cavaquinho. Almir
Guineto tem uma musicalidade absurda, conhece todos os instrumentos de
percussão e é um puta compositor, um melodista de primeira. É o craque.
Zezé - Almir foi fazer em show em Paris e lá foi
entrevistado: “Como está a sua vida agora, você que começou como caixa de supermercado”?
“Nossa, agora estou na melhor fase da minha vida. Para mim agora c´est fini la
miserè”
Tárik - Quando aparece Zeca Pagodinho?
Beth - Bem depois, em 84. Primeiro foi Fundo de Quintal, mais
tarde Arlindo Cruz, depois Luis Carlos da Vila. Ofereci Fundo de Quintal para a
RCA e não quiseram. Negociei então um contrato com a RGE, enchendo o saco para
que ganhassem um bom percentual.
Zezé - A Beth não só grava os compositores novos, ela orienta
eles depois para organizarem sua carreira comercial.
Beth - Em 84 entrou lá um menino de chinelo de dedo,
magrinho, com um cavaquinho dentro de uma sacola das Sendas. Olha que só tinha
bamba versando, mas ele chamou a atenção. (canta) “Não pense que meu coração é
de papel / não brinque com meu interior / Camarão que dorme a onda leva / hoje
é dia da caça, amanhã do caçador.” Adoro essa coisa malandra do samba, essa
filosofia popular. “Vê se me erra” é uma expressão espetacular! Por isso é que
fiz questão de colocar Ari do Cavaco no Teatro Municipal cantando: “Se gritar
pega ladrão / não fica um, meu irmão”. Criaram uma história de que os antigos
eram muito sérios, só faziam sambas de amor, quando os caras também eram
malandros. Gravei então esse samba do camarão e Zeca cantou comigo. Não sabia
nem o que era um microfone. E era um microfone de ouro, um metal que dá um
brilho na voz.
Tárik - Ele era apontador de jogo de bicho, né.
Beth - Como Beto sem Braço, que tambem lancei.
Antonia - Eu queria que você falasse da emoção de estrear o
Sambódromo com um enredo em sua homenagem.
Beth - A maior homenagem que um artista pode receber na vida
é ser enredo de escola de samba. É o Brasil inteiro cantando um samba que fala
da tua história! (canta) “Bate outra vez / mais um samba no meu coração / Beth
outra vez/ arrebata de emoção a multidão / / Brotou no jardim da Gamboa / essa
menina flor / bailarina, dançou encantou / e assim que cantou / desabrochou por
fim / Nos festivais todo o povo aplaudiu / e sua andança o mundo então seguiu
// Onde voce for quero ser seu par / a cantar, a cantar / quero ser o samba e
te namorar / namorar enamorar // Cantou pandeiro e viola / Nelson Cavaquinho e
Cartola / o samba no pé / o povo na mão / querendo salário / pedindo feijão /
Gritou com toda força pra moçada / agora tá na hora da virada / Porque o seu
sonho mais profundo / Éo dia em que samba venha governar o mundo”. Unidos do
Cabuçu, 1984. Iba Nunes, Paulinho Tapajós, Edmundo Souto e Luís Carlos da Vila.
No ano seguinte fui enredo do Boêmios de Inhaúma.
Tárik - Sua associação com Brizola te deu algum problema?
Beth - Claro, sofri bastante boicote da mídia.
Tárik - Você diz que detesta preconceitos, e rompeu com um
dos maiores preconceitos musicais quando foi para São Paulo gravar sambas.
Beth - E esse disco ganhou Prêmio Sharp na categoria samba.
Eu ganhei Medalha Anchieta e título de Cidadã Paulistanã. São coisas
diferentes, mas ambas são sambas. Meu próximo projeto é “Beth Carvalho canta
Samba da Bahia”.
Poerner - Uma das poucas frases infelizes do Vinícius, senão
a única, foi quando disse que SP era o túmulo do samba.
Tárik - Sabem como foi a história? Johnny Alf estava tocando
numa buate em SP e todo mundo ficava conversando, desrespeitando o artista.
Vinicius então gritou: “São Paulo é o túmulo do samba”! Agora, o samba de roda
da Bahia foi promovido a Patrimônio da Humanidade. E o samba carioca?
