ESPECIAL
21 de janeiro de 2006
Kennedy: conspiração em Hamburgo
POR GABRIEL MOLINA
UM dos objetivos colaterais do assassinato do presidente John F. Kennedy foi banir a Revolução Cubana.
Mas esse fim não foi conseguido e eis a razão secreta para que, 42 anos depois, a conspiração continue existindo. Por acaso, a última maquinação coincide com o anúncio da possível libertação do terrorista Posada Carriles e vem de ressalto da Alemanha: Hamburgo, 3 de janeiro (DPA).— Um documentário da televisão pública alemã, ARD, responsabiliza o serviço secreto cubano pelo assassinato do presidente estadunidense John F. Kennedy, em Dallas, Texas, em 1963.
Wilfried Huismann, diretor do documentário, é o instrumento de turno que afirma, segundo a agência alemã: "Foi a vingança de Castro pela tentativa da CIA de assassiná-lo com uma esferográfica envenenada".
Essa não é uma acusação desprezível. O estarrecedor magnicídio teve tamanho impacto no mundo que ainda hoje, ao ser evocado, se pergunta onde estava cada um nesse momento.
Eu estava, em 22 de novembro de 1963, no pitoresco restaurante La Percherie, no porto de Argel, e me dispunha a degustar os excelentes caracóis da casa, com Helen Klein, a norte-americana chefa da imprensa do presidente Ahmed Ben Bella. De repente, soubemos da terrível notícia.
"O presidente Kennedy foi assassinado..! Agora vão culpar Cuba", disse logo.
Acho que você está exagerando", respondeu-me.
Rapidamente, fomos para a agência Prensa Latina, na rua Claude Debussy número 26, onde eu trabalhava como correspondente, para ter mais informações. Lá confirmei que as diferentes agências repetiam que o governo cubano era o responsável pelo magnicídio. Surpreendida, Helen me perguntou como tinha adivinhado.
"Não sou adivinho, não" — expliquei — "Cuba é para os Estados Unidos a causa de todo o mau. Um pouco de histeria e também porque estão procurando uma justificativa para tentar esmagar-nos".
Porém, poucas horas depois, a acusação sumiu com a mesma rapidez com que tinha sido veiculada. Na hora, tudo ficou no mistério.
Quinze anos depois, em Washington, pela enéssima vez flutuava no ar a mesma acusação. O Comitê Especial criado para investigar os assassinatos do presidente John F. Kennedy, do seu irmão Robert e de Martin Luther King manejava muitas teorias acerca do assassinato do presidente dos Estados Unidos. De novo, a mídia manipulava o tentativa de levantar suspeitas sobre o governo de Cuba.
Um jornalista de Washington, muito ligado ao FBI, revelou-me confidencialmente que a versão saiu originalmente da CIA, a qual distribuiu uma nota afirmando que Lee Harvey Oswald tinha cometido o magnicídio às ordens do governo cubano. Acrescentou que, depois, o FBI ordenou retirar a acusação da mídia.
Quando perguntei ao veterano jornalista por que o FBI tinha desautorizado a CIA, ele explicou que acharam que era uma irresponsabilidade que poderia ter desencadeado fatos imprevisíveis, como uma Terceira Guerra Mundial.
A primeira investigação importante do assassinato foi feita pela Comissão Warren, a qual examinou essa teoria e a descartou, expressando que "não houve tal conspiração".
Porém, a partir de 1967, a coluna jornalística de Drew Pearson e Jack Anderson, lançou novamente acusações idênticas. A mídia subia o tom, apontando para Cuba cada vez que apareciam novas evidências envolvendo o stablishment, dizendo que Oswald não tinha atuado sozinho. Devemos destacar que, durante sua carreira, Anderson esteve muito próximo da CIA. Reuniram-se tantas evidências que o Congresso decidiu criar um Comitê Especial, presidido pelo congressista afro-norte-americano Louis F. Stokes, para investigar os assassinatos de John F. Kennedy, seu irmão Robert e Martin Luther King. Após um ano de árduas investigações, o Comitê Stokes chegou a interessantes conclusões.
Entre seus achados figura no Capítulo C, alínea 2: "O Comitê acha, com base em evidências avaliáveis, que o governo cubano não esteve envolvido no assassinato do presidente Kennedy".
Após pesquisar nos Estados Unidos e em Cuba sobre as causas do assassinato, foram determinadas, entre outras, as intenções do presidente Kennedy de normalizar as relações com Cuba, além de outras não menos importantes razões de política interna.
O IMORAL CONLUIO CIA-MÁFIA
O Comitê Especial chegou à conclusão de que Carlo Marcello, chefão de Nova Orleans e parte do Texas, Santos Trafficante, da Flórida e James Hoffa, presidente do grêmio de caminhoneiros, "tinham motivos, meios e oportunidades para assassinar o presidente Kennedy".
