ESPECIAL
30 de janeiro de 2006
Reflete-me em teu olho
Frei Betto *
Adital - Sim, quero ver a tua vida em detalhes,
minuto a minuto, e ouvir as palavras que jorram de tua boca, rir o teu riso e
enraivecer-me com o teu rancor, assistir à tua paquera, ao teu namoro, ao teu
gesto de carinho, à tua transa, espelhando tua beleza em minha pobreza.
Quero abandonar amizades, trabalhos, livros e
lazer e, de olhos pregados em tua magia, absorver a tua arte de movimentar-se
no labirinto da quimera, livre de dores e afazeres, mergulhado na fama e na
fortuna.
Venerarei o teu ócio na vitrine, exibindo-se
sem pudor a milhões de olhos, despido por infinitas imaginações, liberto das
grades odiosas dessa existência de penúria, anônima, escrava da rotina atroz de
quem jamais aprendeu a voar.
Abrirei em meu monitor a porta da tua casa
mágica e, sob o peso de minhas carências, ingressarei virtualmente em tua
liberdade, no teu gozo, no teu charme, como quem toca com os olhos os
veneráveis ícones que nos fazem transcender da mediocridade cotidiana.
Minha fidelidade ao teu exibicionismo será a
chancela que proclamará a tua vida como real e, do lado de cá, buscarei a
alforria de minha indigência em tuas loucuras, em teus jogos e em tuas danças.
Quero decifrar em ti a minha própria intimidade, rasgar a minha alma em tuas
mãos e deixar a minha mente impregnar-se dessa ilusão que faz de mim teu
pequeno irmão.
Recobrirei a minha realidade com a tua
fantasia e farei de teu espetáculo o brilho de meus olhos vazados, nessa
permuta hipnótica de quem busca a complacência com seus próprios limites para
tentar encobrir a mesquinhez que me corrói.
Ficarei atento ao teu banho, ao teu sexo, à
tua ira e às tuas refeições, fiel à exposição perene deste teu ser desprovido
de preocupações e conteúdos, entregue a esta liberdade que faz de ti o que não
sou, e me permite projetar em teu vigor as minhas fraquezas e em teu esplendor
o sabor amargo de meu anonimato.
Verei em tua janela, que se abre para a minha
casa, a subversão de todos os valores, como se nos cômodos que te abrigam
findassem todos os princípios, escorrendo pelo ralo tudo aquilo que num lar soa
como sinônimo de família. Ampliados pela eletrônica, meus olhos contemplarão as
tuas intimidades mais ousadas. Sentirei os teus odores e beberei o teu suor,
ouvirei tuas queixas e amarguras, acolherei tuas frustrações e vitórias.
Esticarei o meu olhar até os limites
proibitivos do escárnio e, quem sabe, verei o teu rancor extirpar toda a
agressividade que jaz em meu peito e a tua voracidade explodir em taras que
haverão de suprir os meus desejos mais ignóbeis e saciar as minhas pulsões mais
abjetas.
Deste lado da tela, sentirei os teus
sentimentos e comungarei as tuas emoções, vendo-te virar pelo avesso nesse
zoológico de luxo, exposto à multidão como carne no açougue, a engordar no
balcão do voyeurismo a fabulosa soma dos teus patrocinadores em tua ânsia de
embolsar um milhão e enterrar o teu passado nessa árida mesquinhez de meu
presente.
Em ti livrar-me-ei de todo ideal que não seja
fazer da vida um jogo de entretenimentos, a sedução epidérmica como sucedâneo
de quem não atinge as profundezas do amor, vendo-te representar a ti mesmo sob
os aplausos invejosos de meu olhar sequioso, preso ao teu desempenho huit-clos.
Aprisionarei a tua vida em meu olhar, torna-me-ei
teu carcereiro eletrônico, decidindo o teu presente e o teu futuro,
absolvendo-te ou condenando-te, juiz supremo que se ignora refém do próprio
equívoco.
Inebriado com as tuas loucuras, te elegerei
objeto supremo de minha admiração, de minha cupidez, de minha inveja,
deixando-me devorar pelo teu sucesso, do qual farei tema de todas as minhas
conversas.
À espera de que os corvos venham devorar o meu
coração, quero ser consumido e consumado por ti, arrancando de meus olhos todas
as escamas, até que eu possa ver também o marido espancar a mulher, o filho
estuprar a mãe, o pai assassinar a filha, enfim, o horror, o horror, o horror,
pois sei que o show não pode parar e que o seu limite é não ter limites.
* Frei dominicano. Escritor.