ESPECIAL
11 de março de 2006
FEMINISMO
“Ninguém
merece” Opus Dei no Dia da Mulher
Ao decidir publicar artigo de Dom
Echeverria, da Opus Dei, no Dia Internacional da Mulher, a Folha de S. Paulo
sabia o que estava fazendo. A indagação que fica é: a troco de quê? Uma
possibilidade é realmente uma guinada conservadora, sob a batuta
fundamentalista que varre o mundo.
Fátima Oliveira
Não pude conter o susto ao abrir a Folha de S.
Paulo na manhã do Dia Internacional da Mulher, ainda no avião, rumo a São
Paulo, para ser comentarista em um evento patrocinado pelo mesmo jornal, em seu
auditório, como parte das comemorações do dia 8 de março: a leitura da peça
“Brasileira de Paris”, de Betty Milan, colunista da Revista da Folha, realizada
em grande estilo naquela noite.
Olhava, olhava e buscava entender o que lia na
seção Tendências/Debates. Em vão, tentei encontrar alguma conexão com a força
da defesa da autonomia da mulher inscrita no texto de Betty Milan, expressa na
denúncia da violência doméstica e na exaltação do exercício da sexualidade feminina
como fonte de prazer.
Conclui que estava diante daqueles fatos que só
podem ser classificados como “pisada na bola” ou provocação rasteira,
considerando o alarde que a Folha historicamente faz de seu compromisso com a
cidadania das mulheres e as questões democráticas em geral. Todavia, entendo
que as duas alternativas são primárias demais e não convencem, diante da
gravidade real e simbólica dos fatos.
Urge um olhar mais aprofundado e quem sabe,
talvez, ainda não estão postos os elementos suficientes para um diagnóstico
definitivo do que está ocorrendo. Não podemos esquecer de alguns
saberes/teorias no campo jornalístico, a exemplo da Ditadura da mídia, que
conforme muitos(as) pesquisadores(as), apresenta dois aspectos: a imposição de
temas sobre os quais a sociedade discute (a hipótese da Agenda setting) e a
imposição de idéias dominantes sobre esses temas (a hipótese da Espiral do
Silêncio), situações decorrentes da coincidência (seleção) e da consonância
(homogeneidade) temática, ambas possíveis graças a uma competência específica
para a abordagem – a questão do conhecimento/saber que, inegavelmente, é fonte
de poder (a hipótese do Knowledge gap).
Atitudes/decisões editoriais podem ter leituras diversas comprometidas com a
pluralidade no campo democrático. No que estou de acordo. Há indícios
inequívocos de que só temos a lamentar, por inúmeros motivos, a decisão da
Folha de, no Dia Internacional da Mulher, publicar no Tendências/Debates os
artigos de Dom Javier Echeverria (“O mundo precisa do gênio feminino”) e de
Dilvo Ristoff (“A trajetória da mulher na educação brasileira”), numa patente
exibição de louvor à desigualdade de gênero numa data das mulheres, em primeiro
lugar... mesmo tendo em conta que o artigo de Ristoff não contém opiniões de
matrizes degradantes sobre as mulheres.
Nada assim tão demais se fosse só isso. E, se,
ao fim e ao cabo, o “só isso” se revelasse como uma inocente “pisada na bola”.
Tentaríamos relevar. Poderíamos nos confortar alegando que é uma coisa salutar
dar vozes aos homens que são solidários na luta contra o machismo e seu
alicerce ideológico, o patriarcado – o que poderia ser feito nos outros 364
dias do ano. Ou não? No Dia Internacional da Mulher, esperava-se, no mínimo,
que um jornal do porte da Folha de S. Paulo adotasse o “desconfiômetro” de
tentar praticar a eqüidade de gênero. Mas não foi desta feita. Porém, fica o
alerta.
Uma análise mais apurada nos leva a indagar:
quem são os dois homens que a Folha escolheu a dedo (ninguém publica no
Tendências/Debates sem ter sido escolhido a dedo, pela Folha é óbvio!) para
supostamente “mulherar” no Dia Internacional da Mulher? O que as vozes deles
veiculam nas linhas que escreveram? E o que é possível vislumbrar nas
entrelinhas?