Trafficante era um alvo vital na luta da administração Kennedy contra o crime organizado. Seu nome aparecia numa lista dos dez sujeitos principais a serem investigados e combatidos.
Quando Robert Kennedy soube do imoral conluio CIA-máfia, proibiu aos funcionários envolvidos recorrer de tais associações sem informar-lhe. Mas eles continuaram fazendo-o, sob a diretoria de Richard Helms.
O relatório do Comitê expõe que a posição de Trafficante no crime organizado, no narcotráfico e seu papel como enlace principal da máfia com criminosos dentro da comunidade de exiliados cubanos lhe davam a capacidade de armar uma conspiração para assassinar o presidente Kennedy, como tentou fazer anteriormente contra Fidel Castro.
O Comitê afirma que houve uma possível conexão entre Trafficante e Jack Ruby, especialmente em Havana, em 1959, quando Ruby servia como correio dos interesses da Cosa Nostra para transferir fundos da capital cubana para Miami. Cuba forneceu as provas.
Porém, o Comitê não conseguiu achar evidências diretas de se, tanto Trafficante quanto Marcello, foram executores diretos do assassinato do Presidente. Nova Orleans, capital do império de Carlo Marcello, se tinha convertido em palco de conspirações terroristas. Era freqüentada por personagens como Orlando Bosch, Luis Posada Carriles, os irmãos Ignacio e Guillermo Novo Sampol, Eladio del Valle, Jorge Mas Canosa, Herminio Díaz e outros. No mesmo prédio onde se reuniam, Oswald desenvolvia uma enganosa atividade de apoio a Cuba.
O Comitê Especial confirmou ainda, a teoria de que estes terroristas de origem cubana conspiraram, como indivíduos, para levar a cabo o crime. Os mesmos que se aliaram para atentar contra Fidel Castro o fizeram para matar Kennedy. Pouco antes de ter sido assassinado, John Roselli disse ao jornalista Jack Anderson que cubanos da gangue de Trafficante tinham participado do magnicídio. No relatório, admite-se que "os anticastristas estavam frustrados, amargurados e furiosos", e direcionavam seus ressentimentos contra Kennedy
Pois este, poucos dias antes de ser assassinado, tinha encarregado a William Atwood discutir com representantes cubanos nas Nações Unidas a possibilidade de normalizar as relações. O delegado cubano nessas conversações foi Carlos Lechuga, nessa época embaixador na ONU. O assessor de Segurança de Kennedy, McGeorge Bundy, manifestou que o presidente queria, para quando retornasse de Dallas, um relatório sobre o andamento dessas conversações. Ainda depois de morto seu irmão, Robert Kennedy também tentou suprimir as medidas contra Cuba, mas o novo presidente, Lyndon Johnson o impediu.
O Comitê Stokes confirmou que os contatos de Oswald nos Estados Unidos eram com contra-revolucionários de origem cubana e decidiu examinar abertamente esses aspectos não investigados pela CIA, aliada aos cubano-americanos. Decidiu examinar com rigor os grupos que, além da motivação, tinham a capacidade e os recursos para se envolverem no assassinato.
Existiam muitas organizações terroristas no período compreendido entre o triunfo da Revolução cubana e o assassinato de Kennedy. E determinou-se que pelo menos duas delas; Alpha 66 e a chamada Junta Revolucionária Cubana (JURE) podem ter tido ligações com Oswald.
O Comitê Stokes escutou o depoimento de Marita Lorenz, uma bela espia recrutada por Frank Sturgis, que relatou um encontro ao que assistiu em Miami, no lar de Orlando Bosch, com a presença de Pedro Luis Díaz Lanz e Oswald, planejando uma viagem a Dallas. Acrescentou que, em 15 de novembro, ela viajou para essa cidade em dois carros, com Orlando Bosch, Sturgis, Díaz Lanz, Oswald, Gerry Hemming e os irmãos Novo Sampol. Nos quartos do hotel onde se alojaram havia vários fuzis e receberam a visita de Jack Ruby, mais tarde assassino de Oswald. Mais recentemente, Lorenz disse que Howard Hunt (Eduardo para os cubanos) entregou dinheiro a Sturgis, em 21de novembro, para uma operação que não lhe disseram qual era e retornou a Miami duas ou três horas depois do atentado.
PHILLIPS, PROTAGONISTA DO TRABALHO SUJO
Antonio Veciana, fundador da Alpha 66, declarou ao Comitê que, dentro do contexto de suas atividades contra o governo de Cuba, se entrevistou várias vezes com um oficial da CIA que dizia chamar-se Bishop. E que em agosto de 1963, em Dallas, Texas, este contactou com ele em um prédio de repartições, acompanhado de uma pessoa, que identificou depois da morte de Kennedy como Lee Harvey Oswald.
