ESPECIAL
25 de março de 2006
Fixo, volátil, ou dividido
O trabalho,
a identidade e a divisão espacial do trabalho no séc. XXI
por Ursula Huws [*]
A combinação da mudança tecnológica com a
globalização está a provocar alterações fundamentais no que se refere a quem
faz que tipo de trabalho, onde, quando e como. Isto tem implicações
profundamente contraditórias para a natureza das funções, para as pessoas que
as desempenham e, portanto, para a natureza das cidades.
Por um lado, o trabalho que anteriormente estava ligado geograficamente a um
determinado local tornou-se volátil numa dimensão sem precedentes históricos;
por outro lado, tem havido grandes migrações de pessoas que percorrem o planeta
à procura de trabalho e de segurança pessoal. Tem havido pois um duplo
desenraizamento – uma deslocação do trabalho em direcção às pessoas e uma
deslocação das pessoas em direcção ao trabalho. Em conjunto, estas reviravoltas
estão a transformar o carácter das cidades tanto nos países desenvolvidos como
nos países em desenvolvimento.
Da mesma forma, estão também a transformar as identidades e as estruturas
sociais. A maior parte das descrições clássicas da estratificação social
atribuem uma importância central à identidade ocupacional. O bloco básico de
construção da identidade de classe tem sido tradicionalmente a ocupação,
normalmente uma identidade estável adquirida lentamente quer por herança quer
através dum processo de formação destinado a dotar o estudante ou o aprendiz
com habilitações para a vida. Depois de entrar nessa ocupação e de praticar
essas habilitações, o seu detentor tem uma posição reconhecida na divisão
social do trabalho que lhe dá um 'lugar' nessa sociedade por toda a vida, salvo
qualquer calamidade como a doença, o desemprego ou a falência – riscos contra
os quais os estados previdência da maior parte dos países europeus proporcionam
uma forma qualquer de seguro social.
Estas identidades contribuíram para dar à maior parte das cidades uma forma
conhecida que é familiar aos seus habitantes: bairros que abrigam determinadas
indústrias; instituições reconhecidas de mercado de trabalho; estruturas
familiares características; e infra-estruturas físicas e sociais que reflectem
e reforçam esses padrões. As estruturas e relações sociais completam-se na
geografia física da cidade – espaços 'masculinos' e espaços 'femininos'; áreas
de 'gueto' onde se concentram os imigrantes recém-chegados e áreas onde são
preponderantes os habitantes indígenas; áreas barulhentas onde se juntam os
jovens e outras sossegadas onde vivem os mais velhos. Estes padrões são
modelados por padrões sexistas e raciais e estruturados pelas relações de poder
entre os diferentes grupos sociais. Isto não afecta apenas os que vivem num
determinado local, os que trabalham num determinado local, ou os que preferem
viajar para determinados locais, mas também a forma como cada área é encarada
subjectivamente – por exemplo, quais as áreas que são consideradas e por quem
como limpas, seguras ou amistosas.
Os movimentos sem precedentes de pessoas e de empregos por todo o mundo
coincidiram com uma rotura de muitas das identidades ocupacionais tradicionais.
Habilitações específicas ligadas à utilização de determinadas ferramentas ou maquinaria
têm vindo cada vez mais a dar lugar a habilitações mais genéricas e em mutação
rápida, relacionadas com o uso das tecnologias de informação e de comunicações
(no que se refere ao trabalho envolvendo o processamento da informação) ou a
novas tecnologias de trabalho com economia de mão-de-obra, por exemplo, na
construção, na produção, na embalagem, ou na limpeza. Em muitos países, esta
desintegração das identidades ocupacionais coincidiu também com o colapso das
formas institucionais da representação dos trabalhadores, tais como os
sindicatos, que no passado serviram para dar uma certa forma coerente e
visibilidade social a essas identidades. Estamos a ficar com uma paisagem em
rápida mutação e em grande parte desconhecida na qual se criam (e desaparecem)
profissões com grande rapidez, frequentemente sem sequer terem uma designação
concreta – apenas uma combinação atabalhoada de 'habilitações, 'capacidades' e
'competências'.
