ESPECIAL
27 de janeiro de 2006
FORÚM SOCIAL MUNDIAL - CARACAS
Agência
Carta Maior
Chávez defende construção imediata de frente mundial antiimperialista
O
presidente da Venezuela, Hugo Chávez, participa do ato da luta
anti-imperialista dos povos, atividade do FSM 2006, em Caracas. Manifestação
iniciou ao som do hino da Internacional.
Da Redação - Carta Maior
CARACAS - Ao som do Hino da Internacional, cantada pela primeira
vez, em 1896, no XIV Congresso do Partido Operário Francês, iniciou, no Ginásio
Poliedro, completamente lotado, o ato da luta anti-imperialista dos povos,
atividade do FSM 2006. O principal convidado do ato é o presidente da
Venezuela, Hugo Chávez. Também participam da manifestação nomes como Samir
Amin, Ignacio Ramonet, Cindy Sheehan, Aleida Guevara (filha de Che Guevara),
Ricardo Allarcon (presidente da Assembléia dos Deputados de Cuba), Bernard
Cassen, o jornalista inglês Richard Gott e Walden Bello.
Ao iniciar sua fala, o presidente venezuelano saudou as entidades organizadoras
e participantes do Fórum Social Mundial. E fez um apelo: "Não deixemos
para amanhã o que podemos fazer hoje", disse Chávez, referindo-se à
construção do "outro mundo possível", lema do FSM. "Os processos
libertários, nos últimos séculos, se desataram em tempos distintos que não
puderam se articular, em espaços distintos que não puderam se conectar",
disse, lembrando a luta de Simón Bolívar há 200 anos. "Bolívar foi o
percursor da luta anti-imperialista e intuiu o perigo dos Estados Unidos.
Naqueles anos, no início do século 19, ocorreram fortes forças libertadoras na
América Latina, com líderes como San Martin, Artigas, Abreu e Lima. Mas aqueles
movimentos da América do Sul e do Caribe não tinham nenhuma articulação com
nenhum movimento da África e da Ásia. Eles fracassaram. E hoje vivemos as
conseqüências daquele fracasso".
No início do século 20, lembrou ainda, surgiram outros movimentos de libertação
no continente, como aqueles liderados por Emiliano Zapata e Pancho Villa, no
México, por Luis Carlos Prestes, no Brasil, por Augusto Sandini, na Nicarágua.
E propôs um minuto de aplausos a Schafik Handal, líder da Frente Farabundo
Marti, de El Salvador, sobre o qual começou a falar, do apoio que recebeu desde
que saiu da cadeia, em 1992.
E seguiu dizendo que a luta contra o colonialismo e o imperialismo está
reaberta na América Latina, lembrando a dependência energética de países
produtores de combustíveis, como Bolívia e Equador. Veja alguns dos principais
trechos do pronunciamento:
"No século XX, se abriu uma porta na África e na Ásia, com a conferência
de Bandung, na Indonésia. Líderes de vários países como Nehru, Nasser, Sukarno,
impulsionaram aquele projeto. E o impulsionaram desde posições de poder, de
governo. Mas acabaram se dispersando e o povo voltou a cair na desesperança.
Outros permaneceram firmes como uma rocha, como o povo cubano e seu líder,
Fidel Castro."
O IMPÉRIO DE MR. DANGER
"Estamos enfrentando o império mais assassino, genocida, perverso e cínico
que o mundo já conheceu em cem séculos. Um império cínico, porque o império
romano se assumia como império. O império de Mr. Danger fala dde democracia e
direitos humanos, enquanto tortura presos em Guantánamo e em prisões secretas
na Europa e em outros países."
FRENTE ANTI-IMPERIALISTA
"Devemos nos unir, governos, forças políticas e movimentos sociais para
construir uma grande frente anti-imperialista e travar uma batalha no mundo
inteiro, respeitando a diversidade e a autonomia de cada um. Mas sem
coordenação e unidade não chegaremos a nada".
