ESPECIAL

 

10 de marcço de 2006

Questão Agrária

 Ação de camponesas em laboratório da Aracruz divide opiniões

 Cerca de 2 mil mulheres do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC), ligado à Via Campesina, ocuparam na madrugada da quarta-feira (8/3) o hortoflorestal da Aracruz Celulose, em Barra do Ribeiro (RS). A mobilização teve o objetivo de denunciar as conseqüências sociais e ambientais do avanço da invasão do deserto verde criado pelo monocultivo de eucaliptos. A Fazenda Barba Negra concentra a principal unidade de produção de mudas de eucalipto e pínus da Aracruz, tendo inclusive um laboratório de clonagem de mudas.

 

"Somos contra os desertos verdes, as enormes plantações de eucalipto, acácia e pinus para celulose, que cobrem milhares de hectares no Brasil e na América Latina. Onde o deserto verde avança a biodiversidade é destruída, os solos deterioram, os rios secam, sem contar a enorme poluição gerada pelas fábricas de celulose que contaminam o ar, as águas e ameaçam a saúde humana", afirmaram as mulheres em manifesto divulgado após a ação.

 

O jornal Folha de S. Paulo fez contato com uma das líderes do movimento, Adriana Maria, que disse ter a orientação de não se manifestar sobre detalhes da operação. Não quis nem mesmo dizer se ela própria esteve na invasão -o que outro militante confirmou. ""Não posso falar muito porque, se falar das nossas estratégias, não poderemos empregá-las mais", disse ela.

 

Criado em 2004, durante um congresso envolvendo 1.400 pessoas em Brasília, o MMC integra a Via Campesina, assim como o MST. ""Somos parceiras, mas não temos vínculo orgânico com o MST", disse Adriana. A entidade, diz ela, está organizada em todo o Brasil e congrega mais de 50 mil mulheres.

 

O gerente regional florestal da Aracruz Celulose, Renato Postirolla, afirmou que os prejuízos causados pela destruição do laboratório da empresa chegam a US$ 400 mil. Além disso, segundo o gerente, foram perdidos materiais genéticos coletados em mais de 15 anos de pesquisa, cujas perdas não podem ser dimensionadas.

 

A manifestação das camponesas teve grande repercussão na imprensa e dividiu opiniões.

 

Apoio do MST e Marcha das Mulheres

 

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a organização camponesa Via Campesina mostraram-se solidários à ação. "O MST, os movimentos sociais da Via Campesina Brasil, a Marcha Mundial das Mulheres Camponesas e todos os movimentos aqui do fórum Terra, Território e Dignidade apoiaram a manifestação que as companheiras fizeram lá na Aracruz", disse um dos coordenadores nacionais do MST, João Pedro Stédile.

 

O fórum, evento paralelo à 2ª Conferência Mundial sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural, promovida pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), foi articulado pelo Comitê Internacional de Planejamento de Organizações Sociais para a Soberania Alimentar (CIP), com a participação de 40 entidades campesinas internacionais.

 

Stédile defendeu a ação ocorrida na multinacional canadense afirmando que foi "um ato de protesto para chamar a atenção dos absurdos que a empresa Aracruz está fazendo com os recursos naturais do Brasil".

 

A Marcha Mundial das Mulheres, que organizou manifestações em todo Brasil no dia 8 de Março, também manifestou apoio às camponesas que ocuparam a fábrica da Aracruz. "Toda forma de luta dos movimentos sociais vale a pena", diz documento da Marcha, que afirma ainda: "Nossas companheiras da Via Campesina têm todo nosso apoio e compromisso nas ações contra o agronegócio da morte".

 

Rosseto divulga nota

 

Na quarta-feira (8/3), o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) divulgou nota condenando a ação. "Ao condenar a atitude do movimento, [o ministro Miguel] Rossetto salientou que ações dessa natureza nada têm a ver com o programa de reforma agrária, e, portanto, este é um assunto que deve ser tratado pelo Poder Judiciário", diz a nota.