Sem identidades ocupacionais coerentes e estáveis como blocos de construção
básica de análise social, como é que podemos começar a cartografar as mudanças
que estão a ocorrer actualmente nas nossas cidades? Uma hipótese é começar pelo
seu desenraizamento espacial. Aqui, uma tipologia possível é atribuir-lhes a
categoria de 'fixo' ou 'volátil', com uma categoria intermédia para as
profissões que aliam as características estáveis e voláteis e que poderemos
designar por 'divididas'.
Uma das ironias da actual situação é que muitas das profissões fixas são na
maior parte das vezes desempenhadas pelas pessoas mais voláteis, enquanto que
algumas das profissões mais voláteis podem ser desempenhadas por pessoas com
profundas raízes ancestrais no local onde trabalham.
Comecemos por algumas profissões fixas. Uma das características mais óbvias da
estabilidade é a necessidade da proximidade física dum determinado local,
porque a profissão envolve directamente o fabrico, a alteração, a limpeza ou a
movimentação de bens físicos ou a entrega de serviços pessoais reais às pessoas
num tempo real e num espaço real.
Partindo do meu próprio espaço real, passo em revista as profissões fixas que o
sustentam. Vivo em Londres numa rua de casas de três pisos do século dezanove,
onde cerca de um terço das casas são ocupadas por agregados familiares simples
da classe média e o restante foi transformado em apartamentos ou ocupado por
agregados familiares mais alargados, famílias maiores e mais pobres. A maior
parte das famílias da classe média utilizam uma empregada de limpeza três ou
quatro horas por semana. Das empregadas de limpeza que conheço nesta rua, uma é
boliviana, uma é mauritana, uma ugandesa, e uma colombiana. Nenhuma delas é
branca; nenhuma nasceu na Europa, muito menos em Londres. No fim da rua há dois
restaurantes, um café, uma loja de peixe e batatas fritas, e um estabelecimento
de venda de frango frito. Um dos restaurantes serve pratos ao estilo europeu de
diversas origens, principalmente franceses. O seu proprietário é de Montenegro,
casado com uma irlandesa. As empregadas são brasileiras, polacas e russas. O
outro restaurante anuncia um menu italiano mas tanto o proprietário como o
pessoal (com excepção duma empregada albanesa) são turcos, tal como o café. Os
empregados da loja de peixe e batatas fritas são chineses. O estabelecimento de
venda de frango frito, que está aberto durante quase toda a noite e atende uma
clientela bastante grosseira, é, apesar do seu nome americano, servida por um
grupo transitório de trabalhadores de aspecto exausto de origem africana ou
asiática.
Periodicamente as casas da rua que são de propriedade pública (cerca de 20 por
cento do total) são renovadas todas ao mesmo tempo. Isto aconteceu no ano
passado, e durante várias semanas as redondezas estiveram cheias de
trabalhadores da construção. Desta vez, tanto quanto pude ver, todos os
trabalhadores especializados eram polacos; alguns dos operários menos
especializados eram de diversos países balcânicos. Com excepção duma capataz
(uma londrina negra) não vi nenhuma mulher entre o pessoal.
Como não tenho automóvel, utilizo frequentemente o serviço dos mini-táxis. Os
motoristas estão sempre a mudar mas incluem um grande número de homens de
países do sul da Ásia e de África. Que eu saiba só há uma motorista mulher, uma
nigeriana mal-humorada que se recusa a sair do carro mas buzina fortemente para
anunciar a sua chegada. Já não me lembro da última vez que me calhou um
motorista branco.
Esta diversidade de origem étnica não é exclusiva do trabalho manual. A pequena
companhia que faz a manutenção da minha rede de computadores é dirigida por um
cipriota grego. O seu representante é sírio e quando está demasiado ocupado
envia um engenheiro turco para resolver os meus problemas. São todos altamente
especializados e instruídos. Ao balcão de atendimento do nosso centro de saúde
local estão duas mulheres muito eficientes – uma é nigeriana e a outra somali.
