ESPECIAL
26 de janeiro de 2006
Helio Fernandes
Os problemas da América do Sul
Multinacionais arbitrárias, Forças Armadas complacentes
Nenhuma surpresa que Evo Morales tenha problemas desde o primeiro
dia da posse. Ou melhor: desde a eleição vem sendo pressionado pelas
multinacionais e pelas Forças Armadas. Estas pela suas carreiras, as
multinacionais pelos seus interesses. Na Bolívia, ser eleito contra o sistema
("establishment", como dizem os mais arrogantes, tipo FHC) já é uma
façanha. Tomar posse, a segunda. Governar, a terceira, rigorosamente difícil
como as outras.
Ninguém esperava que "deixassem" Morales ganhar. Mas a
revolta popular era muito grande, venceu no primeiro turno. Houve intermináveis
reuniões nos 30 dias que se seguiram entre a eleição e a posse. 24 horas por
dia, Morales não tinha nem tempo de dormir, era pressionado pelas
multinacionais, que dominam o país há mais de 200 anos.
Dessas empresas estrangeiras, a única que teve compreensão e
serenidade foi a Petrobras. E como é do Brasil, as outras tiveram que recuar, o
objetivo delas era explodir tudo, não dar posse a Morales. O Brasil precisa do
gás da Bolívia, a Bolívia precisa do investimento do Brasil. Isso assustou os
grupos estrangeiros, que resolveram concordar com a posse de Morales. Decidiram
esperar, "ele não pode ir longe". Sabiam que surgiriam problemas
militares, Morales não poderia governar, "seqüestrado por uma casta
corrupta e autoritária".
As multinacionais se retraíram, monitoraram as Forças Armadas,
estas já ameaçavam e ameaçam o presidente da Bolívia desde o primeiro dia.
Morales, de posse de um vasto dossiê, fez uma "limpeza" em regra,
tinha que fazer. Houve então o mesmo espetáculo de insubordinação que acontece
sempre e não apenas na América do Sul. Na Espanha, em 1936, proclamada a
República e empossado o presidente, o general Franco se insubordinou junto com
outros iguais. Resultado: 3 anos de guerra civil, quase 50 de ditadura. Mas
muitos generais ficaram do lado digno e correto, lutaram pela decisão do povo.
No Chile, agora endeusado como "o país que mais cresce na
América", elegeu Salvador Allende na terceira vez em que tentou chegar à
presidência. Tomou posse mas logo os interesses dos EUA e a covardia de muitos
generais (está aí Pinochet que não deixa ninguém se esquecer) providenciaram a
sua derrubada. E ainda mais grave: o assassinato dentro do palácio de onde
deveria governar.
Agora, no primeiro dia do presidente Morales, começam a tocar a
"Traviata", que repetem em todos os países. Até mesmo na quase
potência Brasil. Na ditadura de 1965 a 1985, alguns militares eram mais
poderosos do que outros. Quando Costa e Silva foi considerado
"incapacitado", mas ainda estava vivo, houve eleição na caserna. O
general Albuquerque Lima ganhava sempre. O general Orlando Geisel,
"aristocrata e criativo", vetou o general. Como não tinha o que
alegar, explicou: "Ele só tem 3 Estrelas, eu tenho 4, como posso me
subordinar a ele?" Como não podia se subordinar, a solução era se
insubordinar, o que sempre fez com o maior sucesso.
O espetáculo ameaça se reproduzir na Bolívia. Uma parte muito
grande de generais fica em pânico quando falam em ir para a reserva. E Morales
aposentou 28 deles. O que se espera é que generais que respeitam o povo ajudem
a salvar o país que é deles e de mais ninguém. Dificílimo, o dinheiro das multinacionais
é muito e bastante volumoso. E não apenas na Bolívia.
Agora mesmo, na Argentina, para governar, o presidente Kirchner
teve que fazer acordo até com multinacionais de pastas de dente e de objetos de
limpeza. Uma vergonha. A Unilever, potência americana que engana os argentinos
com mais de 30 produtos, concordou que não aumentará nada em 12 meses. A
Procter & Gamble, ainda mais poderosa, teve seu presidente recebido pelo
próprio Kirchner. E "generosa e compreensiva", fez a mesma concessão.
