ESPECIAL
18 de janeiro de 2006
Altamiro Borges
miro@vermelho.org.br
Daslu: cadê a filha do Alckmin?
Apesar da chiadeira dos ricaços e dos
políticos das elites, o processo judicial contra os donos da butique de luxo
Daslu ganhou maior agilidade nos últimos dias. No final de dezembro, a juíza
Maria Isabel do Prado, da 2a Vara de Justiça Federal de Guarulhos (SP),
finalmente recebeu os livros contábeis e fiscais da loja. Para ter acesso a
estes documentos, a juíza chegou a ameaçar de prisão a dona da butique, Eliana
Tranchesi, o seu irmão Antonio Carlos Piva e os responsáveis pela contabilidade
do estabelecimento.
Tais papéis comprovariam a denúncia do
Ministério Público Federal de que a Daslu atua em conluio com importadoras para
substituir notas fiscais fornecidas por grifes estrangeiras por notas falsas
subfaturadas. Com base nos livros fiscais e contábeis, Eliana e seu irmão devem
ser acusados de formação de quadrilha, importação irregular e falsidade
ideológica. No caso da influente proprietária, a soma de penas por estes crimes
chega a 21 anos de prisão. Segundo Jefferson Dias, procurador da República, a
Daslu agia como uma quadrilha. “Trata-se de uma organização criminosa pela
hierarquia e a divisão de tarefas que existia”.
Devido aos seus estreitos vínculos com
figurões da elite e autoridades do governo estadual, a trambiqueira de luxo
sequer tomou os cuidados que outros sonegadores costumam adotar. “A sensação de
impunidade fez com que eles se descuidassem e a situação ficou descontrolada”,
argumenta Matheus Magnani, outro procurador envolvido na apuração. Eliana
Tranchesi participava diretamente do esquema ilícito, chegando a enviar aos
fornecedores estrangeiros pedido em inglês para eles não remetessem as faturas
verdadeiras dos produtos. A proprietária ainda pode ser acusada de crime contra
a ordem tributária e evasão de divisa.
Filha do governador
Quando, em 13 de junho passado, a Polícia
Federal ativou a Operação Narciso e ocupou a Daslu com 250 agentes e 80
auditores fiscais, os ricaços, a mídia venal e vários políticos da elite
fizeram baita escândalo. A asquerosa revista Veja chegou a afirmar que a ação
da PF era uma jogada do governo Lula para abafar a crise política. O senador
Jorge Bornhausen, presidente do PFL, criticou o “revanchismo”. Já o coronel
Antônio Carlos Magalhães, assíduo freqüentador da loja, chorou ao falar ao
telefone com a contraventora detida por algumas horas. E a poderosa Federação
da Indústria de São Paulo convocou um ato de repúdio.
O líder do PSDB, deputado Alberto Goldman,
foi quem explicitou a forma de agir da burguesia. Para ele, “essa prisão pode
gerar uma crise econômica. O empresário vai dizer: para que vou investir no
Brasil se posso ser preso?”. Ou seja: na concepção tucana, só quem pode ser
preso no país é o ladrão de galinha! O empresário que sonega impostos, remete
ilegalmente dinheiro ao exterior ou promove outros crimes não pode ser tocado e
ainda conta com a ajuda de certos políticos – que depois serão recompensados
nas suas campanhas. O escândalo da Daslu explicitou que a corrupção é regra no
mundo dos negócios capitalistas.
Além disso, o caso levantou fortes suspeitas
sobre a atuação do governador Geraldo Alckmin. Quando a loja inaugurou seu
mega-complexo de luxo na capital paulista, com cerca de 20 mil metros
quadrados, ele foi a presença mais ilustre na festança milionária. Na ocasião,
a mídia destacou o fato da sua filha, Sofia Alckmin, ser uma prestigiada
“dasluzete”, responsável pelo setor de novos negócios da loja. No rastro da
Operação Narciso, porém, surgiram denúncias de que esta influente funcionária
já havia se reunido com o secretário da Fazenda de São Paulo, Eduardo Guardia.
O governo negou e a mídia preferiu o silêncio!
Mas, convocado para depor na Assembléia
Legislativa, Guardia admitiu que a filha de Alckmin estivera na sede da
secretaria junto com outros chefões da Daslu em, pelo menos, duas vezes no
primeiro semestre de 2005. As visitas ocorreram exatamente no período em que
loja solicitou autorização da Fazenda para instalar um sistema de vendas com
caixa único, algo pouco usado no país e mais vulnerável à sonegação. O
secretário negou qualquer “concessão de privilégios”, mas gaguejou ao explicar
a visita da “ilustre” filha do governador. Uma auditoria especial do Tribunal
de Contas foi instalada para averiguar o caso.
Para Renato Simões, deputado
estadual do PT, não resta dúvidas sobre os vínculos do governador com a Daslu.
“Os líderes da bancada do governo primeiro negaram a presença da filha do
Alckmin na Fazenda. O secretário, por sua vez, confirmou a ida. Isso significa
que houve uma tentativa de usar o nome da filha do governador para agilizar a
tramitação do processo do caixa único”. A tucanagem paulista, que hoje tenta
posar de vestal da ética e adora ostentar luxo nesta butique das trambicagens,
deve uma explicação à sociedade. A mídia venal, que evita tratar do assunto com
o destaque que ele merece, também!
Altamiro Borges, (Miro) é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical. Autor, junto com Marcio Pochmann, do livro "Era FHC - A regressão do trabalho" (Editora Anita Garibaldi); e organizador do livro “A reforma sindical e trabalhista no governo Lula” (Editora Anita Garibaldi, 2004).