Clipping - Internacional

 Editor: Valter Xéu

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09 de setembro de 2005

 Tragédia nos EUA VI

 

 SUMÁRIO

 

Nova Orleans vive imersa no lixo e cheiros insuportáveis

 

Cólera aumenta alerta

 

Lições do 11/9 foram ignoradas

 

Incógnitas sobre o 11 de setembro

Universidade de Jerusalém receberá estudantes de Nova Orleans

 

Sair de Nova Orleans agora é ordem

 

Nova Orleans: apartheid nos EUA

 

PÓS-KATRINA

Como o livre mercado matou Nova Orleans

 

 

 

 

 

 

Nova Orleans vive imersa no lixo e cheiros insuportáveis

Natalia Martín Cantero

NOVA ORLEANS (EUA) - Alimentar-se apenas com a comida que o Exército oferece, não poder usufruir de banheiros, cama ou água e ser obrigado a conviver com um cheiro insuportável são situações que tornam a vida em Nova Orleans extremamente dura para os que tiveram que continuar no local após o Katrina. Finis Shelnutt, o dono do edifício onde fica o restaurante de comida ‘creole’ Patout's, no Bairro Francês, comia uma canja, sentado em uma mesa improvisada montada em frente ao local e ao lado de um montão de lixo. Shelnutt extraía colheradas da canja do saco de plástico marrom que o Exército distribui com comida e que se aquece automaticamente em contato com a água. ''Está muito bom -disse sarcástico à EFE-, parece muito com o que nós servíamos''.

Os pratos com ostras, camarões e champignons recheados que sempre deram fama ao restaurante em uma cidade que era conhecida por su excelente gastronomia são, certamente, uma distante lembrança. Agora, o maior luxo para os membros dos grupos de resgate e a imprensa que não se aloja nos ônibus das grandes redes de televisão, onde parece que não há nenhum problema, são os cachorros-quentes e os sacos de batatas fritas com sal e vinagre que na terça-feira começaram a ser despachados pela organização filantrópica Exército de Salvação.

''Posso comer mais?'', perguntava no quiosque do Exército da Salvação Gerardo Mora, fotógrafo da EFE, cansado dos pequenos biscoitos salgados de queijo e das latas de atum do menu da semana. Entre o calor inclemente da Louisiana, a umidade e as rajadas de cheiro de morte que constantemente surpreendem os poucos que circulam pelas ruas saturadas de restos de todos os tipo e excrementos, a comida não é uma prioridade.

Por outro lado, refrescar-se um pouco e, mais ainda, lavar bem o local onde a água infectada tocou são sonhos que não podem ser cumpridos em Nova Orleans. Só conseguem isso os que pertencem, claro, a uma das mencionadas equipes de televisão que parecem estar em casa. Os repórteres que vão ao furgão da rede ABC News para ‘se aproveitar’ de sua conexão sem fio a internet morrem de inveja quando vislumbram as camas dispostas em seu interior, a sala com monitores de televisão e os produtores com aspecto relativamente limpo e fresco.

A precariedade é tal que se celebra a visão de banheiros portáteis que foram colocados recentemente na rua do distrito financeiro em frente ao hotel Sheraton, onde fica a imprensa. Jornalistas, policiais locais e equipes de emergência escovavam os dentes e faziam sua toilette em frente a estes banheiros na terça-feira de manhã.

Também há banheiros, aparentemente recém-colocados, em frente ao Centro de Convenções, o lugar onde no início da semana havia dúzias de cadáveres dentro de um frigorífico apagado. Mas, usar estes banheiros em um lugar onde ficam e se amontoam os restos de colchões sujos, comida, lançóis e até uma cadeira de rodas não é para os melindrosos.

Nestas condições não é de se estranhar que os médicos recomendem a rápida saída de Nova Orleans. Os primeiros testes de água confirmaram na quarta-feira que o nível da bactéria E.coli e de chumbo é pelo menos dez vezes mais alto do que se considera aceitável à saúde humana, e estas são só duas de outras tantas substâncias que presumivelmente estão nas águas.

