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NOTA DE IMPRENSA
DATA: 20-06-2005
ENTREVISTA AO PROF. ARMANDO ROJAS, VICEMINISTRO DE EDUCAÇÃO, COM
MOTIVO DA II REUNIÃO DO FORO HEMISFÉRICO EDUCACIONAL “QUALIDADE DA EDUCAÇÃO”,
REALIZADO EM BRASÍLIA, DE 13 A 17 DE JUNHO DE 2005
Assegura o Vice-ministro de Assuntos Educativos Armando Rojas
A qualidade da educação se mede pela capacidade que
tem de outorgar poder ao povo
Brasília,
20 de junho de 2005.- De 13 a 17 de junho celebrou-se em Brasília a II Reunião do Foro
Hemisférico Educacional da Cúpula das Américas, com a participação do México,
Estados Unidos, Canadá, Colômbia, Chile, Argentina, Uruguai, Panamá, Venezuela,
Brasil, e os programas da UNESCO e a OEA que desenvolvem a matéria. O tema
central da reunião foi a qualidade da educação. Venezuela participou com a
amostra de sua recente experiência em matéria educativa, centrada na
redefinição dos indicadores de qualidade e excelência educativa. A respeito, a
Seção de Imprensa da Embaixada da República Bolivariana da Venezuela no Brasil,
conversou com o Vice-ministro de Assuntos Educativos venezuelano, professor
Armando Rojas, quem nos representou no evento.
Imprensa
Emvenez.- Que
lucros concretos se obtiveram desta reunião de quatro dias sobre o tema
qualidade da educação?
Prof. Armando
Rojas.- Nesta
oportunidade se avançou com os estudos que definiriam o conceito de
qualidade da educação, embora gerados sobre mecanismos e métodos de medição que
abordam a visão de qualidade de um conceito que está muito marcado pela
transposição da concepção econômica sobre a educação, e da visão da
investigação sobre a base das relações que geram, a não ser a visão
fragmentada, indicadores que têm a ver com fatores tirados de acordo a um
determinado interesse e não sobre as relações fundamentais de desenvolvimento
integral.
P.- A que se deve esta visão?
AR.- Deve-se a que normalmente os
estudos se centraram em avaliar os lucros de qualidade de ensino a partir da
aprendizagem quase exclusiva de matemática e língua. Esses são os estudos que
se fizeram. É certo que a relação e estudo desses componentes levou a conhecer
quais eram os países que estavam melhor em termos da aprendizagem de matemática
e língua, mas isto deriva em uma espécie de rating, do Top ten, em uma espécie
de relação de competência para ver qual está melhor posicionado, e na realidade
não se abordam respostas que permitam avançar sobre soluções aos múltiplos
problemas de qualidade do ensino que enfrentam os países latino-americanos.
P.- Como se situa a Venezuela
frente a este resultado?
AR.- Terá que começar por dizer
que na Venezuela o critério de qualidade da educação está exposto em termos da
resposta à necessidade social, como bem
assinala o presidente Hugo Chávez. A necessidade social é a que demarca tudo o
que significa políticas de estado e políticas de governo, com o objetivo de dar
com a educação os passos fundamentais que permitam avançar em benefício do
povo.
Este critério de
qualidade tem um princípio fundamental, o conhecimento como poder do povo, pelo
qual está visto em termos do acesso ao conhecimento, a democratização do
conhecimento, a realidade na qual todos possam acessar a esse conhecimento como
uma fonte de poder essencial do povo.
Isso leva a uma
visão totalmente diferente das concepções que anteriormente dirigíamos, por
isso é que a Venezuela, dado o próprio processo que estamos tendo, foi ficando
fora das discussões tradicionais de qualidade do ensino…
P.- Mas agora participa desta II
Reunião, o que encontrou nela de essencial, para efeitos de um avanço na
discussão dos termos de qualidade da educação, frente às necessidades reais que
nesta matéria enfrenta a América Latina?
AR.- Nesta II Reunião voltou-se a
questionar e debater sobre os indicadores que se medem para a qualidade do
ensino e como está concebida essa medição, e isto vem há dois anos, com os
questionamentos que já se fizeram na UNESCO.
O Laboratório de
Qualidade de Educação, que pertence a UNESCO, vem implementando políticas a
partir da colocação central de educação para todos, que tem a ver com a relação
da qualidade a partir de componentes que permitam impulsionar a educação em
termos do lucro de resultados efetivos para a sociedade. E o maior lucro ao que
deve aspirar-se é o da erradicação da
exclusão, quer dizer, a mudança da estrutura educativa excludente que se impôs
em toda a América Latina.
Entretanto, a UNESCO segue trabalhando com os chamados indicadores tradicionais, ainda quando lhe incorporam uma visão nova. Eles falam de fatores associados para definir aqueles indicadores que se supõe estão exibindo uma visão fragmentária. Nós não dizemos que são problemas de associação, mas sim deve ser uma visão integral, uma visão de um tudo.
Frente a este debate obtemos a consideração fundamental de que nesses indicadores associados apareçam os elementos conceptuais que estamos expondo. Entretanto, o cronograma que estava sendo exposto continua inalterado, porque o Laboratório vinha trabalhando há dois anos com a criação de todos estes instrumentos.
P.- Quais são esses elementos
conceptuais que expõe a Venezuela em matéria de qualidade da educação?
AR.- No processo de transformação
que estamos levando adiante no país, a educação começou a conceber-se de
maneira diferente, começou a conceber-se como um contínuo humano, e já não em
termos fragmentados como estava antes.
Este processo começa por criar a resposta aos sistemas excludentes. Então ataca o sistema de exclusão mediante um mecanismo novo e isso nos leva a uma visão totalmente diferente da estrutura educativa, à concepção de sistema, que por certo compartilhamos com o representante do ministério de educação do Brasil.
Essa
identificação com o Brasil, e também com a Argentina em matéria de qualidade de
educação, fez possível que introduzíssemos no debate elementos conceptuais que
têm a ver com indicadores que até agora não eram considerados: solidariedade,
reciprocidade, efetividade e eficiência em termos do trabalho coletivo,
inclusive com menos custos, mas com um grande esforço de desenvolvimento.
P.-
Poderia
explicar um pouco esse conceito de contínuo humano na área educativa?
AR.- Para isso terei que começar
por explicar que o pedestal de uma coluna fundamental deste sistema está na
Constituição da República Bolivariana da Venezuela. A partir de 1999, mediante
o texto constitucional, cria-se na Venezuela uma visão nova, que leva a que a
obrigatoriedade da educação se produza do maternal.
Antes disto a
educação era considerada somente no início do primeiro grau, o que quer dizer
que até então o menino não era considerado suscetível de ser educado
formalmente, quer dizer não era considerado como um ser em função do direito à
educação.
Este novo
conceito, a obrigatoriedade do maternal é um conceito muito humano e estabelece
o princípio da educação contínuo, porque a educação é obrigatória do maternal
até o pré-universitário, e o maternal é a idade na qual a mãe é a que tem todas
as bases fundamentais para poder gerar educação até o pré-universitário.
Essa concepção
rompe com aquelas estruturas da escola básica primeira etapa, escola básica
segunda etapa, e terceira etapa, que eram fragmentos que foram criando
exclusão.
As cifras são
eloqüentes. Neste velho sistema, de cada 100 meninos que entravam no primeiro
grau, chegavam ao terceiro 91, destes ao sexto chegavam 58, ao nono 38, ao
quinto ano 19 e entravam na universidade 5. Estas são cifras de 90, que indicam
que o sistema estava criado para a exclusão, quer dizer, quando o menino ou a
menina nascia, já tinha uma esperança de vida escolar limitada.
Isto fazia que
somente pudessem entrar na universidade cinco de cada cem, ou que chegassem ao
quinto ano 19 de cada cem.
Essa é a
estrutura que necessariamente terá que vencer, com o sistema de educação como
contínuo humano, que é o sistema de educação bolivariano.
P.- Qual foi o papel da OEA nesta
II Reunião?
AR.- Com a OEA foi dado outro
nível de discussão a partir deste espaço de debate para a qualidade educativa
nos povos latino-americanos, onde apresenta a discussão de indicadores, mas
aparece a possibilidade certa de participação em uma visão política, enquanto a
outra é fundamentalmente técnica.
Por isso a
conclusão é que todos os organismos que estão participando dos problemas de
qualidade estão separados. O PRIE (Programa Regional de Indicadores
Educativos), que é um programa dentro da OEA, e o Laboratório de Qualidade
Educativa, que é da UNESCO.
É obvio que dada
essa separação se chega à conclusão de que terá que promover a integração, mas
para promover a integração terá que resolver o problema da concepção de
qualidade, não vista desde aquela fragmentação de indicadores selecionados, a
não ser vista da unidade.
E esta unidade
deve se produzir em uma relação, na qual, o conjunto de problemas que nos
permitem ter condições comuns, possibilite então resolver com indicadores
correspondentes a esses fatores comuns, com respostas integrais de cooperação,
mais que aqueles nos quais tinham derivado as medições anteriores.
P.- Que conclusão podemos extrair
desta II Reunião para a qualidade da educação?
AR.- Nós sustentamos que o
processo de qualidade educativa apóia-se em quatro pilares fundamentais: qualidade
educativa, educação comparada, investigação educativa no campo pedagógico e
formação do docente, em função disso estamos criando o Instituto de
Investigações Educativas do Ministério de Educação, com uma visão integral, que
leve em conta quatro pilares e os componentes conceptuais dos que já falei.
Acredito que nesta II Reunião ganhamos elementos para fortalecer a criação de
nosso instituto e esperamos que aqueles que necessariamente se desenvolvem em
um trabalho fragmentado o corrijam, por quanto a tendência está marcada para
essa visão integral.
Brasília,
20 de junho de 2005.-
Fonte: Imprensa Embaixada