Clipping - Internacional

 Editor: Valter Xéu

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06 de setembro de 2005

 Tragédia nos EUA III

Prefeito de Nova Orleans fala que pode haver 10 mil mortos

O prefeito de Nova Orleans, Ray Nagin, disse ontem que poderia haver 10 mil mortos na cidade, inundada após a passagem do furacão Katrina e de onde militares e policiais continuam evacuando os desabrigados. "Agora estamos fazendo alguns progressos", disse Nagin ao programa "Today" da rede de televisão NBC, e acrescentou que "não seria um disparate calcular que pode haver cerca de 10 mil mortos".

Em 28 de agosto, quando Katrina avançava para a costa do Golfo do México com ventos de 240 km/h, Nagin ordenou a evacuação dos 500 mil habitantes da cidade e foram emitidas ordens semelhantes para outros 800 mil moradores em distritos vizinhos.

Até ontem, autoridades federais, estatais e locais - como os comandantes militares que participam das tarefas de socorro e recuperação - não falaram sobre cifras oficiais sobre os mortos pela tempestade e suas conseqüências. Nova Orleans não recebeu o impacto direto do olho do furacão, mas a ruptura de diques que impediam que a água do lago Pontchartrain chegasse à cidade - construída abaixo do nível do mar - fez com que 80% do centro urbano fosse inundado.

Depois da inundação, veio a crise de mais de 60 mil pessoas que ficaram isoladas - sem comida, água potável, remédios ou ajuda durante vários dias - com dezenas de milhares de desabrigados reunidos em um estádio e em um centro de convenções.

Um editorial do jornal "The Times-Picayune", de Nova Orleans, disse ontem que "foi bom que o presidente (George W.) Bush admitisse que não eram aceitáveis os resultados das tarefas de socorro aos desabrigados". "Mas a triste verdade - acrescentou - continua sendo que a lentidão com que o governo federal atuou já foi fatal para alguns dos habitantes mais vulneráveis de Nova Orleans". "A água matou centenas, até milhares, de pessoas. A falta de água potável continua ameaçando outros", disse o jornal.

O subcomandante da polícia pediu aos moradores remanescentes de Nova Orleans que partam porque a cidade foi "completamente destruída". O subcomandante Warren Riley disse a repórteres que uma semana depois da passagem do furacão Katrina milhares de pessoas insistem em permanecer "em situação de perigo". "Advertimos às pessoas que esta cidade foi destruída. Ela foi completamente destruída", frisou Riley. "Estamos tentando convencê-los de que não existe razão - não existem empregos, não existem alimentos - não existe razão para eles ficarem aqui".

Tropas já operam na Louisiana e no Mississippi, mas confusão continua

Mais de 50 mil soldados da Guarda Nacional e de tropas regulares já operam nos Estados da Louisiana e do Mississippi, mas a situação na cidade de Nova Orleans continua confusa com relatórios contraditórios sobre sua evacuação total e com testemunhos de que ainda há milhares de desabrigados.

O almirante Timothy Keating, chefe do Comando Norte conjunto das Forças Armadas dos Estados Unidos, informou ontem que "unidades do Exército operam na Louisiana e que as da Infantaria da Marinha estão no Mississippi". "Até agora, há cerca de 38 mil soldados da Guarda Nacional, procedentes de vários estados e 13 mil soldados das forças regulares" atuando na região, acrescentou Keating. (JB)

 


 

Desabrigados pelo Katrina se espalham por todo o país

WASHINGTON - O êxodo de desabrigados pelo furacão Katrina continuou ontem com milhares de deslocados da Louisiana e do Mississippi sendo levados a estados vizinhos e a alguns distantes como a Califórnia, o Oregon e a Pensilvânia. Cerca de 225 mil desabrigados já chegaram ao Texas, e as autoridades desse Estado se preparam para alojar outras 85 mil pessoas procedentes da Louisiana.

Na capital dos Estados Unidos, esperava-se ontem a chegada de mil desabrigados que serão hospedados na Guarda Nacional, perto do estádio de Futebol Robert F. Kennedy. O furacão Katrina devastou há uma semana a costa da Louisiana, do Mississippi e parte do Alabama, e a onda de deslocados já foi da Flórida à Virgínia Ocidental, passando por Indiana, Arkansas, Colorado, Novo México, Califórnia e vários estados do sul.

Esperava-se a chegada de mais desabrigados a Oregon, Minnesota, Utah, Carolina do Norte e Michigan. O êxodo maior ocorreu em direção ao Texas. A cidade de Houston acolheu 30 mil desabrigados em albergues, deles 16 mil no estádio Astrodome. Mais de 100 mil pessoas estão hospedadas em hotéis.

