ESPECIAL
19 de janeiro de 2006
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DOSSIÊ WAL-MART / O POPULISMO DE MERCADO Multinacional-pesadeloComo uma pequena empresa de Arkansas transformou-se na maior corporação do planeta, ao rebaixar salários, reprimir sindicatos, chantagear governos e destruir pequenas empresas. Por que a tentação do "preço baixo" pode ser a porta de entrada para a contra-utopia neoliberal Serge Halimi |
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"Dos farrafos à fortuna": esta definição ritual do "sonho americano" de mobilidade social deve expor permanentemente seu estoque de belas histórias para fomentar a ilusão em todos. John D. Rockefeller, pequeno contador em Cleveland, tornou-se em 31 anos o mais poderoso dono do petróleo do mundo. Steve Jobs abandonou a universidade antes de se formar para fundar uma pequena empresa em sua garagem, a Apple, que tornou o jovem californiano bilionário antes dos trinta anos de idade. O mito é o mesmo em torno da Wal-Mart, mas mais forte. No início, uma pequena loja em Arkansas, um dos estados mais pobres do país. Hoje, uma cifra de negócios que gira em torno de 310 bilhões de dólares (2005), uma família da qual quatro filhos estão entre as dez pessoas mais ricas do planeta, uma cadeia de hipermercados que se tornou ao mesmo tempo a maior empresa do mundo - ultrapassou a ExxonMobil em 2003 - e o principal empregador privado. As vendas da Wal-Mart representam 1 CD em cada 5 comprados nos Estados Unidos, 1 tubo de pasta de dentes em cada 4, 1 berço para bebê em cada 3. E de maneira mais significativa, 2,5% do PIB norte-americano1! Mais rica e mais influente que cento e cinqüenta países, a empresa deve às regras estabelecidas por estes o poder que exerce hoje. O modelo Wal-Mart Com esta potência, não há por que se espantar que a maior parte das transformações (econômicas, sociais, políticas) do planeta tenha encontrado seu reforço - às vezes também sua origem, sua correia de transmissão, seu acelerador - em Bentonville, em Arkansas, sede da empresa. Combate contra os sindicatos, deslocamentos de parte da produção para o exterior, utilização de mão-de-obra superexplorada que a desregulamentação do trabalho e os acordos de livre comércio tornam cada ano mais abundante: é o modelo Wal-Mart. Pressões sobre os fornecedores para obrigá-los a reduzir o máximo possível seus preços, comprimindo os salários (ou estabelecer-se no exterior); indefinição das funções para favorecer o encadeamento das tarefas e assim perseguir o menor tempo morto, a menor pausa: é o modelo Wal-Mart. Construção de estabelecimentos horríveis (as "caixas de sapatos") entulhados de mercadorias pelo exército de 7.100 caminhões gigantes da empresa, rodando e poluindo 24 horas por dia, a fim de encher, na hora certa, os porta-malas de milhões de carros enfileirados nos enormes estacionamentos de quase todas as 5 mil "caixas de sapatos" que a multinacional dirige no mundo: é o modelo Wal-Mart. |
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Depois, quando os sindicatos contra-atacam, quando os ecologistas se manifestam, quando enfim os clientes avaliam o que os "preços mais baixos" escondem, quando artistas se esquecem por um momento de se vender para participar do movimento popular, quando cidadãos barram a instalação de novos cubos de cimento em seus territórios, é ainda a Wal-Mart que, desta vez, recruta velhos "comunicadores" da Casa Branca, democratas ou republicanos, e os encarrega de limpar a imagem da empresa, saturando os meios de comunicação2 . Eles dizem: A Wal-Mart tornou-se "ética"; procura apenas criar empregos - sem dúvida, pagos de maneira medíocre, mas antes pouco do que nada, e os clientes gostam tanto dos preços baixos... E acrescentam que a busca obstinada de lucro permitiu melhorar a produtividade nacional. E que, doravante, a empresa defenderá o meio ambiente como socorreu as vítimas do furacão Katrina. Exploração, comunicação: mais um modelo... Na realidade, como se surpreender efetivamente com isso? Não se torna a maior empresa do mundo por acaso, simplesmente porque, 40 anos antes, o fundador Sam Walton (que morreu em abril de 1992, poucos dias depois de ter recebido uma das mais altas condecorações norte-americanas das mãos do ex-presidente George H. Bush) teve a inspiração de vender melancias na calçada da loja e de, ao mesmo tempo, oferecer às crianças de seus clientes passeios em cavalinhos no estacionamento3. A primeira loja Wal-Mart foi aberta em 1962, em Rogers, no Arkansas, em uma zona rural e abandonada. Nove anos depois, a empresa havia ampliado sua esfera de influência, estabelecendo-se em cinco estados. As primeiras lojas que abriu, de fraca densidade, foram ignoradas pelos grandes distribuidores: a Wal-Mart estabeleceu solidamente seu monopólio ali, antes de estendê-lo para outros lugares. Ela privilegia a periferia dos centros urbanos para desfrutar ao mesmo tempo da clientela das cidades e dos preços mais baixos dos terrenos. Antecipando em 1991 o acordo de livre comércio norte-americano (Nafta, na sigla inglesa) que o presidente William Clinton, ex-governador do Arkansas, ratificou dois anos depois4, o Pequeno Polegar de Bentonville se internacionalizou e desembarcou no México. No Canadá em 1994. Em seguida no Brasil e na Argentina (1995), na China (1996), na Alemanha (1998), no Reino Unido (1999). Em 2001, as receitas da Wal-Mart ultrapassaram o PIB da maior parte dos países, entre eles a Suécia. Carrefour, a segunda empresa do setor (72 bilhões de euros em 2004), que a Wal-Mart pensou comprar em 2004, é mais presente internacionalmente. Mas a empresa fundada por Sam Walton se orgulha de um trunfo soberano: os 100 milhões de norte-americanos que procuram toda semana os "everyday low prices" (preços baixos diariamente) que ela lhes propõe. |
