ESPECIAL

 

11 de março de 2006

 Carlos Chagas

Sorvete de pimenta ou picolé de chuchu?

BRASÍLIA - Está por poucos dias, talvez até por este fim de semana, a decisão do PSDB a respeito de quem será o seu candidato à presidência, se Geraldo Alckmin, José Serra ou um terceiro. Já perderam muito tempo e até se prejudicaram nas pesquisas, porque Lula continua na frente, nas pesquisas.

O pior nessa história foi ainda esta semana enfatizado pelo presidente do partido, Tasso Jereissati, para quem o nome do preferido precisa ser anunciado para que, depois, o PSDB se dedique à preparação dos planos de governo.

Como aceitar que pessoas venham na frente de propostas? O diagnóstico do senador revela a inversão dos princípios da boa política e mostra a falência das organizações partidárias, porque o mesmo acontece em outras legendas. Até com o presidente Lula, que entre mil e uma inaugurações de obras ainda não apontou as diretrizes de seu segundo mandato. Pode-se presumir que vá deixar tudo como está, uma péssima opção, tantos e tamanhos são os problemas a enfrentar.

No caso dos tucanos, qual a impressão que se tem, se a disputa envolve só as ambições de Alckmin ou Serra? Antes de ser escolhidos, deveriam demonstrar o que pretendem fazer ao subir a rampa do Planalto. As bases tucanas até se beneficiariam do debate, se é que elas irão decidir algo. Apoiar Serra por estar melhor nas pesquisas, ou Alckmin, por contar com o apoio da Avenida Paulista, com todo o respeito, significa escolher entre sorvete de pimenta e de chuchu.

Para quem não quis ver

O episódio da votação dos pedidos de cassação de mandato de Roberto Brant e do professor Luizinho confirmou apenas a evidência do que muitos teimavam em não ver: tratou-se de um acordão. No caso, entre o PT e o PFL, que podem ser adversários na luta pelo poder mas entendem-se quando se trata de preservar seus interesses partidários.

A bancada do PT na Câmara votou em peso pela absolvição de Roberto Brant, e a do PFL não faltou ao professor Luizinho. Mesmo tendo o Conselho de Ética recomendado a perda do mandato de ambos, por terem sido abastecidos pelo valerioduto, prevaleceu a prática do "é dando que se recebe".

Não é preciso entrar nos meandros da vida parlamentar de cada um. Ambos vinham-se comportando com competência e dignidade, até com um pouco de paixão, no exercício de seus mandatos. Até a hora de serem beneficiados com dinheiro irregular, através da quadrilha que tomou conta do governo, do PT e de aliados, sem faltar a ironia de favores prestados a adversários.

Pode-se argumentar que Brant, candidato a prefeito de Belo Horizonte, recebeu doação da Usiminas, da ordem de 100 mil reais. Tratou-se de doação criminosa, sem registro, e ainda mais feita por Marcos Valério. Quanto ao professor Luizinho, dizer que recebeu muito pouco, só R$ 20 mil, não diminui o crime.

Talvez tenha feito jus à sua profissão de origem, já que os professores recebem salários de fome. A comparação é inevitável: não se pode absolver o cidadão que matou outro com um tiro, quando outros costumam matar com seis.
O grave está no acordão celebrado. Como impedir o seu prosseguimento, nas demais votações de cassação? Liberou geral, a ordem é absolver todos.

Deliberado

Lembra o ministro Flávio Bierrembach, vice-presidente do Superior Tribunal Militar, a existência de ação deliberada por parte da superpotência para esvaziar as Forças Armadas de países em desenvolvimento. Ele identifica como um dos passos felizmente fracassados nesse sentido a recente campanha pelo desarmamento, que o povo brasileiro repudiou.

Ex-deputado federal pelo ex-MDB, Bierrembach assinala o sucateamento do Exército, desde que o modelo neoliberal tomou conta do Brasil. Os responsáveis pela política econômica de diversos governos inventaram um termo novo: contingenciamento. Trata-se de um eufemismo para calote, porque o orçamento da União é lei e deveria ser cumprido pelo Executivo.

Em vez disso, os ministros cortam despesas autorizadas pelos representantes do povo e negam recursos para a sobrevivência do Exército. Para Bierrembach, o Brasil já teria obtido sucesso na pretensão de integrar o Conselho de Segurança das ONU se tivesse um submarino nuclear. Um dia, conclui, lamentaremos essa política suicida imposta a nossos governantes.

 

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