LULA, CHÁVEZ E FIDEL
"Quando estive no Gigantinho no ano passado, em Porto Alegre, disse que
Lula é um companheiro. É preciso trabalhar com Lula e apoiar Lula. Não se pode
pedir a Chávez que faça o mesmo que Fidel. Não se pode pedir a Lula que faça o
mesmo que Chávez. Assim como não se pode pedir a Evo que faça o mesmo que Lula
ou que Chávez. É tudo um processo, cada qual tem suas circunstâncias".
SOBRE A RELAÇÃO COM KIRCHNER E LULA:
"Já estão falando do grupo 'CHAKAL', de Chávez, Kirchner e Lula, que está
construindo um gasoduto, para levar gás venezuelano a toda a América do Sul. A
Venezuela tem uma das maiores reservas de gás do planeta. Está aí o desespero
fundamental de Mr. Danger, que quer nosso petróleo. Mas a Venezuela não será
nunca mais uma colônia dos Estados Unidos."
O POVO DOS ESTADOS UNIDOS:
"Quero insistir que há razões para estarmos otimistas. Há cinco anos isso
não ocorria. Creio que começa um movimento nos Estados Unidos, que a cada dia
ganha mais forças. Queria dizer a Cindy (Sheehan), que habita num rancho, o
rancho esperança, da esperança, da moral. Como também se chama esperança em
inglês? Hope. Eu também te amo, Cindy."
PARA PARTICIPANTES DO FÓRUM EM CARACAS:
"A vocês, que enchem Caracas de magia, beleza e paixão, quero dizer que a
luta do Fórum começou em Seattle, em Cancún. Seria doloroso que estivéssemos
fazendo um balanço, hoje, de recuo ou de derrota. Não, nós levantamos a
bandeira da revolução, estamos na ofensiva! Cabe a nós desenhar a forma da
unidade, da vitória. O caminho é duro, é árduo, mas podemos realizar, com união
estratégica e sabedoria estratégica."
APELO AO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL:
"O FSM tem uma grande importância na ofensiva mundial dos movimentos
sociais, políticos, governos e parlamentos, contra o imperialismo. Não podemos
permitir que o Fórum se converta em um encontro turístico e folclórico, todos
os anos. Estaríamos perdendo tempo e não podemos perder tempo. Por isso, convido
a todos os líderes do FSM a construir um plano de ação unitário, para
impulsionar nossas lutas em todo o mundo. Clamo ao FSM, respeitando sua
autonomia, a construção de um grande movimento mundial antiimperialista, um
movimento autenticamente socialista."
ÀS PORTAS DO IMPÉRIO
Organizações anunciam intifada na fronteira do México com os EUA
Doze anos
depois que os rebeldes zapatistas pegaram em armas no sul do país, responsável
por mobilizações confirma - em entrevista exclusiva à CARTA MAIOR - o início de
“uma intifada na primeira semana do mês de maio próximo”
Pablo Velázquez
CARACAS - Organizações civis inspiradas no movimento zapatista,
cujo líder subcomandante Marcos deu início no primeiro dia de janeiro a uma
campanha por todo México, anunciaram hoje (27) a “tomada da fronteira entre o
México e os EUA”. Doze anos depois que os rebeldes zapatistas pegaram em armas
no sul do país, disseram em entrevista exclusiva à CARTA MAIOR que darão início
a “uma intifada na primeira semana do mês de maio próximo”. A notícia, que será
anunciada amanhã (28) em coletiva de imprensa, foi dada em primeira mão por
Edur Arregui Koba, organizador de massivas mobilizações de denúncia da ofensiva
militar contra o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).
A bordo de uma moto Yamaha de 625 cilindradas (batizada de “sombra luz”), o
subcomandante prometeu recorrer todo o país no marco do que chamou de “a outra
campanha”, paralelamente às campanhas dos partidos convencionais para as
eleições de 2 de julho deste ano.
Edur Arregui explicou que a travessia do líder rebelde e a ocupação das
fronteiras “são movimentos convergentes”.
CM - Marcos se unirá à intifada na fronteira?