Dallas alojou 14 mil pessoas em diferentes albergues, e o Centro de Convenções está ocupado por cerca de 7 mil deslocados, em sua maioria procedentes da Louisiana. Dos 10.400 deslocados que chegaram a San Antonio, 9.500 foram transportados por avião da Louisiana, e as autoridades da cidade advertiram que podem atender a um máximo de 14 mil evacuados. Ante a emergência, o governador do Texas, Rick Perry, pediu que se prepare em breve a trasferência de outros desabrigados pelo furacão a outros estados. (JB)

 


 

Argemiro Ferreira

Incompetência letal de Bush em Nova Orleans

Coube de novo ao colunista Paul Krugman, do "New York Times", o melhor diagnóstico para explicar a "incompetência letal" do governo Bush frente à tragédia de Nova Orleans. Não foi só o despreparo pessoal de Bush. É a hostilidade ideológica à própria idéia de usar o governo para servir ao bem público, já que durante 25 anos a direita americana vem denegrindo o setor público.

Fiel àquela hostilidade, esse governo ideologicamente

motivado obstina-se em repetir aos americanos e ao mundo que governos são sempre o problema, nunca a solução. Assim, na hora em que o país precisou de uma solução de governo, ela simplesmente não veio. E a turma de Bush limita-se a fazer o que faz melhor - declarar-se isenta de qualquer responsabilidade e atribuir a culpa a outros.

A esta altura, no entanto, já se tornou bem óbvia a culpa de Bush e sua gente. O órgão com a missão específica de enfrentar situações de desastre, como a causada pelo Katrina, é a Agência Federal de Administração de Emergência (Fema). E o atual governo já tinha destruído a eficácia dessa agência, a começar pela mudança de sua prioridade - que passou a ser o terrorismo, em vez dos desastres naturais.

 

A ideologia do não-governo

Reduzida a estado lastimável, a Fema foi incluída no Departamento de Segurança Interna (DHS), criado após os ataques de 11 de setembro para tratar de terrorismo. Bush começou a subvertê-la, diz Krugman, logo depois de assumir a Casa Branca. Primeiro nomeou para dirigi-la um conselheiro político próximo, Joseph Allbaugh, que desativou programas destinados a deixá-la preparada para agir prontamente.

Depois a Fema foi rebaixada ainda mais: Allbaugh saiu e passou o cargo a seu diretor-adjunto Michael Brown - despojado de qualificações mínimas, pois ali estava por ter sido colega de quarto de Allbaugh na universidade. O emprego dele antes tinha sido o de supervisor de exibições de cavalos, mas filhotismo político é prática habitual no governo Bush. O moral da agência, claro, já estava no fundo do poço.

Krugman admite que agências locais e estaduais também falharam mas lembra que autoridades federais é que tinham acesso aos recursos capazes de fazer a diferença - e não foram mobilizados. Por exemplo, o navio U.S.S. Bataan, equipado com seis salas de operação, centenas de camas de hospital e capacidade para produzir 100 mil galões de água potável por dia, estava todo o tempo na costa do Golfo - sem pacientes.

As férias sagradas do mandrião

As primeiras 72 horas depois de um desastre natural são cruciais para salvar vidas. Mas houve "estranha paralisia" entre as autoridades do governo Bush. Discutiam questões de hierarquia e jurisdição enquanto milhares de pessoas morriam. Quanto ao presidente, seu estilo pessoal é conhecido. Consiste em deixar o marqueteiro Karl Rove coreografar apresentações - como se coreografia resolvesse alguma coisa.

Bush demorou a concordar em deixar seu sagrado descanso de férias no rancho de Crawford para fazer o governo se mexer. Mas o exemplo vem de cima: se o chefe é mandrião, incapaz de trabalhar, porque alguém vai se importar. Pilhado em flagrante de incompetência e irresponsabilidade, o governo continuou em estado de letargia - até ser atropelado pelas imagens que chocaram o mundo inteiro.

O jeito foi Rove emitir instruções para justificar a incompetência federal botando a culpa publicamente nas autoridades locais. Pessoas tinham ficado isoladas durante dias sem comida, água e abrigo, muitas morreram - enquanto o mandrião descansava no rancho do Texas. Isso explica a irritação da senadora democrata Mary Landrieu, num desabafo domingo diante das câmeras do "This Week", da rede ABC.

 

"Ei, pare de posar para fotos"

Antes do furacão, segundo Landrieu, Bush não entregou os recursos necessárias ao financiamento dos esforços para fortalecer os diques que protegem Nova Orleans. E depois da devastação do Katrina, não enviou, no tempo necessário, as tropas, os suprimentos e a assistência reclamados. "Por favor, presidente, pare de posar para fotografias e venha até aqui ver o que estou tentando mostrar ao senhor", disse ela.

