ESPECIAL
20 de janeiro de 2006
"A Constituição está em grave perigo"
por Al Gore [*]
Al Gore, antigo vice-presidente dos
Estados Unidos, pronunciou em 16 de Janeiro um importante discurso no Constitution
Hall, em Washington.
Trata-se de um documento que assinala a ruptura de um homem do sistema —
elemento altamente responsável do Partido Democrata e membro da elite do poder
— com o governo fascizante encabeçado por Bush.
Isto significa o estalar, à luz do dia, da unidade interna dentro da classe
dominante dos EUA.
Logo após o seu pronunciamento desceu um silêncio de chumbo sobre este libelo
de Al Gore.
O seu discurso, uma importante peça jornalística em si mesma, foi omitido pelo
conspícuo New York Times, pelas cadeias de TV e pela maior parte dos
media corporativos dos EUA.
Os servis media portugueses, por sua vez, procuraram, numas poucas linhas,
minimizar a dimensão, a amplitude e o alcance destas denúncias — reduziram-nas
a um mero caso de escutas telefónicas.
Por isso mesmo resistir.info publica este discurso na íntegra.
Apesar das nossas diferenças ideológicas e
políticas, concordamos fortemente em que os valores americanos que consideramos
mais caros foram colocados em risco sério pelas inauditas pretensões da
administração a uma expansão do poder executivo que é realmente de tirar o
fôlego.
No princípio deste novo ano, o Ramo Executivo do nosso governo foi apanhado a
escutar às escondidas um enorme número de cidadãos americanos e declarou
arrogantemente que tem o direito unilateral de continuar a fazê-lo sem
consideração para com a lei estabelecida promulgada pelo Congresso a fim de
impedir tais abusos.
É imperioso que o respeito pela regra da lei seja restaurado.
Assim, muitos de nós viemos aqui ao Constitution Hall a fim de soar um alarme e
apelar aos nossos companheiros cidadãos a porem de lado diferenças partidárias
e juntarem-se-nos na exigência de que a nossa Constituição seja defendida e
preservada.
É apropriado que façamos este apelo no dia
que o nosso país reservou para honrar a vida e o legado do Dr. Martin Luther
King, Jr., que desafiou a América a respirar o ar puro dos nossos antigos
valores com a extensão da sua esperança a todo o nosso povo.
Neste preciso Dia de Martin Luther King, é especialmente importante recordar
que durante os últimos anos da sua vida o Dr. King teve as suas ligações
telefónicas ilegalmente escutadas — foi um das centenas de milhares de
americanos cujas comunicações privadas foram interceptadas pelo governo dos EUA
neste período.
O FBI, internamente, classificou King como "o líder negro mais perigoso e
efectivo do país" e jurou "derrubá-lo do seu pedestal". O
governo tentou mesmo destruir o seu casamento e chantageou-o (blackmail him)
a cometer suicídio.
Esta campanha continuou até o assassínio do Dr. King. A descoberta de que o FBI
conduziu uma campanha duradoura e extensa de vigilância electrónica secreta
destinada a infiltrar os trabalhos internos da Southern Christian Leadership
Conference, e a saber os mais íntimos pormenores da vida do Dr. King, ajudaram
a convencer o Congresso a promulgar restrições às escutas electrónicas (wiretapping).
O resultado foi o Foreign Intelligence and Surveillance Act (FISA), o qual foi
aprovado expressamente para assegurar que a vigilância da inteligência
estrangeira seria apresentada a um juiz imparcial a fim de verificar se há
causa suficiente para tal vigilância. Votei por esta lei durante o meu primeiro
mandato no Congresso e durante quase trinta anos o sistema demonstrou-se
praticável e meio valioso de conceder um nível de protecção a cidadãos
privados, ao mesmo tempo que permitia continuar a vigilância estrangeira.
Contudo, apenas um mês atrás, os americanos acordaram para as chocantes
notícias de que apesar desta lei há muito estabelecida, o Ramo Executivo
estivera a espiar secretamente grande número de americanos durante os últimos
quatro anos e a escutar secretamente (eavesdropping) "grandes
volumes de chamadas telefónicas, mensagens email, e outros tráfegos de Internet
dentro dos Estados Unidos". O New York Times relatou que o
presidente decidiu lançar este maciço programa de escutas secretas "sem
autorizações de busca ou quaisquer novas leis que permitissem tal colecção de
inteligência interna".
Durante o período em que as escutas eram ainda secretas, o presidente saiu do
seu caminho para reassegurar o povo americano em mais de uma ocasião de que,
naturalmente, é exigida permissão judicial a qualquer governo para espiar
cidadãos americanos e que, naturalmente, estas salvaguardas constitucionais
ainda estavam em vigor.
Mas, surpreendentemente, as declarações tranquilizadoras do presidente
revelaram-se ser falsas. Além disso, tão logo este maciço programa de
espionagem interna foi descoberto pela imprensa, o presidente não só confirmou
que a notícia era verdadeira como também declarou que não tinha intenção de por
fim a estas invasões por atacado da privacidade.
Neste momento, ainda temos muito a aprender acerca da vigilância interna da
National Security Agency (NSA). O que sabemos acerca destas escutas secretas
generalizadas praticamente obriga-nos à conclusão de que o presidente dos
Estados Unidos tem estado a infringir a lei repetidamente e persistentemente.
UM PRESIDENTE QUE INFRINGE A LEI
Um presidente que infringe a lei é uma ameaça à própria estrutura do nosso
governo. Nossos Pais Fundadores estavam certos de que haviam estabelecido um
governo da lei e não dos homens. Na verdade, eles reconheciam que a estrutura
de governo que haviam santificado na nossa Constituição — nosso sistema de
pesos e contrapesos (checks and balances) — fora concebida com a
finalidade central de assegurar que governariam através da regra da lei. Como
disse John Adams: "O executivo nunca exercerá os poderes legislativo e
judicial, ou um deles, a fim de que possa haver um governo de leis e não de
homens".
