ESPECIAL
20 de janeiro de 2006
Agenda tucana para o Brasil prevê retomada da
ALCA e privatizações
Em meio à disputa para
definir quem será seu candidato à presidência da República, tucanos começam a
debater linhas gerais de seu programa de governo. Entre as propostas estão a
retomada das privatizações e das negociações com EUA para a criação da Área de
Livre Comércio das Américas (Alca).
Marco Aurélio Weissheimer - Carta Maior
16/01/2006
Porto Alegre - Reforma trabalhista
radical, com corte de encargos e direitos; privatização de todos os bancos
estaduais; fusão dos ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário;
adoção da política do déficit nominal zero; redução de despesas
constitucionalmente obrigatórias em áreas como saúde e educação; menor peso ao
Mercosul e retomada das negociações da Área de Livre Comércio das Américas
(Alca): essas são algumas das idéias defendidas por um grupo de especialistas
que vem se reunindo com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), com
o objetivo de desenhar o esboço de um eventual programa de governo.
Em matéria publicada em 9 de janeiro, o jornal Valor Econômico anunciou:
“Alckmin toma aulas para campanha”. Segundo a matéria, o ex-presidente do BNDES
e ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros já se destaca como provável homem
forte da “República dos Bandeirantes”.
Já participaram de reuniões da “República dos
Bandeirantes”, entre outros: Luiz Carlos Mendonça de Barros (ex-ministro das
Comunicações de FHC), Armínio Fraga (ex-presidente do Banco Central), Paulo
Renato de Souza (ex-ministro da Educação de FHC), Roberto Giannetti da Fonseca
(empresário, ex-secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior), Sérgio
Amaral (ex-ministro do Desenvolvimento e ex-porta-voz da Presidência da
República durante o governo FHC), Xico Graziano (ex-presidente do Incra e
ex-secretário da Agricultura de São Paulo), Arnaldo Madeira (ex-líder de FHC na
Câmara e atual secretário da Casa Civil de SP), Raul Velloso (especialista em
contas públicas) e José Pastore (sociólogo, especialista em relações do
trabalho). As “aulas” deste grupo a Alckmin têm um objetivo claro: “o
governador está em processo de entendimento dos problemas nacionais”, disse
Mendonça de Barros ao Valor.
Déficit nominal zero
Repercutindo o mesmo tema, a Folha de São
Paulo publicou em 10 de janeiro: “Alckmin já prepara plano econômico”. A
matéria também fala das reuniões da “República dos Bandeirantes”, destacando
conversas de Alckmin com Armínio Fraga e o economista Yoshiaki Nakano, da
Fundação Getúlio Vargas (FGV). Segundo a Folha, “Alckmin pretende
utilizar na campanha as lições que tem recebido”. “Ele tem defendido, por
exemplo, a idéia de déficit nominal zero, uma proposta antiga de Yoshiaki
Nakano, um dos seus interlocutores mais freqüentes”, acrescenta. Segundo essa
proposta, o governo teria que ter receitas para pagar todas as suas despesas,
incluindo aí os gastos com juros da dívida pública. Como não há espaço para
aumento da carga tributária, a proposta prevê o corte de despesas pelo governo
e o aumento do limite de desvinculação de receitas da União.
Além de procurar “entender os problemas
nacionais”, Alckmin também teria como objetivo, através das reuniões, demarcar
aquela que seria uma de suas principais diferenças em relação ao prefeito de
São Paulo, José Serra, outro líder tucano que postula a candidatura à
presidência da República. Serra seria centralizador e Alckmin um gestor moderno
que governaria com especialistas.
As idéias dos especialistas ouvidos por
Alckmin dão uma idéia da agenda tucana para o país que está em construção.
Roberto Giannetti da Fonseca, por exemplo, segundo a reportagem do Valor
Econômico, é “pouco simpático ao Mercosul no formato atual, cobra evolução
mais rápida dos acordos comerciais com a Alca e as negociações com a União
Européia”. Já o sociólogo José Pastore “propõe uma reforma trabalhista radical,
com corte de encargos e direitos”. Além disso, é um crítico da obrigatoriedade
do abono de férias e o pagamento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço
(FGTS) no formato atual. O deputado Xico Graziano, por sua vez, defende a fusão
dos Ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário e a criação de uma
agência reguladora voltada exclusivamente para o agronegócio. E Raul Velloso
propõe a redução de despesas constitucionalmente obrigatórias em áreas como
saúde e educação.
