ESPECIAL
23 de março de 2006
GUERRA NO IRAQUE
"É o povo que resiste!"
Entrevista a Abdul Jabbar al-Kubaysi [*]
conduzida por Hugo Janeiro
Quando os norte-americanos atacaram o
Iraque, qual foi a posição assumida pela Aliança Patriótica Iraquiana e os
grupos que convosco colaboram?
Abdul Jabbar al-Kubaysi: Quando a guerra foi desencadeada, muitos de
nós, que havíamos sido severamente reprimidos e torturados pelo regime de Saddam
Hussein, percebemos que não podíamos estar ao lado da invasão
anglo-norte-americana. Não era possível capitular perante a história de
soberania do Iraque.
Claro, houve gente que hesitou, que concordava que não era correcto estar ao
lado do bombardeamento e da ocupação do nosso país, mas... colocavam um mas, e
a partir desse momento vacilavam.
Muitos dos que se encontravam no exílio procuraram encaixar no novo regime, com
lugares no governo, nas universidades, como embaixadores, mas com o passar das semanas,
após longas discussões e uma análise da situação no terreno, fomos ganhando
força e credibilidade, nós os que desde a primeira hora nos opusemos à guerra.
Quando digo nós, falo no comando central dos comunistas e outros grupos
políticos que, embora minoritários, sem dinheiro, apenas com vontade e um
jornal pobre e sem meios, tratámos de dar continuidade ao movimento político de
resistência.
Com o tempo, com a pressão do povo, que também começou a acordar, juntaram-se
alguns militares que nem tiveram possibilidade de combater. Neste momento, são
um dos grupos mais numerosos da resistência e penso que não decidiram resistir
por terem sido membros do Partido Baas, mas porque assumiram uma posição
patriota.
Mas a ideia que passou para o ocidente foi que a resistência emergiu de
grupos religiosos...
Abdul Jabbar al-Kubaysi: Não foi assim que as coisas funcionaram no
terreno. Inicialmente, surgiram centenas de grupos que pegaram em armas.
Trabalhadores, soldados e oficiais, jovens, muitos jovens que perceberam o que
ia ser a ocupação e se juntavam por bairro, porque havia um militar que tomava
a iniciativa, sem ligações a partidos ou facções religiosas, na esmagadora
maioria dos casos.
Este movimento de resistência quase expontâneo atacava as forças ocupantes e
regressava às suas casas, voltava às suas vidas. Só depois surgiram
organizações mais complexas, de comunistas, de ex-membros do Partido Baas, de
inspiração religiosa mas que, mesmo hoje, não fazem das suas acções nenhuma
"guerra santa", ou o que for que os EUA gostam de lhes chamar.
Com o passar do tempo e o agravar da situação os grupos dispersos começaram a
unir-se, paulatinamente, até que hoje temos cerca de seis a sete grandes grupos
com milhares de guerrilheiros. Entre estes encontras comunistas, Baatistas,
muitas sensibilidades, mas que resistem porque chegaram à conclusão que esse é
o único caminho e o primeiro objectivo.
Mesmo no interior dos grupos temos diversas "cores" políticas e
religiosas, isto é, se estás na tua cidade ou na tua região, tens uma
determinada opção política ou religiosa, não te vais deslocar milhares de
quilómetros para integrar um grupo liderado por alguém que pense exactamente
como tu. Se tens vontade de combater, juntas-te à resistência na tua zona, és
aceite tal qual és e continuas livre de pensar como queiras, de manter as tuas
convicções e linguagem. Esta foi a fórmula para unir toda a gente.
Outra coisa é a Frente Patriótica de Libertação que formámos há cerca de cinco
meses, a qual integra o comando central do Partido Comunista Iraquiano – que é
o resultado da cisão do antigo PCI existente nos anos 60 –, a Aliança
Patriótica Iraquiana, os Baatistas e um grupo chamado Patriotas Democráticos.