Um executivo que se arroga o poder de ignorar as directivas legítimas do
Congresso ou de actuar liberto do controle do judiciário torna-se a ameaça
central que os Fundadores tentavam anular na Constituição — um executivo
todo-poderoso que recordava demasiado o rei de quem se haviam liberto. Nas
palavras de James Madison, "a acumulação de todos os poderes, legislativo,
executivo e judiciário, nas mesmas mãos, seja de um, uns poucos, ou muitos, e
seja hereditário, auto-designado, ou eleito, pode justamente ser expresso como
a própria definição de tirania".
Thomas Paine, cujo panfleto, "Sobre o bom senso" ("On Common
Sense") acendeu a Revolução Americana, descreveu sucintamente a
alternativa da América. Aqui, disse ele, pretendemos assegurar que "a lei
é rei".
A fidelidade vigilante à regra da lei fortalece a nossa democracia e fortalece
a América. Assegura que aqueles que nos governam operam dentro da nossa
estrutura constitucional, o que significa que nossas instituições democráticas
desempenham seu papel indispensável em modelar a política e determinar a
direcção do nosso país. Isto significa que o povo deste país determina
finalmente o seu curso e não responsáveis executivos a operarem em segredo sem
constrangimento.
A regra da lei torna-nos mais fortes ao assegurar que as decisões serão
testadas, estudadas, revistas e examinadas através de processos de governo que
são concebidos para melhorar a política. E o conhecimento de que eles serão
revistos impede ultrapassagens e controla o acréscimo de poder.
A MENTIRA DO INCIDENTE DO GOLFO DE TONQUIM
Um compromisso de abertura, honestidade e responsabilização também ajuda o
nosso país e evita erros muito sérios. Recentemente, por exemplo, soubemos,
através de documentos classificados que foram recentemente desclassificados,
que a Resolução do Golfo de Tonquim, que autorizou a trágica Guerra do Vietnam,
foi realmente baseada em informação falsa. Agora soubemos que a decisão do
Congresso de autorizar o Guerra do Iraque, 38 anos depois, foi também baseada
em informação falsa. A América teria estado numa situação melhor sabendo a
verdade e evitando ambos destes erros colossais na nossa história. Seguir a
regra da lei torna-nos mais seguros, não mais vulneráveis.
O presidente e eu concordamos numa coisa. A ameaça do terrorismo é inteiramente
real. Simplesmente não há dúvida de que continuamos a enfrentar novos desafios
na sequência do ataque do 11 de Setembro e que devemos estar sempre vigilantes
a proteger nossos cidadãos de danos.
Onde discordamos é que tenhamos de quebrar a lei ou sacrificar nosso sistema de
governo para proteger americanos de terrorismo. De facto, assim fazer torna-nos
mais fracos e mais vulneráveis.
Uma vez violada, a regra da lei está em perigo. Se não for travada, a
ilegalidade cresce. Quanto maior se tornar o poder do executivo, mais difícil
ficará para os outros ramos desempenhar os seus papeis constitucionais. Como o
executivo actua fora do papel que lhe é constitucionalmente prescrito e é capaz
de controlar o acesso à informação que exporia suas acções, torna-se cada vez
mais difícil aos outros ramos policiá-lo. Uma vez perdida tal capacidade, a
própria democracia está ameaçada e torna-se um governo de homens e não de leis.
Os homens do presidente têm falado de
forma gentil acerca das leis da América. O Procurador Geral admitiu abertamente
que a "espécie de vigilância" que agora sabemos terem eles estado a
efectuar exige uma ordem judicial a menos que autorizada pelo estatuto. O
Foreign Intelligence Surveillance Act muito evidentemente não autoriza aquilo
que o NSA tem estado a fazer, e ninguém dentro ou fora da administração afirma
que sim. Incrivelmente, a administração afirma ao invés disso que a vigilância
foi implicitamente autorizada quando o Congresso votou pelo uso da força contra
aqueles que nos atacaram no 11 de Setembro.
Este argumento simplesmente não colhe. Sem entrar dentro das intrincancias
legais, ele confronta-se com um certo número de factos embaraçosos. Primeiro,
uma outra confissão do Procurador Geral: ele admite que a administração sabia
que o projecto da NSA era proibido pela lei existente e que eles consultaram
alguns membros do Congresso acerca da mudança de estatuto. Gonzalez diz que
lhes foi dito que isto provavelmente não seria possível. Assim, como podem eles
agora argumentar que a Autorização para o Uso de Força Militar (Authorization
for the Use of Military Force, AUMF) de alguma forma implicitamente
autorizava isto tudo a avançar? Segundo, quando a Autorização estava a ser
debatida, a administração procurou de facto ter uma linguagem inserida dentro
daquilo que os teria autorizado a usar força militar internamente — e o
Congresso não concordou. O senador Ted Stevens e o representante Jim McGovern,
entre outros, fizeram declarações durante o debate da Autorização reiterando
claramente que aquela Autorização não operava internamente.
Quando o presidente Bush fracassou em convencer o Congresso a dar-lhe todo o
poder que pretendia ao aprovar o AUMF, ele secretamente assumiu aquele poder de
qualquer forma, como se a autorização congressual fosse um aborrecimento
inútil. Mas, como escreveu outrora Justice Frankfurter, "Encontrar
autoridade tão explicitamente retirada não é meramente desprezar num exemplo
particular a vontade clara do Congresso. É desprezar a totalidade do processo
legislativo e a divisão constitucional de autoridade entre o Presidente e o
Congresso".
Este é precisamente o "desprezo" pela lei que o Supremo Tribunal
deitou abaixo no caso da dominação férrea.
É este mesmo desprezo pela Constituição da América que trouxe agora a nossa
república à beira de uma ruptura perigosa no tecido da Constituição. E o
desprezo corporificado nestas aparentes violações em massa da lei faz parte de
um padrão mais vasto de aparente indiferença para com a Constituição que está a
perturbar profundamente milhões de americanos em ambos os partidos políticos.