Irritada com as desculpas do governo federal, que culpava as autoridades locais e estaduais pelas falhas no esforço de socorro às vítimas, a senadora ameaçou "socar" Bush ou qualquer outra autoridade que criticar ações dos xerifes locais. Uma vítima foi dramática ao falar à rede NBC: "Eles prometem e dão entrevistas. Não suporto mais entrevistas. Pelo amor de Deus, calem a boca e venham fazer alguma coisa".

É o retrato do governo Bush. Não admitiu culpa no fracasso das agências de inteligência que permitiu o 11/9, disse nada ter a explicar sobre a inexistência das armas proibidas que invocara para invadir o Iraque, e não reconhece o planejamento desastroso do pós-guerra. A diferença é que agora, afinal, os americanos acordam para o alto nível de incompetência e irresponsabilidade dos que os governam. (Tribuna da Imprensa)

 


 

Ecologistas alertam Bush para repensar política ambiental

BRUXELAS - A organização ecologista Amigos da Terra considera que o furacão Katrina, cujos devastadores efeitos atribui à mudança climática, deveria servir para que o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, "repensasse" a política ambiental de seu governo. "Com todo o respeito pela tragédia, o presidente Bush deve reconsiderar sua posição sobre o aquecimento global", indicou a organização em um comunicado divulgado em Bruxelas.

A organização não-governamental (ONG) criticou a "contínua negativa" do presidente norte-americano de se unir aos esforços internacionais para frear o aquecimento do planeta e a priorização dos interesses econômicos de seu país sobre a estabilidade climática global. "Nossos corações estão com as vítimas desta tragédia e a ajuda humanitária deve ser a prioridade das próximas semanas. Buscar um responsável não ajudará a população de Nova Orleans.

No entanto, está em nossas mãos evitar que aumente o número e a intensidade de desastres similares no mundo", indica a nota. A Amigos da Terra advertiu que "todo atraso" na aplicação de medidas para enfrentar a mudança climática "fará com que haja mais pessoas sofrendo com desastres" deste tipo no mundo todo.

 


 

Famosos expressam sua revolta por ajuda ter chegado tarde

LOS ANGELES - Os artistas levantaram sua voz em favor das vítimas do furacão Katrina e o que dizem da resposta oficial a esta catástrofe está longe de ser música para os ouvidos do Governo. Figuras famosas como Oprah Winfrey e Celine Dion disseram que a sua mensagem é a mesma que a dos milhares de atingidos pela tragédia: a ajuda chegou muito tarde.
"Todos sabemos que isto não deveria de ter acontecido", declarou a apresentadora de televisão Oprah Winfrey em sua passagem neste fim de semana pelas regiões mais afetadas. "Por que demoraram tanto tempo?", insistiu Oprah sem mencionar nomes. A pergunta é a mesma feita pelos desabrigados e as pessoas na rua.

A diferença é que qualquer um desses grandes nomes, como o da escritora Anne Rice e do jornalista Anderson Cooper, têm a capacidade de se fazer ouvir com mais força. A autora de "Entrevista com o vampiro" e que durante anos morou em Nova Orleans, não duvidou em apontar com o dedo. "Quero dizer o seguinte ao meu país: Você falhou com a gente", escreveu em artigo publicado no jornal "The New York Times".

Para o rapper Kayne West, a crítica tem nome e sobrenome: George W. Bush, presidente da nação. "George Bush não se importa com os negros", afirmou no palco da primeira maratona musical realizada para arrecadar fundos para as vítimas do furacão Katrina. Suas palavras foram uma surpresa, um golpe em um esforço onde todos os artistas que participaram o fizeram voluntariamente e todas suas palavras seguiam um roteiro pré-fabricado e neutro.

Na sua opinião, os Estados Unidos assistem "os pobres, os negros, os que têm menos, da forma mais lenta". "Se você vir um negro (pegando artigos em uma loja), é saque. Se você vir uma família branca, está procurando comida", acrescentou em sua crítica. As palavras do cantor foram censuradas para todos os lugares onde o evento não foi transmitido ao vivo.

Mas isso não funcionou com a entrevista de Celine Dion ao apresentador Larry King, da CNN. "Como pode ser mais fácil enviar aviões a outro país para matar todo mundo em um segundo e destruir suas vidas?", perguntou.

 


 

Katrina golpeia política externa

Bush terá que rever agenda do segundo semestre, enquanto população reclama de falta de foco em assuntos domésticos

WASHINGTON - Desde 11 de setembro de 2001, a prioridade da política do presidente americano, George Bush, é a ''guerra ao terror''. Mas depois do furacão Katrina, a população quer mudança de foco e pressiona para que o governo se concentre em questões de economia interna, pelo menos temporariamente. Por exemplo, dando uma resposta doméstica à tragédia ao controlar o preço do combustível.