Com a palavra a Secretaria Executiva Colegiada
da Articulação de Mulheres Brasileiras, em carta enviada ao Painel do Leitor da
FSP (08/03), porém não publicada: “Sobre um bispo e um doutor em literatura
falando das mulheres na Folha de S. Paulo neste 8 de março”.
Se tem por objetivo “refletir as diversas
tendências do pensamento contemporâneo e estimular o debate dos problemas
brasileiros, a coluna Tendências/Debates da Folha de S. Paulo, deste 8 de março
(Dia Internacional da Mulher) deixa muito a desejar, ao publicar – não o
pensamento de mulheres – mas decidir-se pela divulgação do que pensam dois
homens: um bispo prelado da Opus Dei e um doutor em literatura. Foram estes os
eleitos para dizer sobre quais questões é necessário refletir, quando se trata
de focar as mulheres, no Brasil e no mundo.
Neste 8 de março, é no mínimo lamentável a
subalternidade das mulheres (e de suas lutas contra a estrutura patriarcal e a
ideologia machista) na cobertura jornalística. Até quando a imprensa pretende
descartar e negar-se a dar visibilidade aos sujeitos políticos individuais e
coletivos do movimento feminista e de mulheres, que têm, sim, muito a provocar
e questionar? Não aceitamos a tutela de bispos e de intelectuais, e
dispensamos, realmente dispensamos as homenagens, se não nos dão direito à
voz.”
Cabe ressaltar que Dom Javier Echeverria, em seu
artigo na FSP, aparece escudado na “Carta dos Bispos da Igreja Católica sobre
Colaboração do Homem e da Mulher na Igreja e no Mundo” (2004), com assinatura
do papa João Paulo II, mas é de domínio público que é da lavra de Bento XVI, à
época uma espécie de eminência parda do papado João Paulo II. Trata-se de um
documento papal que é uma peça exemplar do que há de mais tacanho e tosco do
conservadorismo católico – eivado de ataques ao feminismo e à luta pela
eqüidade de gênero, enfim à cidadania em plenitude da mulher, numa declarada
satanização do feminismo. Eis o alicerce do artigo que a FSP elegeu para
celebrar o Dia Internacional da Mulher. De fato, “ninguém merece”!
MAIS ALGUMAS OPINIÕES E BUSCA DE EXPLICAÇÕES
A feminista Sônia Corrêa, em carta encaminhada
ao Painel do Leitor da FSP (08/03), mas não publicada, emitiu os seguintes
comentários:
“Instigante a opção editorial da FSP de marcar o
8 de março de 2006 com artigos escritos por homens. Sem dúvida é também importante
que a sociedade brasileira conheça a posição da Opus Dei quanto a qual deve ser
o lugar das mulheres no mundo contemporâneo, entre outras razões porque hoje
sabemos da influência desta organização nos órgãos de imprensa e na grande
política em nosso país. Entretanto, não consigo compreender a decisão editorial
de oferecer a Dom Javier Echeverria o ‘lugar de honra’ no debate sobre o tema
exatamente no dia de hoje. Esta escolha vincula a posição da Opus Dei a uma
data simbólica que foi construída a partir de uma perspectiva radicalmente
diferente. Isso é, ao meu ver, injustificável. Ao fazer tal opção os editores
deveriam, pelo menos, ter oferecido espaço para que outra voz,
preferencialmente de mulher, contestasse as idéias expressas por este senhor.”
Sob o título “O mundo e as igrejas, precisam
respeitar as mulheres”, Dulce Xavier – coordenadora da Regional São Paulo da
Rede Feminista de Saúde, integrante de Católicas pelo Direito de Decidir e da
Pastoral Operária do ABC – nos leva a indagar quais as razões pelas quais a FSP
decidiu veicular, mais uma vez, o que pensa o Papa Bento XVI sobre as mulheres,
na medida em que o que escreveu o bispo da Opus Dei nada mais foi que a
conhecidíssima posição do Vaticano, com algumas palavras supostamente mais doces
e mais macias:
“Causa estranheza que justamente no dia
internacional de luta das mulheres por emancipação total, inclusive no seio das
religiões, este conceituado jornal publique um texto como este ‘O mundo precisa
do Gênio da Mulher’ de Dom Javier Echevarria (...) Os meios de comunicação, no
dia 8 de março, se preocupam em mostrar as conquistas das mulheres e
personagens que fazem a diferença para o crescimento da sociedade como um todo.
