ESPECIAL
27 de janeiro de 2006
Crises humanitárias ignoradas pelos meios de comunicação
Para chamar a atenção do mundo para tragédias relegadas ao esquecimento, a ONG Médicos Sem Fronteiras divulgou lista com as dez crises humanitárias mais negligenciadas pela mídia em 2005. Em Uganda, 1,6 milhões amontoam-se em campos de refugiados.
Fernanda Sucupira - Carta Maior 14/01/2006
São Paulo - Países destruídos
por guerras, conflitos internos ou desastres naturais. Regiões afetadas por
constantes ondas de violência, que resultam em milhares – ou milhões – de
deslocamentos forçados e em pessoas amontoadas durante anos em campos de
refugiados. Países onde a falta de comida, de água e de condições básicas de
sobrevivência, somadas à total desestruturação do sistema de saúde, geram a
proliferação de doenças tratáveis, como malária, tuberculose e sarampo. Locais
em que as mortes de crianças por desnutrição e os ataques de grupos armados
fazem parte do cotidiano da população. Ainda assim, a maior parte dessas
situações não recebem nenhuma atenção dos meios de comunicação e estão
completamente invisíveis aos olhos da população mundial. Para chamar a atenção
da comunidade internacional para casos de extrema gravidade que estão relegados
ao esquecimento, a ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) divulgou, nesta semana, uma
lista com as dez crises humanitárias mais negligenciadas pela mídia em 2005.
No norte de Uganda, onde a população local
enfrenta um violento conflito há quase duas décadas, mais de 1,6 milhões de
pessoas, quase 80% da região, estão em campos de refugiados sem praticamente
nenhuma assistência. A pobreza, a alta prevalência de doenças como HIV/Aids e
emboscadas violentas contra civis e profissionais de ajuda humanitária, no
final de 2005, agravaram ainda mais o quadro que já era desesperador. No Sudão,
em janeiro do ano passado, o governo e o Exército Popular de Libertação
assinaram um acordo de paz, colocando fim a vinte anos de guerra civil, mas a
total falta de infra-estrutura, os combates esporádicos e um provável retorno
em massa de refugiados para áreas com pouco ou nenhum acesso a cuidados
aprofundam a crise no país, onde cerca de 6 milhões de pessoas ainda dependem
de doações de alimentos para sobreviver.
Na Costa do Marfim, a guerra iniciada em 2002
causou a morte de milhares de civis e forçou centenas de milhares de habitantes
a fugirem de suas casas. No final de 2004 e início de 2005 a violência se
reiniciou, causando ainda mais mortes e deslocamentos. Hoje, a ameaça de
violência ainda é constante mesmo com a presença de forças da ONU e francesas.
A separação de familiares e a chegada de soldados deixaram muitas mulheres e
meninas vulneráveis à violência sexual, prostituição e doenças sexualmente
transmissíveis.
Somam-se a esses três casos, na lista
elaborada pelo oitavo ano consecutivo, a situação da República Democrática do
Congo, da Chechênia, do Haiti, da Somália, da Colômbia e do Norte da Índia.
Além disso, também é dado destaque à ausência de atenção à quase total falta de
pesquisa e desenvolvimento de novos instrumentos específicos para os portadores
de HIV/Aids de baixa renda que vivem em países pobres, justamente as pessoas
mais afetadas por essa crise. Em todo o mundo mais de 40 milhões de
pessoas vivem com HIV/Aids, e a cada dia 8 mil pessoas morrem de doenças relacionadas
à Aids, entre elas 1,4 mil crianças. “Diagnosticar o HIV em bebês, por exemplo,
requer altíssima tecnologia, portanto, poucas crianças infectadas pelo HIV
podem iniciar o tratamento que prolonga suas vidas e metade morre antes de
completar dois anos de vida. Mesmo que a criança seja diagnosticada a tempo,
não há formulações pediátricas fáceis de tomar de anti-retrovirais, como as
combinações três-em-um que existem para adultos”, afirma o documento.