EA – Quando a intifada começar, estou certo de que os acontecimentos se
precipitarão.
CM - Isso significa que Marcos chegará à fronteira?
EA – Cedo ou tarde, chegará.
CM - O zapatismo tem traçado uma estratégia com relação aos EUA?
EA - Entre 45 milhões de latinos que vivem nos EUA, há muitos pobres que se
identificam com o zapatismo. Creio que a resposta da sua pergunta
corresponderia a eles.
CM - A intifada contará com o apoio de zapatistas americanos?
EA - Contará com o apoio de sindicatos, de ONGs e do nutrido movimento contra a
guerra que existe nos EUA.
CM - Que desenvolvimento político o zapatismo conquistou nos EUA?
EA – Eles têm suas próprias raízes e tradicionais. É o caso do movimiento
indígena americano. Na realidade, esses indígenas são nossos irmãos maiores,
estão enfrentando 300 anos, a sangue e fogo, o imperialismo anglo-saxão.
CM - Onde se concentrarão as ações?
EA - O centro das manifestações serão em Ciudad Juarez. Nessa localidade,
segundo estatísticas oficiais, houve 441 vítimas em 2005, incluídos os 127
corpos de migrantes não identificados. A cifra poderá aumentar no próximo ano
com o duplo muro que o governo estadunidense está projetando.
CM - Planejarão alguma ação direta contra o muro?
EA - O muro será devorado pelo deserto, nenhum muro poderá proteger [o
presidente dos EUA, George W.] Bush dos ventos que voltam como tempestades.
Esse muro é um delírio, uma insensatez. Creio que Bush, cedo ou tarde, também
será devorado pelo deserto.
Gilberto Maringoni
Nem Woodstock, nem V
Internacional
Com voz pausada e um castelhano
carregado de forte sotaque francês, François Houtart, padre belga de 82 anos,
tocou no dilema central dos movimentos contra a globalização neoliberal na
concorrida mesa “O socialismo do século XXI”.
CARACAS - “Os Fóruns Sociais Mundiais não são
uma Quinta Internacional, com resoluções e diretrizes unificadas, mas também
não podem se tornar uma espécie de Woodstock social”. Com voz pausada e um
castelhano carregado de forte sotaque francês, François Houtart, padre belga de
82 anos, tocou no dilema central dos movimentos contra a globalização
neoliberal na concorrida mesa “O socialismo do século XXI”. O debate da manhã
de quinta-feira (26) fora promovido pela organização cultural Punto Rosso, da
Itália, e pelo Fórum Mundial das Alternativas, uma das mais influentes
entidades presentes na capital venezuelana.
Houtart passa boa parte do ano em aviões,
cumprindo uma extenuante agenda internacional. Ela compreende a coordenação do
FSM e uma programação de campanhas, palestras e articulações. Sua vitalidade é
invejável. Chegara na noite anterior do Mali, com o economista egípcio Samir
Amin, e ficará até o último dia deste Fórum. Irá em seguida à Ásia e voltará
para a Venezuela em quinze dias.
As referências de Houtart às Internacionais – articulações entre os partidos
socialistas e comunistas de todo o mundo, que balizaram boa parte da política
nos séculos XIX e XX – e ao grande happening de música pop realizado nos
Estados Unidos, em 1969, buscam evidenciar o debate de rumos colocado diante
dos milhares de ativistas presentes em Caracas.
Antiimperialismo
Ressaltando estarem trazendo as resoluções de um grupo de 300 pessoas reunidas
no último dia 18, um dia antes da abertura da etapa africana do VI FSM, Samir
Amin, por sua vez, expressou que, embora todas as opiniões diferentes devam ser
respeitadas, é necessário qualificar o internacionalismo dessas ações. Para
ele, a base deve ser o antiimperialismo. Com uma cabeleira branca e lisa,
cortada na altura da nuca, nariz adunco e olhar penetrante, Amin lembra a
figura de uma esfinge. Consultor econômico de vários países africanos, é um
intelectual eminentemente prático. Ao contrário das divindades ancestrais de
seu país, ele não busca criar enigmas, mas, ao contrário, decifrá-los. Sua
preocupação tem sido a de manter o caráter amplo do Fórum, ao mesmo tempo em
que se bate por “encontrar o novo sujeito histórico da luta pelo socialismo”,
segundo suas palavras. Ou seja, que setores da sociedade encararão a
empreitada.
