ESPECIAL
21 de fevereiro de 2006
Entrevista
de Howard Zinn
a Miguel Álvarez Sánchez, de Contracorriente
Contracorriente: Vamos começar por
falar de livros.
Howard Zinn: Está bem.
Contracorriente.: Porque escreveu a História popular dos Estados Unidos ?
HZ: Escrevi-a porque estava a dar aulas de História, aulas de História
Norte-americana, e procurava um livro que representasse o meu ponto de vista.
Isto foi nos anos 70, depois dos movimentos sociais dos anos 60 e desses
movimentos sociais criarem o desejo por um ponto de vista que fosse diferente
do dos livros tradicionais, ortodoxos. Foi depois do movimento pelos direitos
cívicos, depois da Guerra do Vietname, que as pessoas se tornaram mais críticas
da política interna, da política externa; mas não havia livros de História
Geral dos Estados Unidos que reflectissem essa nova ideia, essa nova crítica.
Então, eu procurava um livro assim, as pessoas perguntavam-me se conhecia
algum, pessoas que tinham participado no movimento dos anos 60 pediam-me que
lhes recomendasse um livro que tivesse um ponto de vista radical e pensei, não,
na realidade não sei de nenhum; então decidi: “Vou escrevê-lo”. Às vezes é por
isso que se escrevem livros, procura-se um livro, não há e escreve-se.
Escrevi-o porque queria contar a história dos Estados Unidos, não do ponto de
vista dos presidentes, nem do Supremo Tribunal, nem do Congresso; esta era a
forma tradicional, a história tradicional... Olhe, é que tudo se baseia nos
presidentes. É irónico porque se se pressupõe que somos uma democracia, não se
pode pressupor que devemos exaltar o líder máximo; mas aqui os historiadores
diziam: Oh, devemos falar dos próceres, sobre George Washington, sobre John
Adams, devemos falar sobre Jefferson e Lincoln, etc, etc. E sobre as pessoas
comuns? Todos estes historiadores ortodoxos contam a história do
desenvolvimento económico norte-americano mas sempre a partir do ponto de vista
dos heróis da indústria: Carnegie Rockfeller, Morgan; foram eles que fizeram a
grandeza dos Estados Unidos. Mas estes historiadores não dizem nada sobre as
pessoas que trabalharam na refinaria de petróleo de Rockfeller, as pessoas que
trabalharam nas siderurgias de Carnegie, as pessoas que trabalharam nos caminho
de ferro. Imigrantes irlandeses, imigrantes chineses que trabalharam muitas
horas, com um salário baixo e muitos morreram. Estas pessoas foram omitidas da
história e eu criei-me numa família de classe humilde.
Comecei a trabalhar aos 18 anos num estaleiro naval. Normalmente, nas famílias da
classe média e, naturalmente, nas famílias da classe alta, quando se tem 18
anos, vai-se para a universidade, mas quem pertence a uma família da classe
humilde vai trabalhar. Fui trabalhar para um estaleiro e aí comecei a
interessar-me pela pessoas trabalhadoras, pela leitura, e comecei, com outros
jovens, a organizar os trabalhadores do estaleiro, de modo que tomei
consciência e interessei-me pelo movimento dos trabalhadores. Por isso queria
escrever a história dos Estados Unidos trazendo à luz os trabalhadores, as
lutas operárias, as greves... A maioria dos jovens que vão para a escola nos
Estados Unidos não aprendem que houve grandes greves, que foram as lutas
operárias que ganharam a implantação da jornada laboral de 8 horas. Se não se
conhecem essas greves, essas lutas, pensar-se-á que aquela jornada foi
estabelecida pelo Congresso, o Presidente ou, quem sabe?, Deus. Mas não, esta
ganhou-se graças às lutas dos trabalhadores, daí eu querer escrever sobre isso.
Também os negros foram omitidos, porque embora se falasse de escravatura,
realmente não se falava do ponto de vista dos escravos e, inclusivamente, nos
anos 30 até saiu um livro famoso de História Norte-americana, escrito por dois
famosíssimos professores de Harvard e de Columbia, em que se dizia que o
esclavagismo foi útil porque preparou os negros para a liberdade.
Contracorriente: Quem é Howard Zinn? É um radical?