Segundo uma recente pesquisa Washington Post-ABC, os americanos estão divididos quanto à performance de Bush e de autoridades locais e estaduais do Golfo do México, depois da passagem do Katrina, na segunda-feira da semana passada. Pouco menos do que a metade (46%) aprova a maneira como o presidente conduziu a ajuda emergencial. Entretanto, há mais gente - 47% dos entrevistados - que desaprova. Este é um resultado que faz a Casa Branca lidar com uma reação negativa e que obriga Bush e a secretária de Estado, Condoleezza Rice, a lidarem com a ambiciosa e complexa agenda da política externa. De acordo com analistas, a presença no Iraque e a preocupação com o programa nuclear iraniano estão na mira.

Desde a semana passada, a Casa Branca enfrenta pesadas críticas de que a ajuda emergencial foi atrapalhada pela falta de homens, já que as tropas americanas estão comprometidas no Iraque e em outras bases pelo mundo. Foram enviados à Louisiana, Alabama e Mississippi reservistas da Guarda Nacional, mas aparentemente não serão suficientes para recuperar os corpos dos estimados 10 mil mortos. Devido a viagens ao chamado Big Easy (como é chamada a costa americana do Golfo), o presidente cancelou algumas reuniões com líderes mundiais.

Ao mesmo tempo, outra pesquisa, AP-Ipsos, mostrava que apenas 9% dos americanos acreditavam que o terrorismo - escolhido a grande questão do novo mandato presidencial - era a maior prioridade dos Estados Unidos. Em contraste, 24% diziam que energia e preço da gasolina eram as maiores preocupações, seguidos de 14% que apontavam a economia e desemprego.

''É um debate no coração da América: vale a pena gastar milhões de dólares em uma guerra ao Iraque quando o país não consegue proteger nem os seus cidadãos?'', questionou em editorial o jornal francês Le Monde. ''O Katrina vai marcar uma ruptura comparável ao 11 de Setembro''.

Bush e Rice tinham planejado uma agenda de política externa agressiva para o segundo semestre, começando com a cúpula de 170 líderes mundiais na ONU, este mês. Também na pauta estava o lançamento de uma iniciativa diplomática destinada a melhorar a imagem de Washington no mundo muçulmano, coroada com mais uma viagem de Rice ao Oriente Médio. Bush planejara receber o presidente da China, Hu Jintao, na Casa Branca na próxima semana, mas o encontro foi adiado. Enquanto isso, Rice tenta amenizar a preocupação quanto à nova agenda externa.

- Quando há algo no âmbito doméstico, nos concentramos em casa - disse a secretária de Estado. - Acho que os americanos são sofisticados o suficiente para entender que os EUA não vivem isolados - completou.

Por outro lado, Steven Kull, especialista em opinião pública e diretor do Center on Policy Attitudes, em Washington, não acredita que a devastação causada pelo Katrina vá enfraquecer a política de Bush. Pelo contrário.

- O furacão é um novo, poderoso, emocionante e galvanizante acontecimento. Pode até tornar longínqua a lembrança das torres gêmeas sendo atacadas - afirmou.

Segundo Kull, o povo pode estar culpando a presença militar no Iraque pela falta de braço para o resgate. Mas não significa que os americanos vão pedir a retirada dos EUA do Golfo Pérsico. (JB)

 


 

INCOMPETÊNCIA PERIGOSA

Cindy Sheehan (*)

George Bush foi um incompetente fracassado a vida toda. Para a sorte da humanidade, ele se limitou, quase o tempo todo, a fazer farra na faculdade, afundar empresas e a abusar de álcool e cocaína - sua incompetência limitava-se a ferir as pessoas que trabalhavam para ele e sua família. As pessoas machucadas pela incompetência dele, até então, provavelmente conseguiram "ir em frente". Agora, porém, sua incompetência afeta o mundo e é responsável por tantas mortes e tanta destruição. Quantos de nós não antecipamos a caiada que ele faria no mundo quando foi selecionado da primeira vez? Vimos o que ele fez no Texas. Quantos de nós ficamos embasbacados, desencorajados e surpresos quando ele foi "reeleito"? Vimos o que ele tinha feito no mundo. Incompetência perigosa nunca deveria ser recompensada, muito menos ser paga tão bem quanto no caso do George.