Segundo Simone Rocha, diretora da ONG Médicos
Sem Fronteiras no Brasil, a idéia de organizar e divulgar essa lista anual
surgiu quando eles perceberam que, apesar do trabalho constante feito por
organizações internacionais ao longo dos anos para inserir essas crises
humanitárias na pauta da mídia, determinadas situações muito sérias e
extremas passam anos a fio no esquecimento. Algumas das crises que constam da
lista de 2005 já estiveram presentes em diversas outras versões do mesmo
documento, como é o caso do Sudão, da Colômbia e da República Democrática do
Congo.
As dez crises mais esquecidas pela mídia foram
escolhidas a partir do conhecimento dessas situações pela MSF, que está
presente em cerca de 70 países, e de uma análise dos noticiários noturnos das
três maiores redes de TVs dos EUA em 2005. De um total de 14.529 minutos,
apenas oito se referem a essas dez situações, sendo que seis minutos dizem
respeito à República Democrática do Congo e dois à Chechênia. As outras oito
não foram sequer mencionadas no ano passado.
“Quando a mídia se interessa, a população
também se interessa e cobra uma reação de seus dirigentes. Isso ocorre
principalmente nos países europeus e nos EUA e, em escala bem menor, no Brasil
e em outros países da América Latina. A mídia tem o poder de revelar coisas que
desconhecemos e de dar voz a populações que normalmente não teriam”, acredita
Simone. Nas crises humanitárias os meios de comunicação podem ter um papel
bastante importante, por despertarem a atenção das pessoas para tais problemas.
Segundo a diretora da MSF, esse foi o caso de Kosovo, na antiga Iugoslávia,
situação que contou com ampla cobertura da mídia internacional, por se tratar
de um conflito no coração da Europa e que poderia ter conseqüências graves, já
que as duas guerras mundiais se iniciaram nos Bálcãs.
São vários os fatores que levam a essa
negligência por parte dos meios de comunicação. A dificuldade de cobrir esses
acontecimentos, que ocorrem, na maioria das vezes, em locais de difícil acesso
e de pouca segurança para os jornalistas, já que normalmente são regiões
marcadas pela violência, é um dos aspectos que explicam esse quadro. Há também
uma escassez de imagens desses contextos que complicam a realização de matérias
jornalísticas, principalmente na televisão. Além disso, há a limitação do
espaço físico onde são veiculadas as notícias e acabam prevalecendo os assuntos
que servem mais aos interesses diretos e indiretos dos países onde os veículos
se localizam.
“No geral, a mídia internacional se pauta pela
mídia e pelos interesses dos EUA, por isso o espaço dedicado ao Iraque e ao
Oriente Médio é tão grande, quando, na verdade, a política internacional vai
muito além disso”, diz Simone. A própria mídia brasileira não foge desse
padrão, é bastante influenciada pela norte-americana. “Outros países com quem o
Brasil teria maior afinidade histórica, como Angola e Moçambique, só aparecem
nos noticiários quando existe um fato de extrema relevância, mas é muito
pouco”, completa. Ainda que na Europa essa relação seja um pouco diferente, por
causa da relação histórica que os países europeus têm com os países africanos e
asiáticos, há também uma crescente tendência de relegar ao esquecimento certos
contextos e situações sem implicações mais próximas à vida da população local.
Há ainda o desinteresse de jornalistas e editores por falta de informação ou
por causa da linha editorial de cada veículo.
No entanto, existem informações suficientes
disponíveis para ao menos suscitar o interesse desses profissionais, produzidas
tanto por ONGs internacionais, como é o caso da MSF, e pela Organização das
Nações Unidas (ONU), quanto pelo mundo acadêmico. “Esses assuntos só viram
notícia quando uma celebridade internacional se envolve com eles, como o Bono
do U2. Nesse caso, o espaço que esses países ganham na mídia aumenta substancialmente.
É uma pena que o fato em si não seja suficiente para chamar a atenção da mídia,
que tem uma função pública importante, de dar a conhecer a situação de outras
partes do mundo”, lamenta Simone.