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As coisas são simples assim, para 1,3 milhão de "associados" da Wal-Mart nos Estados Unidos: não há sindicatos |
O preço dos preços baixos Mais baixos, eles são. Em média, 14%5 . Mas à custa de que? - é a grande questão. A resposta difere de acordo com o que preocupa fundamentalmente o cliente à espreita dos melhores negócios ou, sobretudo, os assalariados de milhares de fornecedores de uma empresa capaz de obrigar cada um a manter - e reduzir - seus custos. Para que o cliente da Wal-Mart fique satisfeito, o trabalhador deve sofrer... Para que os preços da Wal-Mart e de seus terceirizados sejam sempre os mais baixos, é preciso também que as condições sociais se degradem à sua volta. E, conseqüentemente, é preferível que os sindicatos não existam. Ou que os produtos venham da China. A esquizofrenia do cliente que economiza com tamanha obstinação, que acaba contribuindo para empobrecer o produtor que ele também é, pode parecer teórica e distante. No nível de poder que a Wal-Mart exerce (8,5% das vendas a varejo dos Estados Unidos, se não considerarmos a indústria automobilística), a contradição torna-se rapidamente real e imediata. A empresa de Bentoville se vangloria dos "2.329 dólares por ano" que ela "permite que as famílias que trabalham economizem"; afirma ter aumentado 401 dólares do poder de compra de cada estadunidense em 2004 e, no mesmo ano, ter permitido a criação, direta ou indireta, de 210 mil empregos (este cálculo omite que o dinheiro economizado por seus clientes afetou outros consumos e, portanto, deprimiu a atividade em outros lugares). Os adversários da multinacional têm em mente indicadores menos atraentes. Os preços baixos não caem do céu. Eles se explicam em parte pela redução de 2,5% a 4,8% da renda média dos assalariados em cada um dos territórios dos Estados Unidos onde a multinacional foi instalada. A empresa reduz a remuneração nos locais em que se desenvolve. Cria as condições dos "everyday low prices". E, ao faze-lo, multiplica o número de clientes que logo não terão outra possibilidade senão a de ter de economizar em suas prateleiras. Na verdade, nessa luta desigual entre o jarro de ferro da distribuição e os jarros de barro da terceirização, dos empregados da multinacional, dos supermercados rivais, o "jogo do mercado" provoca um triplo efeito de deflação salarial. Em primeiro lugar, devido à dominação de uma empresa pouco pródiga em relação a seus "associados" (termo usado correntemente). Em seguida, devido à destruição da maior parte de seus concorrentes ou da exigência, que lhes é feita para sobreviverem, de se alinharem à sua mais baixa oferta social. Finalmente e sobretudo, devido às ordens imperativas que a Wal-Mart exerce sobre seus fornecedores - inclusive países - determinando efetivamente os preços (por exemplo, em 2002, ela comprou 14% dos 1,9 bilhões de dólares de produtos têxteis exportados para os Estados Unidos por Bangladesh6). |
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Quando a Wal-Mart chega, as pequenas lojas comerciais fecham. O estado de Iowa perdeu metade de suas mercearias, 45% de suas lojas de ferragem e 70% de suas confecções masculinas |
Salários baixos e repressão Ao longo de suas peregrinações, a empresa de Bentonville jamais renunciou a duas características de sua origem: o paternalismo e a aversão aos sindicatos. No sul dos Estados Unidos, os estados mais pobres - particularmente o Arkansas no tempo em que Clinton era seu jovem governador - regularmente vangloriaram-se da mediocridade das remunerações locais para atrair investimentos das empresas. As coisas são simples assim, para os 1,3 milhões de "associados" da Wal-Mart nos Estados Unidos: não há sindicatos. Mona Williams, porta-voz da empresa, explicou: "Nossa filosofia é que somente associados infelizes gostariam de aderir a um sindicato. Ora, a Wal-Mart faz tudo o que está em seu poder para lhes oferecer o que quiserem e o que precisarem." Com a condição, está implícito, de que não "precisem" muito: "Na verdade, é realista pagar 15 ou 17 dólares por hora para encher prateleiras?7", pergunta Williams. O presidente da empresa, Lee Scott, não enche prateleiras. Por isso, ganhou 17,5 milhões de dólares em 2004. Para melhor se preservar de sindicatos, o gerente de cada loja dispõe de uma "caixa de ferramentas". A partir do primeiro sinal de descontentamento organizado, ele liga para um número de telefone vermelho e um alto funcionário de Bentonville é enviado por avião particular. Vários dias de pedagogia se seguem, infligidos aos "associados" para purgá-los das más tentações (ler, nesta edição, o testemunho de Barbara Ehrenreich). No entanto, em 2000, nada disso foi feito: a seção de corte de um açougue texano da Wal-Mart aderiu a uma organização operária. A empresa suprimiu esse serviço e demitiu os "rebeldes". É ilegal, mas o processo, que jamais leva a grande coisa (a desregulamentação permitiu) é