ESPECIAL
13 de março de 2006
Luiz
Augusto Passos *
Tudo
aponta: Lula, de novo!
Adital - Estamos
a caminho da democracia. Dura empreitada. Indígenas, seringueiros e
empobrecidos são vítimas da violência da terra. Povos da floresta, posseiros e
Sem-terras assassinados em sua luta contra a truculência do agronegócio e
madeireiros. Somam-se às vítimas, aqueles submetidos ao trabalho escravo e os
quilombolas e afro-descendentes, sobretudo mulheres e crianças, marcadas na
pele e a alma pelo preconceito.
O governo Lula tem acenado desde sua campanha ao
governo um novo cenário para os trabalhadores. Acenou novamente no final do ano
de 2005, e no começo de 2006, com algumas ações sociais reivindicadas
historicamente pelos movimentos sociais, após um período de aparente alheamento
e obsessão de Lula pelo figurino da economia neoliberal.
Teriam sido as perseguições que o próprio PT
promovera, nas alianças com os "perigos vindo do norte’ e o distanciamento
do governo das bandeiras sociais, que cobravam um realinhamento do governo sob
pena de seu total encurralamento? O fato é que Lula deu mostras, pela primeira
vez, e agora sob o fogo inimigo e amigo, de que perderia todo apoio político
sem que promovesse transformações sociais significativas, às vésperas,
inclusive, de um novo pleito. Houve grandes surpresas e transformações. As
políticas sociais que agora emergiam coordenadas sob um novo cenário eram
compreendidas pelo povo, e apesar da crise de setores do PT, Lula cresce nas
pesquisas.
O redesenho do perfil nos governos latinos, também
alavancava a esperança dentro do país. Novas perspectivas do Mercosul. A ALCA
retorna ao panorama de luta, ferida. A Organização Mundial do Comércio
considera o Brasil como futuro parceiro, interessado na sua condição de
agro-exportador. Chávez na Venezuela, ainda que de forma populista e ‘sem’
congresso, representa uma ferida aberta que se soma à política cubana contra
Bush. As vitórias de Michelle Bachellet, socialista no Chile e, na Bolívia, o
indígena Evo Morales somam-se à vitória em 2004 de Tabaré Vasquez, no Uruguai.
Surgem possíveis aliados, nas próximas eleições como a liderança carismática de
Daniel Ortega na Nicarágua, Kirchner na Argentina, Obrador no México e Ollanta
Humula no Peru abre uma perspectiva inteiramente nova, somada à vitória de René
Préval, no Haiti, o qual possui uma perspectiva mais aberta. Lula tem
organizado um novo pacto internacional o G-20. Foi vitorioso na ONU na proposta
de um imposto voluntário nas viagens aéreas para garantir a vacinação no mundo.
Ganha respaldo internacional com pacto econômico-político com outros países,
amplia comércio com a África, com a China intercambia enriquecimento de Urânio
para fins pacíficos; busca de transferência de biotecnologia como de
Hemoderivados e vacinas para Hepatite. Investe na Fiocruz em defensivos não
tóxicos, e medicações ativas contra vírus da AIDs. Investe na fabricação de
aviões comerciais; na construção de plataformas de prospecção e extração de
petróleo em alto mar e investe, de maneira inteiramente nova, na construção
naval, em estaleiros antes abandonados.