Mais tarde, Veciana confessou ao escritor Gaeton Fonzi que o nome do oficial Bishop era David Atlee Philips, que trabalhou em Havana para a CIA, sob fachada de empresário, na rua Humboldt 106, apartamento 502. Atlee Philips-Bishop foi, a partir de 1960, em Miami, chefe de propaganda da invasão pela Baía dos Porcos, em 1961, junto de Howard H. Hunt, principal organizador do escândalo Watergate, em 1974. Em 1954, ambos dirigiram o complô para derrotar o governo de Jacobo Árbenz, na Guatemala. Os serviços da contra-espionagem cubana confirmaram a identidade deste oficial da CIA, que organizou os grupos terroristas cubano-americanos que ainda neste ano 2006 chantagéiam o governo de Bush e tentam deixar em liberdade Posada Carriles e sus cúmplices.
Um dos membros do grupo JURE, Silvia Odio, testemunhou em 1964, na Comissão Warren, que um homem que ela identificou através da mídia como o Oswald que matou Kennedy, visitou seu apartamento em Dallas, em setembro de 1963, acompanhado de dois latinos. Acrescentou que os dois hispânicos disseram ser membros da JURE
Um deles deu o nome de Leopoldo e tinha sotaque cubano. O outro, Angelo, parecia mexicano. O terceiro, apresentou-se como Leon Oswald e ela achou mesmo que era Lee Harvey Oswald. A segurança cubana identificou os acompanhantes de Veciana como os irmãos Novo, com um avultado dossiê de assassinatos e de outras ações terroristas.
Silvia fez depoimento semelhante ao FBI e acrescentou que dois dias depois, o homem chamado Leopoldo telefonou novamente expressando que, segundo Leon, eles deviam ter matado Kennedy depois da invasão pela Baía dos Porcos. Dois meses depois, Kennedy era assassinado.
As conclusões do relatório foram que "as declarações de Silvia são ainda acreditáveis e ainda mais quando ela sustentou insistentemente, após quinze anos, os mesmos argumentos".
Nesse mesmo dia prestou depoimento Nicholas Katzenbach, ex-secretário da Justiça da administração Johnson, quem aludiu a atritos internos e mau relacionamento entre a CIA e o FBI, durante a época da investigação.
RICHARD HELMS CONFESSOU QUE OS ASSASSINATOS DA CIA ERAM "AÇÃO
POLÍTICA"
No dia seguinte, 22 de setembro, o ex-diretor da CIA, Richard Helms, provocou a indignação de alguns congressistas e espanto na maioria, ao comparecer durante sete horas no Comitê Seleto para responder indagações sobre a efetividade da investigação feita pela CIA depois do assassinato e se forneceu a outros a informação relevante que tinha. Na hora do assassinato Helms era chefe do Serviço Clandestino da CIA e o presidente Johnson o nomeou vice-diretor da CIA um ano depois. E diretor em 1966.
O congressista Christopher J. Dodd perguntou se a Comissão Warren tinha sido informada das tentativas de assassinar Fidel Castro, e se mostrou contrariado pelos contatos entre a máfia e a Agência. Helms respondeu que a Comissão Warren era só informada dos assuntos que perguntava.
Diante da insistência dos congressistas, disse que as atividades contra a Revolução Cubana incluíram tentativas de destruir usinas termelétricas e açucareiras, incendiar canaviais e outras múltiplas ações terroristas. Acrescentou que essa era uma ação política da que a Agência não era a única culpada, pois o presidente, o Pentágono, o Departamento da Justiça, o da Defesa, o de Estado e o Conselho de Segurança Nacional tinham conhecimento pleno dos planos e os aprovavam.
Alto, de cabelhos grisalhos, meio careca e ar de homem culto, terno bem ajustado, camisa branca com listras azuis e gravata escura, Helms enfrentou seus interrogadores com muita calma e até com sinais de bom humor. Com seu aspecto distinto não era fácil pensar que era o homem que a partir do seu gabinete, dava as ordens de assassinato. Friamente, com asepsia, se referia às criminosas tentativas de cumplicidade com os capangas da máfia.
CONTATOS DE OSWALD COM A CIA VINHAM DE 1960
Um dos documentos utilizados como referência no interrogatório a Helms era o dos primeiros contatos da CIA com Oswald, em 1960, ainda que a Comissão Warrem tivesse sido informada de que nunca houve esses contatos. Um dos memorandos da CIA apresentado expressava que Allen Dulles, apesar de ser membro da Comissão Warren, indicava a seus subordinados a forma de negar as relações da CIA com Oswald.
Helms respondeu essas questões de forma evasiva.