 

Ontem (9), Rossetto voltou a tratar do assunto em nova nota divulgada à imprensa: "Condeno e lamento os fatos ocorridos na madrugada da última quarta-feira na empresa Aracruz. As imagens que o país assistiu mostram cenas de inaceitável violência e ferem a consciência democrática de todos os brasileiros", afirmou o ministro.

 

O texto afirma ainda que "episódios deste tipo em nada contribuem para um debate sério e conseqüente a respeito do modelo de desenvolvimento rural que queremos para o nosso país. Atos como este devem ter suas conseqüências tratadas com rigor no âmbito do Poder Judiciário".

 

Em outro parágrafo, Rossetto afirma que "é inaceitável substituir o argumento pela destruição violenta e a troca de idéias pela intolerância. A luta pela Reforma Agrária no Brasil não tem a ver com ações desta natureza e não deve ser confundida com atos isolados".

 

O ministro da Reforma Agrária ainda destaca na nota que a "Reforma Agrária que todos aspiramos – massiva e de qualidade – se desenvolve dentro do mais amplo espírito democrático".

 

No site da Agência Carta Maior, o jornalista Marco Aurélio Weissheimer qualifica a ação no viveiro da empresa Aracruz como um "tiro no pé" que prestou um desserviço aos movimentos ambientalistas que lutam contra a proliferação das florestas artificiais de eucalipto e também aos organizadores da II Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural.

 

"A proliferação dessas florestas artificiais no Brasil e os projetos para sua expansão no Rio Grande do Sul e no Uruguai (com o acréscimo de fábricas de celulose) representa um grave problema que deve ser discutido do modo mais amplo possível com a população. A história ensina que muitos desses projetos são assinados entre as grandes empresas do setor e governos sem debate sobre suas implicações com as comunidades envolvidas", diz Weissheimer. Segundo ele, a falta de informação e de debate costuma andar de mãos dadas com a rápida implementação destes projetos.

 

"A partir da ação na Aracruz esse silêncio foi rompido, só que a favor da empresa. Os grandes grupos de comunicação, que tem as empresas do setor entre seus patrocinadores, deitaram e rolaram em cima do episódio e vão deitar e rolar muito mais ainda. Neste quadro, parece razoável perguntar: qual é mesmo a capacidade comunicativa dos movimentos sociais para travar esse debate na sociedade?", questiona o jornalista.

 

O deserto verde da Aracruz

 

A Aracruz Celulose é a empresa que possui o maior deserto verde no País. São mais de 250 mil hectares plantados em terras próprias, 50 mil só no Rio Grande do Sul. Suas fábricas produzem 2,4 milhões de toneladas de celulose branqueada por ano, gerando contaminação no ar e na água, além e prejudicar a saúde humana.

 

As mulheres da Via Campesina também protestam em solidariedade aos povos indígenas que tiveram suas terras invadidas pela Aracruz Celulose no Estado do Espírito Santo. Em janeiro deste ano, as famílias indígenas foram expulsas violentamente pela Polícia Federal, que utilizou máquinas da própria empresa para fazer o despejo.

 

A Aracruz é a empresa do agronegócio que mais recebeu dinheiro público. São quase R$ 2 bilhões recebidos nos últimos 3 anos. No entanto, uma empresa como a Aracruz gera apenas um emprego a cada 185 hectares plantados, enquanto a pequena propriedade gera um emprego por hectare. "Se o deserto verde continuar crescendo em breve vai faltar água para bebermos e terra para produzir alimentos. Não conseguimos entender como um governo que quer acabar com a fome patrocina o deserto verde ao invés de investir na Reforma Agrária e na Agricultura Camponesa", afirma o manifesto.

 

A mobilização da Via Campesina também ocorreu para denunciar os impactos ambientais da monocultura de eucalipto, que está avançando no Rio Grande do Sul com três grandes empresas: a Votorantim, a Stora Enso e a Aracruz. Os desertos de eucalipto desgastam o solo e consomem muita água: cada pé de eucalipto é capaz de consumir 30 litros de água por dia.

 

Da redação

com informações das agências

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