Agência EFE

 


 

Cólera aumenta alerta

NOVA ORLEANS - A capital da Louisiana entrou em novo alerta ontem, com a divulgação da morte de pelo menos 10 pessoas devido a infecções bacterianas causadas pela contaminação da enchente. Na terça-feira, foi descoberta a presença da bactéria Escherichia coli, que causa disenteria. O temor agora é que a Vibrio vulnificus - uma bactéria encontrada na água insalubre e pertencente à família do germe que causa o cólera - também esteja fazendo suas vítimas.

Os centros para o Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos informaram o registro de um caso deste tipo em refugiados no Texas e ''três ou quatro no Mississippi'', confirmados pelas autoridades sanitárias locais. O porta-voz dos institutos, Tom Skinner, admitiu que os primeiros indícios levam a crer que as vítimas foram mesmo infectadas pelo Vibrio vulnificus.

A rede de televisão CNN informou ainda que cinco pessoas morreram de cólera em Nova Orleans, também por causa de contaminação pelas águas. A informação ainda não foi oficialmente confirmada.

Outras cinco pessoas foram encontradas mortas em suas casas - três na Flórida e duas em Louisiana. Segundo a Comissão de Segurança de Produto para o Consumidor, elas foram vítimas do uso impróprio de geradores de eletricidade em ambiente fechado. Dezenas de outros sobreviventes do Katrina foram hospitalizados depois de terem inalado monóxido de carbono proveniente da queima de gasolina dos aparelhos.

Segundo Patty Davis, porta-voz da Comissão, o monóxido de carbono liberado pelos geradores a gasolina é inodoro, por isso tão letal. As vítimas percebem que estão sendo envenenadas tarde demais.

- Colocar um gerador dentro de casa é a mesma coisa que ter um carro ligado numa garagem fechada - compara.

Davis adverte que os aparelhos de geração de eletricidade jamais devem ser usados em locais fechados, incluindo casas e porões - nem mesmo perto destes locais.

Os sintomas de intoxicação por monóxido de carbono incluem sentir-se tonto, fraco, enjoado e com sono. Assim que notarem essas sensações, as pessoas devem deixar o ambiente fechado imediatamente, diz Davis. As pessoas também devem evitar usar churrasqueiras em áreas internas, pois elas também produzem fumaça perigosa.

Mas em Nova Orleans, muitos moradores usam os aparelhos em casa, por medo de serem roubados.

- É melhor ter seu gerador levado do que ser envenenado. Não arrisquem - aconselha.

 


Lições do 11/9 foram ignoradas

Chefes da investigação sobre os atentados de 2001 dizem que governo Bush cometeu ''os mesmos erros'' na reação ao Katrina

AFP

Promessas de investigação não livraram o governo do presidente Bush de protestos que se ampliam, como esse em Washington

Promessas de investigação não livraram o governo do presidente Bush de protestos que se ampliam, como esse em Washington

WASHINGTON - A resposta do governo ao furacão Katrina expôs o calcanhar de Aquiles do sistema de emergência. Segundo dois políticos que lideraram a comissão que avaliou os erros pós-11 de Setembro, faltou comando para lidar com o desastre. O ex-deputado de Nova Jersey, Thomas Kean, um republicano moderado, e o democrata Lee Hamilton, citaram ainda problemas de comunicação e a falha em eleger como prioridade o resgate nas comunidades imediatamente mais afetadas pela tempestade.

- Em alguns casos, os erros foram até piores que os do 11/9 - critica Kean. - São panes em todo o sistema, que poderiam ter sido evitadas. Aliás, este deveria estar corrigido há muito tempo.

- Estou surpreso, desapontado e até deprimido porque quatro anos depois não fomos bem e estamos vulneráveis demais - acrescenta Hamilton.

Para os dois, além da catástrofe, outra causa do sofrimento do povo de Nova Orleans é a ausência de autoridade clara, ilustrada pelo jogo de empurra entre a prefeitura e o governo estadual.

- Não há ninguém no comando - observa Kean.

O especialista defende que a administração Bush deveria agora pedir aos estados que estabeleçam hierarquias mais precisas. Em troca, ficaria facilitada a ajuda federal em dólares. As falhas geraram protestos como o registrado ontem em Washington. Os manifestantes carregavam cartazes com a palavra ''vergonha'' e comparavam a situação na Louisiana à tragédia humanitária em Darfur, no Sudão.

- Não ter ninguém no comando custou muitas vidas em Nova Orleans - emenda.