HZ: Espero que sim, mas a palavra radical é frequentemente mal utilizada. Nos
Estados Unidos tem-se uma ideia muito vaga do que é ser radical e, por vezes
usam a palavra radical como extremista; para mim a palavra radical significa
chegar à raiz do problema, mais profundamente que a crítica comum. Por exemplo,
esta é a diferença entre um ponto de vista liberal e um ponto de vista radical...
Contracorriente: Qual é a diferença?
Dou-lhe alguns exemplos da diferença: de um ponto de vista liberal diria:
“Vamos dar melhor seguro de saúde a mais pessoas; vamos, talvez, dar mais
incentivos aos empresários para que proporcionem mais benefícios de saúde aos
seus empregados”. De um ponto de vista radical diria: “não vamos mais através
dos empresários nem das companhias de seguros, vamos pôr a saúde grátis para
todos”. Agora outro exemplo da actualidade. De um ponto de vista é: “Bom a guerra
do Iraque não está a ir bem, há uma forma melhor de combater, vamos envolver
mais países...”
Contracorriente: Essa é a abordagem de Kerry.
HZ: Exactamente, essa é a abordagem de Kerry: “Vamos envolver as Nações
Unidas”. A lógica é extraordinária, se a guerra é imoral, vamos deixar que mais
pessoas se unam a esta imoralidade. De um ponto de vista radical, se a guerra é
imoral, saiam do Iraque, parem a guerra. Enfrentámos esta mesma situação
durante a Guerra do Vietname...
Contracorriente: Diga-nos qualquer coisa sobre o período do Vietname. O que
significou para o povo norte-americano?
HZ: Bom, para os norte-americanos, o período do Vietname foi algo sem
precedentes na história norte-americana. Nada como isto havia acontecido antes,
com o que quero dizer que não houve movimento contra a guerra que fosse tão
amplo, tão grande, como no tempo do Vietname. Nas guerras levadas a cabo pelos
Estados Unidos sempre tivemos dissidentes, rebeldes que protestavam,
inclusivamente na guerra de independência. Todos dizem que foi uma guerra
maravilhosa, uma boa guerra, mas, inclusivamente aí, houve muitos
norte-americanos que não acreditavam que a guerra revolucionária era para eles,
os negros não acreditavam que era para eles, os índios tão-pouco. Os soldados
pobres que se uniram ao exército revolucionário não estavam seguros de que esta
guerra os beneficiaria, porque sabiam que havia uma classe colonial rica e que,
provavelmente, seria a mais beneficiada. Sim, houve ideias e acções dissidentes
durante a guerra revolucionária, e é assim em todas as guerras. Na guerra
mexicana de 1846-48 em que os Estados Unidos ocuparam quase metade do México,
houve soldados norte-americanos que desertaram, se negaram a combater e por aí
afora. Na Primeira Guerra Mundial houve uma grande oposição e inclusivamente na
Segunda Guerra Mundial que é a chamada “guerra boa”, inclusivamente nela, houve
quem dissesse que a guerra não era a solução. Mas nunca houve um movimento tão
grande, tão forte, contra uma guerra, como o movimento contra a Guerra do
Vietname. Começou lento, começou pequeno; De facto, no início só pequenas
manifestações foram levadas a cabo e nós dizíamos: “Nunca vamos ganhar”; “Nunca
vamos poder travar o governo dos Estados Unidos”; O governo dos Estados Unidos
é muito poderoso”; “Esta é a maior missão militar na Terra, como vamos detê-la
?”; mas o movimento cresceu, cresceu, cresceu.
Contracorriente: Porquê? Porque os norte-americanos estavam a morrer,
estavam a perder vidas? É essa a razão?