Como podemos interpretar que a FSP publique tal
texto, que reafirma a visão dos setores mais conservadores da Igreja Católica,
segunda a qual a mulher, mesmo que possa estar em alguns espaços e funções na
sociedade, tem um ‘gênio’ que é ‘a aptidão inata de conhecer, compreender e
cuidar do próximo’, isto é, na prática é ser mãe, dócil, à serviço da família,
da comunidade, da Igreja, etc.
Segundo o bispo Echeverria, há um reconhecimento
pela Igreja Católica da igualdade entre mulheres e homens, porque as mulheres
não são ordenadas; porque as mulheres não podem decidir que meios vão usar para
controlar sua fertilidade, e tantos outros questionamentos que poderemos fazer
sobre o efetivo reconhecimento desta falada igualdade por parte da Igreja.
As idéias deste texto, mesmo com todo esforço de
atenuá-las, são as mesmas que movem os grupos que colocam os maiores empecilhos
aos avanços dos direitos das mulheres.”
Renato Khair, procurador do Estado de São Paulo,
afirmou, no Painel do Leitor da FSP (09/03): “Gostaria de protestar contra o
espaço concedido ao senhor Javier Echevarría (‘O mundo precisa do gênio
feminino’, ‘Tendências/Debates’, 8/3), bispo prelado do Opus Dei, para falar
sobre o Dia Internacional da Mulher. Tal entidade é extremamente conservadora,
reacionária e em nada contribuiu para a emancipação feminina. Ao contrário. O
jornal é democrático e todos têm o direito de se manifestar, mas penso que não
poderia ter havido escolha mais inadequada.”
Também no Painel do Leitor da FSP (09/03), a
psicóloga Gilberta Soares, secretária-executiva das Jornadas pelo Direito ao Aborto
Legal e Seguro, não teve dúvida: “Só há uma pergunta a ser feita: de que forma
os hierarcas da Igreja Católica vêm tratando as mulheres ao longo dos séculos?
Se antes tínhamos as fogueiras da Santa Inquisição, hoje as fogueiras são
metafóricas: cala-se quem discorda dos dogmas, pune-se as mulheres – em sua
maioria negras e pobres – que se submetem a um aborto clandestino, estimula-se
a velha máxima de que somos nós, mulheres, as responsáveis ‘naturais’ pelo
cuidado com o mundo. Em pleno século XXI, será que é isso mesmo que as leitoras
da Folha gostariam de ler no Dia Internacional da Mulher? Se a proposta era
polemizar e provocar, o jornal acertou ao abrir espaço para um prelado do Opus
Dei.”
ENFIM, QUE VENTOS SOPRAM NA FOLHA DE S. PAULO?
Na tentativa de exercitar um pouco de uma antiga
habilidade, a de analista de mídia, que faço por diletantismo, arrisco alguns
palpites, que em muito precisam de aprimoramentos e aportes de outros olhares
de extração democrática e não misógina, com vistas a um diagnóstico definitivo
que possa escancarar se a FSP está do lado da busca da cidadania plena ou do
entrave aos direitos humanos fundamentais ancorado no fundamentalismo.
A minha intenção é exatamente abrir um debate
sobre a postura adotada pela FSP no 8 de março de 2006, em tempos de
fundamentalismo mais que desvairado (o adjetivo desvairado para fundamentalismo
é realmente um pleonasmo, mas, cabe), tendo em alta conta que a Folha possui um
passado antigo de defesa da legalização do aborto como um direito das mulheres
e até recentemente manteve coerência sobre o tema – o que conta como ponto a
seu favor no cômputo geral.