Para Kean, o Departamento de Segurança Interna falhou em avaliar os riscos de transporte e da infra-estrutura. Os diques que romperam deveriam ter sido vistoriados antes do furacão.

- Um relatório deveria ter saído em 1º de abril, o outro em meados deste ano. Nenhum dos dois foi feito - denuncia.

O governo não comenta as declarações. Kean e Hamilton sustentam que também os problemas de comunicação na zona de desastre foram causados por erros do Congresso, que não liberou as agências a operarem na banda larga da telefonia.

- É um erro crasso, quatro anos depois do 11/9, ainda não resolvido. Há propostas no Congresso, mas estão longe de se tornarem leis - lembra Hamilton. Kean pede pressa ao Capitólio.

- São questões imediatas - afirma. - E o governo federal deveria requerer aos estados e municípios que delineassem melhor seus controles e comando em emergência. Isso pode ser bem feito bem rápido.

Os dois discordam do modo como a catástrofe humanitária deve ser investigada. Para Kean, o Congresso é muito partidário para ganhar a confiança pública em qualquer inquérito e recomenda que uma comissão independente assuma o painel - exatamente o que defende a senadora democrata Hillary Clinton. Para Hamilton, que já liderou o comitê de Inteligência do Congresso, o plano republicano de instaurar um inquérito bipartidário deve seguir, antes que uma investigação independente seja considerada.

- Mas se esse painel bipartidário não for amplo na cobertura das falhas, agressivo e robusto nas propostas, então posso mudar de idéia bem rápido - afirmou Hamilton.

 


Incógnitas sobre o 11 de setembro

POR JOAQUÍN ORAMAS

ÀS críticas que chovem sobre a administração George W. Bush por sua imprevisão e inércia diante da ameaça real do furacão Katrina que assolou vários estados da União, se somam revelações que criam verdadeiras incógnitas ao se completarem quatro anos dos atentados contra as torres do World Trade Center de Nova Iorque e o Pentágono, com o saldo de milhares de vítimas.

Em 11 de setembro de 2001, um helicóptero da polícia de Nova Iorque sobrevoou o World Trade Center dois minutos depois de que a primeira torre desabasse, no pior ato de terrorismo sofrido pelos EUA em sua história. Faltavam 21 minutos para que caísse a segunda. «Mais ou menos 15 andares acima estão em chamas. É inevitável», disse o piloto por rádio. Segundos depois, outro piloto disse: »Não creio que resista muito tempo. Eu evacuaria todos da área do segundo edifício».

A polícia de Nova Iorque recebeu o chamado. Os encarregados de incêndios e resgates, não. Conseqüentemente, dezenas de policiais e vários bombeiros morreram na queda da segunda torre. Nesse mesmo dia, foi impossível a comunicação entre os 50 corpos de segurança da cidade de Washington, a localidade de Maryland, no estado da Virgínia e com o corpo de bombeiros do condado de Arlington, que comandava a operação de resgate no Pentágono.

Estes erros voltaram a golpear o público estadunidense quatro anos depois da tragédia que acabou com a vida de 3 mil pessoas, com a difusão de milhares de páginas de transcrições de gravações das comunicações de sobreviventes e vítimas.

Estes comovedores documentos foram entregues pelo Departamento de Bombeiros da cidade de Nova Iorque, depois de que o diário The New York Times os reclamou ao governo local com amparo da Lei de Liberdade de Informação.

Por que os sistemas de comunicação falharam de maneira tão flagrante num país reconhecido por seu progresso tecnológico?

A comunicação por rádio é fundamental para as agências de segurança pública, incluindo aquelas a cargo da «primeira resposta», como se sabem os que acodem de imediato ao chamado de danificados por sinistros, como bombeiros, policiais e serviços de ambulâncias. A tecnologia de rádio é planejada para que dois ou mais aparelhos interconectados funcionem dentro de determinado espectro de freqüência.

Em 11 de setembro de 2001, não havia um espectro designado às agências de segurança pública. E tampouco hoje existe. Como resultado, houve escasso intercâmbio entre os departamentos da Polícia e dos Bombeiros, na cidade de Nova York, apesar de que depois do primeiro atentado contra as torres, em 1993, tenha sido criado um Escritório de Manejo de Emergência na metrópole.