Três dias antes, Thomas J. Kelley e James J. Rowley, inspetor e chefe, respectivamente, do serviço secreto, responsável pela proteção do Presidente, surpreenderam a América do Norte toda ao declararem que apesar de o FBI e da CIA possuírem informações sobre Oswald o Serviço Secreto nunca teve essa informação.
"De outra forma teríamos podido agir no dia da morte do presidente Kennedy", disseram Kelley e Rowley aos integrantes do Comitê Seleto.
Esses e outros achados permitiram ao Comitê chegar à conclusão de que houve falta de cooperação e coordenação entre as diferentes agências do governo, que o Serviço Secreto foi deficiente na hora de proteger o Presidente e ao examinar a informação que possuía. Inclusive, que não contava com pessoal suficiente para uma proteção adequada.
No capítulo 5 afirma-se que não estiveram envolvidos nem o Serviço Secreto (da Presidência) nem o FBI nem a CIA. Mas foram criticados por não terem examinado, investigado, usado nem trocado adequadamente informações que possuíam sobre as ameaças e perigos em torno da viagem do Presidente a Dallas.
O relatório recomendava que o Departamento da Justiça continuasse a investigação, pois tinham sido encontradas evidências de uma conspiração em que participavam elementos da máfia italo-norte-americana e grupos mafiosos cubano-americanos. Não se expressava que estes tinham sido historicamente manipulados pela CIA mas se insinuava. E se deixava constância de que não tinham podido chegar a conclusões definitivas porque a CIA se recusou a revelar e decodificar certas informações. Ademais, a CIA foi criticada por não ter investigado com rigor estes grupos de origem cubana sediados em Miami.
Também se tomou em conta na hora de pedir mais investigações ao Departamento da Justiça o fato de que as provas fílmicas e acústicas examinadas motravam a possibilidade de uma segunda pessoa no chão, de onde supostamente disparou Oswald e que, provavelmente, houve mais de um atirador.
Também foi ressaltado que o FBI tampouco investigou depois do magnicídio a possibilidade de uma conspiração e que a CIA foi deficiente, tanto antes quanto depois do assassinato.
Além do mais, a polícia de Dallas e toda a população do Texas, submetida nesses dias a uma intensa propaganda contra Kennedy, também se mostrou incapaz de protegê-lo. O ambiente contra Kennedy chegava a tais extremos que na manhã desse fatídico 22 de novembro de 1963 foram distribuídos panfletos contra o presidente.
O mais agressivo foi publicado em um jornal de Dallas, como anúncio pago de uma página completa, onde aparecia uma foto de Kennedy e um texto provocativo: "Procurado por traição. Este homem é procurado por atividades traidoras contra os Estados Unidos".
Ainda depois do assassinato houve sérios desleixos quando Oswald era transferido. É eloquente a fotografia que mostra dois seguranças olhando para o lado contrário enquanto Ruby se aproxima impunemente para disparar contra o acusado. Assim morreu a pessoa mais indicada para dar a conhecer os motivos e cumplicidades do atentado. Porém, os oficiais que protegiam o detento esse dia não foram demitidos e, ainda, mais tarde foram ascendidos.
Não só Veciana falou das intenções da CIA para vincular o governo de Cuba ao atentado. Foi suspeito para todo mundo que inclusive antes do atentado a CIA tentasse identificar Oswald com a Ilha e chegou até constranger uma funcionária mexicana do consulado de Cuba na Cidade do México, Silvia Durán Tirado, para que corroborasse essa versão. A valente mulher se recusou.
As acusações contra Cuba se mantiveram viventes até que foram descartadas pelo Comitê Stokes, em 1978, após fazer investigações no México e em Havana, onde se entrevistaram com o presidente Fidel Castro. Nas conversações participou como testemunha o senhor Eusebio Azcue, cônsul cubano no México, quem negou o visto a Oswald para viajar a Cuba, poucas semanas antes do atentado, apesar da forte insistência deste. Quem sabe o que teria provocado essa visita?
Esta sessão nos levou a perguntar o que queria dizer exatamente o presidente Kennedy quando confiava a seu colaboador Clark Clifford, pouco depois da invasão pela Baía dos Porcos: "Algo mau está acontecendo no seio da CIA e quero saber o que é. Quero desfazer a CIA em mil pedaços e jogá-los aos quatro ventos".
Em seu relatório final, o Comitê Stokes assinalou que a CIA se negou a revelar certos documentos importantes. Ao ser interrogado durante uma audiência em 1978, o subdiretor da CIA e assessor nacional de Segurança do presidente Reagan, Frank Carlucci, afirmou que os documentos "vêm de fontes altamente sensitivas e devem ser protegidos".