Então o fundamental do vosso objectivo passa pela expulsão dos norte-americanos,
e só depois discutirão o futuro do país?
Abdul Jabbar al-Kubaysi: Mesmo agora vamos discutindo o futuro, claro,
somos quatro partidos políticos diferentes. O que pensamos é que a questão
central neste momento passa pela coordenação da resistência, que também está
representada mas que não é uma força política homogénea.
CRIANDO FALSAS DIVISÕES
E as tensões étnicas que aparentemente violentam o Iraque, que papel
desempenham esses grupos?
Abdul Jabbar al-Kubaysi: Bom, sabemos que essa é a imagem que passa, mas
a verdade é que essas milícias representam os membros do governo, do
parlamento, servem os interesses norte-americanos.
Milicianos sunitas do Partido Islâmico do Iraque, pró-Arábia Saudita,
responsáveis por atentados, estão no governo, têm dois ministros, estão
representados no parlamento.
Com os partidos políticos xiitas acontece a mesma coisa. É uma guerra pela
partilha do poder. A questão é que, para incendiarem os ânimos, não se matam
entre si, violentam sunitas e xiitas inocentes.
Acha que o objectivo é criar uma atmosfera de medo?
Abdul Jabbar al-Kubaysi: Absolutamente. Deixar as pessoas aterradas e
levá-las a apoiar um país dividido, sobretudo da parte do xiitas, no Sul, com
claro interesse da parte do Irão.
Quando se diz que a resistência é sunita e que só mata xiitas é uma mentira
que, para milhares de iraquianos, se vai revelando com mais clareza. Há
exemplos de acções da resistência contra xiitas, sunitas, é indiferente,
porquanto que estejam no poder, na medida em que colaborem com os ocupantes, é
o que realmente os transforma em alvos.
CONSCIÊNCIA CRESCE ENTRE O POVO
Pensa que o povo iraquiano demonstra hoje uma maior consciência da necessidade
de lutar do que nos primeiros meses da ocupação?
Abdul Jabbar al-Kubaysi: Neste momento tornou-se uma cultura.
Inicialmente, a resistência começou por se traduzir muito num sentimento de
repúdio pela presença de tropas estrangeiras no país, mas agora a consciência é
maior, as pessoas, mesmo as mais ignorantes, praticamente sem instrução,
começam a discutir política e a perceber o que está em causa.
É importante que esta cultura se tenha espalhado entre a gente simples, entre o
povo. Vamos perguntar a um camponês ou a uma mulher o que é a política? Ela não
te sabe dizer o que é, mas sabe que deve lutar, e se não tem condições para o
fazer, pelo menos percebe que tem que incitar os que conhece a resistirem à
ocupação.
Perderam o medo, mesmo quando sabem que muito provavelmente vão perder um
familiar. Uma vizinha minha perdeu 11 filhos nesta guerra e o que realmente
impressiona é que ela já não pensa que os seus morreram em vão, antes, tem
orgulho.
Na nossa tradição, quando morre alguém da família, recebem-se os vizinhos em
casa e serve-se café forte, sem açúcar, como sinal da amargura da perda.
Ultimamente, quando morre um rapaz ou uma rapariga na resistência, serve-se
sumo, em sinal de orgulho pelo que fez. A caminho do cemitério, cantam-se
músicas revolucionárias, e todos vêm para prestar homenagem. As mulheres ululam
como quando há um casamento, neste caso, anunciam a união com a causa da
liberdade do seu país. Claro que é uma dor e uma mágoa só perceptível por quem
a sente, mas pior seria se o filho, a filha, o marido ou o irmão quebrassem
perante o invasor.
Qual a importância da solidariedade internacional com o Iraque nesse
contexto?
Abdul Jabbar al-Kubaysi: É fundamental para que se perceba que a guerra
não é um "choque de civilizações" entre cristãos e muçulmanos, como
quer fazer passar George W. Bush. Muitos iraquianos pensaram que era essa a
razão pela qual os atacavam, por serem muçulmanos.