O movimento do Acampamento Casey (N.R. o acampamento do lado de fora do rancho de Bush, em homenagem ao filho de Cindy, Casey) está lutando como pode para ajudar as vítimas do governo em Nova Orleans e áreas vizinhas. Mandamos um ônibus cheio de suprimentos para Covington, Louisiana, uma cidade pobre de Africanos-Americanos do outro lado do lago Pontchartrain. Tive o privilégio de visitar Covington com meus amigos Buddy e Annie Spell em julho. Era uma comunidade cheia de amor e alegria.

O ônibus levou 10 toneladas de suprimentos e, como está equipado com antena de satélite, é a única comunicação de Covington com o mundo exterior. Mandamos também dois caminhões tanque cheios de água.

A tragédia desnecessária em Nova Orleãs está diretamente relacionada à tragédia no Iraque: desnecessária é a palavra-chave.

Pessoas inocentes estão morrendo diariamente neste mundo. No meio da história do furacão, o fato de que 950 pessoas (quase todas mulheres e crianças) morreram esmagadas no Iraque sumiu para as últimas páginas dos jornais. São 950 pessoas que estariam vivas se George Bush não fosse presidente. Novecentas e cinqüenta pessoas no Iraque e sabem-se lá quantos milhares nos estados do Golfo do México morreram enquanto o imperador tocava violão e batia numa bola de golfe. Além delas, oito dos nossos bravos e maravilhosos soldados foram desnecessariamente mortos no Iraque desde segunda-feira.

Realmente acredito que George e seu bando de facínoras incompetentes e perigosos precisam renunciar. Seria a única coisa honrada e competente a fazer. Esperem sentados... 

(*) Cindy Sheehan é a mãe de um soldado morto no Iraque que tomou a frente do movimento contra a guerra de Bush, escreveu este artigo do qual traduzi os trechos principais. Jorge Pontual. (Montblanc)

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Fidel reitera oferta de ajuda médica aos Estados Unidos

 

Os jovens médicos cubanos já estão prontos para ajudar os EUA

O presidente Fidel Castro reiterou ontem a disposição de Cuba em ajudar as vítimas do furacão Katrina, mesmo que as autoridades de Washington continuem sem responder a oferta da ilha. Reunido na noite de domingo com cerca de 1,6 mil médicos que já portavam suas mochilas com medicinas e instrumentos essenciais para exercer o trabalho em condições de emergência, como as que existem os territórios açoitados pelo furacão no país vizinho, Castro disse que Cuba cumpriu com seu compromisso de oferecer a rápida ajuda da força médica para dar apoio aos atingidos pelo Katrina nos estados de Lousiana, Mississipi e Alabama.

Ele argumentou que por sua aproximação com esses territórios, Cuba tem a possibilidade de enviar 1,1 mil médicos para salvar vidas em perigo, ainda que a cifra dos alistados tenha se elevado para 1,586 mil. “48 horas depois do nosso oferecimento e não recebemos resposta nenhuma. Esperaremos pacientemente os dias que sejam necessários”, disse. “Se finalmente não chegar nenhuma resposta, ou não for necessária a cooperação, não será por isso que haverá desalento em nossas fileiras”. Muito pelo contrário, disse Castro. “Nos sentiremos satisfeitos de ter cumprido com o nosso dever e mais felizes ainda de saber que nenhum outro cidadão norte-americano, dos que sofreram o golpe doloroso e traiçoeiro do furacão Katrina, morrerá sem assistência médica”.

No encontro, a brigada médica foi nomeada Henry Reeve, em homenagem a um norte-americano que entregou sua vida durante a primeira guerra pela independência de Cuba do colonialismo espanhol. O presidente cubano indicou que nesta situação não importa quão rico é o país, o número de cientistas e avanços técnicos. O que neste instante se requer são profissionais jovens e bem treinados, que com um mínimo de recursos possam ser enviados aonde seres humanos estejam com risco de vida. “No caso de Cuba, a tão pouca distância das regiões atingidas, temos estas circunstâncias propícias para oferecer apoio ao povo norte-americano.

Fidel Castro explicou que cada um dos médicos dispõe de duas mochilas com medicamentos e instrumentos essenciais para atender numerosas doenças e realizar diagnósticos. No total, a brigada dispõe de 36 toneladas de medicinas e equipes para realizar seu trabalho nas condições mais difíceis e necessárias. “Cuba tem autoridade moral para esta oferta. Conta hoje com o mais alto índice de médicos per capitã entre todos os países do mundo e nenhum outro desenvolveu maior colaboração com outros povos no campo de saúde”. Castro afirmou que a ilha dispõe de mais de 130 mil profissionais de saúde, dos quais mais de 25 mil prestam missão em nações da América Latina, Ásia e África.