Estes exemplos podiam ser multiplicados por mil, não apenas em Londres mas em
muitas cidades por todo o globo, onde a manutenção de infra-estruturas estáveis
e as actividades de serviços de atendimento a clientes estão cada vez mais nas
mãos de pessoas que nasceram noutros países ou noutros continentes. A sua
presença como migrantes recém-chegados ou temporários tem múltiplos efeitos na
forma e no carácter das cidades hospedeiras hoje dependentes do seu trabalho,
tanto nas áreas onde eles vivem como nas áreas onde eles trabalham. Enquanto
trabalhadores de serviços e utilizadores de serviços eles estão frequentemente
no interface do consumo e da produção tanto dos serviços públicos como privados
e neste processo ambos se transformam: criam-se mercados para novos tipos de
comida e de serviços pessoais; as instituições de saúde e educacionais alteram
as horas e os idiomas em que prestam os seus serviços; e aparecem novos códigos
de vestuário ou de comportamentos, tácitos ou explícitos, que colocam múltiplos
desafios tanto aos novos como aos antigos residentes cuja sobrevivência social
depende de saber descodificá-los. A composição étnica específica de qualquer
cidade é modelada por uma complexa interacção de factores que incluem o seu
passado histórico, político, religioso, e as tradições culturais, a estrutura
industrial e a localização geográfica; o facto da diversidade, no entanto, é
cada vez mais universal.
Isto para as profissões fixas; e quanto às voláteis? O desenvolvimento duma
divisão global do trabalho não é novo. As regiões sempre comercializaram os
seus produtos umas com as outras desde que a história é história, e o assalto
de outras partes do mundo à procura de matérias-primas ou de trabalho escravo é
pelo menos tão velho como o colonialismo. No final do século XIX o Império
Britânico exibia um padrão notavelmente desenvolvido de especialização
industrial regional entrelaçado numa rede comercial global. O século XX
assistiu ao funcionamento das corporações multinacionais com uma crescente
independência dos interesses dos estados nações nos quais estavam sediadas,
inaugurando um período depois da Segunda Guerra Mundial que foi caracterizado
por Baran e Sweezy como 'capitalismo monopolista'. [1]
Na década de 70, tornou-se claro que estava a chegar uma 'nova divisão global
do trabalho' na indústria da manufactura com as companhias a dividir os seus
procedimentos de produção em sub-procedimentos separados e a redistribuir essas
actividades por todo o globo onde quer que as condições fossem mais favoráveis.
[2]
Esta tendência continuou na década de 80 com indústrias tão diversas como a do
vestuário, da electrónica e da auto-manufactura afastando os seus instrumentos
de produção das economias desenvolvidas com altos custos de mão-de-obra e forte
controlo ambiental e dirigindo-os para países em desenvolvimento, muitas vezes
para 'zonas de mercado livre' em que se oferecem diversos incentivos fiscais
aos países desenvolvidos e se suspendem os regulamentos de protecção à
mão-de-obra e ao ambiente como forma de atrair o mais possível o investimento
directo estrangeiro. Os trabalhadores nessas zonas eram desproporcionadamente
jovens e do sexo feminino, e recebiam salários abaixo do nível da subsistência.
Apesar disso, não eram de forma alguma passivos e muitos deles organizaram-se
activamente para melhorar a sua sorte. [3]
Esta é uma das razões por que algumas das regiões outrora consideradas como de
salários baixos, por exemplo o sudeste da Ásia e a América Central, são agora
consideradas de salários relativamente médios, e as companhias abandonaram-nas
para explorar mão-de-obra ainda mais barata em zonas como a China, a África
sub-saariana e outras partes da América Latina.
Escusado será dizer que esta evolução teve impactos dramáticos tanto nas
cidades que perderam os empregos das manufacturas como nas que os ganharam. Nas
áreas em desenvolvimento, como as 'maquiladoras' mexicanas ou na região Metro
Manila das Filipinas, surgiram enormes desenvolvimentos urbanos novos, muitas
vezes altamente poluídos, cujas economias dependiam das manufacturas para
exportação. Estas áreas atraem a mão-de-obra das periferias rurais empobrecidas
e, ao fazê-lo, criam novos mercados urbanos para bens e serviços e novas
necessidades de infra-estruturas e alojamento que na maior parte das vezes não
são resolvidas de forma adequada.