HZ: Creio que havia muitas razões, sim, porque os norte-americanos estavam a
morrer, mas não creio que essa tivesse sido a única razão, porque se tivesse
sido a única, isso significaria que aos norte-americanos não lhes importava o
que sucedia ao povo do Vietname. E se é certo que ao governo dos Estados Unidos
não lhe importava o que sucedia ao povo do Vietname, de facto ao governo também
não lhe importava o que sucedia aos norte-americanos. Mas creio que sim, as
baixas, as crescentes baixas de norte-americanos no Vietname tiveram um grande
efeito no público norte-americano. Mas houve algo mais, foi que o povo
norte-americano tornou-se mais e mais consciente de que os Estados Unidos
estavam a fazer coisas terríveis no Vietname. Começaram a ver fotografias de marines
na televisão, deitando fogo às choças, nas aldeias; viam um marine americano,
corpulento, apontar uma pistola a uma pequena mulher vietnamita acompanhada dos
filhos. Foi algo que comoveu as pessoas, e depois inteiraram-se do massacre de
My Lay. Inteiraram-se um ano mais tarde porque a imprensa é sempre mais lenta a
contar estas coisas, porque o massacre de My Lay foi em 1968 e só em 1969 é que
saiu na imprensa norte-americana. Então, o povo norte-americano viu fotografias
horríveis de soldados norte-americanos a assassinar centenas e centenas de
mulheres e crianças vietnamitas. Tal como as vidas norte-americanas perdidas
contribuíram para o movimento contra a guerra, também contribuiu o crescente
convencimento de que o que estava a suceder no Vietname era desumano e
incorrecto. Agora o povo conhecia mais sobre a guerra, conhecia mais sobre as
razões da guerra, começou a notar que lhe estavam a mentir, muitas destas
coisas estão agora a suceder no Iraque.
Por exemplo, o incidente que provocou a guerra no Verão de 1964, o chamado
incidente do Golfo de Tonkin, em que o Governo norte-americano disse: “O
Vietname do Norte disparou contra destroyers norte-americanos”, etc,
etc, “devemos ir para a guerra”. Bem, inteirámo-nos que era mentira e
conheceram-se mais mentiras, uma mentira típica como esta: “só estamos a
bombardear pontos militares”, mentira típica. Então foi a crescente consciência
do povo que contribuiu para o movimento contra a guerra, os seus líderes
imprimiram jornais alternativos, organizaram concentrações e conferências. Por
outras palavras, educaram o povo norte-americano a respeito da guerra. Mas,
inclusivamente mais importante que o trabalho que os líderes do movimento
estavam a realizar, mais importante ainda, é que a realidade que estava a
suceder no Vietname estava a chegar ao povo norte-americano.
Contracorriente: Bem, estávamos a falar do Vietname. Gostava que me falasse
sobre os documentos do Pentágono, porque o meu amigo Weinglass disse-me que foi
uma das testemunhas do julgamento.
HZ: Sim, admito-o, fui testemunha. Os documentos do Pentágono foi um dos
mais interessantes da Guerra do Vietname, melhor, um dos episódios mais
interessantes da história norte-americana, porque foi um acontecimento
excepcional com alguém que tinha um alto cargo no governo e que, de repente,
deu uma volta e expôs todos os segredos do governo: Daniel Ellsberg, com a
ajuda de Tony Russo. Ambos trabalhavam para a RAND Corporation. A RAND
Corporation é o que chamam um cérebro, um grupo de intelectuais contratados
para trabalhar para o governo. Fornecem-lhe informações, por exemplo Anthony
Russo, trabalhava com Daniel Ellsberg, cujo trabalho na RAND Corporation era
interrogar prisioneiros vietcong. Quando os interrogava aprendeu uma coisa
muito importante que mudou as suas ideias sobre a guerra. Deu-se conta que
aquelas pessoas, que tinham sido soldados da Frente de Libertação Nacional do
Vietname, sabiam porque estavam a lutar. Entendiam porque se fazia a guerra,
enquanto os soldados do Exército do Vietname do Sul, que estavam a trabalhar
com os Estados Unidos, não sabiam porque a faziam. Isto fê-lo mudar de ideias.
Daniel Ellsberg era um graduado por Harvard, tinha várias licenciaturas, tinha
trabalhado no Departamento de Estado, trabalhou na RAND Corporation com o
Departamento de Defesa, havia sido marine no Vietname e, quando ali
esteve, viu coisas que o perturbaram, sobre o que os Estados Unidos estavam a
fazer no Vietname e decidiu que a guerra era incorrecta. Assim, quando
regressou aos Estados Unidos e a RAND Corporation lhe deu um trabalho
encomendado pelo Departamento de Defesa, que consistia em organizar a história
da Guerra do Vietname, a história secreta, baseada em documentos do governo...
Ele foi fazer este trabalho e, quando leu estes documentos, convenceu-se mais
do que nunca, que os Estados Unidos estavam a fazer uma coisa errada no
Vietname. Leu coisas assim: “O Governo do Vietname do Sul não é um Governo
independente, é uma criação dos Estados Unidos”. Os Estados Unidos diziam que
só estavam a bombardear pontos militares e ele encontrou evidências de que os
bombardeamentos eram para destruir a moral da população civil. Essa experiência
fê-lo decidir pegar naqueles papéis secretos, 7.000 páginas, fotocopiá-los e
distribuí-los entre o povo. Foi assim que ele, e o seu amigo Anthony Russo
resolveram fazer isso em segredo.
