ESPECIAL

 

01 de fevereiro de 2006

Fausto Wolff

Filme de horror caro

São inúmeros e nojentos os morbos que assolam a política brasileira. A coisa é tão grave que se um homem decente for nomeado, por engano, para um cargo de confiança - qualquer um, municipal, estadual ou federal - terá de levar para o gabinete um longo chicote que usará para expulsar diariamente canalhas que lhe oferecerão dinheiro para roubar o povo - para servir de intermediário entre o ladrão e a vítima. De um modo geral, os patifes têm todos os advogados do mundo e a vítima apenas seu representante no Congresso e, ainda assim, se oferecerem a este representante um pourboire, ele passará a defender o algoz. Resumindo: o mal da política brasileira é que ela não está interessada na polis e sim no quanto a polis pode encher sua conta bancária. Dezenas de anos de jornalismo ensinaram-me a identificar o homem de bem entre os pulhas. Não posso precisar onde, mas numa das minhas primeiras colunas, quando ainda escrevia diariamente, falando sobre a CPI dos Correios, comentei após ouvir algumas poucas intervenções do deputado Osmar Serraglio (PMDB/PR ): ''Eis aí um homem de bem''. Minha impressão foi confirmada por seu relatório. Poderia ter descoberto mais, mas o governo não colaborou. Ninguém irá para a cadeia nem passará vergonha, pois os políticos são ricos e rico só pega cadeia de mentirinha, como Maluf. Por outro lado, não passa vergonha quem nunca soube o que é isso.

Não votarei em Lula, que para mim sempre foi um ator contratado por filhinhos de papai para funcionar como ícone de uma UDN disfarçada de operário, como o protagonista de A gaiola das loucas. Por outro lado, nem se me enfiassem um revólver na testa votaria em qualquer pessoa indicada por Fernando Henrique Cardoso, provavelmente, o maior delinqüente deste país, pois teve tempo para fazer o que bem entendeu em oito anos sem qualquer oposição que não o patriotismo de Brizola. O gaúcho já morreu, leitores, não permitam que Garotinho Garrotal e Cesar, o Maia, dois espertalhões, manchem seu nome.

Pela primeira vez na vida, o voto nulo me atrai. Mas ele precisaria vir montado numa colossal campanha. Veremos o que a esquerda (PDT-PSOL) nos oferece. Neste fim de tarde que se aproxima do meu espírito reconheço que tive duas notícias boas e uma boa e má ao mesmo tempo. A primeira positiva é a séria possibilidade de alguns ladrões serem cassados graças ao ferroglio do Serraglio. A segunda notícia boa é que sairá a CPI das privatizações de FHC. Ele já tinha muito dinheiro quando entrou no Alvorada. Aumentou sua fortuna uma centena de vezes em oito anos e as privatizações tiveram muito a ver com isso. O que é desprezível, reles e mesquinho é que o PT não quer ver a roubalheira exposta por algum motivo de ordem moral mas sim porque obrigará seu ''adversário'' (são todos filhos de Washington) a se apresentar tão sujo quanto ele no galinheiro eleitoral. Lula e o PT sabiam o que mais tarde a Vox Populi veio a confirmar: a venda da Vale por US$ 3,2 bilhões para um grupo organizado às pressas por Benjamin Steinbruch (Previ, Vicunha e transnacionais) foi o pior negócio já feito no mundo, desde que os incas entregaram o ouro aos espanhóis. Quatro anos depois, em 2001, a Vale já tinha um lucro de US$ 3,8 bilhões. Não graças à privatização, pois os lucros já estavam previstos. Só o Projeto Carajás do Sul tem jazidas de 18 bilhões de toneladas, uma vida útil para 400 anos, quando só existirem ratos e baratas na Terra. A vergonheira foi tanta que até Antonio Ermírio de Moraes se espantou ao ver o BNDES financiar grupos estrangeiros na privatização da Cesp: ''Eles deveriam trazer dinheiro para cá e não chupar nossos limitados cofres''. O Benjamim Steinbruch, que armou o golpe, é quem está feliz: saiu com pouco mais de US$ 1 bilhão nos bolsos. O comando agora é do Bradesco, que, como vocês sabem, é trouxa!

Ah, ia esquecendo: a notícia boa é que Nelson Jobim vai deixar a justiça em paz. A ruim é a de que ele vai entrar para a política e vem com muito apetite.

 

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