Por exemplo: o presidente também declarou que tem um poder inerente, até aqui
não reconhecido, para capturar e aprisionar qualquer cidadão americano que ele
sozinho considera ser uma ameaça ao nosso país, e que, não obstante sua
cidadania americana, a pessoa aprisionada não tem direito a conversar com um
advogado — nem mesmo a argumentar que o presidente ou os seus nomeados
cometeram um erro e aprisionaram a pessoa errada.
O presidente afirma que pode aprisionar cidadãos americanos indefinidamente
pelo resto das suas vidas sem um mandado de prisão (arrest warrant), sem
notificá-los acerca das acusações que impendem contra eles, e sem informar as
suas famílias de que foram aprisionados.
Ao mesmo tempo, o Ramo Executivo tem reivindicado uma autoridade anteriormente
não reconhecida para maltratar prisioneiros sob a sua custódia de formas que
claramente constituem tortura, num padrão que agora foi documentado em
instalações dos EUA localizadas em vários países por todo o mundo.
Mais de 100 destes cativos foram confirmadamente mortos enquanto estavam a ser
torturados pelos interrogadores do Ramo Executivo e muitos mais foram mutilados
e humilhados. Na notória prisão de Abu Ghraib, investigadores que documentaram
o padrão de tortura estimam que mais de 90 por cento das vítimas estavam
inocentes de quaisquer acusações.
VERGONHOSO EXERCÍCIO DE PODER
Este vergonhoso exercício de poder subverte um conjunto de princípios que o
nosso país tem observado desde que o general Washington os enunciou pela
primeira vez durante a nossa Guerra Revolucionária e que têm sido observados
por todos os presidentes desde então — até agora. Estas práticas violam as
Convenções de Genebra e a Convenção Internacional Contra a Tortura, sem
mencionar as nossas próprias leis contra a tortura.
O presidente também afirmou que tem autoridade para sequestrar indivíduos em
países estrangeiros e entregá-los para aprisionamento e interrogatório em nosso
nome a regimes autocráticos em países que são infames pela crueldade das suas
técnicas de tortura.
Alguns dos nossos aliados tradicionais ficaram chocados por estas novas
práticas da parte do nosso país. O Embaixador Britânico no Uzbequistão — um
daqueles países com pior reputação por tortura nas suas prisões — registou uma
queixa junto ao seu ministério acerca da insensatez e crueldade da nova prática
americana: "Este material é inútil — estamos a vender nossas almas por
dejectos. Isto é de facto positivamente daninho".
Poderá ser verdadeiro que algum presidente tenha realmente tais poderes sob a
nossa Constituição? Se a resposta for "sim", então, sob a teoria pela
qual estes actos são cometidos, haverá quaisquer actos que possam ser
proibidos? Se o presidente tem a autoridade inerente para efectuar escutas secretas,
aprisionar cidadãos à sua própria vontade, sequestrar e torturas, então o que é
que ele não pode fazer?
O Deão da Yale Law School, Harold Koh, depois de analisar as afirmações do Ramo
Executivo acerca destes poderes anteriormente não reconhecidos, disse: "Se
o presidente tem poder de comandante-em-chefe para cometer tortura, ele tem o
poder para cometer genocídio, para aprovar a escravidão, para promover o
apartheid, para autorizar a execução sumária".
O facto de as nossas salvaguardas normais terem até agora falhado na contenção
desta expansão sem precedentes do poder executivo é profundamente perturbador.
Este fracasso é em parte devido ao facto de que o Ramo Executivo tem seguido
uma estratégia determinada a confundir, retardar, reter informação, aparentar
capitular mas a seguir recusar-se a faze-lo e dissimular a fim de frustrar os
esforços dos ramos legislativo e judicial para restaurar nosso equilíbrio
constitucional.
Por exemplo: depois de aparentemente apoiar a legislação patrocinada por John
McCain no sentido de travar a continuação da tortura, o presidente declarou no
acto de assinar a lei que se reservava o direito de não cumprir com a mesma.
De modo semelhante, o Ramo Executivo afirmou que podia unilateralmente
aprisionar cidadãos americanos sem lhes dar acesso a revisão por qualquer
tribunal. O Supremo Tribunal discordou, mas o presidente empenhou-se em
manobras legais destinadas a impedir o Tribunal de proporcionar conteúdo
significativo aos direitos dos seus cidadãos.
Um jurista conservador do Fourth Circuit Court of Appeals escreveu que o
tratamento do Ramo Executivo de um tal processo parecia envolver o súbito
abandono do princípio "a custos substanciais para a credibilidade do
governo perante os tribunais".
Em resultado da sua reclamação sem precedentes de novos poderes unilaterais, o
Ramo Executivo acaba de colocar em grave risco o nosso desígnio constitucional.
Os riscos para a democracia representativa na América são muito mais elevados
do que tem sido geralmente reconhecido.
Estas reclamações devem ser rejeitadas e restaurado um saudável equilíbrio de
poder na nossa República. Em caso contrário, a natureza fundamental da nossa
democracia poderá muito bem sofrer uma transformação radical.
Durante mais de dois séculos as liberdades da América têm sido preservadas em
parte pela sábia decisão dos nossos fundadores de separarem o poder agregado do
nosso governo em três ramos equiparados, cada um dos quais serve para controlar
e equilibrar o poder dos outros dois.
Em mais do que umas poucas ocasiões, a interacção dinâmica entre todos os três
ramos resultou em colisões e impasses temporários que criam aquilo que é
invariavelmente etiquetado "crise constitucional". Estas crises
muitas vezes foram perigosas e trouxeram tempos incertos à nossa República. Mas
em cada um destes casos, até agora, encontrámos uma solução para a crise
através da renovação do nosso acordo comum para viver sob a regra da lei.
O princípio alternativo à democracia ao longo da história tem sido a consolidação
de virtualmente todo o poder do estado nas mãos de um único homem forte ou de
um pequeno grupo que exerce em conjunto aquele poder sem o consentimento
informado dos governados.
