ESPECIAL
27 de março de 2006
Chato é você, Jabor
Por Leila Cordeiro
Fonte:Direto da Redação
Não
sei se por falta de assunto ou por uma repentina crise de estrelismo o
ex-cineasta, e agora comentarista de TV, Arnaldo Jabor, resolveu falar mal dos
“chatos” que encontra todos os dias em seu caminho, na coluna “As mil faces dos
chatos fundamentais” (O Globo, 21.03.06).
Em
meio ao jogo de palavras e o tom debochado condescendente que caracterizam seus
textos, parece que Jabor queria mesmo era exaltar a sua popularidade - talvez
porque tenha sido expurgado do Jornal Nacional - ao descrever com riqueza de
detalhes as abordagens que sofre na rua, no bar, no restaurante, no aeroporto
pelos “chatos” de plantão, que nada mais são do que seus próprios fãs.
Com
estudada irritação, ele conta como os “chatos” que encontra o colocam em
situações desagradáveis. Quem quer tirar uma foto com ele, por exemplo, é um
“fotochato” que lhe “rouba a alma”. O “chato em dupla” acontece quando dois fãs
disputam quem chegou primeiro para ter a “prioridade” de falar com o “ídolo”.
Ou do cara que se julga íntimo dele porque enquanto está transando com a mulher
está vendo o Jabor na tela falando do Zé Dirceu. E por aí vai. Um amontoado de
histórinhas egocêntricas que ele mesmo, sem querer, acaba se traindo quando afirma
que “é espantoso o número de especialistas em bobagens nesse país”.
Decididamente,
Jabor parece desconhecer esse lado “chato” do público que admira as pessoas que
estão na mídia, especialmente na TV. Ele esquece, talvez, que são esses
“chatos” que lhe garantem o salário no fim do mês, quando prestigiam seus
comentários nem sempre interessantes.
Para
tentar disfarçar seu estrelismo à flor da pele, ele diz bobagens do tipo “não
quero bancar o famosinho” ou “aparecer peruando na TV dá nisso”. Ah, Jabor, por
favor, a quem você quer enganar? Esse vírus que você pegou já contaminou muita
gente. Aliás, o grande Chico Anísio há muitos anos criou um dos mais reais e
verdadeiros personagens da TV brasileira, O Bozó. Você leitor (a) (que pode até
ser mais um fã “chato” do Jabor) deve se lembrar bem do personagem. Bozó,
queria disfarçar o deslumbramento mas não conseguia, e a todo momento dava
carteiradas dizendo “eu trabalho na Globo”.
Pois
é, Jabor parece que você está querendo resgatar o Bozó. Não se esqueça que para
chegar onde chegou, com a popularidade que alcançou, você precisou da audiência
de todos esses “chatos” que hoje o abordam na rua para comentar suas colunas,
perguntar sobre política e ter um minutinho de fama ao sair na foto com você.
Mas,
pelo visto, isso pra você não importa mais. Coisa chata essa de ser famoso, não
é Jabor? Você que andava livre dos “chatos” quando estava atrás das câmeras,
virou celebridade ao mudar de lado. Mas isso tem um preço. Como aquele gesto de
carinho de um “chato” na fila do cinema que bateu nas suas costas e declarou
“cara te adoro, sou teu fã“. Mas você, do alto de seu mau humor estelar,
sentiu-se agredido por achar que o fã bateu “violentamente” em suas costas.
Quem
sabe, Jabor, você não está vendo a situação por outro ângulo? Quem sabe não
seja você o grande chato nessa história toda? Aliás, de todos os “chatos”
citados em sua coluna, gostei mais daquele do Calçadão de Ipanema, como você
mesmo descreve: “O cara vinha na minha direção sorrindo muito, simpático. Preparei
um agradecimento gentil, esperando um elogio, quando ele disparou: “Você
precisa parar de dizer besteira na TV, hein!”.
Pronto.
O chato anônimo vingou toda a categoria, que nessa altura deve estar gritando
em coro: Chato é você, Jabor.