Nos países desenvolvidos, as cidades que se formaram como centros produtivos no
século XIX e princípios do século XX, tiveram que se transformar em centros de
serviços ou entraram em decadência até acabarem em áreas enferrujadas com um
alto desemprego, centros comerciais vazios, aumento de criminalidade, e
serviços públicos em deterioração. Em muitos casos não foi de um dia para o
outro que passaram de empregadoras de trabalhadores locais especializados e
organizados para desertos de fábricas e armazéns vazios. Pelo contrário,
passaram por um período transitório durante o qual o trabalho foi automatizado,
simplificado e embaratecido. Muitas vezes importava-se mão-de-obra imigrante
para efectuar as tarefas que já não eram atractivas para as gentes locais
durante o período próspero que decorreu na maior parte dos países desenvolvidos
desde a década de 50 até meados da década de 70. Quando as fábricas começaram a
fechar, a partir dos meados da década de 70, foram esses trabalhadores
imigrantes, quer fossem asiáticos do sul no norte do Reino Unido,
norte-africanos em França, turcos na Alemanha, hispânicos nos Estados Unidos ou
coreanos no Japão, que apanharam com a pancada desta alteração. Ao fermento da
decadência das áreas enferrujadas somaram-se as tensões étnicas.
Menos bem estudada – pelo menos até há pouco tempo – tem sido a nova divisão
global do trabalho na área dos colarinhos brancos. Apesar disso, também esta
tem-se alterado desde a década de 70 quando trabalho menos especializado, como
a introdução de dados ou a composição de dados, começou a ser exportado por
grosso da América do Norte e da Europa para economias de custos mais baixos nas
Caraíbas, assim como na Ásia sul e sudeste, enquanto que os serviços de maior
especialização, como programação informática, começaram a ser exportados para o
mundo desenvolvido a partir de economias em desenvolvimento como a Índia, as
Filipinas e o Brasil. [4]
No ano 2000, foi desencadeado o primeiro projecto de investigação com o
objectivo de descrever e medir o desenvolvimento da divisão internacional da mão-de-obra
no trabalho do processamento-telecomunicação-informação, sob a sigla EMERGENCE,
que significa 'Estimation and Mapping of Employment Relocation in a Global
Economy in the New Communications Environment' (Avaliação e Descrição da
Relocação do Emprego numa Economia Global no Novo Ambiente das Comunicações). O
EMERGENCE foi inicialmente fundado pelo Programa da Sociedade de Informações da
Comissão Europeia para efectuar a investigação nas quinze nações que eram na
altura membros de pleno direito da União Europeia mais os estados candidatos
(hoje membros de pleno direito) da Hungria, Polónia e da República Checa.
Posteriormente, o projecto conseguiu mais fundos para efectuar uma investigação
semelhante na Austrália, nas Américas e na Ásia. No final resultou uma imagem
multifacetada da nova divisão global do trabalho, complexa e em mutação rápida,
nos serviços de informações. A primeira resposta obtida foi quanto à extensão
com que os empregadores estão actualmente a utilizar as novas tecnologias para
deslocalizar o trabalho. Foi efectuada uma análise em 7268 estabelecimentos com
cinquenta empregados ou mais nos dezoito países europeus e uma análise
semelhante em 1031 estabelecimentos de todas as dimensões na Austrália. Esta
análise incidiu sistematicamente nos locais onde eram prestados sete serviços
profissionais genéricos diferentes. Estes serviços profissionais eram:
actividades criativas e geradoras de conteúdos, incluindo pesquisa e
desenvolvimento; desenvolvimento de software; introdução de dados e
dactilografia; funções de gestão (incluindo gestão de recursos humanos e de
formação assim como gestão de logística); funções financeiras; actividades de
vendas; e serviço a clientes (incluindo consultoria e serviços de informações
ao público assim como apoio pós-venda). Para cada função, a análise incidiu na
extensão com que era prestada à distância através duma ligação de
telecomunicações, 'trabalho electrónico', se era prestada a partir da empresa
ou entregue a terceiros, e quais as razões para a escolha de qualquer
localização especial ou prestador de serviços.
