ESPECIAL
20 de janeiro de 2006
"Faça o que eu mando
e não o que eu faço". Essa a tradução do que o governo Bush está dizendo
ao Irã, como ficou claro na fala pela TV, com aparência grave, da secretária de
Estado Condoleezza Rice. Ela acusou o regime islâmico de não respeitar o NPT,
tratado de não proliferação nuclear. Só que programa nuclear com fins
pacíficos, mesmo incluindo enriquecimento de urânio, em nada viola o texto do
tratado.
O Irã nega estar
construindo armas nucleares. Acha que os EUA exigem que se submeta à sua
vontade, não que cumpra um tratado. Como já foi chamado pelo governo Bush de
"delinqüente" e membro (com a Coréia do Norte e o Iraque de Saddam
Hussein) do "Eixo do Mal", também invoca o direito de se defender. E o
passado das relações Washington-Teerã oferece algumas lições.
Impedir proliferação
nuclear é do interesse do mundo, não só dos EUA. Mas quem quer ficar à mercê
dos valentões de Bush? Por causa do belicismo americano, está mais difícil o
entendimento em torno das questões debatidas em maio passado na
conferência-exame do NPT. A receita dos neocons que assaltaram o poder em 2000
é obrigar países sem armas nucleares a engolirem um "protocolo
adicional".
Os "sem bombas"
consideram a proliferação ameaça, mas vêem ainda outra ameaça - a da
intimidação dos que detêm o monopólio. O "protocolo adicional" foi
inventado pelos riscos da nova situação (inclusive o de países passarem armas
nucleares a grupos terroristas). Mas por que todos têm de se submeter à vontade
de Bush se EUA e outros detentores dessas armas não cumprem o que está no mesmo
NPT?
Ao assinarem o tratado,
os "com bombas" comprometeram-se a reduzir os seus arsenais até que
desapareça a ameaça nuclear. A agenda americana consiste em impor obrigações a
outros mas qualquer análise da proliferação nuclear no mundo nos últimos 35
anos expõe a responsabilidade dos países nucleares, em especial EUA e Rússia, e
não a dos que o governo americano ataca.
O Paquistão, cuja
ditadura militar é apadrinhada por Bush, condecorou o cientista que fez sua
bomba nuclear e ainda levou depois a receita a outros países. Como o Paquistão,
Israel fez sua bomba sob o olhar paternal do padrinho protetor. Não deu
satisfação a ninguém. O caso norte-coreano foi diferente: Bush ignorou o
compromisso de seu antecessor, o que levou a Coréia a descumprir sua parte.
No Irã a aventura começou
cedo, ainda em 1957, ao tempo da ditadura amiga do xá Reza Pahlevi, protegido
dos EUA - que com ele assinaram um acordo de cooperação nuclear. Embora o xá
não descartasse a idéia de fazer armas, em 1975 e 1976 os EUA aprovaram a venda
ao Irã de até oito reatores nucleares (mais combustível e também laser, com
capacidade de enriquecer urânio).
Na época o chefe de
gabinete do presidente Gerald Ford era Dick Cheney, o secretário da Defesa
Donald Rumsfeld - e os esforços antiproliferação nuclear estavam a cargo de
Paul Wolfowitz. Assim, o que os EUA têm de fazer, e já fariam tarde, é ampla
autocrítica pública. A redução de suas armas e da Rússia - sem sequer uma
satisfação ao mundo - foi só modernização do arsenal, aposentando-se o
obsoleto.
Hoje os EUA sequer dão
garantias de que não usarão armas nucleares contra país que não as tem (o que
antes faziam). Mas o pior é o mau exemplo, ignorando o NPT. Washington mantém
enorme arsenal de armas nucleares, que tem suplementado nos últimos anos com
uma nova categoria - a das armas que penetram na terra para explodir bunkers.
O objetivo das
"bunker-busters" é destruir instalações subterrâneas profundas, onde
poderiam estar armazenadas armas químicas e biológicas. Mas também Rússia,
França e China estão modernizando suas forças nucleares e a Grã-Bretanha
planeja substituir dentro de pouco tempo sua força nuclear Trident. Essas são
as ameaças maiores à proliferação.
O artigo VI do NPT deixa
claro que os "sem bombas" continuarão assim desde que os detentores
dessas armas reduzam progressivamente as suas. Mas as informações disponíveis,
inclusive as que saíram no número de janeiro da revista "Jane's
International Defense Review", dão detalhes minuciosos da modernização
(até miniaturização) e substituição das armas americanas atuais e seus sistemas
de lançamento.
Segundo Paul Rogers, especialista
em segurança global, as obrigações dos EUA contidas no tratado de não
proliferação são hoje encaradas em Washington mais como piada. E tal coisa,
obviamente, contrasta com a gravidade na aparência da secretária Rice ao
denunciar o regime do Irã. Até porque americanos e britânicos têm projetos bem
concretos de modernização para os próximos 40 a 50 anos.