Foi em revolta contra tal regime, afinal de contas, que a América foi fundada.
Quando Lincoln declarou ao tempo da nossa maior crise que a questão final a ser
decidida na Guerra Civil era "se aquela nação, ou qualquer nação assim
concebida, e assim dedicada, poderia perdurar muito", ele não estava não
só a salvar nossa união como também a reconhecer o facto de que democracias são
raras na história. E quando elas fracassam, como aconteceu com Atenas e a
República Romana sobre cujas concepções nossos fundadores muito aproveitaram, o
que emerge em seu lugar é um outro regime de homem forte.
Houve naturalmente outros períodos da história americana em que o Ramo
Executivo arrogou-se novos poderes que foram posteriormente considerados
excessivos e errados. Nosso segundo presidente, John Adams, aprovou o infame
Alien and Sediction Acts e reduziu ao silêncio e aprisionou críticos e
opositores políticos.
Quando o seu sucessor, Thomas Jefferson, eliminou os abusos ele disse:
"[Os princípios essenciais do nosso governo] constituem a brilhante
constelação que tem avançado diante de nós e guiado nossos passos através de
uma era de revolução e reforma... Se deles nos desviarmos em momentos de erro
ou de alarme, vamo-nos apressar para voltar atrás sobre nossos passo e retomar
a estrada que conduz à paz, liberdade e segurança".
O nosso maior presidente, Abraham Lincoln, suspendeu o habeas corpus durante a
Guerra Civil. Alguns dos piores abusos anteriores àqueles da actual
administração foram cometidos pelo presidente Wilson durante e após a Primeira
Guerra Mundial com os notórios Red Scare [1]
e o Palmer Raids [2]
. O internamento de americanos de origem japonesa durante a Segunda Guerra
Mundial marcou um ponto baixo quanto ao respeito do direitos individuais nas
mãos do executivo. E, durante a Guerra do Vietnam, o notório programa COINTELPRO foi
parte integrante dos abusos experimentados pelo Dr. King e milhares de outros.
Mas em cada um destes casos, quando o conflito e a agitação acalmaram, o país
recuperou o seu equilíbrio e absorveu as lições aprendidas num ciclo recorrente
de excesso e arrependimento.
Há razões para preocupação desta vez quanto a que as condições possam estar a
mudar e que o ciclo possa não repetir-se. Em primeiro lugar, temos durante
décadas testemunhado a lenta e firme acumulação de poder presidencial. Num
ambiente global de armas nucleares e tensões da guerra fria, o Congresso e o
Povo americano aceitaram sempre ampliar as esferas de iniciativa presidencial
para conduzir actividades de inteligência e contra-inteligência e para dispor
nossas forças militares no cenário global. Quando a força militar tem sido
utilizada como um instrumento de política externa ou em resposta a pedidos
humanitários, isto quase sempre tem sido o resultado da iniciativa e liderança
presidencial. Como escreveu Justice Frankfurter no Steel Seizure Case, "A
acumulação de poder perigoso não chega num só dia. Ela vem, ainda que
vagarosamente, da força geradora do desrespeito sem peias das restrições que
cercam mesmo a maioria desinteressada da afirmação da autoridade".
Uma segunda razão para acreditarmos que podemos estar a experimentar algo novo
é que a administração nos diz que o estado de guerra sobre a qual tenta colocar
o país é para perdurar "até o fim pelo resto das nossas vidas".
Assim, dizem-nos que as condições de ameaça nacional que foram utilizadas por
outros presidentes para justificar usurpações de poder persistirão em quase
perpetuidade.
TECNOLOGIAS DE VIGILÃNCIA
Terceiro, precisamos estar conscientes dos avanços em escutas clandestinas (eavesdropping)
e tecnologias de vigilância com a sua capacidade para vasculhar e analisar
enormes quantidades de informação e peneirá-la para inteligência. Isto
acrescenta vulnerabilidade significativa à privacidade e liberdade de enorme
número de pessoas inocentes juntamente com o poder potencial daquelas
tecnologias. Estas tecnologias tem o potencial para alterar o equilíbrio de
poder entre o aparelho do estado e a liberdade do indivíduo de modos tanto
subtis como profundos.
Não me compreendam mal: a ameaça de ataques de terror adicional é inteiramente
real e seus esforços concertados para adquirir armas de destruição em massa
criam um imperativo real para exercer os poderes do Ramo Executivo com rapidez
e agilidade. Além disso, há de facto um poder inerente que a Constituição
confere ao presidente para tomar acção unilateral para proteger o país de uma
ameaça súbita e imediata, mas é simplesmente impossível definir precisamente em
termos legais exactamente quando aquele poder é apropriado e quando não é.
Mas a existência daquele poder inerente não pode ser utilizada para justificar
uma captura de poder bruta e excessiva durável por anos que produz um sério
desequilíbrio no relacionamento entre o executivo e os dois outros ramos do
governo.
Há uma razão final para nos preocuparmos em que possamos estar a experimentar
algo mais do que apenas um outro ciclo de excesso e arrependimento. Esta
administração chegou ao poder sob o domínio de uma teoria legal que pretende
convencer-nos de que esta concentração excessiva de autoridade presidencial é
exactamente o que pretendia a nossa Constituição.
Esta teoria legal, cujos proponentes chamam teoria do executivo unitário mas
que é mais precisamente descrita como teoria do executivo unilateral, ameaça
expandir os poderes do presidente até que os contornos da constituição que os
seus arquitectos realmente nos deixaram se tornem obliterados para além de
qualquer reconhecimento. Sob esta teoria, a autoridade do presidente quando a
actuar como Comandante-em-Chefe ou quando a fazer política externa não pode ser
revista pelo judiciário ou verificada pelo Congresso. O presidente Bush tem
pressionado as implicações desta ideia ao seu ponto máximo ao enfatizar
continuamente seu papel como Comandante-em-Chefe, invocando-o tão
frequentemente quanto pode, misturando-o com os seus outros papeis, internos e
externos. Quando acrescentado à ideia de que entrámos num estado de guerra
perpétuo, as implicações desta teoria estendem-se bastante literalmente num
futuro tão distante quanto possamos imaginar.