interminável. No ano passado, os "associados" de uma loja em Quebec também quiseram ser representados por um sindicato. A Wal-Mart fechou a loja e explicou: "Esta loja não seria viável. Avaliamos que o sindicato queria alterar totalmente nosso sistema de ação habitual8 ". É verdade. Para ter êxito, o modelo Wal-Mart precisa pagar seus "associados" de 20% a 30% abaixo de seus concorrentes do setor - e, além disso, ser muito menos generoso que eles, quando se trata de determinar os seguros sociais (doença, aposentadoria etc.) com os quais os empregados podem contar. Como costuma acontecer entre os patrões liberais, o Estado ou a caridade servem de socorro. Depois que um relatório do Congresso avaliou que cada assalariado da Wal-Mart custava 2.103 dólares por ano à coletividade, sob a forma de complementos a diversas formas de assistência (saúde, crianças, habitação), um estudo interno da empresa admitiu: "Nossa cobertura social custa caro para as famílias de baixa renda, e a Wal-Mart tem um número considerável de associados e seus filhos nos registros da ajuda pública". Menos de 45% dos empregados podem adquirir a assistência médica que lhes propõe a empresa; 46% dos filhos dos "associados", sem proteção completa, têm cobertura do programa federal destinado aos indigentes (Medicaid). Lucros privados (10 bilhões de dólares em 2004), déficits públicos. Exagerando um pouco, Jesse Jackson, candidato democrata à Casa Branca em 1984 e em 1988, recentemente comparou as prateleiras da multinacional com as "plantations"*, lembrando as condições de trabalho dos campos de algodão do sul dos Estados Unidos. Mas, desta vez, o sul norte-americano está prestes a ganhar a guerra. A dos salários. Em 2002, a Wal-Mart previu atacar o mercado californiano e instalar na região de Los Angeles uns quarenta de seus "Supercenters", onde se pode encontrar tudo, de produtos alimentícios a acessórios para automóveis. Qual a reação dos concorrentes ameaçados (Safeway, Albertson)? Mais uma vez, exigiram de seus empregados - representados por um sindicato - redução das remunerações e das garantias sociais. De um lado, 13 dólares por hora e uma boa cobertura médica; por outro (Wal-Mart), 8,50 dólares e uma assistência mínima. O combate era desigual. Em outubro de 2003, os 70 mil empregados das cadeias instaladas na Califórnia se negaram a conceder o que lhes era exigido e entraram em greve, que durou cinco meses. Fechamento temporário e recrutamento de substitutos: 25 anos de desregulamentação do direito do trabalho reforçam a reação patronal. O sindicato cedeu. |
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Como se fosse uma Gosplan privada, o maior varejista do mundo pode determinar os preços de seus fornecedores, os salários que pagam, seus prazos de entrega |
O populismo de mercado Quando a Wal-Mart chega, as pequenas lojas comerciais fecham. Depois que a empresa se instalou em Iowa, em meados dos anos 1980, o estado perdeu metade de suas mercearias, 45% de suas lojas de ferragem e 70% de suas confecções masculinas. Usando o repertório habitual do "populismo de mercado", a empresa retruca que apenas defende os consumidores sem muito dinheiro, que legitimamente reivindicam "os preços mais baixos" às gordas corporações de produtores ou de ricos varejistas com remunerações indefensáveis. A multinacional amiga do presidente Bush orgulha-se de ser "eleita" diariamente pelos dólares de seus clientes enfileirados pacientemente diante das máquinas registradoras de suas lojas9. Para Lee Scott, todo o resto seria apenas uma visão "utópica" e pastoral destinada a privilegiados enquanto os subalternos "não poderiam alcançar uma vida agradável, simplesmente porque outros paralisaram uma imagem particular do que o mundo deveria ser em vez de se preocuparem primeiro com o método mais eficiente para servir o consumidor10". E Scott recorre a ameaça velada: se uma localidade recusa a Wal-Mart, sua vizinha a acolherá. A rebelde sofrerá, então, quase todos os inconvenientes da submissa (destruição do comércio de proximidade**, redução dos salários) sem desfrutar de nenhuma de suas vantagens (empregos, renda do imposto fundiário). A mesma liberdade encarcerada para os terceirizados. Como se fosse uma Gosplan privada***, o maior varejista do mundo pode determinar os preços de seus fornecedores, os salários que pagam, seus prazos de entrega. Cabe a estes reduzir custos, empregar clandestinos, ou se abastecer na China. Se acontecer um "acidente", a Wal-Mart poderá sempre reivindicar que não é diretamente um problema seu, que obviamente está indignada ao saber o que se passou... Mas que multinacional se comporta de outra maneira? Sanofi Aventis, por exemplo, terceiriza nos Estados Unidos seu serviço de lavanderia, contratando uma empresa que paga mal seus assalariados, não lhes oferece nenhuma assistência médica e combate seu direito sindical. Wal-Mart vai um pouco mais longe que a maior parte das outras: "Segundo o jornal mexicano La Jornada, alguns fornecedores são obrigados a deixar o poderoso que dita as ordens examinar suas contas para acabar com os 'custos supérfluos'11." Na verdade, a Wal-Mart é apenas o
sintoma de um mal que avança. Cada vez que o direito sindical é atacado, que
os auxílios aos assalariados são cortados, que um acordo de livre comércio
aumenta a insegurança social, que as políticas públicas se tornam a sombra