Quando ocorreram as primeiras grandes mobilizações mundiais, com milhões de
pessoas nas ruas contra a guerra e a ocupação do nosso país, começaram a
perceber que afinal, gente comum da Europa, dos EUA, gente como eles, com
razões para viver, com família, com amor pela pátria, também estava contra a
guerra. Isso para o povo iraquiano é ao mesmo tempo um grande orgulho e uma
grande responsabilidade. É isso que também os ajuda e entusiasma a não
desistirem. É o povo que resiste!
Quando eu me encontrava preso, trouxeram-me cartas de gente de Espanha, da
Itália, de França, pessoas que eu não conheço mas que exigiam a minha
libertação. Claro, também levaram as cartas para os interrogatórios e queriam
saber quem eram os amigos, se eram operacionais, contactos subversivos. No
mínimo, são iniciativas que os fazem pensar e temer pela força que se levanta
contra a ocupação.
CONFIANÇA NO FUTURO
Pensa regressar ao Iraque? Não tem receio de voltar a ser detido?
Abdul Jabbar al-Kubaysi: Para onde vou? É a minha terra. Não sou um
soldado, sou político. O que tento fazer é minimizar as hipóteses de ser
capturado novamente. Arrisco as minhas hipóteses na vida, tenho que o fazer
pelo meu país, tal como o fazem milhares de iraquianos que também são
procurados, também são perseguidos.
Onde vai buscar essa determinação para voltar? O que pensa a sua família?
Abdul Jabbar al-Kubaysi: Temos a consciência de que é necessário, mesmo
que as nossas famílias, especialmente os filhos, estranhem a ausência. As
crianças fazem muitas perguntas, não é com facilidade que as enganamos (risos).
Se pensarmos que o mesmo sentimento de revolta é partilhado por outro
iraquiano, qualquer um, que vende tomate na rua para sobreviver, por exemplo, e
ainda assim espera pacientemente pela oportunidade para demonstrar resistência,
percebemos que temos que continuar.
A libertação do Iraque é um objectivo que pensa ser alcançável em breve?
Abdul Jabbar al-Kubaysi: Não só tenho a certeza, como sei que é
inevitável. Os ocupantes encontram-se em condições terríveis, têm inimigos em
todas as ruas, a imensa maioria dos iraquianos está contra a sua presença, não
são só os grupos armados da resistência. É essa a nossa força. A palavra que
passa é que eles se encontram numa estrada em direcção ao inferno.
É sabido, mesmo pelos políticos e comandantes militares no terreno, que a
guerra está perdida. São os próprios que o dizem, mas não admitem o facto
publicamente.
Com isto não se fique a pensar que o que dizemos é que quando forem embora não
terão que compensar o povo do Iraque pelos estragos que fizeram, pelas vítimas
que deixaram. Não! Nós temos direito a que nos restituam as perdas. Que razão é
essa de invadir, matar, saquear um país e depois ir embora como se nada fosse?
Não vamos aceitar essa condição.
CRIMES DE GUERRA
Pode-nos fazer um relato do que se passou em cidades como Fallujah ou Tall Afar
durante os bombardeamentos dos EUA?
Abdul Jabbar al-Kubaysi: Actualmente, Fallujah parece Dresden após a II
Guerra Mundial, as pessoas vivem em tendas porque quase toda a cidade está em
ruínas. Os jornalistas são impedidos de entrar. Eles não querem que o mundo
saiba a verdade e nem os norte-americanos podem circular sem autorização do da
cadeia de comando.
O que se passou em Fallujah, os bombardeamentos com Fósforo Branco, os milhares
de corpos de homens, mulheres e crianças carbonizados, factos que estão
documentados num filme da RAI, por muito duro que vos possa parecer, não é
nada.