Sobre os acontecimentos do 11 de setembro, revelou-se recentemente um documento emitido pelo professor de Economia, Morgan Reynolds, ex-chefe do Trabalho durante o primeiro mandato do presidente Bush, que considera falsa a versão oficial sobre o colapso do World Trade Center. Considera como mais provável que uma demolição controlada tenha destruído as torres gêmeas e o edifício adjacente número 7.

Reynolds, atualmente professor emérito da Universidade do Texas, afirma que as conclusões científicas sobre o colapso das torres poderiam ser as chaves da misteriosa conspiração que está por detrás do 11 de setembro. Acredita também que é quase impossível que 19 terroristas árabes tenham podido burlar os poderosos militares dos EUA.

Em suas revelações, Reynolds assinala que a versão oficial de que o combustível inflamável dos aviões causou a explosão das torres tem sido difícil de refutar porque, não obstante o desacordo de numerosos investigadores, a maior parte das evidências foram removidas pela Agência Federal de Manejo de Emergências. O pessoal da entidade retirou rapidamente as estruturas de aço, antes que pudessem ser analisadas. Inclusive, apesar de que o Código Penal requeira que a evidência da cena de um crime seja guardada para análise forense, a agência a destruiu ou a levou ao estrangeiro, antes de se efetivar uma investigação rigorosa.

O professor dá a conhecer alguns fatos que denunciam as falhas da versão do combustível incendiado.

Há fotos que demonstram gente caminhando pelo porão da Torre Norte na qual supostamente ardiam 10 mil galões de combustível do avião de passageiros.

Quando a Torre Sul foi impactada, a maior parte das chamas da Torre Norte já tinham desaparecido, depois de ter ardido durante apenas 16 minutos. O que as tornava relativamente fácil de conter e controlar sem uma derrubada total. O fogo não se expandiu com o tempo, provavelmente porque se acabou rapidamente o combustível e se estava sufocando, o que indica que sem artefatos explosivos adicionais, tivera sido fácil controlar os incêndios.

Sobre o assunto, o relatório assegura que os bombeiros do Departamento de Incêndios de Nova York continuam sob uma estrita ordem de silêncio do governo para que não se discutam sobre as explosões que ouviram, sentiram e viram.

Inclusive, o deficiente relatório da Comissão Investigadora do 11 de setembro reconhece que nenhum dos chefes de bombeiros presentes acredita que fosse possível um colapso total de nenhuma das duas torres.

Nunca antes, edifícios com armação de aço tinham sido derrubados por incêndios. Por outro lado, o edifício WTC-7 não foi danificado por um avião e sofreu apenas dois incêndios menores nos andares 7 e 12 de sua estrutura de 47 andares, mas caiu em menos de 10 segundos.

Os WTC-5 e WTC-6 registraram violentos incêndios, mais não caíram, apesar de que suas vigas de aço eram muito mais finas que os outros.

Igualmente se considera impossível que fogos de combustível para jato (querosene) elevem a temperatura do aço até o ponto aproximado de fusão. Por último, o professor Reynolds conclui afirmando que a história do governo não tem apresentado importantes restos dos quatro aviões utilizados nos ataques terroristas. A conhecida foto do lugar da queda do vôo 93 em Pensilvânia não mostra a fuselagem nem um motor, nem nada que possa ser reconhecido como resto de um avião; só um buraco fumegante no solo. Não se permitiu que os fotógrafos se aproximassem do buraco, afirmou finalmente».(Granma Internacional)

 


Universidade de Jerusalém receberá estudantes de Nova Orleans

JERUSALÉM - A Universidade Hebraica de Jerusalém anunciou que convidará estudantes de Nova Orleans, cujos estudos tenham sido interrompidos por conta do furacão Katrina. O convite foi feito depois da direção da Universidade Tulane, a maior de Nova Orleans, ter anunciado que não haverá aulas nos próximos meses, por conta dos efeitos do furacão.

De início, 20 estudantes norte-americanos cursarão entre seis meses e um ano na Universidade Hebraica, onde também ficarão alojados. ''Estamos tentando conseguir recursos para aumentar o número de bolsas'', disse Jaime Kapitulnik, reitor da Escola Internacional Rothberg, da Universidade de Jerusalém.