projetada das alternativas das multinacionais, que o individualismo do
consumidor suplanta a solidariedade dos produtores, a Wal-Mart avança... |
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1 - The Wall Street Journal, 3 de dezembro de 2005. |
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DOSSIË WAL-MART / COSTUREIRINHAS DO SUL O preço dos preços baixosChina, Uganda, Nicarágua, Suazilândia...: para abarrotar suas prateleiras de produtos baratos, a Wal-Mart espalha pelo mundo o trabalho sub-humano, os salários de fome e a repressão sindical Jean-Christophe Servant* |
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Jane Doe II, que utiliza esse pseudônimo para "proteger a si e a sua família de qualquer preconceito ou represália", trabalha desde setembro de 2003, na máquina de costura de uma confecção de Shenzen, no sul da China. Como 4.800 outras empresas do país, aquela onde trabalha opera para uma das marcas comercializadas pela gigante do comércio de varejo. Para fornecer para a Wal-Mart, Jane Doe II - uma das 130 mil empregadas chinesas terceirizadas pela firma norte-americana, trabalha até 20 horas por dia sem receber horas extras. A 16,5 centavos de yuan por hora (0,13 euros), Jane Doe II não recebe nem o salário mínimo legal (31 centavos de yuan, ou 0,25 euros) estabelecido pelas leis trabalhistas de seu país. A empresa não fornece equipamentos de proteção necessários, a
operária sofre de problemas respiratórios e dermatológicos por causa da
poeira do algodão e da lã à qual está exposta. Como espalhar precariedade Desde 2001, a empresa estadunidense acompanhou, se é que não provocou, a migração de seus terceirizados para novas regiões econômicas chinesas, em nome de uma lógica que pode ser resumida pela revista Fast Company: "Wal-Mart tem o poder de reduzir o máximo as margens de lucro dos seus fornecedores. Para sobreviver a essa política,os fabricantes de tudo que se pode vender, desde sutiá até as bicicletas, passando pelas roupas jeans, despediram seus empregados e fecharam suas fábricas norte-americanas para terceirizar do outro lado do mundo"2. Mais da metade das importações de produtos não comestíveis provêm hoje da China, onde a multinacional tem uma centena de supermercados e sua principal central de compras no mundo. |
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Ao comprar 15 bilhões de dólares de mercadorias chinesas - ou seja 11% das trocas comerciais sino-estadunidenses - a Wal-Mart tornou-se o maior importador mundial de produtos fabricados na "oficina do mundo". Ao exigir prazo rígido e baixo custo de fabricação, acrescenta Fast Company, ela "destrói os frágeis avanços sociais chineses, com golpes de muitas horas extras obrigatórias e liberdade absoluta para despedir seus empregados que ousem questionar as condições de trabalho". Que a Wal-Mart seja acusada de tais práticas não é inédito. Apenas em 2002, ano em que importou 291 mil containeres de bens de consumo, a empresa foi objeto de 6 mil ações na justiça por suas práticas sociais. Porém, o processo aberto pela IRLF caracteriza-se por seu aspecto universal3. Ao lado de Jane Doe II de Shenzen, encontram-se outras vítimas anônimas de uma política comercial visando "baixar os preços a qualquer preço". Elas trabalham em Mastapha (Suazilândia), Sebaco (Nicarágua), Dhaka (Bangladesh). A maioria é de mulheres cuja imagem como assalariadas terceirizadas é ignorada pelo consumidor norte- americano. Suas histórias atestam uma "walmartização do planeta", palavra que, para o sindicato mundial das profissões do comércio, "está em vias de se tornar familiar e ter o duplo significado de dumping social e anti-sindicalismo"4. "A cada época, lembra o professor Nelson Lichtenstein, especialista em história operária na Universidade Santa Bárbara da Califórnia, uma empresa-protótipo parece encarnar um conjunto inovador de estruturas econômicas e de relações sociais. No fim do século XIX, a Companhia das Estradas de Ferro da Pensilvânia se enxergava como "a referência do mundo". Em meados do século XX, a General Motors representou o símbolo de uma gestão burocrática e aperfeiçoada e de uma produção em série que tirava proveito das novas tecnologias. Nestes últimos anos, a Microsoft pareceu ser o modelo de uma economia do saber pós-industrial. Mas no início do século XXI, a Wal-Mart parece encarnar o tipo de instituição econômica que transforma o mundo impondo um sistema de produção, de distribuição e de emprego multinacional e fortemente integrado". Entretanto, precisa Lichtenstein, há algo novo: "o revendedor global é o centro, o poder, enquanto o fabricante se torna o servo, o vassalo". Limpeza falsa de imagem Sob o fogo de duas formas de contestação, internacional e local (ler o artigo de Olivier Esteves, nesta edição), a Wal-Mart lançou em 2005 uma importante operação de comunicação destinada, segundo seu presidente e diretor geral, H.Lee Scott Jr, a responder "a uma das campanhas mais organizadas, sofisticadas e custosas jamais lançada contra uma só empresa". No que diz respeito a terceirização, a operação consistiu em relativizar os fatos e em exibir a suposta consciência social da empresa. A Wal-Mart assegura estar em relação regular com muitas organizações não-governamentais, lutando para fechar os sweat shops e maquiadoras5 - de onde, porém, a empresa continua a importar 50% de sua mercadoria estrangeira. |
