ESPECIAL
30 de janeiro de 2006
FORÚM SOCIAL MUNDIAL - CARACAS II
Debate
FSM: como
efetivar sua luta antiimperialista
Qual é o futuro do Fórum Social Mundial? O que falta a agenda dos movimentos
sociais? Como eles podem contribuir com a luta antiimperialista mais
efetivamente? Essas e muitas outras perguntas tem sido norteadoras de muitos
debates que aconteceram durante este 6º Fórum Social Mundial e 2º Fórum das
Américas. O evento que se realiza em Caracas tem como princípio a afirmativa de
que outro mundo é possível. Hoje percebemos que este mundo pode estar já sendo construído
nesta experiência bolivariana, que atrai tanto a atenção da intelectualidade
avançada e dos movimentos de esquerda no mundo. Mas o império também percebe a
importância desta pequena semente e prepara uma nova contra ofensiva, que
inclui maior investimento em suas ações militaristas e na submissão de nações e
povos as políticas neoliberais.
Esse foi o eixo do debate "Fórum
Social Mundial: estratégias e campanhas", em que entre os presentes
estavam Samir Amin, presidente do Fórum Mundial de Las Alternativas, Egito;
Bernard Cassen, da Associação por uma Taxa sobre as Transnacionais
Especulativas para Ajuda aos Cidadãos (Attac), Franca; Vittorio Agnoletto,
deputado europeu Gue/GE, Itália; José Soane, do Conselho Latino-americano de
Ciências Sociais (Clacso), Argentina; José Miguel Hernandez Mederos, da Central
de Trabalhadores de Cuba (CTC); José Luiz Del Roio, do Instituto Astrojildo
Pereira, Brasil; Oded Grajew, da Fundação Cives, Brasil. A atividade foi
promovida pela organização Punto Rosso, uma rede de fóruns alternativos que
nasceu há três anos em Caracas.
Para Samir Amin, os movimentos tem a
obrigação de propor e tentar organizar a convergência, a coalizão de forcas
políticas nacionais, continentais e internacionais. "Até transformarmos
esta sociedade". Ele acredita que o FSM deva aprovar um programa de ação,
construído de forma a dar uma resposta contra o neoliberalismo. "A
ditadura da oligarquia financeira dominantes se baseia nos grandes organismos
internacionais como FMI, OMC, etc. Não existe ONU, o direito internacional,
nada", disse reafirmando que o capitalismo é um sistema sanguessuga, que
precisa das economias de outras nações.
Entretanto, Amin questionou se a
transferência ao socialismo é compatível com o capital, que é muito flexível e
pode se adaptar minando os processos alternativos que vão se construindo.
"É uma forma de aprimorar a luta pelo socialismo. Vivemos numa nova página
sobre a luta contra os sistemas".
As propostas de Amim para a assembléia
foram de interdição absoluta e imediata de todas armas nucleares, incluindo as
dos Estados Unidos. E a segunda foi com relação ao desmantelamento das bases
militares espalhadas por todo o planeta. "Precisamos nos organizar para
termos condições efetivas de lutar e de avaliar os resultados de
campanhas", disse.
Pressão política
O jornalista Bernard Cassen, da ATTAC,
reafirmou a aprovação de uma agenda única. "Temos que apresentar propostas
amplas, porque há uma ofensiva mundial e precisamos agir rápido. É evidente que
os movimentos sociais devem manter sua autonomia. Muitos dizem que quando
discutimos política estamos fazendo acordo com o diabo. Mas os movimentos
sociais também não tem grande representação. Só o sufrágio universal tem esse
poder político. Os movimentos são grupos de pressão política e isso deve ficar
bem claro", disse.
Cassen propôs, então, que haja uma
maior integração entre as mais distintas forcas - parlamentares, sindicalistas,
etc. Também que seja realizado um debate público do conjunto das propostas.
"Precisamos aumentar a politização do FSM. Não é política politiqueira,
mas nós também fazemos política", disse o jornalista ao apresentar uma
preocupação com o aumento da capacidade de articulação do fórum. "Muitas
organizações que participaram dos primeiros fóruns não estão mais conosco.
Precisamos evitar esse perigo".
Para o coordenador social do
Observatório Latino-Americano (Osal), da Clacso, José Seoane, o formato do
fórum é produtivo justamente porque separa o diálogo da resolução. "A
assembléia dos movimentos sociais é o principal espaço. As convocatórias contra
a guerra saíram daí. E já existe uma agenda conjunta de todas atividades além
da declaração. Agora, o processo de construção das convergências não é
fácil", avaliou. Para ele, a melhor tática é fortalecer a coordenação dos
movimentos sociais e a construção de alternativas. "Existe uma tensão de
tempo. Mas só temos procurar os pontos de convergência".
Agenda antiimperialista
Odej Grajew propôs que seja realizado
um Fórum Social Mundial da Mídia, para amplificar o que cada jornal alternativo
e redes nacionais e continentais estejam fazendo. "De um lado temos a CNN,
e do outro temos um movimento forte, que só tem que se organizar", disse.
A idéia é realizar este evento na Itália, em abril de 2007, com jornalistas e
meios de comunicação.
Grajew também sugeriu que seja aprovado
um dia mundial em que se realizem espécie de fóruns locais, em todas cidades do
planeta. Além disso, ele também indicou que seja feito um banco de dados de
todas organizações de comunicação e uma Assembléia Constituinte do futuro
Parlamento Latino-Americano.
De Caracas,
Mônica Simioni