ESPECIAL
19 de janeiro de 2006
MARCO AURÉLIO WEISSHEIMER
Entre a Daslu e o Opus Dei
Os caminhos adotados por lideranças do PSDB parecem flertar perigosamente com um fundamentalismo de direita exótico que vai da Daslu a Opus Dei, misturando vestidos da Gucci de 11 mil reais, instrumentos para chicotear as nádegas e rampas anti-mendigo.
Uma pequena nota intitulada “Cruz-credo”,
publicada no “Painel” da Folha de São Paulo (17/01/2006), coloca
gasolina na fogueira que começa a arder no ninho tucano. “Tucanos viram com
apreensão a ligação de Alckmin à prelazia católica ultra-conservadora Opus Dei,
feita por revista semanal. Acham que, com sinal trocado, pode causas estragos
como a fuga de FHC à questão sobre seu ateísmo em debate de
E essas facetas são reveladoras do modo de pensar e agir dos dois
principais postulantes tucanos à candidatura presidencial. O governador Geraldo
Alckmin, maldosamente apelidado por seus adversários de “picolé de chuchu”,
oscila entre o elogio do mundo do consumo, dos negócios e das celebridades e
pretensões místicas que encontram no Opus Dei um terreno fértil. Vejamos, em
primeiro lugar, o terreno mundano. Em junho de 2005, Alckmin desfez o laço da
fita de inauguração da Daslu, apontada então como o maior “templo do consumo”
do país. Em uma crônica memorável, Mônica Bérgamo, da Folha de São Paulo,
descreveu assim o entusiasmo do governador paulista com a nova loja: “E soam os
violinos da Daslu Orchestra, formada por 50 músicos. São 12 horas de sábado.
Alckmin, que chegou ao prédio de helicóptero, desfaz a fita. A Daslu é o traço
de união entre o bom gosto e muitas oportunidades de trabalho, diz. Só para a família
de Alckmin são duas: trabalham lá a filha e a cunhada dele, Vera”. Apenas
alguns meses depois da inauguração, o bom gosto e as oportunidades de trabalho
acabaram atingidos por denúncias de contrabando e sonegação.
Anti-comunismo e condenação da modernidade
No terreno espiritual, a reportagem de Época, trouxe detalhes sobre o
envolvimento de Alckmin com o Opus Dei, criado em 1928 pelo espanhol Josemaría
Escrivá de Balaguer, canonizado pelo papa João Paulo II em 2002. A canonização
deu-se em tempo recorde para os padrões da igreja, apenas 27 anos depois de sua
morte. Foi um reconhecimento pelos serviços prestados pela ordem ao papado de
João Paulo II, particularmente em sua cruzada contra o regime comunista na
Polônia e, de um modo mais amplo, contra religiosos e teólogos progressistas
ligados à Teologia da Libertação. Segundo o teólogo Juan José Tamayo-Acosta,
autor de "Fundamentalismos y Diálogo Entre Religiones", durante seus
quase 27 anos de pontificado, João Paulo II pôs em prática a concepção de Igreja
própria do Opus Dei: cruzada anticomunista lançada no pontificado de Paulo 6°;
condenação da modernidade, na linha de Pio 9° e Pio 10°, por considerá-la
inimiga do cristianismo: restauração da cristandade por meio de uma “nova
evangelização”.
Segundo a matéria assinada pelos jornalistas Eliane Brum e Ricardo
Mendonça, nos últimos anos Alckmin vem recebendo formação cristã do Opus Dei em
encontros noturnos no Palácio dos Bandeirantes. “Elegeu Caminho, o guia escrito
pelo fundador Josemaría Escrivá, como seu livro de cabeceira. ‘Acostuma-te a
dizer que não’ é um dos ensinamentos que mais aprecia, conforme contou em
entrevista à imprensa”, relatam os jornalistas. Um dos professores do
governador seria o jornalista Carlos Alberto Di Franco, importante numerário da
ordem. Os numerários são membros celibatários que vivem em centros do Opus Dei
e cumprem um rígido programa diário de rezas e rituais. Além de dar “formação
cristã” a Alckmin, Di Franco é representante no Brasil da Escola de Comunicação
da Universidade de Navarra (Espanha) e diretor do Master em Jornalismo, um
programa de “capacitação de editores” que já formou mais de 200 cargos de
chefia dos principais jornais do país. Ele é um dos executores da política do
Opus Dei para a mídia no Brasil e na América Latina.
As palestras do Morumbi
Os encontros com Alckmin no Palácio Bandeirantes receberam o nome de “Palestra
do Morumbi” e reúnem um pequeno grupo de empresários e profissionais do
Direito. Ainda segundo a matéria de Época, entre outros participam
dessas conversas João Guilherme Ometo, vice-presidente da Federação das
Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Benjamin Funari Neto, ex-presidente
da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica, e Márcio Ribeiro,
ligado à indústria têxtil. Segundo Di Franco, nessas reuniões são tratados
“temas relacionados a práticas ou virtudes cristãs”. A revista Época já
solicitou repetidas vezes uma entrevista com Alckmin para falar do assunto, mas
até agora não obteve resposta. O silêncio e a ausência de transparência são
marcas características do trabalho religioso e político do Opus Dei. Enquanto
prelazia, uma figura jurídica do Direito Canônico, a organização é totalmente
independente de bispos e dioceses, só obedecendo ao seu prelado, cargo que hoje
é ocupado por dom Javier Echevarría. Este, por sua vez, só presta contas ao
papa.