Beth - Não sei, tombamentos engessam e o samba está em
evolução o tempo inteiro. O samba é a crônica do dia-a-dia. É atual. É
revolucionário por natureza. No momento em que ele fala “meu barraco caiu”,
acabou, disse tudo. O samba está sempre à frente. Tem um samba do Caetano onde
diz “o samba ainda nem chegou, o samba ainda vai nascer”. Essa coisa de
colocarem o samba como uma coisa velha é uma questão política de dominação pelo
colonialismo cultural. O samba ameaça porque é transformador. Essa mesa aqui
pode virar um pagode na maior facilidade. Basta um balde e uma caixa de
fósforo.
Zezé - Um copo e uma colher.
Beth - Presidente da República e gari sentam juntos e cantam
juntos. O medo disso é tanto que o samba foi coibido e deixaram o hiphop falar.
Aí não tem problema, não é a nossa cultura, pode falar à vontade. As pessoas
façam o que quiserem, mas não dá para fazer protesto com a música do opressor.
Aí está sendo conivente. Todo mundo agora anda uniformizado, de tênis,
bermudão, chapéu para trás e camisão cheio de time de futebol americano. Um
calor do cão e as pessoas de boina. O morro hoje não é o samba e era isso que
eles queriam. Não é o rock que vai nos transformar.
Tárik - Como você explica que Zeca Pagodinho tenha conseguido
vencer a porcariada do pagode mauricinho?
Beth - Eles precisam eleger alguém. Ele tem seu mérito, mas
ao mesmo tempo é conveniente ter pelo menos um fazendo sucesso. Pode reparar
que é só ele. Ele tenta colocar lá o Trio Calafrio, o escambau, mas o eleito é
ele só, entendeu? Como eu, numa época.
Tárik - Em que deu seu movimento com Lobão pela numeração dos
discos?
Beth - Os discos estão sendo numerados mas a fiscalização não
está sendo feita. Na verdade, ninguém mais vive de disco. Não sei o que vai
acontecer com esse produto. Com a pirataria, a internet e o Ipod o disco está
quase obsoleto.
Ricky - O que é que levou você, uma artista consagrada, a se
preocupar com questões como essa, e a passar para uma gravadora independente?
Beth - Sempre me preocupei com isso, desde os anos 80 e a
época da Sombrás. Olha, participei de todos os movimentos em prol da minha
categoria.
Ricky - E o direito autoral musical não se resolveu até hoje.
Beth - Segundo Chico Buarque, parece que o direito autoral dá
câncer.
Antonia - Sua turnê internacional em 2005 foi um grande
sucesso, né.
Beth - Arrebentamos na Europa e nos EUA! Foram 12 shows.
Gravei um DVD em Montreux que taí para a gente lançar, com participação do Jorge
Aragão e Zeca Pagodinho. Antes dessa viagem profissional, estive em Cuba para o
Fórum contra o Terrorismo. Sugeri ao Fidel que se fizesse um hino mundial
contra o terrorismo tipo “We are the world”, com Harry Belafonte, Bono Vox,
esses artistas ativistas, composta por Chico e Pablo Milanes.
Poerner - Beth, conta aquela história em que Fidel queria
conhecer a nova moeda brasileira.
Beth - Fomos um grupo de artistas fazer um programa de
televisão em Cuba, muitos artistas de uma novela que passava lá, e no último
dia nos reunimos com Fidel. Era o momento em que estava sendo lançado o real no
Brasil. Fidel nos perguntou: “E o real”? Falei: “É uma farsa”. Virou-se um
artista e me deu um pito: “Não admito que você fale isso em nome de todos, este
não é nosso pensamento...” Fiquei puta. Começaram a defender o real! Fidel
então falou: “Quem tem um real”? Eu tinha uma nota e dei para ele. (pega com
Tárik uma nota de um real) Fidel então... (cheira a nota) “Não tem cheiro de
nada. Que passarinho é esse aqui?” Os defensores do real, que tinham que saber,
desconheciam. Virou a nota: “Quem é essa mulher”? Os defensores do real
continuaram calados. É a figura da República, né. “Essa mulher é branca. Tem um
nariz grego. O país de vocês não é miscigenado?” (sem graça) “É...” “Então essa
nota é racista!” Aí recebi o maior troféu da minha vida! Fidel disse: “O peso
cubano não vale nada, mas quando Che Guevara era Ministro da Economia assinou
seu nome em algumas notas. Com uma nota dessas, assinada por Che, eu construí
um hospital em Cuba. Beth Carvalho, assine aqui neste real”. PÁ! Quando eu
assinei ele disse: “Agora esta nota vale”. PQP! (aplausos. Beth devolve a nota
para Tárik)
Tárik - Peraí, agora assina a minha nota para ela também
valer!
