ESPECIAL
08 de março de 2006
AO ARQUEÓLOGO DO FUTURO
O que o Brasil nos deixou
Difícil
dizer com certeza se havia a intenção, por parte dos brasileiros, de preservar
alguma coisa para o futuro, como outros povos se esmeraram em fazer em momentos
diferentes da trajetória da humanidade.
Soninha Francine
Boa tarde a todas e todos, obrigada pela atenção. Apresentamos,
hoje, algumas das conclusões obtidas depois de meses de estudo dos materiais
encontrados nas escavações realizadas no território que era conhecido, 300 anos
atrás, como Brasil.
Difícil dizer com certeza se havia a intenção, por parte dos brasileiros, de
preservar alguma coisa para o futuro, como outros povos se esmeraram em fazer
em momentos diferentes da trajetória da humanidade. Ao que parece, o que
“sobrou para contar a história” sobreviveu quase por acaso e não como resultado
de um esforço organizado. Mesmo assim, foi possível obter informações
interessantes sobre qual tipo de civilização existiu ali.
1 – Moradias: encontramos uma surpreendente variedade de tipos de residências.
Chega a ser um desafio para os pesquisadores afirmar, com certeza, que os
vestígios encontrados são de construções de um mesmo período, mas a conclusão a
que chegamos, por mais improvável que pareça, é de que são. Por razões difíceis
de precisar, havia edifícios pequenos para os padrões atuais, mas imponentes
para a época, já dotados de recursos tecnológicos primários como sensores de
presença e outros dispositivos de segurança – uma obsessão do brasileiro médio
no começo do século XXI. Ao mesmo tempo, em locais próximos a essas
construções, encontraram-se sinais inequívocos de habitações com
características típicas de séculos anteriores, feitas de materiais frágeis,
perecíveis – como “papelão” e “madeirite”, ambos materiais originados das
“árvores” - incompatíveis com o estágio do desenvolvimento da época.
2 – Transporte: parece evidente que o brasileiro, como milhões de outros seres
humanos na época, valorizava muito o “automóvel” – veículo sobre rodas, para
transporte de uma a quatro pessoas, dotado de motor a explosão. Há evidências
de que alguns núcleos familiares possuíam tantos automóveis quantos fossem os
seus membros; tudo indica que o automóvel servia tanto ao propósito de
deslocamento quanto de identificação de grupos sociais e demarcação de
território... Porém, quando sobreveio a escassez de combustíveis fósseis e de
biocombustíveis, devido à grande crise climática do fim do século XXI que
extinguiu a agricultura em grande escala, os automóveis foram subitamente
tornados obsoletos e o Brasil foi obrigado a aderir, com muito atraso, a outras
formas de transporte que àquela altura já eram populares em outras partes do
planeta, como os trens movidos a hidrogênio.
É curioso observar, porém, que os esqueletos humanos encontrados demonstram que
naquela época ainda havia um número significativo de deslocamentos a pé. Os
membros inferiores eram mais desenvolvidos do que hoje em dia; pode-se afirmar
com certeza que as pessoas suportavam se sustentar por várias horas sobre as
suas pernas. Parece incrível pensar que, em momento não muito distante de nossa
história, nossos avós tinham essa capacidade. Um adulto andava facilmente à
velocidade de 8 km por hora, subia planos inclinados e escadas.
3 – Ensino e aprendizagem: durante cerca de 10 anos, as crianças e jovens
(período compreendido, na época, entre os 6 e os 16 anos de idade,
aproximadamente) reuniam-se diariamente nas construções que eram chamadas de
escolas. É como se tivéssemos todos de nos deslocar para um mesmo ambiente para
que esta palestra se realizasse. Aqui, também, como no caso da moradia e
transporte, havia a convivência incompreensível de informações e recursos
“modernos” com conteúdos que já na época eram antiquados, superados, obsoletos,
como atestam “livros” da ocasião. (Livros, como vocês já devem ter tido a
oportunidade de conhecer, eram feitos de “papel”, extraído principalmente de
“árvores”. Creio que todos aqui já viram pelo menos um modelo de “árvore”).
Na escola, a figura do professor era de um adulto que ensinava, vejam vocês, os
conteúdos às crianças. Aliás, nos primeiros anos de vida, as crianças ficavam,
normalmente, sob a tutela de alguém mais velho (embora seja possível
identificar sinais de distorções – há vestígios de crianças reunidas em grupos
errantes, sem adultos por perto). Não é possível precisar a época exata em que
assumiram mais responsabilidades, até o ponto em que nos encontramos hoje. Mas
já nessa época desenhava-se o cenário em que as crianças apreendiam
determinadas informações e passavam a dominar determinados recursos
tecnológicos mais rapidamente que os adultos, em estágio preparatório da grande
inversão que viria a seguir. De todo modo, era inconcebível, então, pensar em
uma pessoa como eu, de doze anos, ministrando uma palestra para um público de 30
anos de idade, em média. Não é curioso?