O mesmo tipo de cenário podemos ver se formos a Tall Afar, Ramadi, Mansur Al
Kan, um caso pouco conhecido mas que é igualmente chocante. Samarra também,
embora não esteja exactamente no mesmo estado.
No primeiro ataque a Fallujah, em Abril de 2004, eu estava lá dentro, é a
cidade onde nasci. Morreram mais de 1600 pessoas e outras três mil ficaram
feridas.
Neste último já estava preso, mas as informações que tenho é que assassinaram
cerca de seis mil pessoas.
Qual a razão pela qual este tipo de ataques norte-americanos foram
concentrados no norte do Iraque?
Abdul Jabbar al-Kubaysi: Porque foi nessa zona que a resistência ganhou
força mais depressa. Dentro das cidades as pessoas eram livres, os soldados não
entravam.
É verdade que lá se estabeleciam bases da resistência, onde trabalhadores,
insisto, gente humilde, simples, aprendeu a fazer armas, RPG's, tudo
manufacturado.
À pouco falávamos da resistência e das tais divergências étnicas. O que é Tall
Afar? É natural que na Europa não saibam, mas é uma cidade de maioria xiita, e
não obstante resiste.
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Batota nas urnas partilha o poder |
Quanto às eleições, fala-se insistentemente
numa fraude. O que foi que realmente se passou?
Abdul Jabbar al-Kubaysi: Nas eleições constitucionais, apelámos ao povo
para que fosse votar e rejeitasse a proposta. A questão era simples, bastava
dizer sim, ou não, e ainda assim demoraram cinco semanas a contar os votos.
Eles sabiam que o resultado lhes tinha sido desfavorável, mas insistiram e
apresentaram uma contagem de 55 por cento de aprovação do texto.
Mobilizaram-se milhares de pessoas que contestaram os resultados. Eles
reavaliaram as suas forças e fizeram uma recontagem, mas chegaram à
conclusão... que estavam certos.
Agora vamos dizer o que realmente se passou. Primeiro disseram que bastava que
dois terços dos votos se expressassem pelo não em três das províncias para a
proposta constitucional chumbar. Posteriormente, quando se viram derrotados,
acrescentaram que isso tinha que suceder em cada uma das províncias, isto é,
arrogaram-se a dar a volta à lei. O comando norte-americano aplaudiu dizendo
que aceitava a deliberação do parlamento.
Mesmo assim, há um segundo dado que foi ainda mais visível nestas recentes
eleições. Al-Zarqawi, que representa um grupo minúsculo, sem expressão de
massas, lançou um apelo contra as eleições e ameaçou boicotá-las pela força. O
que nós, a resistência, considerámos foi que durante três dias não iríamos
atacar, que cabia às pessoas decidirem se iriam votar, ou não.
Podíamos ter boicotado o sufrágio pela força, até porque nos manifestámos
contra o embuste, esclarecemos que era desfavorável aos interesses populares,
mas sabíamos que se optássemos pela violência quem acabaria por colher frutos
era Al-Zarqawi. A verdade é que ele não conseguiu impedir as eleições em
nenhuma vila ou cidade.
Os que foram a eleições, partidos sunitas ou xiitas, dividiram-se por áreas.
Onde são maioria não permitiram que os oponentes fossem às urnas, por isso
ganharam. Os EUA, mais uma vez, dividiram para reinar e, mais grave, pensaram
dar um golpe na unidade territorial do país, um dos seus verdadeiros
objectivos.
Então, como eu dizia, cada partido levou boletins e encheu as caixas onde e
como pode. Quando contaram os boletins, eram mais do que a população votante,
isto não foi falado. A propaganda disse que a maioria foi votar, mas o povo
sabe que tal não corresponde à verdade.
Um exemplo. Num bairro em Bagdad não existe maioria de nenhuma das facções, por
isso concorreram ambas e controlaram-se mutuamente. A participação foi de 18
por cento, não de mais de 90 por cento, como afirmaram em centenas de mesas
eleitorais. Os que se lhes opõem, asseguro, não foram às eleições.