Os resultados proporcionaram uma imagem abrangente da extensão com que estes
serviços profissionais já estavam deslocalizados no ano 2000. Na Europa, perto
de metade de todos os estabelecimentos já estavam a prestar pelo menos uma
destas funções à distância utilizando uma ligação de telecomunicações para
executar o serviço, enquanto que na Austrália cerca de um quarto delas fazia o
mesmo.
Ainda mais impressionante do que a extensão geral do 'trabalho electrónico' é a
forma que ele assume. A maior parte da literatura sobre trabalho à distância,
trabalho por telecomunicação, trabalho em casa ou quaisquer outros pseudónimos
para 'trabalho electrónico', pressupõe que a forma dominante é o trabalho com
base em casa. No entanto estes resultados mostram que o empregado de 'trabalho
electrónico' estereotipado com base exclusivamente em casa é de facto uma das
formas menos populares. Mais ainda, o 'trabalho electrónico' em casa é
sobrecarregado fortemente pela 'contratação electrónica de terceiros' como um
mecanismo de organização de trabalho à distância, com cerca de 43 por cento de
empregadores europeus e 26 por cento de australianos a utilizar esta prática.
Grande parte da 'contratação electrónica de terceiros' é efectuada no interior
da região onde está sediado o empregador (34,5 por cento), mas uma parte
substancial (18,3 por cento) contrata noutras regiões dentro do mesmo país e
5,3 por cento contratam fora das suas fronteiras nacionais. Estas deslocalizações
de trabalho inter-regionais e internacionais (por vezes inter-continentais)
dão-nos pistas para a geografia da nova divisão internacional do trabalho nos
'serviços electrónicos'.
Quais são os principais factores que impulsionam esta contratação para além das
fronteiras nacionais? No topo da lista está a procura da especialidade técnica
adequada. Só quando esta está disponível é que entram em cena factores
secundários como a fiabilidade, a reputação e o baixo custo. É este factor,
mais do que qualquer outro, que explica a importância da Índia no fornecimento
de 'serviços electrónicos'. Com a sua enorme população parece oferecer uma
fonte quase inesgotável de formados em ciências de computadores de língua
inglesa. Uma análise de 200 das maiores companhias no Reino Unido, encomendada
em 2001 por um importante prestador de serviços internacional, revelou que a
Índia era o centro de desenvolvimento de software ultramarino escolhido
preferencialmente por 47 por cento dos gestores. [5]
Já há sinais contudo de que o mercado de software indiano está a ficar
esgotado, apesar da queda drástica da procura dos Estados Unidos. Algumas
companhias indianas já avançaram para posições intermédias na cadeia de preços
e elas próprias estão a contratar noutros destinos, que incluem a Rússia, a
Bulgária, a Hungria e as Filipinas.
Para as actividades de valor acrescentado mais baixo, como a introdução de
dados, países mais baratos como o Sri Lanka, Madagascar e a República
Dominicana constituíram-se como destinos alternativos aos anteriores (como
Barbados e as Filipinas). A China está a ganhar terreno com uma população ainda
maior e custos mais baixos do que a Índia, assim como a determinação de assumir
um papel de liderança na 'economia electrónica'.
Diferentes funções profissionais caracterizam-se por diferentes tipos de
trabalhadores. Funções de pouca especialização, tal como a introdução de dados
ou o trabalho de serviço a clientes, tendem a envolver grandes quantidades de
trabalhadores que são tendencialmente mulheres; as funções de maior
especialização, como o desenho de sistemas, empregam geralmente quantidades
menores que são tendencialmente homens.