Uma das provas mais inquietantes e importantes achada pelo Comitê Stokes é a gravação descoberta na polícia de Dallas, em que se escutam quatro disparos e não três, como estabeleceu a Comissão Warren. Esse achado se reafirma com a declaração da esposa do governador Connally de que este foi ferido por um segundo disparo e não pela bala mágica que também feriu o presidente na garganta, como queriam fazer ver.
OS CULPADOS MATERIAIS E INTELECTUAIS
O general Fabián Escalante, um dos que investigou o caso pela parte cubana, expressou que, baseado nas informações dos arquivos da Segurança, alguns depoimentos e análises dos fatos e antecedentes, chegou-se em Havana a conclusões acerca dos culpados, semelhantes às de outros investigadores: a CIA, a máfia e os contra-revolucionários cubanos planificaram e executaram o fato.
Acrescentou que, estudando as descrições de testemunhas do crime, especialmente expostas pelo procurador Garrison, presume-se que os atiradores experientes de origem cubana, Eladio del Valle e Herminio Díaz, foram os encarregados de disparar, escapando depois numa caminhonete Nash Rambler. E que o atentado foi feito por dois grupos, um sob controle de Jack Ruby e o outro de Frank Sturgis, mais tarde chefe dos "canalizadores" de Watergate.
Os participantes por parte da máfia, continuou Escalante, foram Santos Trafficante, Sam Giancana, John Roselli e em menor grau Carlos Marcello e Jimy Hoffa.
Entre os planificadores da CIA mencionou além de David Atlee-Phillips e
Richard Helms, supervisor nessa época das operações anticubanas, o general Cabell, ex-vice-chefe da CIA, Gerry Hemmings e outros oficiais de alta patente.
O escândalo noticiado pela imprensa do mundo todo levou a CIA a declarar que revelaria e tornaria público a maioria dos documentos, conseguindo acalmar os protestos, pois revelar os mesmos seria se auto-incriminar.
Diante da impossibilidade de continuar as investigações, em dezembro de 1978, ao se cumprir o mandato do Congresso o Comitê Stokes sugeriu que o Departamento da Justiça continuasse a investigação até desvendar o enigma.
Por isso, James Carter não podia ser reeleito. Devia ser impedida a reeleição com provocações como o assalto às embaixadas em Cuba que resultaram no êxodo pelo porto de Mariel. E agora, 27 anos após as investigações e 42 depois do assassinato, as administrações de Reagan, Bush, Clinton e Bush Jr., que deviam ter continuado essa tarefa, não fizeram nada.
A documentação mais importante sobre o magnicídio de Dallas se encontra em umas abóbadas, qualificada como informação secreta, dos arquivos da CIA, do FBI e do Pentágono, e não será revelada até o ano 2013.
Nos anos subsequentes ao assassinato, mais de 22 pessoas envolvidas nos fatos morreram de forma mais ou menos misteriosa, entre eles os protagonistas principais: Oswald e Ruby.
Desde 1963 a lista foi crescendo. A esse ritmo, dificilmente ficará viva alguma testemunha. E ainda pior, não estará vivo nenhum dos culpados. Hoje, o tenebroso secreto é transparente para todos menos para aqueles que o tinham de ver. Porque os protagonistas principais do magnicídio ganharam uma terrível ascendência sobre o governo dos Estados Unidos. O alemão Wilfried Huismann é mais um peão neste xadrez. Por isso ignora maliciosamente todas essas fontes. Com esta conspiração em Hamburgo se pretende desviar a atenção da mídia sobre Posada Carriles para libertá-lo. Porque se Posada chegasse a cumprir suas ameaças de dizer tudo aquilo que sabe, o Waterwate de Nixon seria como um epifenômeno de pouca importância diante da perversidade que se esconde. •
KENNEDY,
CONSPIRAÇÃO EM HAMBURGO II
A conexão cubana ainda está
em Miami e Dallas
POR GABRIEL MOLINA
UM repentino silêncio tornou mais severo o ambiente do amplo salão de altíssimo pé direito no Capitólio, Washington, quando caminhando lentamente, entrou pela larga porta aquele homem sessentão, de estatura média, camisa branca, gravata de amplas listas diagonais e chapéu de aba curta.
Santos Traficante Jr., o padrinho da Cosa Nostra do sudoeste da Flórida, tinha perdido muito da segurança e esbeltez de que se orgulhava, vinte anos antes em Havana.
Lembro-me claramente esta cena e a recrio agora, a pesar de que a maioria dos meios de informação do mundo, praticamente desestimaram o documentário da televisão pública alemã, diante das evidências sobre o magnicídio obtidas numa investigação séria como a do Comitê Seleto do Congresso dos EUA. Vale a pena voltar ao tema, pois em Miami insistem, como é natural, pois se trata de um elo de uma cadeia de uma conspiração quase cinquentenária.