Este esforço para reformular a concepção constitucional cuidadosamente
equilibrada da América numa estrutura desigual (lopsided) dominada por um Ramo
Executivo todo poderoso com um Congresso e judiciário subservientes é —
ironicamente — acompanhado por um esforço por parte da mesma administração para
reformular a política externa da América daquela que é baseada primariamente
sobre a autoridade moral dos EUA numa baseada num desorientado e
auto-derrotante esforço para estabelecer dominância no mundo.
INSTINTO PARA INTIMIDAR E CONTROLAR
O denominador comum parece estar baseado num instinto para intimidar e
controlar.
O mesmo padrão tem caracterizado o esforço para silenciar visões divergentes
dentro do Ramo Executivo, para censurar informação que possa ser inconsistente
com os seus declarados objectivos ideológicos, e para exigir conformidade a
todos os empregados do Ramo Executivo.
Exemplo: Analistas da CIA que discordem fortemente da afirmação da Casa Branca
de que Osama bin Laden estava ligado a Saddam Hussein descobriram-se sob
pressão no trabalho e tornaram-se temerosos de perder promoções e aumentos de
salários.
Ironicamente, foi exactamente o que acontecer a responsáveis do FBI na década
de 1960 que discordaram da visão de J. Edgar Hoover de que o Dr. King estava
estreitamente ligado aos comunistas. O cabeça da divisão de inteligência
interna do FBI disse que o seu esforço para contar a verdade acerca da
inocência de King quanto àquela acusação resultou em que ele e os seus colegas
ficaram isolados e sob pressão. "Era evidente que tínhamos de mudar nossos
caminhos ou estaríamos todos na rua... Os homens e eu discutimos como nos
livrarmos do problema. Ter problemas com o sr. Hoover era um assunto sério.
Estes homens estavam a tentar comprar casas, tinham hipotecas sobre elas,
filhos na escola. Eles viviam no medo de serem transferidos, perderem dinheiro
com as suas casas, como acontecia habitualmente. ... assim, eles quiseram
redigir um outro memorando para que nos livrássemos do enguiço em que
estávamos".
Os arquitectos da Constituição entenderam este dilema, assim como Alexander
Hamilton que colocou: "um poder sobre o sustento de um homem é um poder
sobre a sua vontade" ( Federalist Nº 73).
Em pouco tempo deixou de haver diferenças de opinião dentro do FBI. A falsa
acusação tornou-se a visão unânime. Exactamente do mesmo modo, a CIA de George
Tenet acabou por juntar no apoio a uma visão manifestamente falsa de que havia
uma ligação entre a al Qaeda e o governo do Iraque.
Palavras de George Orwell: "Somos capazes de acreditar em coisas que
sabemos serem não verdadeiras e então, quando finalmente se prova que estamos
errados, insolentemente torcemos os factos de modo a mostrar que estávamos
certos. Intelectualmente, é possível continuar este processo por um tempo
indefinido: o único controle sobre ele é que mais cedo ou mais tarde uma falsa
crença choca-se contra a sólida realidade, habitualmente sobre um campo de
batalha".
Todas as vezes em que o poder é incontrolado e irresponsável isto quase
inevitavelmente conduz a erros e abusos. Na ausência de responsabilização
rigorosa, a incompetência floresce. A desonestidade é encorajada e premiada.
Na semana passada, por exemplo, o vice-presidente Cheney tentou defender as
escutas clandestinas da administração aos cidadãos da América dizendo que se
tivessem conduzido este programa antes do 11 de Setembro eles teriam descoberto
os nomes de alguns dos sequestradores.
Tragicamente, ele aparentemente ainda não sabia que a administração tinha de
facto os nomes de pelo menos dois dos sequestradores bem antes do 11 de
Setembro e tinha disponível informação que podia facilmente levar à
identificação da maior parte dos outros sequestradores. E com isso, devido à
incompetência no tratamento desta informação, ela nunca foi utilizada para
proteger o povo americano.
PODER PARA MASCARAR RESPONSABILIDADES
Muitas vezes acontece que um Ramo Executivo, seduzido pela busca de poder não
controlado, responda aos seus próprios erros com a proposta reflexiva de que
lhe sejam dados ainda mais poderes. Frequentemente, o próprio pedido é
utilizado para mascarar responsabilidades por erros na utilização de poderes
que ela já tem.
Além disso, se o padrão de prática principiado por esta administração não for
desafiado, ele pode muito bem tornar-se uma parte permanente do sistema
americano. Muitos conservadores tem destacado que conceder poder não controlado
a este presidente significa que o próximo presidente terá igualmente poder não
controlado. E o presidente seguinte pode ser alguém em cujos valores e crenças você
não confia. E é por isto que tanto Republicanos como Democratas deveriam
preocupar-se com o que este presidente tem feito. Se esta tentativa do
presidente para expandir dramaticamente o poder executivo ficar incontestado,
nossa concepção constitucional dos pesos e contrapesos estará perdida. E o
próximo presidente ou algum futuro presidente será capaz, em nome da segurança
nacional, de restringir nossas liberdades de um modo que os arquitectos [da
Constituição] nunca teriam considerado possível.
O mesmo instinto para expandir o seu poder e estabelecer domínio caracteriza o
relacionamento desta administração com os tribunais e o Congresso.
Num sistema a funcionar adequadamente, o Ramo Judicial serviria como o árbitro
constitucional para assegurar que os ramos do governo observassem as suas
esferas próprias de autoridade, observasse as liberdades civis e aderrise à
regra da lei. Infelizmente, o executivo unilateralmente tem tentado com empenho
frustrar a capacidade do judiciário para tomar decisões através da manutenção
de controvérsias que estão fora das suas mãos — nomeadamente aquela de desafiar
sua capacidade de deter indivíduos sem processo legal — da nomeação de juizes
que serão deferente para com o seu exercício do poder e do seu apoio a assaltos
à independência do terceiro ramo.