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"Em cada época, há uma empresa-paradigma. Hoje, a Wal-Mart encarna o tipo de relação em que o revendedor global é o centro, o poder - e o fabricante torna-se o servo, o vassalo" |
Os spin doctors contratados pela firma puderam alimentar sua contra-ofensiva com os argumentos da revista norte-americana Fortune: "Wal-Mart emprega diretamente 1,4 milhões de pessoas, ou seja, três vezes mais que o maior empregador norte-americano e 56 vezes mais que uma empresa norte-americana média. Em função disso, fatos desagradáveis têm 5.500% maior chances de ocorrer na Wal Mart que em seus concorrentes"6. No mesmo registro fatalista, Lee Scott Jr, que em 2004, ganhava 16 mil vezes mais que um operário de Suazilândia, acrescentou que "enquanto existir a cobiça, as pessoas enfrentarão a lei". Além disso, a Wal-Mart garante ter realizado, em 2004, mais de 12 mil inspeções, em 7,6 mil fábricas, e ter rompido suas relações comerciais com 1,5 mil outras, sendo 108 de forma definitiva - principalmente por violações relativas ao trabalho infantil. Membro do coletivo sul-africano Civil Society Research and Support Collectif (CSRSC), Aisha Bahadur realizou várias pesquisas sobre as condições de trabalho nas empresas têxteis da África austral e oriental. O continente é um dos territórios menos observados da walmartização do mundo operário. É, por isso, uma das regiões onde se aplicam de maneira mais brutal os ditames da empresa, os quais "afetam em torno do mundo os salários, as condições de trabalho, as práticas manufatureiras, e até mesmo o preço de um metro de tecido"7. Walmartização chega à África A multinacional norte-americana soube tirar partido dos acordos de "livre" comércio firmados entre Washington e alguns países africanos. Em janeiro de 2003, o Sindicato dos Operários Têxteis de Lesoto e a Federação Africana dos Trabalhadores Têxteis e do Couro (ITGLWF) denunciaram as condições de trabalho de vinte e uma empresas terceirizadas pela Wal-Mart no subúrbio de Maseru, capital do Lesoto. O negócio, no qual estão envolvidos terceirizados das marcas Gap e Hudson Bay, faz lembrar que não há lojas Wal-Mart na África, porém a África tecelã está muito presente nos containeres destinados aos hipermercados. |
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Para se beneficiar da suspensão das barreiras aduaneiras nos EUA, empresas têxteis de Taiwan transferiram-se em massa para a África. Depois, bateram em retirada |
A sub-região austral é "privilegiada" pelos três acordos de livre-comércio (African Growth and Opportunity Act, ou AGOA) assinados, desde 2000, com os Estados Unidos. Para se beneficiar da suspensão das barreiras aduaneiras nos Estados Unidos, empresas têxteis de Taiwan transferiram-se em massa para a África. Até dezembro de 2004, suas máquinas de costura funcionaram a pleno vapor para a Wal-Mart, que Aisha Bahadur identifica como "um dos principais beneficiários da AGOA e do acordo multifibras que privilegia a importação de produtos têxteis baratos da África". As novas zonas industriais das capitais regionais viram, então, afluir uma mão de obra rural que as empresa terceirizadas se apressaram em superexplorar. Os escândalos obrigaram certas firmas a encerrar as atividades. Outras foram substituídas rapidamente. Isto durou até janeiro de 2005. A adesão da China à Organização Mundial do Comércio (OMC) e o fim do Acordo Multifibras encerraram este período de pleno emprego. As empresas transferidas para a África regressaram ao sudeste asiático - tão facilmente, ressalta a senhora Bahadur, que é possível colocar em containeres o material de uma empresa têxtil. "Cerca de 60 mil trabalhadores foram despedidos entre outubro de 2004 e maio de 2005". Os operários africanos das empresas têxteis que ficaram acrescenta ela, "estão mais do que nunca ameaçados pelas políticas decididas pela Wal-Mart que se beneficiou muito mais da AGOA do que eles." Sediada em Kampala, capital da Uganda, a fábrica de confecção Apparel Tri-Star LTd, pertence a uma das empresas do Sri Lanka que se beneficiam da AGOA. A Wal-Mart continua a terceirizar com ela, apesar das queixas apresentadas na Organização Internacional do Trabalho (OIT). A Tri-Star, anota a Confederação Internacional dos Sindicatos Livres (CISL) é "uma incrível máquina de violar direitos dos assalariados (em sua maioria de mulheres)"8. Os testemunhos de alguns dos 2 mil operários nos levam a interrogar sobre o comportamento de uma empresa apresentada pelas autoridades do país como um exemplo a ser seguido para o desenvolvimento de Uganda. "Quando você quer ir ao banheiro, diz uma operária, é preciso conseguir previamente a permissão do supervisor. Se está de acordo, ele dá uma espécie de 'bônus de saída', mas há somente dois por secção de 70 trabalhadores. Devemos,portanto, aguardar a nossa vez. Aí ocorre o sprint, pois é proibido se ausentar mais que cinco minutos. Ora, a distância das máquinas aos banheiros pode consumir todo o tempo". Mas isto não é tudo: cada ausência é controlada por um segurança que faz a inscrição do seu nome, seu número de cartão, da hora de sua saída (e também de sua volta) em um registro. Uma ausência muito longa é objeto de advertência, que pode resultar em demissão. Isto porque na África e em qualquer parte do mundo, "Os preços mais baratos a cada dia" não são baratos para todo o mundo. (Trad.: Celeste Marcondes) |