Por que um diário sério – pelo menos sua edição da internet – como o mexicano La Jornada, dirigido por minha amiga Carmen Lira, publica um artigo de Eva Usi, que retoma a conexão cubano à maneira de Wilfried Hismann?
Com efeito, há uma conexão cubana, minuciosamente investiga pelo Comitê Seleto. Está de braços com a célebre Cosa Nostra.
O Comitê Especial levou o conhecido chefe mafioso a declarar numa sessão em Washington e este nunca cumpriu uma condenação. O semblante de Santos Traficante adusto, desgostoso porque suas conexões cubanas o colocavam novamente em foco nesse outono de 1978. Mas esta vez se tratava de algo ainda mais perigoso que quando se viu envolvido na investigação do Comitê Church, em 1947 e 1975, ao sair à luz seu recrutamento pela CIA para atentar contra a vida do líder cubano, Fidel Castro.
Agora se tratava de esclarecer (15 anos de pois do assassinato do presidente John F. Kennedy), os evidentes indícios de que tenha existido uma conspiração em vez de um assassino solitário, e a possível participação dos membros da máfia ítalo-norte-americana.
Entre as dezenas de jornalistas e investigadores que cobríamos as Audiências, o comparecimento tinha causado grande expectativa.
O antigo “czar do jogo e do narcotráfico” em Havana, se tinha tornado ainda mais famoso de regresso à Flórida, já que seu império, longe de terminar com o fechamento em 1959 das atividades da máfia em Cuba, se fortaleceu em Miami e se ampliou na América Latina e no Caribe, durante os anos 60 e 70.
Na sessão anterior, a qual Trafficante não quis assistir, seu antigo associado, o milionário José Alemán Jr., filho de um ex-ministro de Educação de Cuba, famoso pela hábil maneira de subtrair fundos do erário público, declarou que seu amigo Trafficante, numa conversa particular em setembro de 1962, lhe tinha confiado que o presidente Kennedy ia ser assassinado e que ele lembrou um ano depois, quando ocorreu o magnicídio. Alemán confirmou suas primeiras declarações, mas mudou os termos. Nesta nova versão, disse que o Padrinho lhe teria dito “Kennedy ia ser golpeado” e poderia talvez, querido dizer que “ia ser atacado por uma quantidade de votos republicanos” nas eleições de 1964, não que “que ia ser assassinado”.
Diante da insistência dos congressistas, Alemán disse que temia por sua vida e que por isso tinha pedido proteção para declarar no Comitê. Efetivamente, dois homens da polícia federal, sentados atrás dele, de frente para a audiência, percorria o local com olhos alertas.
Um pouco acossado pelos interrogatórios, muito excitado, Alemán levantou o voz para dizer: Eu informei isto às autoridades. Falei com membros do FBI e lhes disse que algo irregular estava ocorrendo com o presidente Kennedy. Eu informava tudo o que acontecia então, ao FBI. Depois, me disseram que não me preocupasse, que Oswald era um assassino solitário.
O interrogatório de Santos Trafficante Jr. Começou pelo tema de sua participação nas tentativas de assassinato do líder da Revolução Cubana, Fidel Castro. Admitiu que foi recrutado pela CIA para esse complô.
Ao começar a audiência, o dom da Flórida disse que apelaria para a Quinta Emenda da Constituição para não prestar declaração. O congressista Richardson Preyer, que presidiu a sessão para que Louis Stokes levasse o peso das perguntas, manifestou que se lhe concedia a imunidade sobre os possíveis delitos cometidos neste assunto, que o obrigava a testemunhar.
Trafficante afirmou que se tinha dedicado ao negócio do jogo, mas que agora estava aposentado. Disse que viveu em Havana até 1959, quando os cassinos eram legais em Cuba. Admitiu que só possuía três: Sans Souci, Comodoro e Deauville. A uma pregunta de Stokes declarou que até 1958, entregavam ao governo do ditador Batista 50% das rendas das máquinas traga-níqueis e de outros jogos.
O Padrinho acrescentou que no acampamento de Tiscornia em Havana, onde foi internado em 1959, estiveram outros amigos dele como Giuseppe di Giorgi e Jack Lansky, irmão de Meyer. Não quis precisar quanto dinheiro significavam seus investimentos em Cuba. Mas Stokes disse que Ricardo Escartín, do Escritório de Interesses de Cuba em Washington, forneceu ao Comitê a informação somente o Havana Riviera produzia US$ 25 milhões anuais. Trafficante replicou que não tinha negócios no Riviera. De fato, ele não aparecia como dono, mas o manejava com Meyer Lansky, que aparecia no quadro de trabalhadores como “auxiliar de cozinha”.