Contracorriente: E qual foi o seu papel no assunto?
HZ: Tinha que me tornar amigo de Daniel Ellsberg. Ele tinha saído da RAND
Corporation, do governo, tinha começado a falar em comícios contra a guerra.
Conheci-o num deles, tornámo-nos amigos, a mulher dele, da minha. Naquela
altura eles viviam em Cambridge, na zona de Boston, onde eu vivia, e um dia
estávamos, minha mulher e eu no seu apartamento em Cambridge e ele disse-me:
“Tenho uma coisa a dizer-te, tenho uns papéis que ninguém conhece, queres
vê-los”? E passou-me um monte de papéis, e eu li-os. Depois prenderam-no, e
acusaram-no de violar a Lei de Espionagem, que diz que não se pode publicitar
informação nem documentos que possam prejudicar a defesa nacional. Prenderam-no
por isso, a ele e ao Anthony Russo, tendo sido condenado a 130 anos de cadeia.
Parece uma loucura, 130 anos, 13 penas de 10 anos cada. Como o levaram a juízo
em Los Angeles, a mim chamaram-me como testemunha de defesa, porque havia lido os
documentos do Pentágono e, por isso, tinha de explicar ao Júri o que
diziam esses documentos ; estive 5 horas a depor, contando-lhes a
história da guerra do Vietname. Essas pessoas eram norte-americanos típicos,
sabiam muito pouco da guerra, contei-lhes essa história, grande parte do que
estava escrito nesses documentos . O que tinha de fazer era contar ao
Júri a história da guerra e explicar-lhes porque é que esses papéis não eram
prejudiciais para os Estados Unidos, para o povo dos Estados Unidos, mas eram
uma vergonha para o Governo e era por isso que o governo os queria manter
secretos.
Contracorriente: Vamos falar do 11 de Setembro. O que é que se passou
depois? O que é que mudou nos Estados Unidos?
HZ: Como toda a gente sabe o 11 de Setembro foi um acontecimento catastrófico.
Nada como aquilo havia sucedido antes nos Estados Unidos, nunca, em dia algum.
Foi um safanão para o povo norte-americano e, claramente, os terroristas eram
responsáveis, tudo bem. Bush acabara de ser eleito Presidente, era o novo
Presidente. A pergunta era: Como vai Bush reagir a isto?, o qual imediatamente
disse: “Vamos declarar guerra ao terrorismo”. Como se pode declarar guerra ao
terrorismo? O terrorismo não é um país... Não se pode dizer: “Vou declarar
guerra a este lugar, vou bombardeá-lo, e os terroristas serão vencidos”. Não há
terroristas por todo o lado. De facto o próprio Governo dos Estados Unidos
disse: “Há terroristas em muitos países do mundo, em 30 ou 40 lugares
diferentes do mundo”.
Contracorriente: E mencionaram mais de 60.
HZ: Sim, estão sempre a mudar o número, mas o problema é que o terrorismo não é
uma coisa que se possa combater com uma guerra. Na altura já estava claro, não
para o povo norte-americano que estava a aceitar..., ou para a imprensa, que
também estava a aceitar esta ideia da guerra contra o terrorismo, mas estava
claro para muitos de nós, não passava de um mecanismo, um truque para permitir
que o governo dos Estados Unidos fizesse o que já queria fazer antes do 11 de
Setembro: aumentar o seu poder no Médio Oriente. Por isso, a primeira coisa que
Bush faz é bombardear o Afeganistão. Milhares de pessoas morreram, milhares de
cidadãos morreram, centenas de milhares de afegãos tiveram que abandonar as
suas terras. Diz que está à procura de Osama bin Laden, que é a cabeça do
terrorismo. Nunca o encontra, mas já morreu toda esta gente. Esta é a guerra
contra o terrorismo. A guerra contra o terrorismo é absurda, porque se se
analisar inteligentemente, não se pode lutar contra o terrorismo bombardeando
este ou aquele país. A única forma de lidar com o terrorismo é formular a
pergunta: quais são as causas do terrorismo, as raízes do terrorismo? O que é
que motiva estes terroristas? Além do mais, esta não é a única experiência
histórica com o terrorismo. O IRA, na Irlanda, cometeu actos terroristas e os
britânicos responderam-lhes da mesma forma que Bush, com a força. Isso não
deteve o IRA. Finalmente os ingleses tiveram que reconhecer que havia qualquer
coisa mais por detrás desse terrorismo. Há uma grande afronta por trás do
terrorismo, a afronta do IRA é que os britânicos estão a ocupar o seu país. Têm
que se fazer qualquer coisa com respeito a isso, se querem resolver qualquer
coisa no que diz respeito ao terrorismo.