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* Jornalista |
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DOSSIÊ WAL-MART / PATERNALISMO E REPRESSÃO Abaixo os sindicatosEm sua obra Nickel and dimed: Undercover in low wage USA, a autora relata sua experiência de assalariada do Wal-Mart, recebendo 7 dólares por hora. A passagem abaixo evoca a imagem que a empresa deseja mostrar de si mesma Bárbara Ehrenreich |
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Começamos com um vídeo, de aproximadamente vinte minutos, dedicado à história e à filosofia do Wal-Mart ou, como diria um antropólogo, ao culto do Tio Sam. Logo no começo, Sam Walton, jovem, de uniforme, retorna da guerra. Ele abre uma revista, uma espécie de catálogo; ele se casa e se torna pai de quatro lindas crianças; recebe das mãos do presidente Bush pai a Medalha da Liberdade. Em seguida, morre, o que provoca um desfilar de discursos fúnebres. Mas os negócios continuam, é o mínimo que se pode dizer. A curva da história do Wal-Mart sobe de maneira vertiginosa, fazendo pausa apenas para estabelecer novos recordes na história de expansão de uma empresa. 1992: o Wal-Mart torna-se a maior rede varejista do mundo. 1997: o faturamento ultrapassa os 100 milhões de dólares. 1998: o número de "associados1" do Wal-Mart chega a 825 mil, o que faz da empresa o maior empregador privado do país. Cada recorde é acompanhado por um vídeo-clipe mostrando multidões de clientes, nuvens de associados, novas lojas com seus estacionamentos. Uma voz repete incessantemente, quando não são exibidos em um painel, os três princípios que não têm nada a ver entre si, até um ponto que é quase um desafio à razão: "Respeito pelo indivíduo, superação das expectativas do cliente, busca da excelência". "Respeito pelo indivíduo", é o que tem a ver conosco, os "associados". Por maior que possa ser o Wal-Mart e por menores que sejamos enquanto indivíduos, tudo depende de nós. Sam dizia sempre e o vemos dizer que "as melhores idéias vêm dos associados".Por exemplo, a idéia de uma pessoa encarregada de receber as pessoas; um empregado um pouco mais velho (desculpe, um "associado"), que recebe pessoalmente cada cliente que entra na loja. Três vezes durante o procedimento de orientação, que começa às três da tarde e se estende até aproximadamente as 11 da noite, somos lembrados de que essa idéia nasceu no cérebro de um simples "associado". Quem sabe que revolução cada um de nós tem na cabeça para a venda no varejo? Porque as nossas idéias são bem-vindas, mais que bem-vindas, não devemos pensar em nossos dirigentes como chefes, mas como "líderes a nosso serviço" e a serviços dos clientes. É claro que nem tudo é harmonia perfeita, em todas as circunstâncias, entre os associados e os líderes a seu serviço. Um vídeo-clipe dedicado à "honestidade do associado" mostra um caixa pego em flagrante delito pelas câmeras de segurança, enquanto embolsa algumas cédulas tiradas da caixa-registradora. Ouve-se o soar de um tambor em tom ameaçador enquanto ele é levado, com algemas nos pulsos. Somos informados de que ele foi condenado a quatro anos de prisão. O tema das tensões ocultas, superadas graças à reflexão e a uma atitude positiva, estende-se em um vídeo-clipe de doze minutos, intitulado "Você escolheu um lugar formidável parta trabalhar". Diferentes "associados" confirmam com seu testemunho que "a atmosfera verdadeiramente familiar do Wal-Mart, ainda que bem conhecida, existe de verdade", levando à conclusão de que nós não precisamos de um sindicato. Antigamente, há muito tempo, os sindicatos tinham seu lugar na sociedade norte-americana, mas eles "não têm muita coisa a oferecer aos trabalhadores", razão pela qual as pessoas os deixaram "em massa". O Wal-Mart está em plena expansão, os sindicatos estão em pleno declínio: julguem vocês mesmos. Mas somos advertidos de que "os sindicatos têm o Wal-Mart na sua mira há muitos anos". Por que? Para as contribuições, evidentemente. Imaginem tudo o que vocês perdem com um sindicato: para começar, suas contribuições, que chegam a 20 dólares por mês "e às vezes mais"; depois vocês não têm mais "sua voz", pois o sindicato iria obrigá-los a aceitar que faça as negociações por vocês; finalmente, vocês perderiam perder seus salários e suas vantagens pois eles seriam "colocados em jogo na mesa de negociações". Vocês precisam se perguntar - e imagino que alguns de meus colegas ao redor da mesa, que não têm ainda vinte anos, vão fazê-lo - por que demônios os sindicalistas são autorizados a circular livremente em nosso país. (Trad.: Elvira Serapicos) |
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1 - Nome dado aos assalariados. |
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DOSSIÊ WAL-MART / RESISTÊNCIAS Quando as sociedades dizem nãoUm balanço das campanhas de mobilização cidadã que estão conseguindo, com base em plebiscitos, evitar a implantação de lojas da mega-transnacional Olivier Estèves* |