Agora, em vez de governar, Kirchner vai perder tempo atendendo exigências da
Danone e da Sancor, de laticínios. E outras dezenas de multinacionais estão na
fila para "colaborar" com Kirchner, a Argentina e seu povo. São
prodigiosos em magnitude.
PS - Os generais da tortura na Argentina estão presos ou morreram. O
ditador Pinochet, que comandava pessoalmente a tortura no Chile, é a estrela de
uma novela que cansa o povo do país.
PS 2 - De qualquer maneira, são ou foram punidos. Para as multinacionais
não há punição. Dominam o mercado inteiro, mudam de nome mas a usurpação
continua. 6 bilhões de pessoas no mundo dominadas por algumas multinacionais.
Que vergonha.
Mais um capítulo da novela intitulada "salário mínimo",
exibida todo ano em rede nacional. O único que tem posição consolidada e
convicção aprofundada é o senador Paulo Paim. O presidente Lula e os
remanescentes do bravo PT, que se transformaram nos corruptos do PT-PT,
espalham preocupação e angústia com o problema, mas é tudo fingimento, falam
por falar, não se interessam.
O próprio Lula garantiu: "O reajuste do mínimo vai NOS CUSTAR
(o Estado é ele) mais 6 bilhões anualmente, não A G Ü E N T A M O S.
O presidente também lutou "encarniçadamente", a palavra
é essa, para que em vez de março o novo mínimo só começasse em abril. Tomando
por base o cálculo do presidente, a economia será de 1/12 avos. Ou seja, 500
mil reais anualmente.
Façamos o mesmo cálculo do presidente, e choremos não sobre o
mínimo e sim sobre os juros da "dívida", da interna, só da interna.
Como o Brasil pagou em 2005 180 BILHÕES de juros e este ano haverá
aumento, essa "dívida" chegou a 1 trilhão, a conclusão fácil.
De 12 em 12 dias, o Brasil pagará 6 BILHÕES desses juros. Em 120
dias, 60 BILHÕES. Em 240 dias, 120 BILHÕES. Em 360 dias, 180 BILHÕES. Um
presidente em campanha não suporta esse cálculo.
Não sei o que é preciso fazer para o governo e o PT-PT pararem de
chorar por esses 6 bilhões ANUAIS e começarem a chorar de 12 em 12 dias. Chorar
de vergonha, pela miséria revoltante.
Em todos os depoimentos nas CPIs (mas todos mesmo), ninguém foi
tão desastroso para Lula, Dirceu e o PT-PT quanto o economista Paulo de Tarso.
Insuspeito pessoal, política, financeira, partidária e
"mensalonicamente".
Destruiu tudo o que restava da imagem do PT antigo, agora
definitivamente PT-PT. O desespero de Lula e dos outros "líderes" da
legenda é que não podem ficar trocando hostilidades com ele.
Com o passado que tem e com as denúncias que há anos vem fazendo
dentro do próprio PT, Paulo de Tarso não teve a menor dúvida. Acusou Lula e
Dirceu de tudo o que de catastrófico aconteceu. Falou só nos 2.
De todos os partidos brasileiros, quem tem o DNA mais complicado é
o PMDB. Vem desde a criação do MDB, quando era unido e entrelaçado pelo
espírito de luta, de resistência, de credibilidade.
Mas surpreendentemente quem mostrou um conhecimento superior desse
DNA foi Germano Rigotto. Muito moço, não pertenceu nem conheceu o MDB, mas no
PMDB jogou de forma estrategicamente perfeita.
Age com 3 hipóteses, reeeleição, presidência ou vice agora,
presidência em 2010. Se transformou em nome nacional, está nas manchetes. Muita
gente me perguntava quem é esse Rigotto, agora já sabe.
O PMDB não terá candidato próprio de jeito algum. E se a
verticalização for derrubada (deve ter sido votada ontem, pela madrugada), aí
mesmo que o PMDB nem pensa na candidatura própria. Nunca pensou.
Jornalões interessados em saber quanto custa o Fórum Social de
Caracas. Ninguém tem a menor vontade ou interesse em levantar os custos do
mesmo fórum, só que de Davos, na Suíça, o dos ricos.