Quando as companhias se confrontam com a possibilidade de escolha de opções
globais, tornam-se ainda mais exigentes quanto ao local para onde se dirigir,
escolhendo fornecedores ou locais como 'cavalos para corridas'. Neste processo
há algumas regiões (Bangalore é um exemplo clássico) que adquirem reputações
mundiais pela sua excelência num determinado campo, enquanto que outras são
completamente ultrapassadas. O projecto EMERGENCE classificou como 'vencidas
electronicamente' grandes secções do mundo, incluindo grande parte da África sub-saariana
e a Ásia Central. [6]
O que é que aconteceu desde 2000? Uma segunda série de estudos, executados pelo
projecto asiático EMERGENCE [7]
em 2002 e 2003, revelou que houve alterações significativas nos primeiros anos
do século vinte e um. O que no virar do milénio era ainda uma experiência de
risco tornou-se numa prática normal, para não dizer uma rotina, três anos
depois. As cadeias de preços tornaram-se mais longas e mais complexas,
envolvendo cada vez mais intermediários. O mundo assistiu ao aparecimento de
novas companhias enormes dedicadas ao fornecimento de serviços profissionais,
muitas vezes muito maiores do que os seus clientes, com uma divisão do trabalho
global interna. Quando uma grande empresa no sector privado ou público decide
entregar a terceiros um grande contrato para fornecimento de serviços
profissionais, cada vez se trata menos de escolher entre a Índia ou a Rússia, o
Canadá ou a China, mas sobretudo uma questão de decidir qual a companhia
específica (por exemplo a Accenture, a EDS ou a Siemens Business Services).
Quando essa companhia obtém o contrato, pode decidir dividir o trabalho por
equipas em diversas partes do mundo, de acordo com um determinado equilíbrio de
conhecimentos profissionais, idiomas, custos e critérios de qualidade
envolvidos. Este tipo de trabalho podia ser encarado, de certa forma, como um caso
paradigmático de volatilidade, deslizando sem fricções através do globo entre
equipas que estão ligadas por redes de telecomunicações e por uma cultura
corporativa comum mas que apesar disso podem estar localizadas fisicamente em
ambientes fortemente contrastantes, e ocupar locais sociais muito diferentes na
estrutura de classes local.
A presença desta nova classe internacional de cibertrabalhadores sem dúvida tem
impacto nas cidades em que vivem. Por exemplo, podem assumir comportamentos que
espalham os valores e as culturas das empresas multinacionais nas suas
comunidades locais e reduzem a cadeia de preços das companhias fornecedoras. Se
saírem para passarem a trabalhar para outras companhias, sediadas localmente,
ou decidirem iniciar um negócio por sua própria conta, também estes sofrerão as
marcas da experiência internacional. Há ainda outros efeitos mais concretos.
Por exemplo, o impacto da indústria de software internacional em Bangalore foi
dramático ao criar pressão sobre a infra-estrutura e sobre os aumentos dos
preços das propriedades que afectam os outros residentes da cidade, quer
trabalhem nessa indústria ou não. Os moradores doutras cidades também se
tornaram vítimas do sucesso internacional de algumas das suas vizinhas – por
exemplo, o sucesso de Dublin enquanto parte do fenómeno Celtic Tiger produziu
um congestionamento de tráfego crónico e uma inflação no preço das propriedades
que levou a que a compra duma casa passasse a estar fora do alcance de muita
gente que anteriormente tinha posses para a comprar. Da mesma forma, o trânsito
fica congestionado sempre que há uma mudança de turno nos azafamados call
centers de Noida e Gurgaon perto de Delhi no norte da Índia.
Entretanto, o simples facto de que o seu trabalho possa ser deslocalizado para
outra parte do mundo coloca um travão às perspectivas dos trabalhadores de
colarinho branco nas cidades em que tradicionalmente têm estado baseados tais
trabalhos. A precariedade cada vez maior dos seus empregos, expressa muitas
vezes por contratos de auto-emprego ou contratos a prazo fixado, não tem apenas
como efeito tornar mais difícil a luta para uma melhoria no salário e nas
condições; também pode ter impacto no mercado habitacional local tornando
impossível obter um financiamento para habitação.
Até aqui, tracei uma imagem fortemente dicotómica de um mundo em que o fixo se
contrapõe ao volátil no que se refere a tarefas e a pessoas. Para a maior parte
de nós, evidentemente, a realidade é muito mais complexa do que isto,
apresentando características estáveis e voláteis em configurações complexas.