Tomemos a situação de Israel, terrorismo, bombas suicidas. O governo
israelense, Sharon, responde a isso da mesma forma que Bush, com a força. Para
que serve? Isso detém as bombas suicidas? Não, aumentam. A única forma que
Israel tem de deter o terrorismo, é pensar que tem de eliminar a causa do
terrorismo, e esta causa é a ocupação dos territórios palestinos. Só isto vai
parar o terrorismo. Por isso, para os Estados Unidos, a questão importante é o
que move estes terroristas, e não é difícil dar-se conta de qual é: A política
norte-americana no Médio Oriente, os exércitos de ocupação norte-americanos no
Médio Oriente, o apoio dos Estados Unidos a Israel, que é muito importante para
todos no Médio Oriente, as sanções que os Estados Unidos estavam a apoiar no
Iraque, que consistiam em matar centenas de milhares de pessoas. Isto são
ofensas, ofensas genuínas, ofensas reais. Por isso, se realmente o terrorismo
os preocupa, têm de fazer qualquer coisa acerca destas ofensas, mas os Estados
Unidos não querem fazer nada porque, então, teriam que mudar a sua política
externa, teriam que ser um país diferente, retirar as suas tropas do Médio
Oriente e deixar de apoiar Israel. Eles não querem fazer nada disso. Assim se
desvia a atenção das pessoas, e esse desvio da atenção é a guerra contra o terrorismo.
Contracorriente: Estava a falar da política externa depois do 11 de
Setembro. Qual o seu significado na sociedade norte-americano? Refiro-me à Lei
Patriótica que suprimiu as conquistas obtidas pelos movimento cívicos. Há
alguma repercussão nos Estados Unidos?
HZ: O que sucedeu depois do 11 de Setembro foi o que sempre acontece quando há
uma crise e os Estados Unidos entram em guerra. O Governo diz ao povo: “Estamos
numa crise, esta é uma situação especial, não podemos ter as mesmas liberdades,
a mesma liberdade de expressão, a Constituição tem que ser posta de lado, a
Declaração dos Direitos Fundamentais tem que ser posta de lado, porque esta é
uma emergência”. Isto acontece sempre; sempre que há uma emergência o governo
suprime a liberdade de expressão. Na Primeira Guerra Mundial os Estados Unidos
prenderam cerca de 1.000 pessoas que opinavam contra a guerra. Agora, com o 11
de Setembro, com a guerra contra o terrorismo, com esta crise, que é quase
irreal porque há terrorismo em toda o mundo, mas artificial e em certo sentido
engrandecido, exagerado, o governo começa a agir contra a Constituição
norte-americana, aprisiona pessoas sem reconhecer os seus direitos
constitucionais. A Constituição norte-americana não permite prender pessoas,
mantê-las detidas e que nunca mais se ouça falar delas. Pressupõe-se que tenham
advogados, pressupõe-se que tenham penas e que se saiba quais são essas penas,
pressupõe-se que tenham julgamentos, audiências. Não só prendem milhares de
pessoas, como não lhes fazem nenhum julgamento, não têm advogado. O Congresso
aprovou o que se chama a Lei Patrióticas. É muito interessante que sempre dão a
este tipo de leis nomes falsos: Leis Patriótica. A Lei Patriótica dá mais poder
ao FBI para interferir na opinião privada, na vida privada das pessoas; Dá ao
FBI o direito de verificar os antecedentes das pessoas, dá-lhes o direito de ir
às bibliotecas e perguntar que livros se emprestaram, que tenham a ver com o
Médio Oriente. Sim, homens do FBI visitaram bibliotecas perguntando quem pediu
livros sobre o Islão. Que significa isto? Que alguém que esteja interessado no
Islão é um potencial terrorista? É absurdo, mas é assim, o que isto fez foi
criar um ambiente de medo, particularmente entre os que não são cidadãos, os
que vivem nos Estados Unidos, mas não têm a sua cidadania. São objecto de todo
o tipo de repressões, são mais vulneráveis que os cidadãos norte-americanos.