 


Sair de Nova Orleans agora é ordem

Prefeitura começa retirada obrigatória de 10 mil moradores que permanecem na cidade inundada. Idosos são os mais sensíveis

NOVA ORLEANS - Com a inundação retrocedendo a cada instante em Nova Orleans, agora que as bombas de drenagem voltaram a funcionar, o prefeito Ray Nagin ordenou que as forças de segurança e o Exército americano retirem à força os estimados 10 mil habitantes remanescentes na cidade. Segundo Nagin, a medida é pela segurança dos moradores, pois a fétida água nas ruas pode espalhar sérias doenças e há risco de mais explosões e incêndio, devido à presença de gás natural. Mas até a noite, ninguém havia sido retirado de casa. Munidos de paciência, os policiais tentavam convencer as vítimas do furacão Katrina.

- Milhares de pessoas vão sair voluntariamente. Mas quando a boa vontade acabar, vamos nos concentrar na retirada obrigatória - afirmou o chefe da polícia, Eddie Compass.

Um dos moradores convencidos a deixar a área de risco foi Anthony Charbonnet, de 86 anos e aparência frágil. Quando os policiais chegaram, ele trancou a porta da frente da casa onde vivia desde 1955.

- Nunca saí daqui durante toda a minha vida. Não quero sair - dizia, balançando a cabeça negativamente.

Charbonnet só concordou em participar da retirada quando um vizinho lhe garantiu:

- As coisas ficarão bem. Será como férias.

Ainda protestando, o idoso caminhou até a ambulância na qual soldados o levaram para o helicóptero.

Dolores Devron e seu marido, Forcell, seguiram a ordem de Nagin, levando rádio portátil e até o cachorro. Mas estavam furiosos:

- Há bebês mortos amarrados em postes enquanto estão nos arrastando daqui. Vocês estão deixando os bebês para trás. Isso não é certo - gritava Dolores, ao subir no caminhão do Exército.

Picola Brown, de 47 anos, descia vagarosamente a rua, em encontro aos soldados. Ela explicou que não havia obedecido à ordem de evacuação antes porque está com o dedo do pé quebrado.

- O prefeito disse que todos temos que ir embora, e eu vou. Só não quero estes homens batendo à minha porta - disse.

- Para onde você quer ir? - perguntou um recruta.

- Para onde for mais confortável - respondeu Picola.

Martha Smith-Aguillard denunciou que foi levada contra a vontade para um ponto de evacuação, perto do abandonado Centro de Convenções. Durante todo o tempo, ela dizia que estava com um corte no pé e que precisava de uma injeção de antitetânica. Mesmo assim, recusou-se a embarcar no helicóptero do governo.

- Nunca estive em um avião na minha vida. Tenho 72 anos e não vou começar com isso agora - dizia. - Acho que vou ter que morrer, então. Todos vamos morrer e se é chegada a hora da minha partida, que seja aqui em Nova Orleans.

Já a sobrevivente Patricia Kelly resolveu permanecer sentada na frente de uma barbearia abandonada, devastada pela inundação na Ninth Ward. Sua casa está cheia de água e para lá ela não pode voltar. Mas também não quer abandonar a vizinhança:

- Vou ficar enquanto Deus permitir. Se a polícia vier com um mandado judicial, então eu saio. Espero que não chegue ao ponto de ser obrigada.

Em pé em uma esquina, o sargento Joseph Boarman contou que entende a relutância dos moradores em abandonar suas casas:

- Sabemos que é muito difícil deixar o lar, não importa em que condição ele esteja.

E à medida que o tempo passa, a enormidade do desastre fica mais visível. A deputada de Louisiana Nita Hutter revelou ontem que 30 pessoas morreram em um asilo inundado em Chalmette, nos arredores da cidade. Segundo a política, os empregados deixaram os residentes mais idosos nas camas. Outras 100 pessoas morreram em uma plataforma de um depósito, enquanto esperavam um barco de resgate, contou o deputado Charlie Melancon, cujo distrito congressional inclui Chalmette.

Além da devastação causada pelo Katrina, os americanos estão furiosos também com a resposta do governo do presidente George Bush à crise humanitária. Segundo uma pesquisa Gallup/CNN/USA Today divulgada ontem, 42% da população reprovam a gestão de Bush, enquanto 35% apóiam. Duas pessoas em cada 10 (21%) não consideram a gestão de crise nem boa nem ruim.

