Menos
um no Buena Vista
Morre em Havana o cantor Ibrahim Ferrer, um dos mestres
da tradicional música cubana
Já
septuagenário ele conheceu a fama, em 1997, com sua presença marcante no
projeto Buena Vista Social Club, que apresentou ao mundo a velha-guarda cubana
até então desconhecida. O disco tornou-se um sucesso de vendas. Levou um
Grammy. E ainda rendeu o documentário de mesmo título, dirigido pelo cineasta
alemão Wim Wenders, que conquistou platéias e uma indicação para o Oscar de
melhor filme na categoria. Agora, oito anos depois, os fãs em todo o mundo
perdem a sua estrela e os cubanos, um dos ícones de sua música tradicional. O
cantor Ibrahim Ferrer morreu na tarde de sábado, aos 78 anos de idade, no
hospital Cimeq, em Havana. A morte foi anunciada pelo neto do artista, Kelman
Valdés, que não quis revelar a causa.
Ferrer acabara de
retornar de uma turnê européia para apresentar seu último e terceiro disco
solo, Mi sueño. A bolero songbook. Nesse trabalho, o cantor se afasta da
tradicional música cubana, que marcou sua carreira. Assim, realizou um sonho
que alimentara durante anos: o de gravar um disco só de boleros antigos - como
revelou na derradeira entrevista, dia 27 de julho, em Barcelona.
No repertório, ele
reuniu uma seleção de pérolas, entre elas Perfídia (Alberto Dominguez), Perfume
de gardênia (Rafael Hermández) e Quiéreme mucho (Gonzalo Roig).
Até ser descoberto
pelo mundo, Ibrahim Ferrer vivia de uma modesta aposentadoria, em um bairro
popular na capital cubana. Seu destino começou a mudar em 1996, quando o músico
Ry Cooder, que assinou a trilha sonora do filme Paris, Texas, de
Wenders, reuniu em um estúdio de Havana um grupo de importantes intérpretes de
Cuba. O cantor foi convencido pelo músico cubano Juan de Marcos González e por
Cooder a participar da gravação do álbum Buena Vista.
Ibrahim Ferrer
gravou 12 das 14 faixas do disco e teve o prazer de colaborar com músicos que
sempre admirara - como Omara Portuondo, Rubén González e Compay Segundo (mortos
em 2003), Elíades Ochoa, Barbarito Torres e Guajiro Mirabal.
Em 1998, Cooder
voltou a Havana para gravar o primeiro disco solo de Ibrahim Ferrer. Com o
produtor ia Wim Wenders, que filmou o documentário Buena Vista Social Club,
mesclando apresentações ao vivo e gravações com depoimentos dos artistas, sobre
seu país e suas carreiras.
O cantor nasceu em
27 de fevereiro de 1927 em San Luis, na província de Santiago de Cuba,
considerada o berço por excelência da música cubana, o son (um dos
gêneros mais influentes da salsa que teve seu auge na década de 20). Perdeu a
mãe ainda criança e, embora tivesse a intenção de ser médico, foi vendedor de
pipoca até se juntar ao grupo Jóvenes del Son, que cantava em festas do bairro.
Cantou em bandas
locais e, em 1955, com o sucesso do disco, O Plantanar de Bartolo, ao
lado da orquestra Chepín-Chóven, obteve certa fama regional. Ferrer mudou-se
para Havana em 1957 e trabalhou com a lendária Orquestra Ritmo Oriental e o
grande sonero Benny Moré. Só então reuniu-se ao grupo de Pacho Alonso e
Los Bocucos, no qual permaneceu até 1991. Quando decidiu se aposentar, estava
''desencantado com a música''. Foi assim que o músico cubano Juan de Marcos
González o encontrou, no popular bairro havanês de Jesús María, quando teve a
idéia de reunir em um disco os antigos soneros cubanos.
Ao longo de toda a
carreira, o cantor acreditou estar marcado pela má sorte e a má-fé de outros
músicos. E chegou a declarar em entrevista: ''Com Pacho Alonso e Benny Moré
senti que estava fazendo algo importante, mas sempre fiquei à sombra. Eu me
sentia amado pelo público, mas não pelos meus colegas''.
Dono de uma voz
incomparável, Ferrer cantava mais sons que boleros, e desenvolveu uma
carreira de sucessos internacionais, como nunca imaginou, a partir da aparição
no famoso disco. Nos últimos anos de vida, Ferrer viajou por todo o mundo, com
uma banda formada pelo trompetista Guajiro Mirabal e o baixista Cachaíto,
considerados dois dos melhores instrumentistas de Cuba. Sua derradeira
apresentação no Rio foi no Canecão, ano passado.