ENTREVISTA COM O EMBAIXADOR DA SÍRIA NO BRASIL ALI DIAB
Julho/2005
O padrão de democracia de
Bush é invadir países e matar milhares de pessoas inocentes
Por Valter Xéu, Sergio Jornes e Ghassan Ahmar
A civilização Síria remonta
a 5000 anos Antes de Cristo, a sua capital Damasco é considerada como a mais
antiga na história da humanidade, o primeiro alfabeto foi criado na Síria que
também é considerada o berço das três maiores religiões: Cristianismo, Judaísmo
e Islamismo. Ainda existe na Síria duas pequenas cidades onde o povo fala
Aramaico, a língua falada por Cristo. O seu povo é pacífico e tem esperanças de
um dia poder viver em harmonia com todos os povos.
A disputa entre palestinos e israelenses começou em 1948, com a
implantação do Estado Judeu nas terras palestinas. A partir deste período,
vários palestinos foram expulsos de seus territórios devido a política
expansionistas implantada pelo Estado judeu na região. Em 1973, Egito e Síria
se reuniram e resolveram travar uma guerra contra o Estado Sionista, numa
tentativa desesperada de impedir a continuação do processo de ocupação das
terras árabes, pelos judeus. Israel saiu-se vencedor da guerra, em função da
ajuda recebida do governo americano.
Em 1991, foi realizada uma conferência em Madri, capital da Espanha, na
qual os países ocidentais chegaram a formular um acordo de paz entre os Árabes
e judeus. O projeto de paz teve como marco a devolução dos territórios ocupados
por Israel, de acordo com a resolução da ONU. Mas, Israel não cumpriu a
resolução da ONU, ao se negar a desocupar os territórios árabes, conquistados durante
a guerra. Essa posição de Israel contava, e conta, com o apoio irrestrito dos
norteamericanos. Este quadro se agravou ainda mais com o término da guerra-
fria, em que os EUA se tornou a única potência representante da força mundial.
O Estado de Israel e os EUA sempre contribuíram para desestabilizar e
levar ao caos o Oriente Médio. Os americanos fazem pressão para que a Síria não
lute para reconquistar os seus territórios que foi usurpado pelo Estado de
Israel. Além de exigirem que a Síria se coloque contra o povo iraquiano e
palestino, que lutam pelo direto, inalienável, da reconquista de seu
território. Também cobram da Síria que esta se posicione contra a luta de
resistência do povo libanês no Sul do Líbano. O embaixador garante que o povo
sírio jamais irá cumprir estas exigências, o país tem princípios políticos bem
definidos, que vão frontalmente de encontro a estes posicionamentos.
Pátria Latina foi até a embaixada Síria no Brasil e bateu um longo papo
com o embaixador Ali Diab.
Por que é bastante fragil a união dos países
árabes?
A união
entre os países árabes já existe, e eles tem muitas afinidades a exemplo da
língua, cultura, história e religião. Embora saibamos que esta união ainda não
se consolidou, como deseja o povo árabe. O que impede que isso aconteça
plenamente, é porque muitos países árabes ainda temem os EUA e Israel. Mas
estamos confiantes, que em breve, esta união irá prevalecer. É só uma questão
de tempo.
Que análise o senhor faz com relação à pressão
política norte-americana, visando à retirada das tropas sirias do Líbano.
O Governo
americano exerce pressão e provoca confusão visando atender interesses do
governo de Israel. As tropas da Síria foram para o Líbano atendendo convite
formulado por este governo, no qual foi assinada uma cláusula de acordo em
1989. A presença militar da Síria no Líbano teve como objetivo impedir a
continuação da guerra civil neste país. A nossa presença no Líbano foi com o
objetivo de ajudar o povo, nós sempre deixamos claro que deixaríamos o seu país
assim que eles nos solicitasse e se encontrassem aptos para se auto -
administrar. Com relação à retirada das tropas Sírias do Líbano, o processo foi
feito atendendo resolução 1559 da ONU. Importante observar que desde o ano de
2000 até a presente data, a Síria já tinha feito cinco retiradas de militares
na região. Mesmo com a retirada das tropas da Síria do Líbano, o povo continuou
solicitando a nossa ajuda, que vamos continuar fazendo, na medida do possível.