NA PRISÃO DO IMPÉRIO
Esteve detido cerca de um ano e meio. Que condições encontrou na prisão e
como é que os norte-americanos o trataram?
Abdul Jabbar al-Kubaysi: Primeiro temos que esclarecer que no Iraque não
existe só Abu Grahib, mas 30 grandes prisões.
Uma das maiores, a norte de Bagdad, junto a uma pequena povoação chamada
Al-Bagadadi, era uma antiga base do exército iraquiano e nós sabemos que os EUA
têm lá mais de nove mil pessoas e que as torturam. Outra, em Badush, a norte de
Mossul, também tem o mesmo número de presos, mas a maior de todas fica em
Balad, a caminho de Samarra, dentro de um complexo militar norte-americano.
Com isto quero sublinhar que, na verdade, os EUA mantêm presos mais de 80 mil iraquianos,
e antes das últimas eleições eram 192 mil os encarcerados. Mesmo as mulheres
que se encontram presas – que calculámos em mais de 400 – foram levadas por
duas razões: ou têm uma relação com alguém pertencente à resistência, ou quando
os soldados chegaram à sua casa e perceberam que os homens não se encontravam,
levaram as mulheres para os obrigar a deslocarem-se às bases, mesmo sem provas
de que pertençam à resistência. Isto nem nos tempos da ditadura se fazia no
Iraque, era inaceitável.
Também sabemos que os tipos de tortura variam muito, desde choques eléctricos,
queimaduras no corpo, até às coisas mais bizarras, como fazerem pilhas humanas
e dispararem. Penso que pretendem provar que têm melhor pontaria...
Na prisão onde eu estava ouviam-se muitas histórias, relatos de muita gente
porque é um dos locais que funciona como plataforma para as transferências. Um
preso chega, fica dois, três dias, depois é levado. Por vezes nem precisavam de
falar, nós víamos o estado em que chegavam e imaginávamos o que lhes haviam
feito.
No meu caso, durante cinco meses e meio, fui interrogado todos os dias.
A determinada altura, talvez nos últimos nove meses, recebia cartas através da
Cruz Vermelha Internacional. As duas primeiras linhas, onde vinham os cumprimentos
e as saudades que família escrevia, vinham intactas, o restante estava
completamente rasurado para nos fazer quebrar. Depois trouxeram-me os desenhos
que os meus filhos tinham enviado para um interrogatório e diziam que era um
código.
Bem, eu só podia dizer que o meu filho era um rapazinho de nove anos e que eles
nem isso eram capazes de perceber, que estavam loucos. Vivem no medo.
O que pretendiam saber?
Abdul Jabbar al-Kubaysi: Perguntavam-me sobre a resistência, quem
conhecia no Iraque e na Europa, onde tinha estado, quais os contactos que tinha
no mundo árabe. Acusaram-me de ser o coordenador entre os grupos insurgentes,
de ser o teórico da resistência.
Nos primeiros dez dias, meteram-me numa caixa de madeira com pouco mais de 70
centímetros, de pés e mãos atadas atrás das costas, com correntes, no escuro.
Quando era vencido pelo cansaço e me obrigava a dormir, não me deixavam por
mais de dez minutos, gritavam o meu número.
Não me davam água nem comida, e quando davam alguma coisa era quase nada
[n.d.r.: pouco mais de um terço de uma chávena de café, indicou-nos]. De dois
em dois dias, davam um pedaço de pão que era metade de um punho fechado, nem
para alimentar um pequeno pássaro chegava.
Nesse período, mesmo a água que me serviam estava a cerca de 40 graus, e nunca
me tiravam a venda nem me indicavam onde estava o copo.
Depois disto, fui transferido para uma cela, mas sempre que me obrigavam a sair
voltavam a tapar-me com uma venda e algemavam-me. Nunca estive sem algemas fora
da cela, penso que por terem medo de serem atacados.