"Choque de gestão" e privatizações
Apontado como “homem forte” do grupo, Luiz
Carlos Mendonça de Barros defende uma redução mais rápida da taxa de juros para
conter a valorização do real. Considerado um dos principais representantes da
ala desenvolvimentista do governo FHC – que acabou derrotada pela ala do
ex-ministro Pedro Malan – Mendonça de Barros não propõe mudanças profundas em
relação ao modelo atual. Se, por um lado, é crítico da política de juros
praticada hoje pelo Banco Central, por outro, ficou ao lado do ministro da
Fazenda, Antonio Palocci, na recente polêmica com a ministra-chefe da Casa
Civil, Dilma Rousseff, crítica da tese do déficit nominal zero e defensora do
aumento de investimentos nas áreas social e de infra-estrutura. Caso Alckmin
seja o candidato tucano, um dos carros-chefe de seu programa deve ser o
discurso do “choque de gestão” a ser aplicado no Estado brasileiro, proposta
que representa uma variação das teses do estado mínimo.
Outra proposta da agenda tucana para o país
que caminha nesta direção diz respeito às privatizações. Em entrevista
concedida ao jornal O Globo (edição de 15 de janeiro), ao ser indagado
se pretendia retomar a política de privatizações implementada pelo governo FHC,
Alckmin respondeu positivamente e citou os bancos estaduais entre suas
prioridades. “A maioria já foi privatizada, mas deveriam ser todos. Tem muita
coisa que se pode avançar. Susep, sistema de seguros, tem muita coisa que se
pode privatizar”, respondeu. Perguntado se os Correios estariam nesta lista de
empresas privatizáveis, o governador paulista foi mais cauteloso, mas não
descartou a possibilidade. “Correios acho que teria que amadurecer um pouco.
Tem muita coisa que não precisa privatizar”, afirmou sem especificar quais. E,
além das privatizações, acrescentou que pretende valorizar as parcerias
público-privadas em um eventual governo tucano.
Política Externa: prioridade para a
Alca
Mas uma das principais diferenças em relação
ao governo Lula aparece mesmo é no plano da política externa, onde os tucanos
criticam a proximidade com o governo de Hugo Chávez, da Venezuela, e defendem a
retomada das negociações da Alca com os EUA. Após a palestra realizada pelo
presidente George W. Bush, durante sua visita a Brasília, no início de
novembro, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM) elogiou a fala do
líder norte-americano, destacando a questão da Alca.
Na avaliação do senador tucano, essa aliança comercial é de interesse do Brasil
e “deve ser buscada e perseguida e não suportada ou adiada”. Para Virgílio, a
Alca surgirá com ou sem o Brasil. “Sem o Brasil, fará a alegria do México”,
comentou, defendendo que a prioridade da política externa brasileira deveria
fazer um pacto político com os EUA em troca de vantagens comerciais claras,
incluindo aí a queda de barreiras alfandegárias.
Em relação ao governo Chávez, a posição tucana
ficou muito clara nas palavras de Virgílio. Para ele, Chávez só se sustenta na
Venezuela “graças às milícias que procuram intimidar as oposições e ao alto
preço do petróleo”. A simpatia do PSDB em relação à Alca manifesta-se também
através de outras iniciativas. Em 2003, o governador de Minas Gerais, Aécio
Neves, encaminhou correspondência ao presidente Lula apresentando a candidatura
de Belo Horizonte para abrigar a sede permanente da secretaria geral da Alca.
Na carta, Aécio defendeu, entre outras coisas, que o Brasil deveria incluir, na
sua pauta de negociação sobre a criação da área de livre comércio hemisférica a
proposta de trazer para cá a sede da organização. “A questão da cidade-sede da
área de livre comércio torna-se particularmente estratégica. São evidentes os
ganhos oriundos de abrigar a Alca não apenas para Minas Gerais, mas para todo o
Brasil”, escreveu o governador mineiro. Essas são algumas das idéias e
prioridades que estão sendo alimentadas no ninho tucano para disputar o voto
dos brasileiros este ano.