A nossa presença no Líbano teve como finalidade conter uma sangrenta guerra
civil, entramos neste cenário para dar fim a guerra e ajudar na reconstrução
deste país. Esta ação adotada pela Síria foi visando atender convite formulado
pelo governo Libanês. Esta ação de nossa parte contrariou profundamente os
interesse de Israel, que tem como estratégia política, dividir o Líbano em
vários Estados.
A presença da Síria em território Libanês
contribuiu para o crescimento econômico do Líbano?
Sim, o
que provocou a ira irracional dos Estados Unidos e Israel, ambos tem interesse
de manter o Líbano totalmente desestabilizado.
Os EUA e Israel acusam o governo Sírio de
apoiar terroristas...
O governo
Sírio por diversas vezes declarou ser contra o terrorismo e nos colocamos
contra o atentado ocorrido nos Estados Unidos, em 11 de setembro. O que o
governo Sírio procura diferenciar é o conceito de resistência de ato de
terrorismo. A grande questão a ser analisada é a seguinte: o ato praticado pelo
presidente George Washington na luta que travou pela libertação de seu país,
foi um ato de resistência e não de terrorismo.
O mesmo
conceito vale para o povo libanês, que luta para livrar o seu povo e seu
território da ocupação militar israelense. Por isso mesmo, os americanos não
podem nos acusar de estar apoiando terroristas.
Os
Estados Unidos é quem mais pratica atos de terrorismo no mundo. Interessante é
que a morte do embaixador brasileiro Sérgio Vieira de Melo aconteceu logo após
o mesmo ter exigido, durante encontro com o presidente Bush, a retirada de suas
tropas do Iraque, coincidência?
E as ameaças dos Estados Unidos, como o povo
sírio encaram esta situação?
O povo
Sírio não se intimida com ameaças, vamos usar toda a nossa engenhosidade para
enfrentarmos as forças tiranas capitaneadas pelos EUA e Israel. Com relação ao
efetivo militar da Síria. Temos um exército que acredita no seu direito de
defender o seu território e sua dignidade. Israel por diversas vezes tem nos
acusado de possuirmos armas nucleares. Não temos, mas dispomos de forças
suficientes para que o povo sírio possa se defender. Entretanto, Israel dispõe
de arsenal nuclear que pode destruir metade da população do planeta, a
comunidade internacional nada faz para se opor, ou até mesmo para protestar
contra esta grave ameaça. Importante lembrar que este foi o mesmo que eles,
americanos e aliados, utilizaram para invadirem o Iraque. As comissões da ONU,
nada encontraram que justificasse tal denúncia. Este é o modelo de democracia
americana.
- Se os
americanos invadirem o nosso país, o que duvidamos, podem ter a certeza de que
morreremos de pé, lutando sem perder a dignidade. Contamos com uma força
popular e temos um povo que acredita no seu direito e sabe como se defender, e
defender o seu território.
A Organização das Nações Unidas (ONU) é
considerada pela Síria como um órgão equivocado.
Sim, ela
exigiu a retirada das tropas Sírias do Líbano, mas não procede da mesma forma,
ao não condenar a ocupação israelense nos territórios palestinos. Entretanto, o
governo Sírio reconhece que as falhas existentes nos procedimentos da ONU
ocorrem em função deste órgão, ser dominado pelos EUA.
Com a queda da URSS, os EUA se tornaram uma
potência militar hegemônica e arbitrária...
Quando
uma resolução tomada pela ONU lhe desagrada ou contraria frontalmente os seus
interesses, eles usam o direito de veto contra essa resolução. Embora existam
países que se contrapõem a esta dominação arbitrária, a exemplo de Cuba, Irã,
Coréia do Norte, Síria e Venezuela.
Assassinato do ministro libanês - Quem ganhou
ou perdeu com esta situação?
Nós, sírios,
não queremos acusar ninguém até a investigação ser concluída. Entretanto,
podemos afirmar que a conseqüência deste assassinato só favorece aos interesses
dos EUA e de Israel. O ex-premiêr libanês era considerado amigo do governo
Sírio. Sempre que comprava uma casa, comprava na Síria. E sempre afirmou que as
relações mantidas entre estes dois países eram ótimas.
O presidente da Federação Israelita, crfiticou
à visita do presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmud Abbas, ao
Brasil para participar da Cúpula America do Sul-Países Árabes?