Há, na avaliação de Maria Conceição Tavares - que
sempre foi duramente crítica com o PT e LULA - é já ‘incomparável’ o governo de
Lula com o de Fernando Henrique, ela afirma. FHC destruiu o estado e promoveu
privatizações de bens públicos de maneira irresponsável. Há, com Lula algumas
felizes surpresas, no presente momento atual, diz a economista: ter estancado
as privatizações, e em direção contrária ao figurino neoliberal investiu na
intervenção do Estado no campo da economia, notadamente na energia via
Petrobrás - com excelentes ganhos para o país; ter enfim tocado no
mercado formal de trabalho aumentando significativamente postos de trabalho com
carteira assinada; ter revertido as condições salariais; ter realizado, sobretudo,
uma real melhoria de qualidade de vida dos setores mais empobrecidos através de
mecanismos efetivos que liguem a obrigatoriedade da escola com o freio ao
trabalho infantil, com vacinação e lazer, previsto na bolsa-família e
bolsa-escola. A abertura de milhares de vagas às universidades (PROUNI),
possibilitando avaliação e controle de qualidade no ensino ministrado nestas
universidades. Garantiu uma política afirmativa para alunos de escolas públicas
e população afro-descendente. Expandiu a rede pública das federais e dos CEFETs
há anos sem ampliação. Houve aumento do número e de valores das bolsas para
pós-graduandos e doutorandos compreendendo-os como investimento estratégico,
ampliado a pesquisa. Houve ademais uma recomposição, antes impensável de parte
dos profissionais das Universidades Federais, bem como investimento na expansão
da rede. Lula, ademais, criou mecanismos de acesso ao micro-crédito e
financiamento aos trabalhadores rurais e urbanos com as melhores taxas do que
aquelas vigentes do mercado. Diz Maria da Conceição que estas medidas têm
gerado benefícios aos mais pobres e insatisfação dos setores médios e
dominantes da sociedade brasileira porque estas melhorias, efetivas e reais,
não têm privilegiado, como sempre fizera, historicamente, os filhos das
elites..
O momento, entretanto, não é de euforia. Desde a posse
de Lula houve uma paralisia política no que se referia às demandas indígenas. O
Conselho Indigenista Missionário (CIMI) reconhece que houve bons sinais,
ultimamente, sobretudo a homologação das terras imemoriais de Roraima da Raposa
Serra do Sol. As mobilizações continuam demandando cobrança por parte de toda a
sociedade brasileira nas pautas em curso, entre elas os 250 anos do martírio de
São Sepé Tiajaru, em fevereiro, no Rio Grande do Sul e o Terceiro Acampamento
Terra Livre, em abril. Desde 2005 contam-se 23 suicídios de indígenas
desesperançados; entre outras violências a expulsão dos guaranis, com todo o
aparato repressivo das forças policiais, do Parque Nacional de Iguaçu e a
truculenta expulsão dos Kaiowá Guarani, já em situação de penúria e fome no
Mato Grosso do Sul - estado que sustenta a triste estatística de trinta e três
assassinatos de 2005 para cá, ausência de serviços de saúde capaz de reverterem
a morte de crianças e adultos indígenas. Essas cifras representam apenas a
ponta do tapete de violências contra indígenas em todo o país. Soma-se a estas
violências os assassinatos de líderes sindicais; a criminosa modificação do
relatório da CPI, escondendo assassinos acobertados covardemente pela Bancada
anti-indígena e anti-sem-terra acampados na Câmara e no Senado Federal. O que
sobrou do Relatório dedica poucas linhas ao assassinato de Doroty e de tantas
lideranças do movimento Sem terra, culpabilizando as próprias vítimas.
Como estamos longe das condições de justiça e de
amparo constitucional! Contudo o relatório sem cortes da CPI será conhecido e
divulgado fora do Brasil nas instâncias independente como Anistia Internacional
relativo aos direitos humanos: e o governo e o Estado deverão responder por
esta violência à comunidade internacional. É hora de rever a democracia que
chamamos falsamente de ‘representativa’. ‘Representam’ quem? Hora de divulgar a
história e os interesses dos senadores e deputados das duas casas, sobretudo
aqueles que encobrem genocídios insuportáveis à democracia. Hora de conhecer
lobos sobre pele de cordeiros.
Tudo aponta: devemos apostar em Lula, de novo! Para
isso devemos voltar às ruas com urgência, aos partidos e aos movimentos
organizados populares. Devemos, ao mesmo tempo, lembrar a cada momento a Lula
que não esqueça jamais: um governo deverá ser medido a avaliado pela população
não apenas pelo que fizer, mas, sobretudo, pelo que deixar de fazer em favor
das vítimas. A democracia que queremos não existe: precisa ser inventada, em
conjunto, por todos nós.
* Filósofo. Doutor em Educação. Membro do Grupo de Pesquisa Movimentos
Sociais e Educação / Pós Graduação da Universidade Federal de Mato Grosso