Designei esta situação por dividida. Numa existência dividida, as
características da estabilidade e da volatilidade estão em constante e tensa
interacção umas com as outras. As actividades enraizadas de tempo real (como
meter as crianças na cama ou comer uma refeição) são constantemente
interrompidas por actividades 'virtuais' (como o toque do telefone), enquanto
que as actividades 'virtuais' (como ver o email de cada um) são prejudicadas
pelas realidades físicas da situação em que cada um se sente (um torcicolo, por
exemplo, ou o impacto dum corte de energia). Os tradicionais ritmos da vida
diurnos são interrompidos pela necessidade de dar resposta a exigências
globais. A interpenetração de zonas de tempo numa esfera da vida leva
inexoravelmente ao desenvolvimento duma economia de vinte e quatro horas, à
medida que as pessoas obrigadas a trabalhar em horas não tradicionais precisam
depois de satisfazer as suas necessidades enquanto consumidores durante horas
fora do normal, o que por sua vez obriga outro grupo a estar de serviço para
fornecer esses serviços, desencadeando um processo pelo qual as horas de porta
aberta se vão alargando lentamente através da economia e com elas a expectativa
de que é normal estar tudo sempre aberto. Este processo de normalização é
acelerado pela existência em cada cidade de quantidades crescentes de novos
residentes cujo quadro comparativo de referências é espacial e não temporal. Em
vez de compararem as horas de abertura das lojas duma cidade europeia com o que
eram antigamente, é mais provável que as comparem com as de Nairobi, Nova
Iorque ou Nova Delhi. Dificilmente terão noção da solidariedade social que
esteve na base das razões para muitas das tradicionais estruturas temporais ou,
se o tiverem, consideram-nas pouco mais do que estranhas anomalias (ou até
práticas racistas concebidas para os boicotar). Por exemplo, no Reino Unido,
desde a década de 50 até à década de 80, a maior parte das lojas na maioria das
cidades fechava meio-dia durante a semana, o que era conhecido por 'dia de
fechar mais cedo'. Embora isto trouxesse alguma inconveniência para os
fregueses, era quase universalmente aceite como justo, visto que os empregados
tinham que trabalhar nas manhãs de sábado e portanto mereciam meio dia livre de
compensação noutra altura qualquer da semana. Estas atitudes são quase
inconcebíveis no século XXI.
Esta experiência dividida de espaço e de tempo reflecte-se na fractura das
identidades ocupacionais. Embora muitas descrições de funções mantenham uma
mistura de características estáveis e voláteis, estas são cada vez mais
voláteis. Tem havido uma erosão das fronteiras nítidas do local do trabalho e
do dia de trabalho, com um excedente de muitas actividades para fazer em casa
ou noutros locais, incluindo a expectativa de que se tem que continuar a ser
produtivo enquanto se viaja, quer se seja um motorista de camião a receber
ordens por telemóvel durante o intervalo para o almoço, ou um executivo a
trabalhar numa folha de cálculo numa sala de espera do aeroporto. Num mundo em
que as responsabilidades pela casa e pelas crianças estão distribuídas
desigualmente entre os sexos, estes impactos estão longe do género neutro e
contribuíram para um novo desenho invisível das fronteiras entre as tarefas que
podem ser feitas facilmente e de forma segura por mulheres e as que se anunciam
subliminarmente como masculinas.
Acompanhando estas dissoluções das antigas unidades de espaço e tempo, também
assistimos a um novo desenho de muitos dos procedimentos de trabalho que
envolvem algumas mudanças subtis e outras não tão subtis na responsabilidade
por determinadas tarefas na maior parte dos locais de trabalho. Algumas destas
mudanças têm o efeito cumulativo de inclinar a balança entre a estabilidade e a
volatilidade. Por exemplo, uma função que anteriormente aliava receber e
cumprimentar clientes com outras actividades secundárias pode ser completamente
refeita com base no computador, tornando fácil deslocalizá-la total ou
parcialmente noutro local. Se esse outro local for a própria casa do
trabalhador existente, então isso pode ser considerado como bastante
libertador, mas se os conhecimentos profissionais não forem exclusivos desse
trabalhador, o mais provável é que o outro local seja a secretária de qualquer
outra pessoa no outro lado do mundo; longe de ser liberalizador, isto constitui
portanto uma nova fonte de falta de segurança. Inversamente, algumas outras
funções que anteriormente estavam mais ligadas à secretária (e portanto, em
princípio, deslocalizáveis) podem ser desenhadas de novo para incluir mais
actividades de interface com clientes e tornarem-se mais limitadas
espacialmente, embora possam não estar amarradas a um único local mas a vários,
se se pretender que o trabalhador possa encontrar-se com clientes.