Interrogados sobre quem é o principal responsável pelos problemas oriundos do furacão em Louisiana, 38% responderam que ''ninguém é culpado''. Outros 25% dos entrevistas acham que a culpa foi das autoridades locais, e 18% acreditam que foram os organismos federais. Bush aparece em terceiro lugar, sendo apontado como culpado por 13% das pessoas.

Outro dado relevante é que 65% não acredita que Nova Orleans vá se recuperar da tragédia.

 


Nova Orleans: apartheid nos EUA 

“As árvores sulistas suportam estranhos frutos

Sangue dos abandonados, sangue dos extirpados

Corpos dos negros balançam na brisa sulista

Estranho fruto pendurado nas árvores(...)”

(Siouxsie e Banshees)

 

Os acontecimentos nos EUA nas últimas semanas com a catástrofe do furacão Katrina que deixou milhares de mortos no sul do país nos remete ao debate da separação racial imputado na conta dos mortos. Não foram os ricos os devastados, os que choram as perdas e os abandonados pelo governo.

A imagem dos corpos que ainda boiam nas águas sujas de Nova Orleans e as lágrimas da gente sofrida de lá têm cor: são negros na maioria, hispânicos e todos pobres. São as pessoas que não puderam sair do caminho do furacão porque não tinham recursos e o governo não propiciou condições mínimas de sobrevivência. Justamente o país de maior acúmulo científico e de tecnologia sequer superou as dificuldades naturais de seu próprio território. Diversos avisos foram dados, a rota do furacão foi traçada, sabiam que uma tragédia estava por acontecer.

Esta triste situação nos remete a duas considerações básicas: a primeira é que catástrofes naturais não justificam mais a morte de milhares de pessoas e segundo, os EUA está nu em sua farsa de país avançado.

Neste ano já vimos uma catástrofe natural de grandes proporções que chocou o mundo, o tsunami na Ásia, que varreram países e matou centenas de milhares de pessoas. Este acontecimento poderia ser evitado se houvesse monitoramento disponível para os países pobres da região e se os grandes centros de controle naturais (inclusive os situados nos EUA) tivessem informado com antecedência. Em Nova Orleans parecia a crônica de mortes anunciadas porque todos sabiam o tamanho da força natural que se aproximava. Portanto, não foi um acidente, algo imprevisível da natureza, uma catástrofe qualquer.

Os EUA estão desmoralizados nos cuidados de seu povo, no mundo todo foram vistos a parcela da sociedade menosprezada pelos ricos anglicanos. Trabalhadores, jovens, donas de casa, gente pobre e honesta. Qual a resposta do governo conservador de George Bush? A primeira resposta foi o nada, os pobres minguaram na miséria da ausência de água e comida, ilhados numa cidade inundada. A segunda resposta foi o envio de tropas para restabelecer a ordem. Qual ordem? A dos cidadãos fragilizados pelas dificuldades da tragédia? Não, a preservação da propriedade privada que estavam sendo saqueadas, por pessoas que se aproveitavam da situação, mas também por gente faminta e desesperada. O decreto foi dado: atirar para matar os saqueadores.

A inundação de Nova Orleans se deu pelo rompimento de diques de contenção de águas do rio e do mar causados pela força do furacão. O que não foi dito é que a preservação dos diques, já antigos, poderiam diminuir os estragos e até conter as águas. Isto não foi feito porque as verbas destinadas para manutenção foram desviadas para a guerra do Iraque. Aí está a prioridade do governo Bush, a guerra.

Essa gente pobre e sofredora são a imagem do pobres do Brasil ou da África, esmagados por um sistema egoísta e injusto. Se não matam nas prisões ou na repressão, o fazem na fome e nas desgraças coletivas.

Neste momento é oportuno lembrar as belas canções dos negros norte-americanos que lidam em suas letras da necessidade de denunciar e conscientizar sobre as dificuldades e injustiças que o proletariado sofre. E uma das mais belas canções foi interpretada por Billie Holliday, chamada “Strange Fruit” ou “Estranho Fruto” sobre a opressão contra os negros nos EUA.

As opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do Vermelho.

 


PÓS-KATRINA

Como o livre mercado matou Nova Orleans

A cidade após o ciclone: cada um por si... e a mão invisível?

Por Michael Parenti *

O livre mercao jogou um papel crucial na destruição de Nova Orleans e na morte de milhares de seus moradores. Informados com antecipação de que um colossal furação (de força 5) iria se abater sobre a cidad e seus arredores, o que fizeram as autoridades? Puseram em jogo o livre mercado.