A respeito das tentativas de assassinato de Fidel Castro, Trafficante agregou que o primeiro em fazer contato com ele, por encargo da Cia, foi John Roselli, chefão influente no mundo do espetáculo e, mais tarde, Sam Giancana, dom de Chicago. Nos momentos em que prestava declaração no Comitê da Câmara, Trafficante, que naquele momento, era o único sobrevivente dos três chefes mafiosos recrutados pela CIA para o assassinato do presidente de Cuba, faleceu anos depois de morte natural.
Roselli tinha continuado enredando-se com a justiça e alegando sua colaboração com a CIA para não ser encarcerado.
Giancana, de sua parte, foi condenado a prisão em 1964. Contudo, menos de dois anos depois, na apelação do caso, veio de Washington uma mensagem enviado pelo próprio secretário de Justiça, Katzenbach, de que devia ser libertado, sem mais explicação. Ao sair da prisão, o dom de Chicago foi para o México, cumprindo talvez o acordo através do qual se libertou. Ali permaneceu até julho de 1974. Em 1975, Giancana tinha feito sua primeira declaração no Comitê Church e se preparava para outros comparecimentos, desta vez no Comitê Especial do Congresso que investigava o magnicídio de Kennedy. Mas, não pôde. Foi encontrado num charco de sangue em sua residência de Oak Park Illinois, com um tiro na boca e cinco no pescoço. Meses depois o cadáver de Roselli apareceu dentro de um barril no rio. Trafficante negou ter dito que iam “golpear” Kennedy e que houvesse estado envolvido no assassinato do presidente.
Quando o chefão de sobrenome autocrítico saiu da sala acompanhado de seu jovem advogado, nós,os jornalistas fomos atrás dele. Mas seu advogado se encarregou de afastar-nos. Não disse nada mais. As sessões continuavam.
Com suas investigações, o Comitê chegou à conclusão de que Jack Ruby – autor da morte de Oswald – tinha efetivamente vinculação com o crime organizado e com Trafficante, a pesar de sua negativa..
A conclusão provém, entre outras provas, das chamadas telefônicas realizadas por Ruby em 1963, que foram de entre 25 e 35, em maio, até 96 nos primeiros 24 dias de novembro. A maioria foi feita para membros da máfia e a seus associados.
Entre junho e setembro de 1963, Ruby ligou sete vezes para Lewis J. McWillie, íntimo associado de Traficante e Meyer Lansky, e em 1959 o visitouvárias vezes em Havana. McWillie operava o casino de jogo do cabaré tropicana. As autoridades revolucionárias de Cuba entregaram os bilhetes de imigração onde estavam registradas as entradas e saídas do assassino de Oswald. Ruby também ligava para Irwin S. Wwiner enlace entre n“a máfia de Chicago, a N. J. Pecora, segundo de Marcello em Nova Orleães e para vários corruptos dirigentes sindicais”. O Comitê também possuia evidências de que Ruby dirigia cabarés em Dallas, e atuava como testa-de-ferro da máfia de Chicago.
Ruby também manteve contatos freqüentes com Lenny Patrick, da máfia de Chicago e principal lugar-tenente de Giancana.
Também Ruby se vinculou com David Yaras, executor da máfia que admitiu tê-lo conhecido em 1964, e com David Ferrie, de origem cubana, piloto de Marcello, que pela sua vez via em Nova Orleães a Lee Oswald. Segundo os achados do Comitê, Ferrie, que era contratado pela CIA, relacionava-se também com Oswald no Escuadrão Falcon da Patrulha Civil Aérea e num famoso escritório de Nova Orleães, p 544 Camp Street, onde também trabalhavam mebros dos grupos que atuvam contra a Revolução Cubana. Como Guy Banister. Lá mesmo Oswald tinha seu escritório inscrito enganosamente como de Fair Play (Jogo Limpo) com Cuba.
Ferrie estava em Dallas no dia em que mataram Kennedy e esteve preso sob investigação a respeito do assassinato.
Em 1959, junto ao desertor do exército cubano, Pedro Luis Díaz Lanz, Ferrie participou do primeiro bombardeamento dos Estados Unidos contra Havana, pilotando ambos um B25, numa operação preparada por Eladio del Valle, homem de confiança de Traficante, como Herminio Díaz. Yaras, Ferris e del Valle foram misteriosamente assassinados pouco depois do magnicídio.
O capitão Jack Revill, da policia de Dallas, em seu depoimento perante o Comitê disse que Ruby tinha contatos com os mafiosos, porém não estava comprometido como membro.