Beth - (enquanto assina) Agora, sabe o que saiu na nossa
querida imprensa? Que ele beijou o real! Na hora em que cheirou a nota alguem
tirou uma foto e disseram que era um beijo.
Zezé - Você comemorou os 40 anos de carreira no Teatro
Municipal. Como foi levar a nata do samba para a casa dos eruditos?
Beth - Me senti uma vitoriosa pelo samba. As poucas vezes em
que o samba adentrara o gramado do Municipal fora modestamente, misturado com a
música erudita. Esse foi o primeiro espetáculo no Municipal só com sambas. Há
muito tempo eu vinha tentando fazer show lá. Em 2005, para o Dia Nacional do
Samba, eu ia faze um show na Lapa com alguns convidados. Um dia, eu estava no
tráfico pensando no show e me veio uma imagem de um sambista apanhando da
polícia. Pensei em mostrar essa imagem e entrar o Quinteto Branco e Preto
cantando “Chico Palha”, de Tio Hélio e Campolino, música de 38: (canta)
“Delegado Chico Palha / sem alma e sem coração / não quer samba nem curimba /
na sua jurisdição / Ele não prendia / só batia”. Em seguida eu entraria cantando
“Tempos idos” do Cartola : (canta) “Por inspiração de geniais artistas / o
nosso samba , humilde samba / foi de conquistas em conquistas / conseguiu
penetrar no Municipal / depois de atravessar todo o universo”. A ficha caiu:
“Mas então isso tem que ser no Municipal, pô”! Faltavam dez dias para o Dia
Nacional do Samba e cismei de fazer o show no Municipal. Liguei para Helena
Severo: “Olha, sou rato de Municipal, fui bailarina clássica, sou apaixonada
por ópera, tenho um amor enorme por esse teatro que é o mais lindo do mundo.
Quero comemorar o Dia do Samba no Municipal. Prometo que não vamos quebrar
nada”. Liguei também para o Niskier. Consegui o Municipal, só não consegui
encontrar a imagem da porrada. Coloquei então um depoimento filmado do João da Baiana
falando da porrada que levava da polícia. Pus também depoimentos do Monarco e
do Sérgio Cabral. Para terem uma idéia, em oito dias montei um show com 150
pessoas no elenco. A abertura foi com o Jongo, que tem 60 pessoas. Quando
entrei e comecei a cantar, foram aparecendo 60 fotos de personalidades do
samba. A última foto era do Donga e aí entrou Vó Maria, viúca do Donga,
cantando “Pelo Telefone”. Cantei varios sambas e chamei em seguida Ary do
Cavaco, Darcy da Mangueira, Nelson Sargento e Monarco e fiz um talk-show com
eles. Teve Dona Ivone Lara, aquela deusa, e Diogo Nogueira, filho do João. O
fosso da orquestra subia com mesas de bar com os partideiros do Cacique, Zeca
Pagodinho, Almir Guineto, Dudi Nobre, Sombrinha e Bira. O Municipal virou um
pagode!
Zezé - Com conseguiram produzir tudo isso?
Beth - Amor, determinação e guerrilha! E patrocínio da
Petrobrás. Agora será lançado em DVD.
Ricky - E 2006 ?
Beth - Estou muito feliz porque o socialismo está cada vez
mais vivo na América do Sul. Chavez, Fidel, Evo Morales, Kirchner, estamos num
momento único. Só falta o Brasil ficar mais à esquerda.