A decisão do presidente de ignorar a FISA foi um assalto directo ao poder dos
juizes que têm assento naquele tribunal. O Congresso estabeleceu o tribunal
FISA precisamente para constituir um controle às escutas clandestinas (wiretap)
do poder executivo. Mas, para assegurar que o tribunal não pudesse
funcionar como controle sobre o poder executivo, o presidente simplesmente não
lhe encaminhou questões e não o deixou saber que estava a ser ultrapassado.
NOMEAÇÃO DE JUIZES SUBSERVIENTES
As nomeações judiciais do presidente são destinadas claramente a assegurar que
os tribunais não sirvam de controle efectivo do poder executivo. Como soubemos
todos nós, o Juiz Altio é há muito apoiante de um executivo poderoso — um
apoiante do assim chamado executivo unitário, o qual é mais adequadamente
denominado executivo unilateral. Quer você apoie a sua confirmação ou não — e
eu não apoio — temos todos de concordar em que ele não votará como um controle
efectivo da expansão do poder executivo. Da mesma forma, o Chief Justice
Roberts tornou clara sua deferência para com a expansão do poder executivo
através do seu apoio à elaboração de regras pela agência executiva.
E a administração tem apoiado o assalto à independência judicial que tem sido
amplamente efectuado dentro do Congresso. Este assalto inclui uma ameaça da
parte da maioria republicana no Senado de mudar permanentemente as regras a fim
de eliminar o direito da minoria em empenhar-se em debate extenso quanto aos
candidatos judiciais do presidente. Os assalto estendeu-se a esforços
legislativos para restringir a jurisdição de tribunais em assuntos que vão
desde o habeas corpus até o juramento de lealdade. Em suma, a administração
demonstrou seu desprezo pelo papel do judiciário e procura evadir-se à revisão
judicial dos seus actos a cada passo.
Mas o dano mais sério foi feito ao ramo legislativo. O declínio agudo do poder
e autonomia do Congresso nos últimos anos foi quase tão chocante quanto os
esforços do Ramo Executivo para alcançar uma expansão maciça do seu poder.
Fui eleito para o Congresso em 1976 e servi oito anos na casa, 8 anos no Senado
e presidi sobre o Senado durante 8 anos como vice-presidente. Quando jovem, vi
o Congresso pela primeira vez como filho de um senador. Meu pai foi eleito para
o Congresso em 1938, 10 anos antes de eu ter nascido, e deixou o Senado em
1971.
O Congresso que hoje temos é irreconhecível quando comparado àquele no qual
serviu meu pai. Há muitos distintos senadores e congressistas a servi-lo. Estou
honrado por alguns deles estarem aqui neste salão. Mas o ramo legislativo do
governo sob a sua actual liderança opera agora como se estivesse inteiramente
subserviente ao Ramo Executivo.
Além disso, demasiados membros da Casa e do Senado sentem-se agora obrigados a
gastar a maior parte do seu tempo não no debate reflectido das questões, mas
sim no levantamento de dinheiro para comprar 30 segundos nas TVs comerciais.
Há duas ou três gerações de congressistas que realmente não sabem o que é uma audiência
de supervisão (oversight hearing). Nas décadas de 70 e 80, as audiências
de supervisão em que meus colegas e eu participávamos levavam os pés do Ramo
Executivo ao fogo — não importava qual partido estava no poder. Mas a
supervisão é quase desconhecida no Congresso de hoje.
O papel dos comités de autorização declinou na insignificância. As 13 contas de
apropriação (appropriation bills) anuais dificilmente são passadas. Tudo
é amontoado dentro de uma única medida gigante que nem mesmo está disponível
para os Membros do Congresso lerem antes de a votarem.
Membros do partido minoritário agora são excluídos rotineiramente dos comités
de conferência, e as emendas muitas vezes não são permitidas durante a
discussão dos projectos de lei no plenário.
O VOTO PELA INVASÃO DO IRAQUE
No Senado dos Estados Unidos, que tinha o orgulho de ser "o maior corpo
legislativo do mundo", o debate significativo é agora uma raridade. Mesmo
na véspera do voto fatídico para autorizar a invasão do Iraque, o senador Robert
Byrd perguntou de forma memorável: "Por que está esta câmara vazia?"
Na Casa dos Representantes, o número que enfrenta uma eleição genuinamente
competitiva a cada dois anos é tipicamente menos de uma dúzia em 435.
E demasiados eleitos vieram a acreditar que a chave para o acesso contínuo ao
dinheiro para a reeleição é permanecer do lado bom daqueles que têm dinheiro
para dar e, no caso do partido majoritário, a totalidade do processo é em
grande medida controlada pelo presidente eleito e a sua organização política.
De modo que a disposição do Congresso para desafiar a administração é ainda
mais limitada quando o mesmo partido controla tanto o Congresso como o Ramo
Executivo.
O Ramo Executivo, cooptou novamente o papel do Congresso, e este muitas vezes
tem sido um cúmplice satisfeito com a entrega do seu próprio poder.
Veja-se por exemplo o papel do Congresso na "fiscalização" desta
campanha maciça de escutas telefónicas ao longo de quatro anos que parece
violar tão frontalmente a Carta dos Direitos. Diz o presidente que ele informou
o Congresso, mas o que ele realmente quer dizer é que conversou com o chairman
e membros do comité de inteligência da Casa e do Senado e com os líderes de
topo de ambas. Este pequeno grupo, por sua vez, reclamou que não lhes foram
dados os factos completos, apesar de pelo menos um dos líderes do comité de
inteligência haver escrito uma carta a manifestar preocupação dirigida a VP
Cheney e ter colocado uma cópia no seu próprio cofre.