Não têm os mesmos direitos. Há milhões de pessoas nos Estados Unidos que não
têm a cidadania norte-americana, mas vivem aí e podem ser expulsos por dá cá
aquela palha, com o simples estalido dos dedos do Procurador Geral; assim têm
de ter medo.
Contracorriente: Estávamos a falar do período do Vietname. Qual é a sua
avaliação das diferenças e similitudes entre o Vietname e o Iraque ?
HZ: Bom, há diferenças óbvias. No caso do Vietname, os Estados Unidos
enfrentaram não só um movimento rebelde organizado no Sul, mas também um
Governo real no Norte que apoiava o movimento rebelde no Sul. No Iraque, os
Estados Unidos estão a enfrentar qualquer coisa que, na realidade, se parece
mais ao que enfrentava no Vietname do Sul, o movimento guerrilheiro da
resistência. Na Guerra do Vietname as baixas dos Estados Unidos foram maiores.
A escala da luta, dos bombardeamentos, foi imensa no Vietname. No Vietname, os
Estados Unidos perderam 50.000 soldados; no Iraque perderam até agora quase
1.000 soldados. Há diferenças, mas há semelhanças muito sérias. Há uma
fundamental, a semelhança fundamental é que no Vietname, os Estados Unidos enviaram
tropas em aviões, para o outro lado do mundo, atacar um pequeno país que não
estava a ameaçar os Estados Unidos; exactamente a mesma coisa no Iraque. Aqui
está este país gigante, os Estados Unidos, com 280 milhões de habitantes, a
enviar um exército para o outro lado do mundo, ao Iraque que tem 25 milhões de
habitantes, para o bombardear e invadir, e o Iraque não é uma ameaça para
ninguém, quando muito para a sua própria gente, para mais ninguém. Esta é que é
a semelhança fundamental entre as duas situações. Também há outras: em ambos os
casos pode dizer-se que se disseram mentiras enormes ao povo norte-americano
sobre o Vietname e agora sobre o Iraque. Também na Guerra do Vietname, o povo
dos Estados Unidos começou, lentamente, a aperceber-se que lhe estavam a mentir
e, também agora, começou a aperceber-se de que o tempo final é diferente, o
tempo final para o Iraque chega mais rapidamente do que para o Vietname. Quanto
ao Vietname, passaram-se vários anos até que as pessoas começassem a pensar que
a guerra era incorrecta, e que tudo o que lhe diziam era enganoso, isso levou
tempo. Na Guerra do Iraque foi muito mais rápido. Além do mais, só se passou um
ano desde que os Estados Unidos começaram a Guerra com o Iraque e o povo
norte-americano já sabe que toda aquela estória sobre as armas de destruição
maciça era mentira e o movimento contra a guerra nos Estados Unidos cresceu
mais rapidamente quanto à guerra do Iraque do que quanto à do Vietname.
Contracorriente: Mais rápido, mas não com a mesma força.
HZ: Não tão grande, nem ainda tão amplo.
Entrevistar: Isso porquê?
HZ: É verdade. É importante entender porque foi lento o povo norte-americano a
compreender o que está a suceder no Iraque, porque, apesar de tudo, muitos
americanos ainda pensam que foram encontradas armas de destruição maciça. Coisa
totalmente falsa. A razão é que os media estão a ser mais controlados
agora do que aquando da Guerra do Vietname. Os canais de televisão, os jornais
estão agora muito mais concentrados nas mãos de algumas corporações
poderosas... Onde procuram os norte-americanos as notícias, a informação? De
facto, houve recentemente uma sondagem em que perguntaram aos norte-americanos
que canal de televisão vêem e o que acreditam disto e daquilo. Verificaram que
a maioria das pessoas vêem a Fox News, que é o canal da direita e o de maior
audiência e, entre aqueles que viam a Fox News, 80% ainda acreditava que se
tinham encontrado armas de destruição maciça no Iraque. Isto mostra o poder que
têm os meios de comunicação e é contra isto que temos de lutar, nós e o
movimento contra a guerra.
Contracorriente: Temos estado a falar sobre o Vietname e o Iraque. A acção
militar dos Estados Unidos foi levada a cabo em nome da democracia e da
liberdade. Porquê?
