ESPECIAL
08 de março
de 2006
CARA DE PAU
Relatório americano
sobre direitos humanos no mundo exclui EUA
O relatório aparece num momento em que os Estados Unidos são
altamente criticados quanto ao cumprimento dos direitos humanos. Denúncias de
detenção de suspeitos de terrorismo sem julgamento, tortura dos detentos no
campo de concentração da base ilegal de Guantânamo, e maus tratos e torturas a
prisioneiros no Iraque estão sendo divulgadas pela imprensa do mundo todo.
O estudo declara saber dos "defeitos" do país, e
diz que "a luta dos EUA pela liberdade e justiça para todos tem sido longa
e difícil, e está longe de estar completa". Mas é só.
A introdução, feita pela secretária de Estado Condoleezza
Rice, dá especial atenção a seis países onde infrações nos Direitos Humanos
supostamente seriam mais severas. São eles: Coréia do Norte, Myanmar, Irã,
Zimbábue, Cuba e China.
Omissão inexplicável
Em resposta ao relatório, a organização Anistia
Internacional disse que, ao mesmo tempo que o relatório dá uma idéia ampla da
situação global, inexplicavelmente um grande capítulo foi omitido: o que
trataria especificamente dos EUA, nação que tem ferido constantemente os
Direitos Humanos.
A prática da administração Bush de transferir detidos na
"guerra ao terrorismo" para países citados pelo Departamento do
Estado, pelas suas más condições em relação aos direitos humans, faz com que o
relatório se assemelhe mais a um manual de terceirização de tortura", diz
o comunicado da Anistia Internacional.
"Esse relatório do governo dos EUA dá uma grande noção
de como os Direitos Humanos são desrespeitados ao redor do planeta, exceto por
uma escandalosa omissão: não aponta o dedo para si" disse William F.
Schulz, diretor executivo da sessão americana da AI.
"O governo dos EUA se considera um 'líder moral' na
questão dos direitos humanos. Mas seu histórico de detenções indefinidas e
arbitrárias, cadeias clandestinas e tortura generalizada na chamada 'luta
contra o terrorismo" torna a nação de líder à de violadora dos direitos
Humanos", conclui Schulz.
O país mais criticado pelo relatório é a China, que teve o
governo acusado de "continuar cometendo inúmeros e sérios abusos",
entre eles, "medidas severas" para controlar ainda mais a mídia e
censurar conteúdo da Internet.
Repressões na China aumentaram em 2005, assim como detenções
e prisões de pessoas consideradas uma "ameaça" ao governo, afirmou o
relatório anual de Direitos Humanos.
Outros países
Quanto ao Iraque, o anuário disse que o governo desrespeita
todos os direitos humanos, e a população vive em meio ao terrorismo e rebeliões
que impactam suas vidas em todos os aspectos. Aumentou também o número de
assassinatos cometidos pelo governo ou motivamos por razões políticas.
A Rússia é acusada de ter um governo corrupto e que
pressiona a justiça.
A Arábia Saudita infringe as leis de Direitos Humanos
sancionando judicialmente punições corporais. Além disso, realiza prisões
arbitrárias, detenções não comunicadas e nega julgamentos públicos justos.
O Egito continua em estado de emergência, com denúncias de
torturas e abusos de prisioneiros, e também de mortes em detenção. A eleição
presidencial multipartidária ocorridas em setembro, apontada como um avanço em
relação aos direitos humanos, foi caracterizada como fraudulenta.
Emirados Árabes Unidos não possui eleições democráticas ou
partidos políticos. Além disso, restringe os direitos à liberdade civil,
liberdade de expressão e de imprensa, e filiação a grupos de direitos humanos.
Já o Irã continua a cometer sérios abusos, como execução e
desaparecimento de civis, tortura e punições severas como amputação de membros,
e péssimas condições de prisão. Diversos problemas com Direitos Humanos também
foram registrados no Paquistão, como tortura, execuções não autorizadas e
estupros.
Isolamento americano
Os EUA estão isolados na ONU quando o assunto trata-se de
Direitos Humanos. No mais puro estilo trator, o embaixador americano nas Nações
Unidas, John Bolton, avisou que vai votar contra o projeto de criação do
Conselho de Direitos Humanos que substituiria a desacreditada Comissão de
Direitos Humanos e marcaria o início da reforma da organização.
Indiferentes aos apelos do secretário-geral Kofi Annan, à
irritação da maioria dos países, às acusações das ONGs e às críticas de
intelectuais, os EUA abriram nova polêmica sobre sua política externa.
"Decididamente não quero um processo de isolamento dos
EUA. Os direitos humanos são a alma da ONU", diz o presidente da
Assembléia Geral, o sueco Jan Eliasson, autor do texto final da proposta.
Os EUA querem que os casos de violação sistemática de
direitos humanos sejam levados ao Conselho de Segurança em vez de à Assembléia
Geral, mas os outros países não aceitam porque essas seria uma maneira de os
Estados Unidos evitarem qualquer denúncia ou resolução contra si, já que que os
membros permanentes — China, EUA, Rússia, França e Reino Unido — têm direito a
veto.
Mais manobras
Os americanos também exigem que os 47 membros do Conselho
sejam eleitos por dois terços da Assembléia Geral, utilizando o pretexto de
evitar que países com histórico de violação dos direitos humanos façam parte do
grupo, mas o texto prevê eleição por maioria simples.
"Quem julga quem são os violadores dos direitos
humanos? Não existe na ONU proibição a qualquer país-membro de participar de comissões,
conselhos ou de qualquer outro órgão", comenta Frederico Meyer,
ministro-conselheiro da missão brasileira que acompanha as negociações do
projeto.
Domingo, sete prêmios Nobel assinaram um artigo no “New York
Times” defendendo a necessidade do Conselho, pedindo pressa e elogiando o
projeto como amplo o suficiente para ser apoiado por todas as nações. Annan
apelou para que o texto fosse votado imediatamente, ressaltando que as
negociações já duraram cinco meses e três versões diferentes do projeto foram
elaboradas.
Muitos concordam que o projeto não é o ideal mas é o
possível. Depois de deixar de comparecer a 30 reuniões para discutir o novo
conselho, o embaixador americano agora engavetou o texto, dizendo que vai
revisar linha pro linha, e não vai obedecer a data (dia 13) estabelecida pela
Assembléia Geral como prazo para aprovar a proposta, já que é esse o dia do
início da reunião anual da Comissão de Direitos Humanos em Genebra.
Com informações do Estado de S. Paulo e O Globo
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