Anunciaram que todos deviam sair da cidade. Esperava-se que cada um providenciasse a sua própria evacuação por meios privados, tal como dita o livre mercado, e da mesma forma que acontece quando o desastre atinge os países de livre mercado do Terceiro Mundo.

 

Os mistérios da mão invisível

É uma belíssima coisa, esse livre mercado, em que cada indivíduo pesrsegue seus próprios interesses pessoais e o resultado é ótimo para a sociedade inteira. É assim que a mão invisível de Adam Smith opera os seus mistérios.

Ali não haveria nenhuma evacuação "coletivista e obrigatória", como aconteceu em Cuba. Euando um ciclone de excepcional violência golpeou aquela ilha no ano passado, o governo de Fidel Castro, apoiado pelos Comitês Populars e quadros locais do Partido Comunista, evacuou 1,3 milhão de pessoas, mais de 10% da população do país. Os cubanos perderam 20 mil casas com aquele furacão, mas não perderam uma só vida: uma proeza alentadora, que passou praticamente inadvertida pela imprensa estadunidense.

 

Se não se foram, são "cabeças-duras"?

No Dia Um do desastre causado pelo furacão Katrina já ficou claro que centenas, talvez milhares de vidas americanas tinham sido perdidas em Nova Orleans. Muita gente "se negara" a deixar a cidade, explicavam os repórteres, simplesmente porque eram "cabeças-duras".

Foi apenas no Dia Três que os comentaristas começaram a registrar prudentemente que dezenas de milhares de pessoas deixaram de escapar porque não tinham lugar algum para onde ir e nem recursos para partir. Sem dinheiro no bolso nem um automóvel que fosse seu, tinham sido obrigados a ficar e esperar pelo melhor. No final das contas, o livre mercado não trabalhou tão bem para eles.

Muitas dessas pessoas eram negros americanos de baixa renda, assim como um número melhor de brancos pobres. Deve ser recordado que na maioria eles tinham algum emprego antes da fatal visita do Katrina. Faziam o que a maior parte do povo pobre faz neste país: trabalhavam, em geral bastante duro e por uma paga mesquinha, às vezes em mais de um emprego ao mesmo tempo. Eles não são pobres por serem preguiçosos, mas porque dão duro para sobreviver em ofícios da pobreza, enquanto são sobrecarregados pelos altos preços, os altos aluguéis e os impostos regressivos.

 

"Ninguém podia prever"?

O livre mercado também jogou seu papel em outros sentidos. A agenda de Bush consiste em reduzir os gastos públicos até o osso e fazer com que as pessoas recorram ao setor privados para as coisas de que possam precisar. Assim, ele cortou US$ 71,2 milhões do orçamento do Corpo de Engenheiros de Nova Orleans, uma redução de 44%. Planos de reforço das barragens da cidade e modernizar o sistema de bombeamento tiveram que ser arquivados.

O pessoal do Corpo de Engenharia do Exército tinha começado a comstruir novas barragens muitos anos atrás, poderém muitos deles foram retirados desses projetos e enviados ao Iraque. Ademais, o presidente cortou US$ 30 milhões das verbas para controle de enchentes.

Bush sobrevoou a área ("Bom-dia América", 1º de setembro) e disse que "eu não penso que ninguém tenha previsto o rompimento das barragens". Foi apenas mais uma inverdade a sair de seus lábios. A catastrófica inundação de Nova Orleans tinha sido antecipada por peritos em tempestades, engenheiros, jornalistas da Louisiana e autoridades governamentais, e mesmo por algumas agências federais. Todo tipo de pessoas anunciou o desastre, durante anos, apontando para o perigo dos níveis crescentes das águas, para a necessidade de reforçar as barragens e bombas e de fortificar toda a linha litorânea.

 

As imobiliárias e os mangues

Em sua campanha de sucateamento do setor público, os reacionários bushistas também permitiram que empresas imobiliárias drenassem extensas áreas de mangue. Mais uma vez, a velha mão invisível do livre mercado iria cuidadr de tudo. As imobiliárias, perseguindo seu próprio lucro privado, produziriam realizações que a todos beneficiariam.