Embora eu simpatize com a posição embaraçosa em que foram colocados estes
homens e mulheres, não posso discordar da Liberty Coaltion quando ela diz que
tanto Democratas como Republicanos no Congresso devem partilhar a culpa por não
haver acção para protestar e procurar impedir o que eles consideram um programa
brutalmente inconstitucional.
CORRUPÇÃO INSTITUCIONALIZADA
Além disso, no Congresso como um todo — tanto a Casa como o Senado — o avançado
papel do dinheiro no processo de reeleição, a par de um papel agudamente
diminuído para a deliberação fundamentada e o debate, produziu uma atmosfera
conducente à corrupção institucionalizada difusa (pervasive
institutionalized corruption).
O escândalo Abramoff é apenas o topo de um iceberg gigante que ameaça a
integridade de todo o ramo legislativo do governo.
É o lamentável estado do nosso ramo legislativo que explica primariamente o
fracasso dos nossos louvados pesos e contrapesos para impedir a perigosa
extensão do nosso Ramo Executivo, a qual ameaça agora uma transformação radical
do sistema americano.
Apelo hoje aos membros Democráticos e Republicanos do Congresso a confirmarem
seu juramento de posse e defenderem a Constituição. Parem de cooperar para se
entenderem com eles. Comecem a actuar como o ramo de governo independente e
equivalente (co-equal) que são supostos ser.
Mas há ainda outro actor Constitucional cujo pulso deve ser tomado e cujo papel
deve ser examinado a fim de entender o perigoso desequilíbrio que emergiu com
os esforços do Ramo Executivo para dominar nosso sistema constitucional.
Nós o povo ainda somos — colectivamente — a chave para a sobrevivência da
democracia na América. Nós — como afirmou Lincoln, "mesmo aqui" —
devemos examinar nosso próprio papel como cidadãos ao permitir e não impedir a
chocante decadência e degradação da nossa democracia.
Thomas Jefferson afirmou: "Uma cidadania informada é o único verdadeiro
repositório da vontade pública".
O ponto de partida revolucionário sobre o qual foi baseada a ideia da América
foi a crença audaciosa de que o povo pode governar a si próprio e exercer
responsavelmente a autoridade final em auto-governo. Esta visão decorreu
inevitavelmente do princípio fundamental articulado pelo filósofo iluminista
John Locke: "Todo poder justo é derivado do consentimento dos governados".
O intrincado e cuidadosamente equilibrado sistema constitucional que agora está
em tamanho perigo foi criado com a plena e generalizada participação da
população como um todo. Os Federalist Papers eram, naqueles dias recuados,
ensaios em jornais lidos amplamente, e eles representaram apenas uma das 24
séries de ensaios que encheram o vibrante mercado de ideias no qual fazendeiros
e lojistas recapitulavam os debates que se efectuavam tão frutiferamente em
Filadelfia.
Na verdade, depois de a Convenção ter feito o melhor que pode, foi o povo — nos
seus vários estados — que se recusou a confirmar o resultado até que, por sua
insistência, a Carta de Direitos foi integrada no documento enviado novamente
para ratificação.
E é "Nós o povo" que devemos agora descobrir outra vez a capacidade
que tivemos outrora para desempenhar um papel integral para salvar nossa
Constituição.
O PAPEL NEFASTO DA TELEVISÃO
E aqui há causa tanto para preocupação como grandes esperanças. A era dos
panfletos impressos e ensaios políticos foi há muito substituída pela televisão
— um meio perturbador (distracting) e absorvente que parece determinado
antes a entreter e a vender do que a informar e educar.
O apelo memorável de Lincoln durante a Guerra Civil é aplicável de uma nova
forma ao nosso dilema de hoje: "Devemos libertar-nos (disenthrall) a
nós próprios, e assim salvaremos nosso país".
Quarenta anos se passaram desde que a maioria dos americanos adoptou a
televisão como sua fonte de informação principal. Seu domínio tornou-se tão
extenso que virtualmente toda comunicação política significativa agora tem
lugar dentro dos limites de ininterruptos anúncios televisivos de 30 segundos
E a economia política apoiada por estes curtos mas caros anúncios de televisão
é tão diferente da vibrante política do primeiro século da América quanto as
políticas foram diferentes do feudalismo que prosperou sobre a ignorância das
massas de povo na Baixa Idade Média (Dark Ages).
CONTROLE DO FLUXO DE INFORMAÇÃO
O constrangido papel das ideias no sistema político americano de hoje encorajou
esforços do Ramo Executivo para controlar o fluxo de informação como meio de
controlar os resultados de importantes decisões que ainda repousam nas mãos do
povo.
A administração afirma vigorosamente seu poder de manter o segredo das suas
operações. Depois de tudo, os outros ramos não podem controlar um abuso de
poder se não souberem o que está a acontecer.
Por exemplo: quando a administração estava a tentar persuadir o Congresso a
aprovar o benefício da Medicare de prescrição de droga, muitos na Casa e no
Senado levantaram preocupações acerca do custo e da concepção do programa. Mas,
ao invés de se empenhar em debate aberto com base em dados factuais, a
administração reteve factos e impediu o Congresso de ouvir testemunhos que
provinha do principal perito da administração que havia compilado informação
mostrando antes da votação que na verdade os verdadeiros custos estimados eram
muito mais elevados do que os números apresentados ao Congresso pelo presidente.
Privado daquela informação, e acreditando nos números falsos dados em seu
lugar, o Congresso aprovou o programa. Tragicamente, toda a iniciativa está
agora a entrar em colapso — por todo o país — com a administração a fazer um
apelo exactamente neste fim de semana às grandes companhias de seguros para
voluntariamente virem em socorro.
Vamos ver outro exemplo: advertências científicas acerca das consequências
catastróficas o aquecimento global descontrolado foram censuradas por um
nomeado político da Casa Branca que não tem treinamento científico. E hoje foi
ordenado a um dos principais peritos da NASA acerca do aquecimento global que
não falasse com representantes da imprensa e que mantivesse um registo
cuidadoso de toda a gente com que se encontrasse de modo a que o Ramo Executivo
pudesse monitorar e controlar suas discussões acerca do aquecimento global.