HZ: Como se pode persuadir o povo norte-americano a enviar tropas a 5.000
milhas? Como se pode persuadir o povo norte-americano a invadir uma pequena
ilha? Tens de criar palavras-de-ordem... Se leres George Orwell, 1984 ,
vês como para criar um estado totalitário se usam palavras e frases que oprimem
a mente. Então, o Governo diz que estamos a lutar pela liberdade, pela
democracia e, inclusivamente, dá nome às guerras, chama-lhes: Operação
Liberdade, Operação Preservação da Liberdade. Os norte-americanos acreditam na
liberdade e na democracia. Que digo? Toda a gente acredita na liberdade e na
democracia. Dizem aos norte-americanos que estão a lutar pela liberdade e pela
democracia. Ora bem, aí está uma coisa mais, que creio ser importante: a
memória da Segunda Guerra Mundial, ainda muito forte nos Estados Unidos, porque
é a guerra geralmente aceite como justa, porque foi realmente pela liberdade e
pela justiça, porque foi uma guerra contra o fascismo. A verdade é que a
Segunda Guerra Mundial não foi estrita e simplesmente uma guerra pela
democracia. Ao fim e ao cabo, quem estava a lutar contra o fascismo? O Império
britânico, o império francês, o império norte-americano e a Rússia de Stalin.
Estavam mais interessados na democracia e na liberdade? Não, tinham outros
interesses. Mas os interesses naquele momento coincidiam com os interesses das
pessoas que queriam livrar-se do fascismo. A Segunda Guerra Mundial ainda está
muito viva nos Estados Unidos, chamam-lhe a Guerra Boa. Por isso o Governo e a
imprensa fazem comparações com a Segunda Guerra Mundial e dizem: “Na Segunda
Guerra Mundial lutámos contra Hitler”. Sadam Hussein é Hitler, outro Hitler. Na
Segunda Guerra Mundial disseram: “Devemos lutar pela democracia”. Agora também.
Fazem estas comparações e estas analogias para apanhar os elementos morais da
Segunda Guerra Mundial e transportá-los para todas as guerras incorrectas e
injustas que temos feito desde o final daquela guerra.
Contracorriente: E que há com Cuba? A política dos Estados Unidos, desde o
princípio, era a de estimular uma mudança de regime em Cuba, mas agora falam
abertamente de o fazer.
HZ: Sempre falaram de mudanças de regime e é interessante, os norte-americanos
não aprendem com a história que se ensina nas escolas norte-americanas, não
aprendem com a história das mudanças de regime. Porque os Estados Unidos têm
uma história de mudanças de regime e a questão é quando os Estados Unidos se
envolvem em mudanças de regime, qual é o resultado? Podemos regressar a 1898,
podemos voltar à guerra contra a Espanha. Isso era uma mudança de regime: Os
Estados Unidos desfizeram-se da Espanha. Isso não trouxe a liberdade a Cuba,
trouxe o poder norte-americano. É verdade que os Estados Unidos trataram de
mudar regimes em todo o mundo, incluindo regimes democráticos, eleitos, no
Chile e Guatemala. Muda o regime e qual é o resultado? Ditadura, morte, mas o
povo norte-americano não conhece esta história. Os Estados Unidos, como diz,
desde sempre quiseram mudar o regime em Cuba. Mas quando se envolveu numa
mudança de regime o que esteve por detrás disso? A liberdade e a democracia?
Não, o que sempre esteve por detrás disso é os Estados Unidos quererem que o
poder seja de governos que estejam submetidos aos seus interesses. Durante a
Guerra Fria diziam que queriam derrubar governos comunistas, mas não só
governos comunistas, porque o Chile não tinha um governo comunista e a
Guatemala tão-pouco. Não querem qualquer governo que não coopere com os Estados
Unidos. Assim, o problema com Cuba não é ser marxista, comunista ou socialista.
O problema é que Cuba insiste em ser independente, insiste em não se submeter
aos Estados Unidos, esse é o problema de Cuba. E o Governo dos Estados Unidos
não diz ao povo o que a Revolução Cubana fez pelos cubanos, a saúde, a
educação, a cultura. Nada dizem sobre isso e criam a imagem de que Cuba tem um
governo que deve ser derrubado. E agora estão mais agressivos, porque querem
agradar aos cubanos da Florida.