Qualquer
povo que acredita e luta pela defesa de seus direitos, procura se organizar
realizando alianças com outros povos, principalmente na região do Oriente
Médio, isso leva preocupação para os Estados Unidos e Israel.
Podemos
comprovar o que dizemos: durante visita do Ministro de Relações Exteriores do
Brasil, Celso Amorim, aos países árabes, por não ter ele visitado o Estado de
Israel, eles logo demonstraram o seu descontentamento.
O que o senhor espera desta cúpula que foi
realizada no Brasil?
O
Encontro de países da America do Sul e Países Árabes que foi realizado no
Brasil vai beneficiar a todos, tanto aos países árabes quanto os estes países
Sul Americanos. Os benefícios se darão em vários setores, econômico, cultural e
político.
O que eu
lamento profundamente é que esta sábia decisão tomada pelo Brasil, tenha
incomodado tanto os EUA E Israel. Eles se posicionaram contra, porque a Cúpula
bate de frente com os interesses deles. Este Encontro realizado no Brasil, com
certeza irá reforçar, ainda mais a posição dos países árabes adotadas na última
Conferência Árabe, realizada na Argélia.
Em que nível se encontra a relação entre
Brasil e Síria?
A relação
é boa, estamos em um ritmo de coordenação política. A Síria foi um dos
primeiros países a manifestar o seu apoio ao Brasil, na sua candidatura para
ocupar uma vaga no Conselho de Segurança ONU. Em contrapartida, o Brasil
manifestou o seu apoio, inúmeras vezes, à Síria, principalmente ao se
posicionar contra as pressões feitas pelo EUA, contra o nosso país.
Como se dá o comércio entre Brasil e Síria?
Com
relação ao comércio realizado entre Brasil x Síria, a balança comercial sempre
favoreceu ao Brasil. Em 2004, o comércio cresceu mais de 60% a favor deste
país. O Brasil exportou 160 milhões de dólares e importou apenas quatro milhões
de dólares. Os principais produtos exportados pelo país brasileiro são: açúcar,
café, pneus, tratores, carros de passeio e caminhões. O Brasil importa da
Síria, azeite de oliva, tecidos de algodão e artesanatos.
O governo Sírio tem interesses em fortalecer
as relações econômicas com o Brasil?
Durante
visita do presidente Lula à Síria foi firmado contratos para a construção de
uma refinaria de açúcar, no valor de 150 milhões de dólares. A construção
deverá ser feita em parceria com empresas brasileiras e Sírias. O Brasil é um
parceiro importante que dispõe de muitos recursos humanos e naturais, além de
ocupar um território de fundamental importância estratégica na América Latina.
Que avaliação o embaixador faz da tão
propalada democracia Americana?
A
democracia Americana, exposta na mídia mundial, não corresponde ao verdadeiro
conceito democrático. O padrão de Bush é invadir outros países e matar milhões
de pessoas inocentes, como acontece atualmente no Iraque, que além de já ter
matado mais de 100 mil iraquianos, pratica as torturas mais infames contra um
ser humano. Quem não se lembra do escândalo recente das torturas praticadas
contra os prisioneiros de Abu Graib? O que os americanos precisam entender é
que o conceito democracia não pode ser imposta a ninguém pela força das armas.
Cada povo tem suas peculiaridades. O modelo democrático de um país não pode ser
imposto a outro, tem que se considerar os costumes, a cultura, a religião e uma
infinidade de outros valores.
Os
Estados Unidos sempre considerou Arafat como um ditador, mas quando este líder
político se posicionou contra a resistência palestina, ele passou a ser
considerado com democrata. Esta situação deixa claro o jogo perverso da mídia
internacional. Os americanos consideram países democráticos, todos aqueles que
atendem os interesses dos Estados Unidos. Na América Latina, a Venezuela não é
considerado um país democrático. Sabem por quê? Porque está contrariando
interesses norteamericanos, na região.
A Síria e o Egito estão juntos implementando
reformas política em seus respectivos países?
Com relação às reformas políticas que em breve estarão sendo implantadas na Síria e no Egito, esta decisão não tem nada a ver com as pressões norte-americanas, é uma decisão tomada, por estes dois países, desde o ano de 2000. Embora, a imprensa internacional distorça a realidade dos fatos.