Depois de estabelecida nas audiências a falta de cuidado da policia de Dallas, que chegou até anunciar publicamente o translado de Oswald e deixar passar Jack Ruby , cujos contatos com os mafiosos eram conhecidos, perguntaram a Jack Revill que se alguns policiais envolvidos no escandaloso fato tinham sido castigados ou criticados. — Que eu saiba, não — respondeu Revill ao congressista Edgar, o que provocou um profundo e eloquente silêncio.
Os jornalistas Lázaro Barredo e Raíl Taladrid lembraram há uns dias no jornal Granma a conexão de George Bush pai com os pandilheiros cubanos chefãos de Miami, começando por Félix Rodríguez, que nesse momento dirigia ao então fugitivo do cárcere venezuelano Luis Posada Carriles, a troca de droga por armas para os contra nicaragüenses. Também Jeb Bush, irmão do atual presidente George Bush II e atual governador da Flórida, foi parte essencial no asseguramento da saída da prisão de cubanos convictos por crimes terroristas, segundo o livro Cuba Confidencial: Amor y Venganza en La Habana y Miami, escrito pela jornalista Louise Bardach, ganhadora de prêmios em jornalismo investigador, que se tem destacado por seus trabalhos sobre Cuba e Miami, por encargo do New York Times e Vanity Fair. Repercutiu notavelmente a entrevista que fez a Luis Posada Carriles para o NYT.
“A familia Bush fez suas as exigências dos exilados cubanos extremistas em troca de aopio financeiro e eleitoral”, segundo a resenha do livro publicada em The Guardian
Em 1984 Jeb Bush, nessa altura chefe do Partido Republicano no condado da Flórida, começou uma estreita associação com Camilo Padreda, ex-oficial da inteligência da ditadura batistiana, chefe financeiro de dito partido, acusado por malversar US$ 500 mil junto com Hernández Cartaya, outra personagem de origem cubana, mas as denúncias não foram levadas em consideração depois que a CIA declarou que Cartaya tinha trabalhado para eles. Depois Cartaya se declarou culpável pela defraudação de milhões de dólares ao departamento de desenvolvimento da vivenda e do urbanismo.
O irmão mais jovem do presidente, também nos anos 80, fazia parte do grupo do proeminente corrupto cubano Miguel Recarey, que ajudou a CIA em suas tentativas de assassinar o presidente Fidel Castro. Recarey, administrador dos International Medical Centres, utilizou Jeb Bush como assessor em bens reais pagandolhe US$ 75 mil. O futuro governador da Flórida realizaou um vigoroso e exitoso lobby a favor de Recarey e seu negócio nos governos de Reagan e Bush I.
Recarey foi acusado por uma famosa e maciça fraude ao Medicare, porém fugiu dos Estados Unidos antes do julgamento.
Jeb Bush também foi administrador da campanha política de Ileana Ros-Lehtinen, quando ela conseguiu sua cadeira no congresso, ajudada pelas ameaças de seu esposoo Procurador Lehtinan, de julgar seu perigoso contrário, Raúl Martínez. Ela participou da operação perante a expresidenta panamenha Mireya Moscoso para obter a libertação da pandilha terrorista de Posada Carriles, cujos membros vivem livremente em Miami e ajudam seu chefe. O jornalista Jim DeFede crticou-a por defender Posada e custou-lhe sua saída do Miami Herald há uns meses.
Não devemos esquecer que George Bush I tomou parte na saída da prisão do terrorista cubano Orlando Bosch. Como presidente, concedeu a residência nos Estados Unidos em oposição ao Departamento da Justiça de sua prórpia administração, que o caraterizou como terrorista perigoso. Entre seus crimes está o de ser autor intelectual, junto a Posada, do cruel atentado contra o avião de Cubana que em 1976 viajava a Havana vindo da Venezuela, onde morreram 73 pessoas. Bosch agora mora em Miami e não se arrepende de suas atividades, expressa Bardach.
Outros terroristas cubanos como José Dionisio Suárez e Virgilio Paz Romero, que em 1976 assassinaram o diplomata chileno Orlando Letelier, em Washington, também foram libertados pelos Bush.
O governo de George Bush II anunciou que em maio, a pesar de todos os escândalos financeiros e delitivos que ameaçam a estabilidade de seu governo ou talvez por causa deles, iniciará novas ações para aniquilar a Revolução Cubana mesmo como lhe exigem seus aliados de Miami.
O documentário da televisão alemã, que cincidiu por acaso com a visita a Washington da primeira-ministra Angela Merkel, faz parte desse conjuro. Na tática, uma medida que visa distrair a opinião pública do plano para libertar Posada, da mesma maneira que Posada falaria sobre o trabalho sujo realizado pela Conexão Cubana e provocaria um dano severo ao governo se não o libertassem.
Com respeito à estrategia faz
parte da preparação artilheira para conseguir o grande objetivo denominado
eufemísticamente “transição em Cuba” leiasse recolonização de Cuba.