ESPECIAL
01 de fevereiro de 2006
Otimismo e mudança na América Latina
por Luis Hernández Navarro
Otimismo. Esse é o estado de ânimo que parece começar a prevalecer em
sectores do movimento popular latino-americano. Depois de muitos anos de
derrotas e de umas poucas vitórias, os dirigentes sociais da área começam a
sentir não só que o neoliberalismo pode ser derrotado como se encontra em
situação de franco declínio.
Essa sensação tem bases
justificadas, ao menos parcialmente, em alguns países. Poderosas revoltas dos
servos da gleba derrubaram um bom número de presidentes que traíram seus
compromissos de campanha. Decididas ações defensivas travaram a privatização de
bens e serviços públicos. Os povos indígenas converteram-se em potente ator
político com vocação transformadora. Em anos recentes, a ação dos movimentos
populares criou condições favoráveis para que se instalem governos
progressistas. O triunfo de Evo Morales na Bolívia fez crescer ainda mais esta
esperança de que a mudança é possível.
O otimismo é bom porque faz
crescer a confiança nas próprias forças e predispõe os movimentos a travar
lutas que podem ganhar. Estimula a sua ação. Entretanto, tal como ocorreu,
também propicia o surgimento de falsas expectativas. Fomenta ilusões que estão
longe de corresponder à realidade.
O campo popular na América
Latina enfrenta fatos que não permitem otimismo. O emprego formal cresce a
níveis muito mais baixos que o da população. A precariedade e a flexibilidade
laborais cresceram enquanto os salários reais vão para baixo. Mais de quatro mil
empresas estatais foram privatizadas na região. As redes de proteção social
deterioram-se significativamente. Grande número de fábricas maquilhadoras
transferiu-se para a China. Os sindicatos perderam presença e capacidade de
negociação.
Devido ao desemprego e à
falta de futuro entre a juventude cresceu a delinqüência, as quadrilhas e a
adição à droga. Em países como o México, El Salvador, Equador ou Uruguai a
emigração alcançou níveis surpreendentes. As remessas converteram-se na válvula
de escape de milhões de famílias e na tábua de salvação de não poucas
economias.
Todos estes elementos
estimulam a desintegração das comunidades e do tecido social que serve de
sustentação aos movimentos populares. Erosionam fortemente as formas de
mediação polícias e social tradicionais. Salvo casos muito pontuais em que se
resiste com êxito, à ofensiva neoliberal continua a avançar a reestruturação do
mundo do trabalho.
A onda do novo otimismo
precipitou uma euforia acerca das possibilidades da integração latino-americana.
Cada vez se fala mais da "pátria grande" e de uma região unida
enfrentando os reptos do seu desenvolvimento. Criaram-se grandes expectativas
quanto ao papel que podem desempenhar os governos progressistas da região na
criação de um bloco. Iniciativas como TeleSUL ou Petroamérica alimentam
este ânimo.
Contudo, a realidade é muito
mais complexa do que parece. Há na região uma preocupação real com a hegemonia
brasileira. Seu poderio econômico e militar é esmagador. Os choques, a nível de
governos, mas também de povos, entre Uruguai, Brasil e Argentina não só não diminuíram
como cresceram. A possibilidade de que o Uruguai assine um tratado de livre
comércio com os Estados Unidos gerou grande mal estar dentro do Mercosul.
É certo que, como disse o
presidente Hugo Chávez, em Mar del Plata foi enterrada a Área de Livre Comércio
das Américas (ALCA). Mas esse morto pode reviver a qualquer momento. Enquanto
isso avançam os acordos comerciais que Washington está a assinar ou negociar
com países e grupos de países na região.
Em contrapartida, a Alternativa Bolivariana para a América
(ALBA), ainda que seja um fato entre a Venezuela e Cuba, para o resto do
continente está longe de ser uma realidade. É certo que a Venezuela troca meios
energéticos por vacas prenhes e incubadoras da Argentina, planeia dotar a
Bolívia de gasolina em troca de soja e carne de frango e fornece petróleo
barato aos pequenos países do Caribe. Mas ainda falta muito para verificar se o
modelo se consolida e, sobretudo, se estende.
Kirchner na Argentina conseguiu vencer o Fundo Monetário Internacional no seu
desforço sobre o pagamento da dívida, e obrigou várias transnacionais que
operam serviços públicos a atuar sob controle estatal. Mas os governos
progressistas da região abandonaram a exigência de não pagar a dívida externa e
decidiram inclusive, como o Brasil e a Argentina, pagá-la adiantado. A
reivindicação de que essa dívida é imoral e injusta ainda é arvorada por
movimentos de base, mas não tem eco nas administrações.
Os governos do Brasil e do
Uruguai puseram a caminhar um reformismo sem reformas que, no caso do primeiro
país, já produziu grande desencanto. O brilho da política internacional de Lula
começou a obscurecer com o seu papel nas recentes negociações da Organização
Mundial de Comércio (OMC). O chamado socialismo do século XXI, arvorado por
Hugo Chávez, é mais um enunciado do que uma proposta estruturada. Em quase todo
o continente existem movimentos de base que se chocaram com esses governos
progressistas.
Retomou o movimento popular
a ofensiva? Sim, certamente desdobrou suas forças e ganhou batalhas
importantes. Não obstante, não se pode afirmar que o neoliberalismo no
continente haja sofrido uma derrota contundente ou esteja em retirada e na
defensiva. As grandes empresas continuam a manejar, no essencial, a economia da
região e têm enorme influência nas políticas públicas. Os organismos
financeiros multilaterais gozam de toda a saúde.
Seria, pois, conveniente
guarnecer com um pouco de moderação esse otimismo nas possibilidades de
mudança. Afinal de contas, não se pode esquecer que um pessimista é um otimista
bem informado.
O
original encontra-se em http: //www.jornada.unam.mx