Então pressentiu que mesmo os soldados que o guardavam estavam amedrontados?
Abdul Jabbar al-Kubaysi: Eles vivem aterrorizados como coelhos! Todos os
dias a base onde me encontrava era atacada por rockets, de noite ou de dia,
nunca falhava. Quando o ataque começava, ficávamos contentes, claro, mesmo que
por vezes as explosões se dessem a escassos cem metros de nós. Os guardas
vinham para junto dos presos, aterrorizados, gritavam, corriam. Julgo que
pensavam que mais perto das nossas celas não corriam perigo.
Muitas vezes riamos da situação e perguntávamos: és um soldado, porque é que
tens medo? Tenho medo de morrer, diziam. Então percebemos, e alguns começaram a
contar que só no Iraque se aperceberam que foram enganados.
Falou com muitos soldados nessa situação?
Abdul Jabbar al-Kubaysi: Muitos, pessoas com quem comunicava quando me
traziam alguma comida, ou faziam a ronda.
Certa vez, um perguntou-me: Qual era a tua patente no exército? Eu respondi que
não era militar, era engenheiro civil e estava preso por razões políticas.
Ficou confuso e disse: então era do governo do Saddam? Eu expliquei que não,
que estava exilado, que tinha combatido Saddam. Porque razão está preso? –
continuou. Eu só lhe respondi que fosse perguntar ao seu governo. Depois
indiquei vários presos, uns tinham sido professores, outros médicos, outros
operários.
A determinada altura começavam a falar connosco, mas não é possível aprofundar
muito a conversa porque o sistema não permite criar laços com o guarda. Todos
os dias mudam a escala e de duas em duas semanas retiram o soldado de uma
determinada rotina.
De quando em quando voltam, e nesses momentos alguns revelavam o que lhes
haviam contado. Disseram-lhes que éramos perigosos, que nem sequer tirassem os
óculos de protecção junto de nós porque éramos de tal forma selvagens que, à
primeira oportunidade, lhes furaríamos os olhos com os garfos de plástico
(sorri).
Quando descobriam que não era assim, ficaram com dúvidas.
A um outro soldado tive que contar que me tinha licenciado pela Universidade
Americana de Beirute, e que o tipo da cela ao lado também. Ficou espantado, a
pensar. Quando estes episódios aconteciam, revelavam, por exemplo, que foram
treinados durante pouco mais de seis meses, três dos quais, numa
"formação" sobre o Iraque, na qual lhes contaram todo o tipo de
mentiras. Alguns prometeram que, acabado o contrato, nunca mais voltariam.
A esmagadora maioria são jovens entre os 18 e os 21 anos que foram enganados,
arregimentados como mercenários, a troco de dinheiro, do pagamento das propinas
da universidade que de outro modo não podiam pagar, da carta de cidadania
norte-americana, uma "moeda de troca" que deve ser muito comum.
Mais informação&o do Iraque em http://www.iraqsolidaridad.org/
[*] Presidente da Aliança Patriótica Iraquiana.
O original encontra-se em http://www.avante.pt/noticia.asp?id=13432&area=5
Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/
.
GUERRA NO IRAQUE
Imagens que os meios de
comunicação não mostram
Já há cerca de 17 mil mutilados estadunidenses da guerra do Iraque. No entanto,
os meios de comunicação corporativos não os mostram. Nos EUA, ou no Brasil, é
como se não existissem. A imprensa pasteurizados da classe dominante esmeram-se
na arte da desinformação e do encobrimento da realidade.
As imagens destes pobres mutilados, recrutados entre as classes sociais baixas dos EUA, são chocantes. Elas mostram o custo humano da guerra bárbara que o imperialismo desencadeou no Iraque. Mas, ao serem vistas, não se deverá esquecer que as principais vítimas destes três anos de guerra estão entre o heróico povo iraquiano e não na tropa agressora. As imagens estão em:
http://www.voltairenet.org/article136827.html