Mais preocupante é a lenta erosão das fronteiras ocupacionais e, com elas, das
identidades ocupacionais. É fácil caricaturar como rígido e hierárquico o velho
mundo em que todos sabiam que 'esta função é o que eu faço; aquela função é o
que você faz; aquela função está reservada para jovens recém-formados; aquela
outra é feita por trabalhadores mais velhos com muita experiência que sabem o
que é que pode correr mal'. Para além de tudo o mais, podia facilmente levar ao
estabelecimento de regras tácitas que atribuíam algumas tarefas a mulheres ou a
membros de certos grupos étnicos de pessoas com antecedentes de instrução
especiais. Isto punha barreiras inaceitáveis à mobilidade social e à igualdade
de oportunidades. Mas sem isto, o que é que temos? Um mundo em que somos sempre
apenas tão bons quanto o desempenho da semana passada; em que para manter o
emprego temos que estar sempre preparados para adquirir novas habilitações e
para alterar as formas antigas com que fomos treinados (e das quais nos
orgulhávamos no passado); em que não conseguimos saber com certeza e
antecipadamente quando é que estaremos livres e quando é que temos que
trabalhar, em que nunca podemos dizer 'não, isso não é da minha
responsabilidade' sem medo de represálias. Um mundo sem fronteiras ocupacionais
pode tornar-se muito facilmente num mundo em que a solidariedade social é
praticamente impossível porque já não temos qualquer forma clara de definir
quem são os trabalhadores nossos colegas ou os nossos vizinhos, e em que muitas
das nossas interacções são com estranhos em que é difícil distinguir entre
amigos ou aliados e perigosos ou inimigos.
O futuro das nossas cidades dependerá em grande parte da forma como
reintegrarmos estas personalidades divididas, os locais de trabalho e as
vizinhanças.
Notas
1- Paul Baran and Paul Sweezy, Monopoly Capital: An Essay on the American
Economic and Social Order (New York: Monthly Review Press, 1966).
2- F. Froebel, J. Heinrichs, & O. Krey, The New International Division of
Labor (Cambridge: Cambridge University Press, 1979).
3- Ver por exemplo Women Working Worldwide, Common Interests: Women
Organising in Global Electronics (London: Women Working Worldwide, 1991).
4- Ursula Huws, The Making of a Cybertariat: Virtual
Work in a Real World (
5- Citado em silicon.com, May
31, 2001, http://www.silicon.com/news/500020/1/1024784.html .
6- Ursula Huws, ed., When Work Takes Flight: Research Results from
the EMERGENCE Project, IES Report 397, Brighton: Institute for Employment
Studies,
7- Ursula Huws and J. Flecker, eds., Asian EMERGENCE: The World's Back
Office?, IES Report 409, Institute for Employment Studies,
[*] Professora de estudos do trabalho
internacional no Working
Lives Research Institute na Universidade Metropolitana de Londres e é
directora da consultoria de investigação Analytica . Autora de The Making of a Cybertariat: Virtual
Work in a Real World (Monthly Review
Press, 2003) e de O que faremos nós? A
destruição da identidade ocupacional na 'Economia baseada no conhecimento'
.
Este ensaio é adaptado de Kors och tvärs—Intersektionalitet och makt i
storstadens arbetsliv (Cruzamento e transcendência: Interseccionalidade e
poder na vida dos trabalhadores urbanos) de Ewa Gunnarsson, Anders Neergaard, e
Arne Nilsson, eds., a publicar por Normal, Estocolmo.
O original encontra-se em http://www.monthlyreview.org/0306huws.htm.
E em; www.asjtrio.com.br/clipping.htm
Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/
.