O encontro de 18 de janeiro resultou num
documento sintético, arrolando pontos dessa jornada. Aproveitando a marca do
cinqüentenário da Conferência de Bandung – reunião de líderes de países que
vieram a constituir o Movimento dos não-Alinhados, como Nasser, do Egito,
Nehru, da Índia, Tito, da Iugoslávia, dentre outros – o texto faz uma
conclamação à luta contra uma nova forma de colonialismo. “O socialismo não
pode ser um projeto utópico, mas deve estar calcado no movimento real das
forças sociais”, ressalta Samir Amin.
Em síntese, a chamada “Carta de Bamako” aponta
duas características do sistema atual. A primeira é que o capitalismo é fundado
na competição entre indivíduos, povos e nações. A segunda é que esse sistema é,
em conseqüência, imperialista. A partir daí, reivindica uma gestão
não-mercantil dos recursos naturais, a garantia do acesso à terra, a abolição
de todas as discriminações e a reconstituição da frente formal do trabalho,
como base para esses tópicos. Pede ainda, como itens mais concretos, o
desmantelamento da OTAN, das bases militares dos EUA pelo mundo e a destruição
das armas nucleares. No fundo, busca-se conformar uma grande aliança anti
imperial.
Acusações
Embora as demandas sejam aparentemente óbvias para grande parte da esquerda
mundial, a carta de Bamako provocou acusações de que se pretenderia um
aparelhamento do Fórum Social Mundial. A polêmica não deve prosperar, pois o
FSM funciona como um guarda-chuva aberto a diferentes grupos e organizações, no
qual cada um pode propor o que quiser às suas turmas. Várias entidades, em
ocasiões anteriores, redigiram manifestos, conclamações e convocatórias. Quem
quiser aceita ou não determinadas bandeiras.
Setores da imprensa, mais interessada no
mundanismo do que na mundialização, buscam interpretar coisas assim sob o rótulo
de “rachas”, ou “divisões”.
Como – desculpem o termo - processo político
plural, o Fórum Social Mundial não se amolda a esquadros dessa natureza. As
diferenças são respeitadas por todos serem iguais nas normas gerais, não
existindo uma categoria dos “mais iguais que os outros”, segundo a frase do
escritor inglês George Orwell. Qualquer um pode inscrever atividades, reservar
salas e chamar a tribo que quiser para trocar idéias. Ao mesmo tempo, há uma
crescente consciência entre os participantes do FSM de que sua dinâmica precisa
mudar. Realizar centenas de debates, muitas vezes concorrentes entre si, acaba
sendo muito interessante, mas carente de maiores resultados práticos.
O jornalista francês Ignácio Ramonet lembrou, em
Bamako, que, desde 1997, o movimento anti-neoliberal atravessou várias fases. A
primeira, a partir das manifestações de Seattle, em 1999, foi a dos protestos
de rua. Em Porto Alegre, dois anos depois, começou a etapa dos grandes
encontros e diagnósticos. Estaríamos agora na busca de alternativas. O próximo
passo deve ser o da construção do sujeito consciente das transformações
necessárias. Traduzindo do sociologuês para o português: a hora de ver como
viabilizar as idéias debatidas nos Fóruns.
O – desculpem novamente o palavrão – processo é
longo. Rupturas com a ordem vigente não se constroem da noite para o dia e cada
uma delas é diferenciada e particular em cada país. Não existem regras para se
fazerem revoluções. Ou elas são atípicas, ou não merecem este nome.