Relembrando que gerar e publicar informação é um tipo de poder e um grande
poder, enfatizo que a escolha de porque se publica algumas coisas e não outras,
revela – de uma forma ou de outra, em menor ou maior grau - uma escolha
política e ideológica de uma editoria, ainda que tenhamos explícito que artigo
assinado é um gênero jornalístico opinativo que expressa as idéias de quem o
assina. Porém, as empresas jornalísticas veiculando um artigo, quando não é um
“direito de resposta”, sinalizam que há alguma empatia com aquele discurso, já
que as editorias nas empresas jornalísticas, públicas e privadas, detêm poder
de escolha e, por tabela, de veto, e se apóiam no que se classifica como a
Hipótese da Agenda Setting e na Hipótese da Espiral do Silêncio.
A primeira, a Hipótese da Agenda Setting, é a
hipótese da “ditadura da mídia”, alicerçada na compreensão de que a seleção, o
lugar ocupado e a coincidência de notícias da mídia define os assuntos que
“cairão na boca do povo”. Ou seja, é uma definição sobre o que as pessoas
deverão falar e discutir. A segunda, a Hipótese da Espiral do Silêncio, a
homogeneidade de enfoques sobre os assuntos publicados (consonância temática)
em diferentes órgãos da imprensa ou da mídia, agem como “água em pedra dura,
tanto bate até que fura”, possibilitando a recepção e sedimentação pessoal e
coletiva de uma determinada e única visão dos fatos/notícias, que passa a ser
dominante, ou no mínimo hegemônica, impedindo que outras abordagens ou visões
sobre o tema apareçam e ganhem densidade. Isto é, admite-se que a coincidência
temática resulta numa imposição na seleção dos temas sobre os quais devemos falar
e o que falar sobre eles.
Ao decidir publicar o artigo de Dom Echeverria,
a FSP sabia o que estava fazendo. Disso não podemos duvidar. A indagação que
fica é: a troco de quê? Uma possibilidade é realmente uma guinada conservadora,
sob a batuta fundamentalista que varre o mundo. Mas a Folha, com certeza,
justifica a sua caminhada de braços dados com essa gente sob a capa da
pluralidade e da liberdade de expressão, esquecendo-se de que é antiético
sentir-se livre para prejudicar os direitos das outras pessoas e degradar a
honra e a imagem delas.
Mas quem vive sob a opressão de gênero e luta
pela liberdade não pode se enganar com o discurso generalista da pluralidade,
acima de tudo e de todos – pairando sob os contextos políticos, éticos e
culturais – como um bem a ser referendado, sempre, em todas as circunstâncias,
para a democracia.
Não, quando o que se coloca em cena é algo
contra a ampliação da cidadania. Não, quando o discurso disfarçado e envolto em
modernidade parte de uma organização cuja história jamais esteve a serviço da
democracia, mas de práticas patriarcais e misóginas de uma instituição que faz
questão absoluta de manifestar, sem nenhum pudor, reafirmando modelos de
comportamentos incompatíveis com Estados laicos e democráticos, como é useira e
vezeira a oficialidade da Igreja Católica Apostólica Romana, com a idéia fixa e
paranóica de ditar padrões únicos de comportamentos para o conjunto da
sociedade, já que jamais deu conta de “enquadrar”, conforme seus desejos
conservadores e vitorianos, a maioria das pessoas que se declaram católicas.
Pior ainda, quando se conhecem as origens de uma prelazia pessoal do papa, como
a Opus Dei, marcadamente um projeto de poder para hegemonizar o catolicismo e
lançar tentáculos que objetivam amordaçar a autonomia das pessoas.
É emergencial que a Folha não faça ouvidos de
mercador, pois para continuar de “rabo preso” com os valores da democracia
precisa reavaliar o seu grau de compromisso com a função social da imprensa –
uma obrigação dos meios de comunicação seculares em países laicos e
democráticos – o que inclui considerar da mais alta relevância rechaçar,
sempre, opiniões lesivas ao novo papel e aos direitos da mulher.
Fátima
Oliveira é médica, secretária-executiva da Rede Feminista de Saúde e colunista
da página de Opinião de O Tempo (BH, MG).
E-mail:
fatimaoliveira@ig.com.br