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No momento em que Emile Zola dava os toques finais no seu romance Au Bonheur des Dames (1883), verdadeiras cadeias de lojas já tinham nascido do outro lado do Atlântico. Le Bon Marché, Le Louvre, La Samaritaine ou ainda Le Printemps constituíam um fenômeno tipicamente parisiense, e Woolworth, criada em 1879 em Lancaster (Pensilvânia), já possuiria 59 lojas em 1900. As rádios locais, principalmente na Louisiana, serviam por vezes para transmitir a mensagem de resistência frente a esses grandes monstros devoradores da concorrência, em especial aos gritos de "Povo da América, acorde! Nós podemos nocautear essas cadeias de lojas1!". Um século mais tarde, a chegada do mastodonte Wal-Mart provocou a falência de dezenas de milhares de lojas, de fornecedores e de prestadores de serviços de todo tipo. Um exemplo: o do pequeno estado norte-americano de Iowa. Segundo um estudo feito pelo professor de economia Ken Stone (Universidade de Iowa), a chegada em massa de lojas Wal-Mart causou o fechamento, entre 1983 e 1993, de um total de 7.326 lojas2. Podemos julgar a agressividade da marca a partir desse trecho da revista Wal-Mart Today de outubro de 1996, destinada aos "associados" da empresa. O vice-presidente, Tom Coughlin admitiu: "Na Wal-Mart, nós somos mercadores de poeira. A concorrência engole a poeira. Literalmente3". Da mesma forma, muito freqüentemente acontece de a Wal-Mart mesma decidir fechar seus próprios centros comerciais, as famosas "caixas de sapatos" (referência à forma do prédio) que pululam, mas que ela abandona, também, por todo o país. Em 2004, a Wal-Mart comprou cerca de 400 desses "shoppings", envolvendo uma área total de 8,54 milhões de metros quadrados, e em seguida os fechou, por serem "muito pequenos" ou "não muito rentáveis"4! Todos esses fatos, que se acrescentam à lista sem fim de torpezas praticadas pela empresa, provocaram uma reação de rejeição das comunidades locais, nos quatro cantos do país. |
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Era apenas o início de uma longa série de "boicotes preventivos". Logo seria a vez de Eureka (Califórnia), em 1998 |
Greenfield, onde a resistência começa A primeira grande batalha travada foi a de Greenfield (Massachusetts), em 1993. Ela colocou em cena aquele que viria a ser o inimigo público número um da Wal-Mart, Al Norman. Este homem é uma espécie de "lobista profissional", agindo em nome de associações de todo tipo e de todas as cores políticas. Após uma certa pressão inicial, Norman rapidamente se deu conta da desproporção entre sua cidade de 20 mil habitantes e o "hiper" de cerca de 40.000 metros quadrados, ocupando uma área de mais de trinta hectares, que se propunha criar em Greenfield. Nosso homem desde então se engajou em uma luta que até hoje não foi interrompida. A implantação de muitos centros comerciais já foi objeto de referendos populares nos Estados Unidos. Às vezes, as controvérsias em torno da construção das enormes "caixas de sapatos" na periferia das cidades levam mais cidadãos às urnas que as próprias eleições presidenciais. Esse foi o caso de Greenfield, em 1993, quando houve um movimento mais massivo às urnas que o das eleições que haviam "coroado" Bill Clinton um ano antes. Esse tipo de consulta democrática constitui a principal arma dos opositores da Wal-Mart. Norman concordou em chefiar a rede associativa local oposta ao colosso de Arkansas apenas dez semanas antes do referendo, previsto para 19 de outubro de 1993. Imediatamente, começou uma campanha política das melhores. A Wal-Mart empregou toda sorte de estratagemas para convencer os eleitores. A empresa enviou muitas séries de correspondências imitando o selo da prefeitura da cidade de Greenfield, para conferir um caráter oficial e respeitável à sua estratégia de marketing político. Por sua vez, Norman se assegurou do apoio financeiro de numerosos comerciantes locais. Apoio anônimo, pois era importante a oposição não se mostrar sob o caráter de um "interesse categorial", para usar a novilíngua da Wal-Mart. A empresa tentou convencer os indecisos apelando a associações do tipo "astroturf", que em uma tradução forçosamente aproximativa poderia ser "gente provinciana caída de pára-quedas das altas esferas". O objetivo: disfarçar-se - literalmente - em cidadão comum, de uma cidade vizinha, por exemplo, e vir contar vantagem da "vida menos cara todos os dias" sempre regiamente pago por um escritório de comunicação instalado em Nova York ou Washington. Frente à fortuna despendida pela Wal-Mart em marketing, Norman e seus tenentes tinham como vantagem um conhecimento perfeito do terreno e o apego dos habitantes a uma comunidade confrontada com intrusos bilionários vindos do longínquo Arkansas. |
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Desde há muitos anos, a Wal-Mart tem amordaçado seus potenciais críticos cobrindo-os de presentes diversos |
No dia do referendo, 2.854 votos se opuseram à implantação local da Wal-Mart, contra 2.845 favoráveis. Esses nove votos de diferença deslocaram canais de televisão, jornais, repórteres de rádio dos quatro cantos do país. Até então, ninguém nunca tinha ouvido falar de Greenfield. Era apenas o início de uma longa série de "boicotes preventivos". Em Eureka (Califórnia), em 1998, a própria Wal-Mart pediu um referendo popular, convencida de poder se implantar sem problemas no norte da Califórnia. Afinal, alguns quilômetros ao norte, a leste e ao sul de Eureka, encontram-se já hipermercados Wal-Mart. Os habitantes de Eureka foram pegos de surpresa por um call-center trabalhando para a firma de Bentonville. Alguns dos telefonemas, dados bem cedo, pela manhã, tiraram os habitantes da cama. Certas questões eram extremamente insistentes, especialmente aquelas que se