ESPECIAL
13 de março de 2006
As estranhas condições da morte de
Milosevic
por Georges Gastaud [*]
e Daniel Antonini [**]
Os media acabam de
anunciar, com um atraso estranhíssimo, a morte na prisão do antigo presidente
da Jugoslávia, Slobodan Milosevic. Fica-se assim a saber assim que o
ex-presidente, aprisionado pela "justiça" revanchista da NATO,
travestida em "comunidade internacional", teria sido encontrado morto
na sua cela várias horas após o seu falecimento, cujo anuncio tardio foi feito
primeiro sem qualquer comentário, nomeadamente sob a forma inusitada de um
"não-desmentido" pelas autoridades neocoloniais de Belgrado.
Sabe-se também que o Tribunal Penal Internacional por várias vezes recusou a
liberdade provisória a este homem gravemente doente. Estranha justiça,
decididamente em relação àquela que prevalece na UE: a justiça francesa que rapidamente
libertou Papon há pouco deu mostra de uma maior "humanidade" maior
para com este criminoso contra a humanidade, assassino dos manifestantes
comunistas de Charonne, do que o TPI ao serviço da nova ordem europeia em
relação a um antigo dirigente comunista, "culpado" de ter defendido a
unidade do seu país e o seu direito inalienável a não ser anexado pela UE!
Parece finalmente que, há uma semana, uma das principais testemunhas sérvias no
processo de Milosevic ter-se-ia suicidado. Cada vez melhor!
O que é certo é que Milosevic fazia mais do que resistir aos seus pretensos
"juizes" denunciando os criminosos bombardeamentos da NATO sobre
Belgrado, a ocupação da Jugoslávia pelos exércitos americano, alemão, inglês e
francês. Ele denunciava igualmente a privatização total da economia sérvia, o
lançamento no desemprego de milhões de operários, a destruição das aquisições
sociais herdadas da ex-República Socialista Federativa da Jugoslávia, o
desmembramento "étnico" da Sérvia e da Jugoslávia, a próxima partição
sob influência ocidental da Sérvia-Montenegro... O processo de Milosevic
chegava ao ponto fixado pelos "acusadores", momento em que o processo
do ex-presidente levava à confusão do TPI e dos seus comanditários
euro-atlânticos.
O PRCF tem um julgamento nuançado acerca de Milosevic. Por um lado, Milosevic
acreditou ser bom, no momento da tempestade contra-revolucionária que destruiu
a URSS e as democracias populares, participar activamente na auto-dissolução da
Liga dos Comunista da Jugoslávia e do PC sérvio, para aliar-se a elementos
sérvios nacionalistas e ultra-nacionalistas, com o fim proclamado de preservar
a unidade sérvia e jugoslava. Ora, alguns destes ultras cometeram terríveis
exações na guerra civil tal como os ultras croatas, bósnios e kossovares que
desencadearam unilateralmente movimentos separatistas. É evidente que o PRCF
condena todos os crimes de guerra quaisquer que eles seja e de onde quer que
venham, mas o seu julgamento caberá por direito ao povo jugoslavo e não aos
"juizes" instituídos pelos promoveram o crime da NATO, do Vaticano e
da RFA.
Foram com efeito estas grandes potências "virtuosas" que
desencadearam a guerra civil inter-étnica reconhecendo a secessão unilateral
dos senhores fascizantes da Croácia a fim de ampliar a esfera de influência da
Grande Alemanha e do Vaticano em prol da re-clericalização da Europa de
Maastricht...
Na realidade, não foi para julgar imparcialmente o conjunto dos criminosos de
guerra que foi aberto do TPI a pedido do novo Santo Império romano-germano-americano.
Nem tão pouco para julgar o atentado criminoso contra a soberania jugoslava que
constitui a actual ocupação dos Balcãs pelos imperialismos americano, francês e
alemão que se rivalizam para partilhar o país entre si sob a cobertura da ingerência
humanitária e com a bendição da ONU. De facto, à sombra do "processo"
Milosevic o principais fautores de crimes não-sérvios e os massacradores da
NATO que partilham o país entre si com os seus fantoches separatista estão em
liberdade ou... abertamente no poder nos micro-Estados resultantes do
estilhaçamento jugoslavo sob sua influência!
Sem entretanto aprovar em tudo a linha política que foi a sua, o PRCF saúda a
atitude digna de Milosevic face àquela perseguição política. Apesar da doença e
da impossibilidade de se tratar no exterior, Milosevic enfrentou os
re-colonizadores do seu país despedaçado.
O PRCT exige portanto a dissolução do TPI, o respeito da soberania jugoslava, a
saída da NATO e das tropas francesas da Jugoslávia, o respeito dos direitos de
todos os povos da ex-RSFI, inclusivé no ex-Kosovo onde os sérvios
"depurados etnicamente" pela mafia do UCK, o julgamento pela
Jugoslávia independente de todos os criminosos de guerra, chefes de Estados
ocidentais e generais da NATO. O PRCF está solidários com os trabalhadores
jugoslavos confrontados com regressões sociais maciças, assim como é solidário
com os comunistas jugoslavos que combatem a ocupação da NATO na base do
patriotismo federal e socialista e do internacionalismo proletário, recusando o
chauvinismo "étnico", instrumento de divisão nas mãos do
supra-nacionalismo europeu e do imperialismo americano.
A "justiça dos vencedores" ocidentais é decididamente cada vez mais
opaca. Ao ver como acabou o "processo" Milosevic, os observadores do
processo Saddam Hussein em Bagdad têm razões para perguntar quanto tempo ainda
será preciso para encontrar o antigo dirigente iraquiano morto na sua cela
devido a uma paragem de coração descoberta tardiamente... após o oportuno
suicídio das suas testemunhas de acusação...
[*] Secretário político do PRCF, [**] Secretário
internacional do PRCF
· Milosevic no tribunal da NATO: quando os
criminosos se arvoram em juízes
· Milosevic dies in NATO prison: Yugoslav
leader exposed U.S. war crimes in Balkans
O original encontra-se em http//www.initiative-communiste.fr/
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .