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O GLOBO

Jango entre Kennedy e Fidel

José Meirelles Passos

Correspondente WASHINGTON

 

Documentos secretos liberados pelos governos de EUA, Rússia, Grã-Bretanha e Cuba, além de papéis dos arquivos do Itamaraty, trazem à luz um intenso, intrigante e pouco conhecido episódio da História recente do Brasil: a tentativa do governo brasileiro, no início dos anos 60, de afastar Fidel Castro da União Soviética e, em conseqüência, do comunismo. Os papéis mostram que tal iniciativa propiciou uma insuspeitada, ainda que temporária, parceria entre os presidentes John Kennedy e João Goulart durante a Crise dos Mísseis, em 1962, quando pairava sobre as Américas e o mundo a ameaça de guerra nuclear. O Brasil procurou agir sigilosamente como mediador, tentando evitar uma catástrofe e, ao mesmo tempo, buscando prestígio no cenário internacional.

— Uma reconciliação entre EUA e Cuba certamente realçaria a política independente do Brasil durante a Guerra Fria. Ela também ajudaria o país a escapar da irrelevância e da subserviência na área de influência dos EUA, dando ao país uma posição mais equilibrada entre os dois grandes blocos — disse ao GLOBO o historiador James G. Hershberg, da Universidade George Washington, na capital americana. Essa etapa da vida nacional vem sendo esmiuçada por ele para um livro que contará, com base em milhares de páginas de documentos, como o Brasil acabaria perdendo a chance. A obra mostrará que, apesar da boa-vontade brasileira, o fracasso da mediação estava praticamente certo desde o início.

 

Bob Kennedy: ‘Eu não gostei de Goulart’

O esforço brasileiro foi minado pela intransigência de Fidel Castro e, simultaneamente, menosprezado pelo governo americano que, ao mesmo tempo em que parecia buscar um entendimento, tramava um ataque. Enquanto o Itamaraty fazia das tripas coração para restabelecer as relações entre Cuba e EUA, a Casa Branca trabalhava paralelamente num plano secreto para derrubar — ou assassinar — o líder cubano.

No fim, o próprio Jango acabaria se tornando alvo de Tio Sam. Washington se convencera de que o Brasil, nas mãos de Jango, estava prestes a se tornar uma segunda Cuba. Os registros de Hershberg indicam que a semente do apoio a um golpe militar no Brasil teria sido plantada quando o então procurador-geral de Justiça, Robert Kennedy, voltou de uma viagem a Brasília.

Enviado por seu irmão para um encontro com o presidente brasileiro no Palácio da Alvorada, em 17 de dezembro de 1962, ele sentiu que os interesses americanos corriam risco. “Robert Kennedy voltou convencido de que Jango entregaria o Brasil ao comunismo a menos que fosse impedido”, diz um trecho da sinopse do livro que Hershberg está escrevendo. “Eu não gostei de Goulart, e nem confiei nele”, disse Bob, segundo um dos documentos.

O episódio levou três anos. Ele começara em 1960, último ano de governo dos presidentes Dwight Eisehower e Juscelino Kubitschek. A revolução cubana engatinhava: Fidel chegara ao poder um ano antes. Dois embaixadores em Havana — o brasileiro Vasco Leitão da Cunha e o argentino Julio Amoedo — tentavam moderar a retórica e os atos do líder revolucionário.

— Eles promoveram churrascos com a presença de Fidel. E organizaram jantares para diplomatas americanos, buscando fazer uma ponte entre Cuba e EUA — contou Hershberg.

Diante da insistência do Brasil em buscar uma solução diplomática, Eisenhower deu o sinal verde para Kubitschek em fevereiro daquele ano, durante uma visita ao Brasil. Só que, um mês depois, ele também aprovou sigilosamente uma estratégia para derrubar Fidel.

No ano seguinte, já com Jânio Quadros no poder, o Brasil passou a agir de forma mais incisiva. Leitão da Cunha, então secretário-geral do Itamaraty, foi a Havana e apresentou uma proposta em abril de 1961, depois da frustrada invasão da Baía dos Porcos patrocinada pelos EUA. A sugestão era que Fidel abrisse mão do apoio militar soviético e permanecesse neutro na Guerra Fria, em troca de um compromisso dos EUA de não intervir mais em Cuba e, além disso, aceitar qualquer política que o líder cubano decidisse implantar em seu país. Por sua vez, o ministro das Relações Exteriores, Afonso Arinos de Melo Franco, disse ao secretário de Estado, Dean Rusk, que era preciso fazer todos os esforços “para trazer Cuba de volta à família do sistema americano, em vez de isolá-la”.

Era o primeiro ano do governo Kennedy e este não parecia muito disposto à conciliação. No Brasil, Jânio renunciara e João Goulart, que era o vice, assumira a Presidência. Quando o novo embaixador do Brasil nos EUA, Roberto Campos, apresentou suas credenciais à Casa Branca, Kennedy foi direto. Disse a ele que Fidel era uma ameaça para o resto da América Latina, e acrescentou: “Temo que o Brasil subestime os perigos do expansionismo ideológico cubano.”

Campos argumentou que seria mais adequado convencer Fidel de que não seria bom para Cuba tornar-se um satélite soviético nas Américas. Ele mencionou várias formas para conseguir isso, mas o presidente tinha pressa: “Todas essas soluções são boas”, disse Kennedy ao embaixador brasileiro, “mas lentas”.

 

Mediação não evitou planos para matar Fidel

José Meirelles Passos

Correspondente

 

WASHINGTON. Apesar da pressa de John F. Kennedy em derrubar o regime de Fidel Castro, ele continuou estimulando a mediação brasileira — aparentemente para ganhar tempo, enquanto secretamente preparava um bloqueio naval e eventual ataque à Cuba. João Goulart visitou Washington em abril de 1962, teve vários encontros com Kennedy, falou ao Congresso americano e inclusive visitou o Comando Estratégico Aéreo, em Omaha, onde viu os mísseis que, se necessário, seriam lançados contra a União Soviética.

 

Dean Rusk adotou uma estratégia em dois tempos

San Tiago Dantas, chanceler brasileiro, insistiu com o secretário de Estado, Dean Rusk, que o Brasil tinha condições de influenciar Cuba. A meta mais realista, segundo ele, seria “criar condições para uma nova forma de revolução democrática”. Rusk aceitou a posição, mas disse que havia dois pontos inegociáveis: Cuba tinha de romper os laços diretos com a URSS em termos de armas e do aparato comunista, e desistir de ações subversivas no hemisfério.

Rusk comunicou à CIA, a agência central de inteligência, ter aceitado a mediação brasileira. Mas acrescentou que pensava numa estratégia em dois tempos: promover a ruptura de Fidel com Moscou, através de San Tiago Dantas e, em seguida, “a eliminação de Castro”.

— Não está claro ainda o que ele queria dizer com “eliminação”. Mas sabemos que a CIA estava planejando vários esquemas para assassinar o líder cubano. A frase de Rusk não excluía uma eliminação física — disse o historiador James Hershberg.

Os documentos recolhidos por ele mostram que o problema, para o Brasil, era que Fidel não fazia propostas concretas. Kennedy chegou a pensar em mandar, via Brasil, um ultimato ao líder cubano: a menos que ele agisse logo para se afastar dos soviéticos, os EUA tomariam providências para “remover a ameaça dos mísseis”.

Isso, no entanto, não foi feito. O secretário de Defesa, Robert McNamara, era contra a idéia:

— Para ele, essa medida política iria obstruir uma ação militar rápida antes que as bases de lançamento dos mísseis nucleares soviéticos em Cuba se tornassem operacionais — disse Hershberg.

Apesar de advertido pelo Brasil sobre os crescentes riscos de uma guerra nuclear ou, no mínimo, de um ataque contra Cuba, Fidel deu de ombros: ele simplesmente negou que houvesse algum míssil soviético em Cuba. Por isso, já desencantado, o governo brasileiro votou a favor do bloqueio naval americano a Cuba, na Organização dos Estados Americanos (OEA), em outubro de 1962.

Apesar disso houve uma última tentativa. Kennedy enviou uma mensagem a Fidel propondo uma saída: ele abandonaria os soviéticos, desistiria de espalhar a sua revolução pelo continente, e os EUA deixariam de lado os plano de atacar Cuba, levantariam o embargo econômico e aceitariam a continuação do seu regime socialista.

O recado foi levado a Havana pelo Brasil, mas com uma instrução específica de Kennedy: tinha de ser apresentado como proposta brasileira. Fidel, no entanto, não arredou pé. Ele disse que só aceitaria deixar de lado os soviéticos se os EUA abandonassem a base militar em Guantánamo; e insistiu que esse ponto era inegociável.

 

Como os EUA decidiram apoiar o golpe de 64

WASHINGTON. Aos poucos John Kennedy foi perdendo a confiança em João Goulart. Para ele, o brasileiro demonstrara ambivalência em todo o episódio da crise dos mísseis. “Depois da crise cubana, a CIA passou a considerar o Brasil o problema mais urgente na América Latina”, diz um trecho do livro de James Hershberg que, embora não vá enveredar pelo golpe no Brasil, em 1964, mencionará detalhes da sua etapa de preparação com apoio dos EUA.

Funcionários do governo Kennedy estavam convencidos de que, com a mediação, o real objetivo do Brasil era ajudar Cuba a voltar à comunidade interamericana e erguer Fidel “como um verdadeiro revolucionário latino-americano”, diz um dos milhares de documentos em mãos de Hershberg.

Estimulado por Washington, o embaixador dos EUA no Brasil, Lincoln Gordon, foi duro com Goulart em novembro de 1963: “Disse-lhe que os EUA não tinham capitulado à chantagem soviética e certamente não tinham disposição de se render a uma chantagem brasileira”, a propósito das críticas do governo sobre a intervenção americana em Cuba.

Kennedy já havia autorizado a CIA, em abril de 1962, após a visita de Goulart a Washington, a apoiar seus adversários. A nomeação, em seguida, do general Vernon Walters como adido militar no Brasil foi o início da preparação do terreno “para um possível apoio a um golpe para evitar que o país caísse nas mãos do comunismo”, diz um trecho do livro. Por sugestão de Gordon, Kennedy enviou a Brasília seu irmão Robert, para advertir que os EUA “ficariam gravemente preocupados se o Brasil seguisse o caminho tomado por Cuba”, diz o trecho de um telegrama do embaixador à Casa Branca.

Segundo o historiador, os irmãos Kennedy calcularam que uma confrontação política com Goulart não teria efeito duradouro. Um golpe seria a solução, como já previra um memorando de 1962. Ele dizia que os EUA deveriam “estar prontos para mudar rapidamente de direção, colaborando efetivamente com elementos democráticos amigáveis, incluindo a grande maioria dos militares, para remover Goulart”. ( J.M.P. )

 

‘Por que vocês não tiram aquela ilha do mapa?’

WASHINGTON. O governo dos Estados Unidos ficou surpreso com a imediata reação favorável do presidente João Goulart a uma iniciativa que o presidente John Kennedy estava prestes a lançar: o bloqueio total a Cuba. Kennedy, até então, achava que o Brasil votaria contra essa idéia na Organização dos Estados Americanos (OEA), junto com México, Chile e, provavelmente, Equador.

Pouco antes de Kennedy informar sua decisão ao país pela TV, na noite de 22 de outubro de 1962, dando como justificativa a descoberta de que a União Soviética vinha armazenando mísseis em Cuba, o embaixador dos EUA no Brasil, Lincoln Gordon, levou a Goulart no Palácio das Laranjeiras, no Rio, uma cópia do discurso de Kennedy.

Ao ouvir a tradução, o presidente brasileiro ficou “visivelmente chocado” com a descoberta americana, segundo Gordon, e teria dito ao embaixador que se fossem exibidas provas da existência dos mísseis, “não haveria dúvida alguma de que o Brasil seria solidário com os EUA”.

— Gordon informou a Kennedy que Goulart expressara sua surpresa com o tom moderado do anúncio que o presidente americano estava para fazer. E chegou a sugerir que deveriam ser incluídas palavras mais duras para condenar os líderes soviéticos — disse o historiador James Hershberg.

Uma reação mais inusitada do presidente brasileiro, tido pelos americanos como um homem de esquerda, viria pouco depois. Jango mostrou grande interesse em ver as fotos aéreas feitas por aviões americanos mostrando o arsenal soviético em Cuba. E disse que elas serviriam para que ele convencesse a esquerda brasileira a apoiar o bloqueio planejado por Kennedy.

“Defender a soberania de Cuba e se opor à intervenção estrangeira é uma coisa, mas a manutenção de bases russas ofensivas em Cuba, constituindo um claro perigo de agressão contra outras nações americanas, incluindo um fiel velho amigo e aliado, os Estados Unidos, é algo totalmente diferente”, teria dito Goulart, segundo Lincoln Gordon.

Depois de comentar que a União Soviética havia cometido um grave erro diplomático, Goulart surpreendeu ainda mais os americanos com uma sugestão intempestiva: “Por que vocês não tiram aquela ilha (Cuba) completamente do mapa?”, teria perguntado o presidente brasileiro.

De acordo com o embaixador americano, Jango afirmou que os EUA eram mais fortes que a União Soviética e poderiam destruir Cuba num instante. Gordon escreveu em seu informe a Kennedy: “Quando eu disse que a ação agora proposta tinha sido criada de forma a evitar matar cubanos inocentes, Goulart respondeu: ‘O quê? E deixar então que americanos sejam mortos?” ( José Meirelles Passos )  

 

 

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