Outro socialismo é possível? Esquerda debate agenda para o século 21
Para
Samir Amin e François Houtart, socialismo não pode ser um projeto resultante de
um imaginário utópico, mas sim produto do movimento social real, com uma agenda
concreta. E, hoje, essa agenda passa, segundo eles, pela ruptura com a lógica
da competição e pela luta contra o imperialismo.
Marco Aurélio Weissheimer
CARACAS - Visões mundiais do
socialismo do século 21. Esse foi o tema de um concorrido debate realizado na
manhã desta quinta-feira (26), na pequena sala Cedro, do Hilton Hotel. A
desproporção entre o tamanho da sala e a atração que o debate exerceu sobre o
público do Fórum Social Mundial mostrou que o tema interessa. E muito. O
italiano Mimmo Porcaro, da Associação Cultural Punto Rosso, resumiu assim o
espírito do ambiente que cercou o debate: “Para nós, europeus, chegar aqui na América
Latina é como uma experiência de renascimento. Vocês estão tendo a coragem de
usar de novo uma palavra que, entre nós, está praticamente banida. Na Europa,
“socialismo” tornou-se uma palavra quase impronunciável. Os grandes partidos
comunistas tornaram-se ideólogos do neoliberalismo”. De fato, na observação de
Porcaro não há nenhum exagero. Nos livros que circulam no Fórum, nas camisetas
e nos debates, socialismo é uma palavra muito freqüente.
Mas qual socialismo? E qual o caminho para chegar a ele? Recém-chegados da
África, onde participaram da etapa de Bamako (Mali) do FSM 2006, Samir Amin e
François Houtart, presidente e secretário do Fórum Mundial de Alternativas,
respectivamente, propuseram um caminho básico para esse debate. Mais do que
isso, na verdade. Propuseram uma linha de ação. Para Houtart, o ponto
fundamental da reflexão sobre o socialismo do século 21 não deve girar em torno
de uma tentativa de defini-lo de uma maneira abstrata. Há um caminho concreto a
seguir, defendeu. “Quais são as nossas lutas? O que queremos? Esse é o nosso
caminho”. O desafio central, segundo ele, é uma reflexão sobre o mundo
contemporâneo, sobre o presente e seus desafios. Um deles, propôs, é como
passar de uma consciência coletiva à construção de atores coletivos, um tema
diretamente relacionado ao futuro do Fórum Social Mundial.
CONSCIÊNCIA COLETIVA E ATORES COLETIVOS
Na avaliação de François Houtart, o FSM tem avançado muito na construção de uma
consciência coletiva sobre a necessidade da construção de alternativas ao atual
modelo de globalização capitalista, e deve continuar a fazer isso. Passo
necessário, porém insuficiente, advertiu. Sem a construção de atores políticos
coletivos, os fóruns “correm o risco de se transformar em uma espécie de
Woodstock social”. Reconhecendo a pluralidade e a diversidade do processo FSM,
Houtart acredita que os fóruns podem ajudar a construir esses atores coletivos,
mas talvez não sejam, nos moldes atuais, a instância mais adequada para tanto.
Hoje, assinalou, os fóruns são locais de encontro e de intercâmbio, mas não de
decisões. E, no que diz respeito ao debate da esquerda sobre a construção do
socialismo do século 21, as decisões a tomar são urgentes. Decisões, por
exemplo, sobre a luta global contra a guerra e contra o imperialismo.
O secretário do Fórum Mundial de Alternativas deu um exemplo de proposta que
pode ser implementada ainda no início de 2006. Está marcada, para os dias 18 e
19 de março, uma mobilização mundial anti-guerra. “Estamos propondo acrescentar
dois outros pontos nesta mobilização: a destruição total dos armamentos
nucleares e a interdição de sua fabricação, e o desmantelamento de todas as
bases militares no estrangeiro”, anunciou. Mas o que isso tem a ver com o
socialismo do século 21? François Houtart e Samir Amin chamaram a atenção para
a importância de olhar para o presente. “O socialismo não pode ser um projeto
resultante de um imaginário crítico utópico. Tem que ser produto do movimento
social real e concreto. Não podemos falar de socialismo sem falar do sujeito
histórico que vai ser o portador desse projeto”, defendeu o sociólogo egípcio.