Contracorriente: Mas antes, quando as pessoas da Florida, quero dizer os
cubano-americanos não votavam nas eleições, o governo dos Estados Unidos já
tinha uma política de mudança de regime e ninguém votava nas eleições a seguir
a 59, a princípio.
HZ: Claro, não é a única razão, mas é a que se deu desde que eles começaram a
votar na Florida.
Contracorriente: Sabe que a partir do território dos Estados Unidos,
especialmente a partir da Florida, tem havido actividades terroristas contra
Cuba desde início, mas agora, Bush diz que aqueles que abrigam um terrorista
são eles próprios terroristas.
HZ: Pois, essa é uma forma muito conveniente para atacar qualquer governo que
os Estados Unidos queiram atacar, dizer que abrigam terroristas. Então, se vai
atacar qualquer governo que abrigue terroristas, tem que atacar os Estados
Unidos. Os Estados Unidos albergou terroristas... e participou em actos
terroristas. Isto é uma coisa que frequentemente se esquece quando se fala de
terroristas. Participaram, como disse, em actos secretos de terrorismo contra
Cuba, actos secretos de terrorismo contra a Nicarágua. Durante o governo de
Reagan fez-se um acto secreto de terrorismo no Líbano, em que a CIA preparou o
carro bomba para explodir numa mesquita em que morreram 80 pessoas. Mas sobre
isto ainda quero acrescentar: Há actos de terrorismo cometidos por indivíduos ou
grupos que se fanatizam por se sentirem ofendidos, mas os governos que praticam
actos terroristas fazem-no em maior escala, porque têm mais recursos, muito
mais poder. Os actos terroristas cometidos pelos governos custam muito mais
vidas humanas que os actos individuais de terrorismo.
Contracorriente: Temos estado a
falar de história e de política. Porque não falamos um sobre si, como escritor
de obras de teatro? Marx
in Soho
, porquê?
HZ: Quando se derrubou a União Soviética em 90, 91, nos Estados Unidos todos
disseram: “Ah, isto significa que o socialismo morreu, é o fim do socialismo,
isto prova que o marxismo é um fracasso.” Eu não acreditei, primeiro porque não
considerava que a União Soviética representasse o verdadeiro socialismo. Havia
muita ditadura, muita burocracia, muita supressão da liberdade na União
Soviética, por isso, para mim, o marxismo não está morto, agora que já não
existe a União Soviética. A ideia de socialismo é para mim muito importante e é
uma ideia que devia manter-se viva, por isso pensei como pôr isso em cena.
Tinha escrito algumas obras de teatro antes, mas como podia pôr esta em cena?
Bom, vou trazer o Marx para que fale, trá-lo-ei donde quer que esteja. Quem
sabe onde está? Ele vivia no Soho de Londres, mas as pessoas que o trazem de
volta, suponho que um comité, cometem um erro e em vez de o mandar para o Soho
de Londres, envia-o para o Soho de Nova Iorque. É uma obra de teatro de um só
personagem. Aparece o Karl Marx e diz: Estou aqui para explicar o que é
realmente o marxismo e digo-lhes que a União Soviética não era verdadeiramente
marxista e que as ideias marxistas sobre o capitalismo são válidas até porque
agora estou em Nova Iorque e vejo pessoas vivendo na rua, vejo como as empresas
controlam o governo, vejo como as pessoas estão absolutamente controladas pela
televisão e a propaganda do governo e, apesar disso, como há diferenças de
classe. Sim, as ideias marxistas estão vivas ainda. Quer dizer que o derrube da
União Soviética não significa o derrube do socialismo, a ideia de socialismo continua
a ser uma boa ideia; que a riqueza do mundo deveria ser distribuída
equitativamente entre todos e que o socialismo não significa ditadura, mas
liberdade, liberdade de expressão e Marx também quer dizer que o capitalismo é
absolutamente desastroso para a maioria das pessoas e para a sociedade, por
isso deve ser substituído por uma sociedade socialista que seja verdadeiramente
democrática.
Contracorriente: Bom, foi uma grande honra e um grande prazer estar aqui com
o senhor. Obrigado pelos seus pensamentos, pelas suas respostas, mas sobretudo
por estar aqui.
HZ: Muito Obrigado, para mim foi muito estimulante estar neste momento em Cuba.
Os
originais podem ser encontrados em http://www.rebelion.org/noticia.php?id=7998
ou http://lahaine.org/b2/articulo.php?p=4974&more=1&c=1
Tradução de José Paulo Gascão.
Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/
.