Na força médica que está pronta para viajar aos Estados Unidos inclui 1,097 mil especialistas em medicina geral integral, 351 clínicos gerais e intensivistas, 72 com mais de uma especialidade e 66 especialistas em cardiologia, pediatria, cirurgia, gastroenterologia, entre outras. Os integrantes da missão médica cubana têm mais de 10 anos de experiência profissional e 32 anos de idade.

Com agências internacionais.

 


 

Fritz Utzere

A pequena Cuba enfrentou um furacão grau 4, no dia 5 de julho passado. Mais de 600 mil pessoas foram evacuadas e a tempestade causou apenas 10 mortes. Em 2004, um furacão tão poderoso quanto o Katrina, o Ivan, classificado como de grau 5 passou por Cuba, mas as autoridades da ilha já haviam evacuado quase dois milhões de moradores e ninguém morreu.

Os cidadãos cubanos se organizam por bairros, vizinhança e quarteirões e recebem treinamento de defesa civil, incluindo primeiros socorros. Ao serem evacuados, os habitantes são mantidos junto aos médicos que cuidam deles, o que evita falta de assistência médica e de remédios. Os bens dos habitantes, começando por suas roupas e indo até os aparelhos de TV e geladeiras, são igualmente retirados e guardados em lugar seguro, o que evita saques e prejuízos à população pobre. Em Cuba, um país com 11,2 milhões de habitantes os cuidados médicos são universais e gratuitos, ao contrário dos EUA onde quase 50 milhões de norte-americanos (a maioria negros) não têm direito a qualquer tipo de assistência médica. Cuba tem exportado médicos e enfermeiras a vários países do mundo (inclusive o Brasil) para atender às populações mais carentes e dar treinamento de saúde pública.

Ao tomar conhecimento da devastação no sul dos EUA, as autoridades cubanas oferecerem imediato auxílio de equipes com 1 mil 100 médicos e 26 toneladas de medicamentos, além de equipes de resgate. (Montblanc)

 


 

Êxodo vai afetar dados demográficos

NOVA ORLEANS - A movimentação da população das regiões afetadas pelo Katrina já é comparada à maior onda migratória de negros na história americana, que ocorreu entre as décadas de 40 e 70, do Sul para o Norte. Forçadas a sair de casa por um desastre natural, essas pessoas diferem dos migrantes do século XX pela falta de opção. Por outro lado, os desabrigados negros de agora também são pobres e não vão poder esperar até que a cidade seja reconstruída. Precisam de um novo lar e emprego o mais rápido possível, o que vai, também como no passado, depender do grau de racismo que encontrarem pelo caminho. Um site do grupo segregacionista Ku Klux Klan ontem pedia ajuda para os sobreviventes do Katrina. Mas só para os brancos.

- Essas pessoas vão ter de se estabelecer imediatamente e mandar os filhos para a escola. Isso, provavelmente, vai afetar os dados demográficos da região que escolherem - explica o único senador negro americano, Barack Obama.

O escritor Nicholas Lemann, autor de The Promised Land: The Great Black Migration and How it Changed America (A Terra Prometida: Como A Grande Migração Negra Mudou a América), teme que, como aconteceu em Chicago, por exemplo, o fenômeno acabe formando guetos nas grandes cidades.

Nos três estados mais atingidos pelo furacão, Louisiana, Mississippi e Alabama, a renda anual de 36 localidades arrasadas está US$ 10 mil abaixo da média nacional. Quase 30% dos moradores igualmente estão abaixo da linha de pobreza. Duas em cada 10 famílias não têm carro, o que foi, justamente, um dos fatores que dificultaram a saída das cidades antes que a situação ficasse fora de controle. O outro foi a falta de dinheiro. E cerca de 4,5% dos moradores recebem algum tipo de benefício social do governo - em todos os EUA, o índice é de 3,5%.

- Conte para todo mundo que não somos vagabundos. Nós tempos casas. Só que foram destruídas. Nós temos empregos e não temos culpa se não tínhamos carro para sair - lamentava Shatonia Thomas, de 27 anos, enquanto perambulava perto do centro de convenções de Nova Orleans com os filhos, de seis e nove anos. Na área de desastre, 12% dos lares são mantidos por mães solteiras, contra a média nacional de 7%.

Logo nos primeiros dias da tragédia no Sul do país, parlamentares e ativistas dos direitos humanos denunciaram o que identificaram como racismo em toda a falta de organização no atendimento às vítimas. As cenas da multidão abandonada no estádio Superdome e no Centro de Convenções reforçaram a idéia.