E há poucas coisas que mobilizam mais o mundo hoje do que a guerra.
INTERROMPER O PROJETO DOS EUA: A CONDIÇÃO-CHAVE
Para Samir Amin, é preciso partir dos problemas e desafios que a sociedade
capitalista apresenta hoje de modo muito concreto: a militarização da agenda
política das nações, o imperialismo, a destruição progressiva do meio ambiente,
o crescente déficit democrático, a mercantilização da vida, para citar alguns
dos principais. Esses desafios, acrescentou, podem ser olhados de duas
maneiras: do ponto de vista conjuntural e do ponto de vista estrutural, que
exige uma visão estratégica de longo prazo. “Foi o que procuramos fazer em
Bamako, no dia 18 de janeiro, com a elaboração de propostas e formação de
grupos de trabalho para a construção de uma alternativa ao capitalismo”,
apontou, falando da declaração resultante deste encontro, denominada “Apelo de
Bamako”. Esse documento será agora difundido e publicado em várias línguas,
constituindo-se essencialmente em um chamado para a ação. Uma ação que bate de
frente com a lógica capitalista.
E bate de frente, segundo Amin, porque questiona duas características
inseparáveis do atual estágio do capitalismo. Em primeiro lugar, questiona o
princípio da competição entre os indivíduos e as nações, ao propor a primazia
da solidariedade sobre a competição. Em segundo, questiona sua lógica
imperialista, defendendo uma perspectiva onde todas as nações sejam
consideradas iguais. A combinação desses dois elementos se expressa em
propostas em defesa do mundo do trabalho, do acesso à terra, da abolição da
discriminação e pela gestão não mercantil dos recursos naturais e dos recursos
sociais. Ele reconheceu que a implementação dessa agenda envolve pontos de
grande conflito político. Mas, enfatizou, a interrupção do projeto dos Estados
Unidos de controle militar do planeta é uma condição para todo o resto. Daí a
centralidade estratégica de uma mobilização global permanente contra a política
belicista que vem marcando a política de Washington.
O FUTURO DO FÓRUM
Tanto Houtart quanto Amin concordaram que a América Latina assumiu uma posição
de vanguarda nesta luta, confirmando as palavras de Mimmo Porcaro. Diagnóstico,
aliás, repetido várias vezes em Caracas, representando por si só um desafio aos
organizadores e participantes do FSM. Se, na América Latina de hoje, começa a
ser construída uma estratégia de enfrentamento com a maior potência do planeta,
como fica o FSM? Samir Amin refletiu sobre esse ponto. “Nosso projeto defende a
construção de uma frente internacional anti-imperialista. Os fóruns são pontos
de encontro de todos os que protestam contra o neoliberalismo. Todos os seus
participantes são iguais e respeitáveis e é preciso respeitar a posição de cada
um. O importante é continuarmos juntos e permanecer discutindo. Nenhum dos que
promovem essa iniciativa quer sair do Fórum. Se há os que querem isso, em todo
o caso não somos nós”.
As palavras de Amin fizeram lembrar uma velha máxima: assim como a natureza, a
política tem aversão ao vácuo. As mudanças no mapa político da América Latina e
a crescente situação de instabilidade no Iraque e no Oriente Médio abriram um
novo espaço de atuação para as forças que se opõem à atual lógica de dominação
mundial comandada pelos EUA. Criado sob o lema da necessidade de construção de
uma nova ordem global, o FSM está sendo interpelado a manifestar-se. “O FSM não
pode se limitar a ser uma espécie de exercício espiritual”, emendou Roberto
Sávio, presidente da agência IPS e membro do comitê internacional do Fórum.
“Até agora, não conseguimos construir alternativas concretas e planos de ação.
E a janela que está se abrindo agora para a América Latina deve durar de 7 a 9
anos”, alertou. O que ficou claro no debate é que, seja qual for o projeto de
socialismo possível de ser construído neste início de século, ele passa
necessariamente pela América Latina.