Mas os mangues serviam como uma barreira protetora natural entre Nova Orleans e as tempestades vindas do mar. E por anos e anos eles foram desaparecendo da Costa do Golfo, num ritmo aterrorizante. Mas nada disso estava na pauta das preocupações dos reacionários da Casa Branca.

 

Pat Robertson e sua "Operação da Bênção"

Quanto à operação de salvamento, os adeptos do livre mercado gostam de dizer que a proteção dos mais desafortunados compete à caridade privada. Era esta a prédica favorita do ex-presidente Ronald Reagan: que "a caridade privada pode fazer as coisas". E durante os primeiros dias essa parece ter sido a política face ao desastre causado pelo Katrina.

Ninguém via o governo federal, quem entrou em ação foi a Cruz Vermelha. A mensagem desta: "Não envie comida nem cobertores; envie dinheiro". O Exército da Salvação também começou a mobilizar suas idosas tropas. Entrementes, Pat Robertson e sua Christian Broadcasting Network — fazendo uma pequena pausa em sua divina obra de fomentar a nomeação de John Roberts para a Corte Suprema — pediram donativos e anunciaram a "Operação da Bênção", que consistiu em um carregamento de alimentos em conservas e bíblias, muita publicidade e nenhuma adequação.

No Dia Três, mesmo a mídia míope começou a se dar conta do imenso fracasso da operação de salvamento. Gente morria porque a ajuda não chegava. As autoridades pareciam mais preocupadas com os saques que com a população flagelada, mais empenhadas no "controle das multidões", que consistia em encurralar as pessoas aos milhares em áreas abertas, privadas de abrigo, e impedir que elas as deixassem.

 

Onde estava a Segurança Interna

Surgem então indagações que o livre mercado é incapaz de responder: Quem era responsável pela operação de salvamento? Por que tão poucos helicópteros e apenas uns poucos recursos dispersos da Guarda Costeira? Por que um helicóptero levava cinco horas para levar seis pessoas a um hospítal? Quando a operação de salvamento entraria em plena atividade? Onde estavam os Feds (agentes do FBI)? As tropas estaduais? a Guarda Nacional? Onde estavam os ônibus e caminhões? E as barracas e banheiros portáteis? E os suprimentos médicos? E a água?

E onde estava a Segurança Interna (super-agência criada por Bush após o 11 de Setembro)? O que a Segurança Interna fez com US$ 33,8 bilhões destinados a ela no ano fiscal de 2005?

 

Deliciosa e ironia

No Dia Quatro, quase toda a grande mídia estava reportando que a resposta do governo federal era "uma tragédia nacional". Entretanto, George W. Bush finalmente fazia sua aparição para as fotos, em uma área flagelada escolhida a dedo, antes de voltar ao seu golfe.

Em uma tirada de deliciosa (e talvez maliciosa) ironia, ofertas de ajuda externa foram feitas pela França, Alemanha, Venezuela e muitas outras nações. A Rússia se ofereceu para enviar dois aviões com comidas e outros auxílios às vítimas. Cuba — uma recordista no envio de médicos a dezenas de países, inclusive um grato Sri Lanka durante o desastre do Tsunami — ofertou 1.100 doutores. Previsivelmente, todos os oferecimentos foram rispidamente recusados pelo Departamento de Estado.

A América, a Bela e Poderosa, a América, Suprema Salvadora da Prosperidade Global não poderia aceitar ajuda dos outros. Seria a mais humilhante e insultante inversão de valores. Estariam os franceses desejosos de um outro soco nas ventas? Estariam os cubanos tramando mais um de seus velhos truques subversivos?

 

Bush "não cuida da sua gente"?

Além do mais, aceitar ajuda externa seria admitir a verdade: que os reacionários bushistas nunca tiveram nem a vontade nem a decência de cuidar do cidadão comum — nem mesmo em condições tão extremas.

Recentemente eu ouvi alguém que se queixava: "Bush está tentando salvar o mundo quando não conseguimos nem cuidar da nossa gente aqui em casa". Não é bem assim. Ele com certeza cuida muito bem da "sua gente", essa reduzida fatia de 1%, os super-ricos. Acontece apenas que o povo trabalhador de Nova Orleans não se inclui entre eles.

* Escritor americano, PhD pela

Universidade de Yale, autor do livro "Superpatriotismo", entre outros

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