relacionavam à resistência à Wal-Mart, à credibilidade dos representantes eleitos, da imprensa, ou à personalidade do "comunista" Al Norman. Uma habitante da cidade, Linda Hanrahan, contou ao jornal local que chegou a receber até onze chamadas por dia. Exasperada, ela teve de aumentar sua dose de calmantes. Pior: ela esperava um telefonema do hospital local informando-a do estado de saúde de seu pai, acometido de um câncer em fase terminal. A revelação desse assédio fez o efeito de uma bomba, e foi imediatamente utilizada pelos opositores. Em 23 de agosto de 1999, 2.605 pessoas se declararam a favor da construção do centro comercial, e 4.015 pessoas se opuseram. Quando os pobres dizem não Episódio mais recente dessa luta, e certamente mais emblemático: o de Inglewood, subúrbio pobre de Los Angeles composto por metade de negros, metade de hispânicos, que teve mais de 60% de seus eleitores se opondo, em 6 de abril de 2004, à maior empresa do mundo. A onda de choque foi a comparação da desigualdade das forças e dos meios presentes. Mais de um milhão de dólares haviam sido gastos pela Wal-Mart - uma soma indecente para quem conhece Inglewood. Seus adversários tiveram de se contentar com 110 mil dólares, principalmente graças às contribuições dos sindicatos, conscientes de que daquilo dependia sua sobrevivência: dez mil famílias de Inglewood são afiliadas a um sindicato. Certas igrejas se opuseram à chegada da multinacional, mas uma instituição negra histórica como a National Association for the Advancement of Colored People (NAACP) se mostrou, ao contrário, muito mais passiva. Desde há muitos anos, a Wal-Mart tem amordaçado seus potenciais críticos cobrindo-os de presentes diversos5. |
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Milhares de pobres fizeram saber às mídias norte-americanas e mundiais que a implantação de uma Wal-Mart os deixaria ainda mais pobres |
Em princípio pode parecer estranho que uma população majoritariamente pobre recuse as ofertas de empregos alardeadas pela Wal-Mart. A reputação detestável da empresa entrou no jogo. Mas Tracy Gray-Barkan, membro da Los Angeles Association for a New Economy (LAANE), nos oferece uma outra explicação: "As pessoas de Inglewood não estavam se opondo necessariamente à Wal-Mart como tal. Elas se opuseram antes à forma como a empresa queria se implantar na cidade, sem que a população tivesse o menor direito de observar. Dessa forma, a Wal-Mart teria criado sua própria cidadezinha, e feito o que quisesse, quando quisesse, por quanto tempo quisesse. Isso pareceu inaceitável. Era tudo uma questão de respeito, na realidade." Segundo o Reverendo Altagracia Perez, "a tarefa mais difícil de cumprir foi pedagógica: era necessário, explica ele, mostrar às pessoas que não se estava pedindo que elas dissessem 'sim' ou 'não' à Wal-Mart, esperando negociar mais tarde as modalidades precisas de uma implantação, mas que nós oferecíamos uma carta branca à empresa sobre um enorme perímetro em pleno coração da cidade. Tomar consciência desse perigo implicava, no entanto, ler e compreender o texto da medida 04-A, um documento de setenta e duas páginas que era necessário interpretar minuciosamente com uma população pobre pouco iniciada na leitura de documentos oficiais. Sem contar que a medida 04-A estava redigida de tal maneira que era possível aprová-la com maioria simples, mas que, uma vez votada, qualquer mudança exigiria uma maioria de dois terços." O episódio de Inglewood desmentiu de maneira cortante certas idéias prontas, relativas à "América de Bush", que seria aquela da Bíblia do "do nosso lado ou contra nós", das armas de fogo e da cadeira elétrica. Inglewood, em primeiro lugar, mostrou que a fragilidade sindical nos Estados Unidos não impediu que os opositores pudessem obter uma vitória, que a apatia dos trabalhadores norte-americanos não estava inscrita nos mandamentos. Desmentiu também a equação simplificadora entre esfera religiosa e ultraconservadorismo. Isso porque os opositores da Wal-Mart eram também homens de igreja e de mesquita. Desmentiu enfim a idéia de um fosso sistemático entre habitantes e representantes políticos locais: os habitantes de Inglewood ficaram escandalizados de que a Wal-Mart pudesse passar por cima da decisão tomada pelos representantes do povo de recusar a construção de um centro comercial. A cidade serviu de terreno de batalha de uma longa guerra contra a Wal-Mart, dessa vez vitoriosa6. Enfim, e talvez mais importante ainda, Inglewood mostrou que os opositores da multinacional e de seus "preços mais baixos" não se encontram todos no seio de classes médias nostálgicas dos pequenos comércios (mom'n'pop stores) de outrora. Pela primeira vez, a Wal-Mart não pôde estigmatizar esses "bobos elitistas" que bebem café latte, vinho e degustam queijos importados e que, acima de tudo, não são nada seduzidos pela "autenticidade" da Wal-Mart, esse "nirvana da América profunda"7. Milhares de pobres fizeram saber às mídias norte-americanas e mundiais que a implantação de uma Wal-Mart os deixaria ainda mais pobres. Desde então, contam-se outras vitórias bastante ressonantes; as mais recentes chamam-se Staughton (Wisconsin), Avondale (Arizona) e, enfim, Miramar (Flórida), todas em setembro de 2005. (Trad.: Carolina Massuia de Paula) |
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* Professor Conferencista na Universidade de
Lille III |