Não deixa de ser surpreendente que uma das principais lideranças
nacionais do PSDB e aspirante à presidência da República tome o Opus Dei como
uma referência para sua formação religiosa. Ao menos no papel, o PSDB nasceu
como um partido de centro-esquerda que pretendia desenvolver um projeto
social-democrata para o país. Mas essa surpresa é apenas parcial. A hegemonia
do neoliberalismo nas últimas décadas teve a capacidade de transmutar programas
e agendas e hoje a lógica da mercadoria, que tem na Daslu um de seus símbolos
mais bizarros, é o verdadeiro programa do partido (aliás, da imensa maioria dos
partidos brasileiros, chegando a contaminar inclusive o principal partido de
esquerda do país, o PT). Para além das práticas bizarras de mortificação
pessoal (como o uso de instrumentos para chicotear as nádegas nuas uma vez por
semana), o silêncio, a falta de transparência, a preocupação em influenciar a
mídia e o estabelecimento de estreitas relações com lideranças políticas e
empresariais mantém uma sintonia fina com a lógica que rege o mundo hoje.
Não tem chicotinho da Louis Vuitton?
Outro traço comum entre o Opus Dei e essa lógica é o desprezo pela imensa
maioria dos mortais. Conforme relata a matéria de Época, para os membros
da ordem “parte significativa dos católicos não passa de católicos de censo,
que servem para expandir as estatísticas, mas seguem apenas as crenças
pessoais”. No livro de cabeceira de Alckmin, o fundador do Opus Dei manifesta
total desprezo a essas pessoas: “Que conversas! Que baixeza e que...nojo! – e
tens de conviver com eles, no escritório, na universidade, no consultório...no
mundo”. Cena interessante para uma peça de realismo fantástico: Alckmin convida
seus amigos do Opus Dei para uma visita a Daslu. Param diante de uma loja e um
dos convidados pergunta: - “não tem chicotinho da Louis Vuitton?”. A frase do
espanhol fundador da ordem já foi repetida diversas vezes e com diferentes
inclinações no universo Daslu, tendo como alvo do desprezo o “populacho”, todos
aqueles que não estão a altura de pisar aquele “solo sagrado”.
Não consta – e seria ainda mais surpreendente – que lideranças
tucanas como José Serra e Fernando Henrique Cardoso mantenham vínculos com o
Opus Dei. Mas o silêncio, a falta de transparência, a influência na mídia e o
desprezo por aqueles que não são “iniciados” e “bem nascidos” em seu mundo
aparecem em propostas como a instalação de rampas anti-mendigos em São Paulo ou
em declarações de amizade a Henry Kissinger. A se confirmar as digitais de
Serra na exploração das matérias que explicitam as relações de Alckmin com o
Opus Dei, saberemos, na verdade, que o prefeito de São Paulo dificilmente
poderia participar da organização ultra-conservadora. Em um texto intitulado “O
otimismo cristão”, Josemaría Escrivá diz que a tarefa do cristão é “afogar o
mal em abundância de bem”. Os desafetos de Serra garantem que ele adota essa
máxima, só que em sentido contrário, produzindo abundância de mal para atingir
seus objetivos.
Para finalizar, uma reflexão do historiador e crítico social
Russell Jacoby para tentar entender essa mistura exótica de social-democracia,
Daslu e Opus Dei. Em seu livro “O fim da utopia” (Record), Jacoby escreveu: “A
vitalidade do liberalismo encontra-se em seu flanco esquerdo, que funciona como
seu crítico e cobrador. Sempre que a esquerda renuncia a um sonho, o
liberalismo perde chão, torna-se flácido, instável”. E aponta uma ironia
fundamental: “a derrota do radicalismo priva o liberalismo de sua vitalidade”.
O que dizer da aproximação de uma das principais lideranças políticas do PSDB
com uma organização que acredita que chicotear as nádegas nuas uma vez por
semana é uma condição para ingressar no reino de Deus? O que dizer da
enfurecida reação tucana às investigações da Polícia Federal sobre as práticas
da Daslu, para não falar dos discursos deslumbrados durante a inauguração do
templo de consumo de luxo ao lado de uma favela? Se é verdade que o PT
enredou-se em caminhos que colocaram em risco a sobrevivência da esquerda no
Brasil, os caminhos adotados pelo PSDB flertam perigosamente com um
fundamentalismo de direita exótico que vai da Daslu a Opus Dei, misturando
vestidos da Gucci de 11 mil reais (o mais simples), instrumentos para chicotear
as nádegas e rampas anti-mendigo.
Marco Aurélio Weissheimer é jornalista da Agência Carta Maior (correio
eletrônico: gamarra@hotmail.com)