- Vai me dizer que nós conseguimos coordenar um esforço de emergência no outro lado do mundo e não conseguimos fazer isso aqui? Eu não estou dizendo que as pessoas não se preocuparam. Estou dizendo que não se preocuparam o suficiente. Não consigo deixar de pensar que isso tem alguma coisa a ver com raça - disse, num sermão inflamado, o reverendo I. V. Hilliard, de Houston, no Texas, para uma platéia inflamada. Hilliard lidera uma igreja de 20 mil fiéis, de maioria negra. - Mesmo alguns brancos conservadores estão furiosos com isso.

O debate ganhou as páginas dos jornais e está tomando força num país ainda atordoado e emocionado com o maior desastre natural dos últimos tempos. Ontem, por exemplo, a rede de TV NBC foi obrigada a soltar nota oficial para dizer que não apóia a opinião do rapper Kanye West, negro. Durante a transmissão de um show em benefício para as vítimas da tragédia, sábado, West saiu do roteiro e falou ao vivo: ''O presidente George Bush não liga para os negros'', ao lado de um constrangido Mike Myers, ator americano, branco. Antes que continuasse o discurso de improviso, saiu do ar e a direção do programa cortou para o comediante Chris Tucker.

O rapper havia declarado que os EUA sempre ajudam pobres e negros ''o mais lentamente possível''. ''Seria uma pena se os esforços dos artistas que participaram do evento dessa noite e a generosidade dos americanos que estão ajudando aqueles que estão passando necessidade fossem ofuscados pela opinião de uma pessoa'', dizia a nota da rede de televisão.

Os negros americanos acabaram ficando concentrados no Sul graças à história da escravidão no país, que foi abolida em 1865. Entre 1940 e 1970, foi grande a movimentação, que acabou formando as concentrações em cidades como Chicago, Nova York, Detroit e Washington.

 


 

Clinton e Bush pai criam fundo conjunto e arrecadam milhões

HOUSTON (EUA) - Os ex-presidentes dos Estados Unidos George Bush e Bill Clinton anunciaram ontem a criação de um fundo que já arrecadou milhões de dólares em doações do setor privado para os desabrigados pelo furacão Katrina. O anúncio foi feito em Houston. Os dois ex-presidentes visitaram ontem os moradores de Nova Orleans alojados em instalações da cidade, como o estádio Astrodome.

O Fundo Bush/Clinton Katrina receberá doações de indivíduos e empresas privadas. Esses recursos ficarão "à disposição do governo federal e dos governos locais para ajudar na assistência imediata e de longo prazo", disse Bush pai. Em conferência em Houston, George Bush e Clinton disseram que grandes empresas como Wal-Mart e Microsoft já entregaram milhões de dólares ao fundo de ajuda aos desabrigados pelo Katrina.

"Aqui, em Houston, as agências do governo, os organismos de beneficência e os voluntários estão alimentando 30 mil desabrigados", acrescentou Bush. Ele e Clinton visitaram o Astrodome, onde estão mais de 15 mil desabrigados, na maioria vindos da Louisiana. "Há centenas de milhares de pessoas que precisam de comida, alojamento, roupas, assistência médica", disse Bush. "É uma tarefa muito grande para pesar nas mãos de uma só agência, um só governo."

Clinton acrescentou que "é necessário um fundo que continue operando porque, além da assistência imediata, é preciso buscar emprego para centenas de milhares de pessoas. É preciso dar-lhes apoio para uma recuperação econômica que levará anos". O ex-presidente Bush rejeitou as críticas feitas por alguns jornalistas à reação da administração de seu filho George W. Bush à emergência causada pelo Katrina.

O pai disse que tanto ele como sua mulher Barbara estão "muito orgulhosos da forma como (seu filho George) reagiu e está enfrentando a situação". "Se alguém quiser discutir com Barbara os detalhes, aconselho que ponha colete à prova de balas", disse brincando.

Na opinião de Clinton, "o que se fez, o que se deixou de fazer, o que poderia ser feito de maneira diferente para prevenir este desastre ou para lidar com suas conseqüências terá de ser investigado mais adiante". Clinton acrescentou: "Agora, há centenas de milhares de desabrigados, milhares de pessoas que ainda estão isoladas pelas inundações e não sabemos o número de mortos. É nisto que devemos prestar atenção". (JB)



Cruz Vermelha descarta "risco de extensão de epidemia grave"

MADRI - O presidente da Federação Internacional da Cruz Vermelha, José Manuel Suárez del Toro, descartou ontem que atualmente haja "um risco de extensão de epidemia grave" na zona afetada pelo furacão Katrina. O espanhol Suárez del Toro explicou que os Estados Unidos "evidentemente" possuem uma capacidade maior para conseguir recursos do que outros países e que isso talvez possa ter "retraído" a princípio a resposta solidária.