Ainda sobre a transmissão e circulação de informações: o período estudado foi o
último em que se produziram jornais diários, impressos em papel – que,
misteriosamente, sobreviveram por alguns anos à convivência com a televisão,
rádio e internet, que já na época veiculavam notícias e opiniões em tempo real,
embora em suportes desajeitados (aparelhos de grande volume, em sua maioria
conectados à rede elétrica por fios). Ainda levou um tempo até que as pessoas
se desinteressassem completamente por aquele compêndio muito limitado (e algo
atrasado) de informações e comentários produzidos por um grupo pequeno de
pessoas.
4 - Lazer: estruturas gigantes em concreto indicam um curioso parentesco com as
construções de milênios anteriores, como o Coliseu. Nesses estádios, eram
encenadas partidas de futebol com jogadores reais, e essa era uma diversão
muito apreciada.
5 - Outros dados curiosos: como a Terra ainda era banhada por oceanos, os
brasileiros se deslocavam periodicamente em grande número em direção ao
Atlântico, para atividades que não conseguimos definir com precisão.
Devido à existência do mar e também de florestas, havia animais em profusão. Os
insetos, na época, estavam entre os menores. Peixes, aves e mamíferos eram
centenas de vezes maiores que eles. Alguns chegavam a ser muitas vezes maiores
do que um homem, como elefantes e leões (não no Brasil, é verdade). Havia
milhares, ou melhor, milhões de bovinos. É assustador imaginar como seria se os
bilhões de moscas de então tivessem as dimensões dos insetos de hoje em dia,
felizmente muito menos numerosos...
Já caminhando para a conclusão desta apresentação, e pedindo desculpas
antecipadas por eventuais imprecisões que venham a ser corrigidas por estudos
posteriores, podemos nos perguntar: teriam os brasileiros sido surpreendidos
pela tragédia que os dizimou? Por incrível que pareça, sim. A extinção de
outras civilizações, como a chamada norte-americana, que consumiu todos os
recursos para sua sustentabilidade e praticamente implodiu, não deteve seu
próprio processo autodestrutivo. E não faltaram alertas por parte dos próprios
brasileiros, como atestam documentos encontrados nos escombros: a suspeita de
que as imensas monoculturas transgênicas estariam mais sujeitas a grandes
pragas de difícil controle... Os danos evidentes do efeito estufa... A
insustentabilidade de concentrações populacionais nos moldes em que ocorriam...
Os índices de violência da época já eram um sinal claro de que elas também
tendiam à autodestruição. Também não faltou quem temesse, na época, as
conseqüências da produção descontrolada de resíduos, do assoreamento de “rios”,
da concentração de poluentes no “ar” e na “água”... A única surpresa realmente
digna do nome foi o grande terremoto, que terminou de destruir o que já vinha
se constituindo como terra arrasada.
Mas o legado da civilização brasileira, sabemos, não foi completamente perdido.
A exemplo do que aconteceu em diferentes momentos da história, preservaram-se
em alguma medida a arte e a cultura, um dos poucos pontos de contato de nossa
geração com a de nossos ancestrais. O que é muito específico dessa etapa é a
maneira como se deu a transmissão desses elementos – o que reforça mais uma vez
a peculiaridade de um povo que conseguia conviver com os extremos do progresso
e do atraso, em combinação às vezes feliz, às vezes danosa (como no caso das
habitações anacrônicas).
A música, o traço mais marcante da cultura brasílica, foi preservada e
transmitida em meio digital (como sabemos, arquivos “suspensos” na estratosfera
para posterior decodificação) e também de boca a ouvido, como nos primórdios da
humanidade, por brasileiros que se deslocaram pelo planeta e sobreviveram ao
fim de sua pátria. E graças a esses dois meios imateriais tão diversos entre
si, podemos desfrutar das melodias brasileiras aqui, neste lugar que era então
chamado de Sibéria e era diametralmente oposto, em todos os sentidos, ao
território dos brasileiros. E podemos nos lançar ao desafio ainda mais complexo
de decifrar os significados dessa cultura a partir de elementos tão díspares
quanto a produção de “Tati Quebra-Barraco”, dos primeiros anos 2000, e “Chico
Buarque”, da segunda metade dos 1900.
Muito obrigada.