A LINGUAGEM E A POLÍTICA DO MEDO
Outra forma como a administração tem tentado controlar o fluxo de informação é
através do recurso sistemático à linguagem e a política do medo a fim de
curto-circuitar o debate e levar a sua agenda adiante sem considerar as
evidências ou o interesse público. Como disse o presidente Einsenhower,
"Qualquer um que actue como se a defesa da liberdade tivesse de encontrada
na opressão, suspeição e medo está a confessar uma doutrina que é estranha à
América".
O medo expulsa a razão. O medo suprime a política do discurso e abre a porta à
política da destruição. Justice Brandeis escreveu outrora: "Os homens
temem as feiticeiras e queimam mulheres".
Os fundadores do nosso país enfrentavam terríveis ameaças. Se eles fracassassem
nos seus esforços, teriam sido enforcados como traidores. A simples existência
do nosso país constituiu um risco.
Mas, mesmo nos dentes daqueles perigos, eles insistiram em estabelecer a Carta
dos Direitos.
Estará hoje o nosso Congresso em maiores perigos do que estiveram os seus
antecessores quando o exército britânico estava a marchar sobre o Capitólio?
Estará o mundo perigoso do que quando enfrentávamos um inimigo ideológico com
dezenas de milhares de mísseis prontos a serem lançados contra nós e aniquilar
o nosso país em poucos instantes? Estará a América em maior perigo agora do que
quando enfrentávamos o fascismo em avanço por todo o mundo — quando nossos pais
combateram e venceram duas Guerras Mundiais simultaneamente?
É simplesmente um insulto àqueles que vieram antes de nós e sacrificaram-se
tanto em nosso benefício insinuar que temos mais razões para estarmos receosos
do que ele. Mas eles protegeram fielmente nossas liberdades e agora devemos
estar prontos para fazer o mesmo.
Como americanos temos o dever de defender o direito dos cidadãos não só à vida
como também à liberdade e à busca da felicidade. É portanto vital nas nossas
actuais circunstâncias que sejam tomados passos imediatos para salvaguardar
nossa Constituição contra o actual perigo colocado pela ultrapassagem intrusiva
da parte do Ramo Executivo e pela crença aparente do presidente de que não
precisa viver sob a regra da lei.
Endosso as palavras de Bob Barr, quando disse: "O presidente desafiou o
povo americano a fazer algo acerca disto. Para o bem da Constituição, espero
que o faça".
Um conselho especial deveria ser nomeado imediatamente pelo Procurador Geral a fim
de remediar o óbvio conflito de interesse que o impede de investigar o que
muitos acreditam serem sérias violações da lei cometidas pelo presidente.
Tivemos uma demonstração recente de como uma investigação independente feita
por um conselho especial com integridade pode reconstruir a confiança no nosso
sistema de justiça. Patrick Fitzgerald, segundo a opinião geral, não mostrou
nem medo nem favoritismo ao investigar alegações de que o Ramo Executivo violou
outras leis.
Tanto os membros republicanos como democratas do Congresso deveriam apoiar o
apelo bipartidário da Coligação da Liberdade para a nomeação de um conselho
especial para investigar as questões criminais levantadas pelas escutas de
americanos efectuadas sem permissão por parte do presidente.
Segundo, novas protecções a informantes deveriam ser estabelecidas de imediato
para os membros do Ramo Executivo que relatem evidências de transgressões —
especialmente onde elas envolvem o abuso de autoridade do Ramo Executivo nas
áreas sensíveis da segurança nacional.
Terceiro, ambas as Casas do Congresso deveriam organizar audiências abrangentes
— e não apenas superficiais — quanto a estas sérias alegações de comportamento
criminal por parte do presidente. E elas deveriam seguir as provas aonde quer
que conduzam.
Quarto, os extensos novos poderes requeridos pelo Ramo Executivo na sua
proposta de estender e ampliar o Patriot Act não deveriam, sob nenhumas
circunstâncias, serem concedidos, a menos e até que haja salvaguardas adequadas
e forçosas para proteger a Constituição e os direitos do povo americano contra
as espécies de abusos que foram recentemente revelados.
CUMPLICIDADE DAS COMPANHIAS TELEFÓNICAS
Quinto, qualquer companhia de telecomunicações que proporcione ao governo
acesso a informação privada referente a comunicações de americanos sem uma
garantia adequada deveria imediatamente cessar e desistir da sua cumplicidade
nesta invasão aparentemente ilegal da privacidade de cidadãos americanos.
A liberdade de comunicação é um pre-requisito essencial para restaurar a saúde
da nossa democracia.
É particularmente importante que a liberdade da Internet seja protegida tanto
contra a intrusão do governo como contra os esforços de controle por parte dos
grandes conglomerados de media. O futuro da nossa democracia depende disto.
Mencionei que juntamente com motivos de preocupação há razões para esperança.
Ao falar aqui hoje estou cheio do optimismo de que a América esteja na véspera
de uma era dourada na qual a vitalidade da nossa democracia será restabelecida
e florescerá mais vibrantemente do que nunca. Na verdade, posso sentir isto
neste salão.
Como disse outrora o Dr. King: "Talvez um novo espírito esteja a ascender
entre nós. Se assim é, vamos seguir seus movimentos e orar para que o nosso
próprio ser interior possa ser sensível à sua orientação, pois estamos
profundamente precisado de um novo caminho para além da escuridão que parece
fechar-se em torno de nós".
Notas
[1] Red Scare: períodos de medo geral dos comunistas, na década de 1920 e de
1950
[2] Palmer Raids: Assaltos na década de 1920 ordenados pelo Procurador Geral
Mitchell Palmer contra suspeitos de socialismo, que eram aprisionados e muitas
vezes deportados.
O original encontra-se em http://www.informationclearinghouse.info/article11584.htm
Este discurso encontra-se em http://resistir.info/
.