No entanto, "uma vez que a opinião pública mundial percebeu que se necessitava ajuda, as pessoas se tombaram e enviaram muitas coisas", disse. Após ressaltar a capacidade de gestão das situações de catástrofe por parte da Cruz Vermelha dos EUA, Suárez del Toro disse que atualmente "vem trabalhando com mais seis mil voluntários, que se incorporam de 500 a 600 voluntários por dia e que as doações já chegam perto de US$ 300 milhões".

A Cruz Vermelha norte-americana iniciou a maior mobilização de recursos de sua história ante uma catástrofe natural; evacuou 70 mil pessoas e está proporcionando alimentos aos desabrigados na zona afetada pela passagem do furacão. Por outro lado, o presidente da Federação Internacional das Sociedades da Cruz e do Crescente Vermelho (entidade como a Cruz Vermelha em países muçulmanos) acrescentou que quando ocorre um desastre de magnitude confluem "variáveis previsíveis, mas outras nem tanto. Quando todas se juntam, surge uma situação como a de agora ou a de há duas semanas nas inundações de Europa Central". Sobre a lentidão de resposta das autoridades norte-americanas nos primeiros momentos do furacão, Suárez del Toro explicou que "no início havia incerteza".



Primeiro avião com ajuda britânica já partiu para o Arkansas

LONDRES - O primeiro avião com ajuda britânica para as vítimas do furacão Katrina partiu ontem da base militar de Brize Norton, ao sul da Inglaterra, informaram fontes oficiais. Em resposta a uma solicitação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o Reino Unido iniciou a maior operação de ajuda humanitária desde o tsunami, que afetou o sudeste asiático em dezembro do ano passado.

O primeiro de vários vôos com destino ao Arkansas saiu ontem pela manhã, e um segundo seguiu à tarde, enquanto se espera que outros 15 aviões viajem ao longo da semana. Os aparelhos levaram alimentos para os afetados e não se descarta a possibilidade de se enviar carregamento de tendas de campanha e equipamentos necessários para preparar comida de navio.

O brigadeiro Chris Steirn, diretor das operações logísticas do Ministério da Defesa britânico, que coordena esta ajuda, disse ontem que o Reino Unido responde a um pedido de ajuda formulada à Otan por parte do governo dos Estados Unidos. A comida é frango, arroz, biscoitos e chocolate.(JB)

 


 

América pode aprender com os 'pobres'

NOVA YORK - Muitas das lições necesssárias para que a tragédia do Katrina não se repita na América estão em países pobres, que completam um cenário onde, estatisticamente, o mundo se tornou muito menos seguro. Segundo as Nações Unidas, 2,5 milhões de pessoas sofreram com a fúria da natureza em enchentes, terremotos, furacões etc entre 1994 e 2003. O número representa um aumento de 60% em relação aos dez anos anteriores. O dado, apresentado em janeiro, ainda não inclui os milhões de deslojados e os mais de 220 mil mortos no tsunami de dezembro, na Ásia. A soma das vítimas do maremoto com a o Katrina deve fazer a conta explodir. Paralelamente, a expansão da população americana empurrou muitos para áreas de risco como Flórida, o Golfo do México e a Califórnia.

- Há décadas não tínhamos casas coladas parede contra parede nessas regiões costeiras como acontece agora - estima o sismólogo Robert M. Hamilton, um especialista em prevenção de desastres que trabalhou para o governo.

A forma como os americanos constroem suas edificações também é um convite ao desastre. Isso inclui a dragagem de pântanos na Flórida e o desmonte de colinas na Califórnia.

- Estamos erguendo casas e prédios de uma forma incompatível com os perigos naturais dessas regiões - afirma Dennis S. Miletti, especialista da Universidade do Colorado.

Mais avançadas as nações, maiores os choques. Terry Jeggle, analista da ONU, diz que em Nova Orleans o complexo sistema de diques dependia de bombas movidas por geradores a diesel. Quando a luz acabou, o sistema ruiu.

Daí a importância de medidas práticas adotadas por países pobres, como em Cuba. O país não registrou mortes na passagem do furacão Ivan em 2004, o pior em 50 anos. Mesmo enfraquecido, o Ivan matou 25 nos EUA. O sucesso de Havana está ligado à evacuação bem planejada e executada. Entre as medidas de sucesso, uma das mais simples foi adotada nos bairros, onde as casas eram checadas pela própria vizinhança. Assim ninguém ficou para trás.

Em Bangladesh, 33 mil voluntários estão aptos a conduzir a população a abrigos de concreto quando há sinais de tormenta no Golfo de Bengala. Já a Jamaica fez exercícios de evacuação de larga escala que permitiram minorar os efeitos do Ivan. Além disso, a população foi treinada em fazer operações de busca e salvamento em destroços e a operar alarmes de enchentes.(JB)

 

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