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10 de setembro de 2005
Tragédia nos EUA VII
SUMÁRIO
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Achados 32 cadáveres em um asilo de anciãos em Nova Orleans
Começa a briga por avaliações de danos e pelas indenizações
Diretor da Fema é afastado dos trabalhos de emergência
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Falhas deixam ajuda parada em base aérea no Arkansas
O Katrina e o modelo perverso do governo O
Papai Noel dos milionários...
... e
o Robin Hood ao contrário
O
necessário papel do governo
Órgão da Otan inicia apoio logístico para operação de ajuda
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Achados 32 cadáveres em um
asilo de anciãos em Nova Orleans
• Enviadas para a zona do desastre 25
mil bolsas para o deslocamento dos corpos • Popularidade de Bush atinge mínimo
histórico
NOVA
ORLEANS .— O achado de mais de 30 cadáveres em um asilo de anciãos em um subúrbio
da devastada Nova Orleans é um presságio do que está por acontecer, à medida
que continue a evacuação, e as águas contaminadas que inundam a cidade desçam,
por causa do furacão Katrina, informou a AFP.
Aproximadamente
32 pessoas que estavam no asilo de anciãos do subúrbio St. Bernard morreram em
29 de agosto, quando Katrina açoitou a costa estadunidense sobre o Golfo do
México, informou o The Nwe York Times.
O
comissário de St. Bernard, Jack Stevens, disse à CNN que os cadáveres foram
achados na quarta-feira passada, 7, e acrescentou que entre 40 e 50 pessoas
foram resgatadas com vida do prédio.
Quando
ainda as autoridades não tenham dado uma cifra final dos mortos, estima-se que
no mínimo poderiam ser 10 mil. Funcionários anunciaram que 25 mil bolsas para
cadáveres foram enviadas para a zona do desastre.
Enquanto
soldados e policiais autorizados a utilizarem a força com os residentes de Nova
Orleans que resistem a abandonar a cidade têm a missão de evacuar entre 10 mil
e 15 mil pessoas que ainda permanecem no lugar, o governo dos EUA enfrenta
fortes críticas pelo pouco controle da situação.
A
agência AFP assinalou que 10 dias depoiTs da tragédia centenas de corpos
estavam sendo recuperados das ruas e casas apanhadas pelas cheias, enquanto se
intensifica uma operação em massa para bombear as águas contaminadas de Nova
Orleans que poderia demorar três meses.(Tribuna da Imprensa)
Ex-secretário Colin Powell
critica Bush
NOVA
YORK (EUA) - O ex-secretário de Estado Colin Powell se somou às duras críticas
sobre a resposta dada pela administração Bush e todos os níveis de Governo à
crise gerada pelo furacão Katrina, afirmando que "muitos erros" foram
cometidos em todos os níveis do Governo. Powell, o negro em mais alto cargo no
primeiro mandato do presidente George W. Bush, também disse não acreditar que
racismo tenha sido um fator para que houvesse uma lenta entrega de ajuda às
vítimas do furacão, a maioria constituída de negros.
A
lentidão no processo de resgate e ajuda às vítimas foi uma das acusações
generalizadas contra o Governo e sua gestão da crise deixada pelo furacão, que
assolou os Estados de Louisiana, Mississippi e Alabama, e deixou centenas de
mortos. "Acho que houve um monte de erros em muitos níveis - local,
estadual e federal. Houve advertências mais do que suficiente durante muito
tempo sobre os perigos para Nova Orleans. Não foi feito o suficiente",
disse Powell numa entrevista à Barbara Walters, da rede ABC.
"Não
acho que foi aproveitada a vantagem do tempo que estava disponível para nós, e
não sei porquê", afirmou Powell, que recentemente visitou desabrigados
pelo furacão no Reunion Arena, em Dallas. "Não acho que o racismo foi um
fator, penso que a questão é econômica", opinou. "Quando você olha
para aqueles que não foram capazes de sair, fica óbvio para todos que quando
você anuncia uma evacuação mandatória, você não pode esperar que todos saiam
por conta própria.
"Essas
são pessoas que não têm cartão de crédito; apenas uma em 10 famílias nesse
nível econômico em Nova Orleans tem carro. Então, não foi uma questão racial -
mas a pobreza afeta desproporcionalmente os afro-americanos neste país. E isso
ocorreu porque eles são pobres", acrescentou.
Na
entrevista, Powell também considerou que sua apresentação de um relatório antes
da guerra no Iraque nas Nações Unidas acusando o governo de Saddam Hussein de
ter armas de destruição em massa era uma "mancha permanente" em seu
currículo. "Fui eu quem o apresentou em nome dos Estados Unidos para o
mundo", disse, acrescentando que a apresentação "sempre fará parte do
meu currículo".
Questionado
sobre quão doloroso isso foi para ele, Powell respondeu: "Foi doloroso. É
doloroso hoje." Perguntado sobre como se sentiu ao saber que havia sido
enganado sobre a exatidão da informação sobre a qual estava se apoiando, Powell
disse: "Terrível". Ele acrescentou que foi "arrasador"
saber mais tarde que alguns agentes sabiam que a informação não era confiável,
mas nada falaram. Indagado se lamentava seu apoio à guerra do Iraque, reagiu:
"Quem poderia saber que iria dar essa confusão?"
Nos
últimos dias, o nome de Powell - junto com o de personalidades como Rudolph
Giuliani, que era prefeito de Nova York quando ocorreram os atentados de 11 de
setembro de 2001 - ganhou força como possível candidato para coordenar todas as
tarefas de ajuda a longo prazo.
Os
senadores republicanos Kay Bailey Hutchison e Rick Santorum pediram a Bush
diretamente a criação desta função, uma espécie de
"coordenador-geral" dos esforços, em uma tentativa de aplacar as
críticas contra o Governo. A Casa Branca afirmou que não descarta a
possibilidade, mas, por enquanto, garante que nenhum nome está sendo analisado.
(Tribuna da Imprensa)
Uma empresa norte-americana de gerenciamento
de risco elevou para pelo menos US$ 125 bilhões sua estimativa de danos
econômicos causados pela passagem do furacão Katrina. De acordo com a companhia
Risk Management Solutions, da Califórnia, a indústria de seguros poderá arcar
com até US$ 60 bilhões dessa conta.
A Risk Management Solutions (RMS) informou
que a elevação da estimativa reflete parcialmente os danos causados pelas
enchentes em Nova Orleans. "Pelo menos metade do total dos prejuízos
causados pelo furacão Katrina pode ser esperada pelos alagamentos na região da
Grande Nova Orleans", prosseguiu a companhia.
Por meio de um comunicado, a RMS enfatizou
que "as perdas econômicas resultantes do fechamento do comércio e do
deslocamento de moradores são altamente dependentes das enchentes e da
conseqüente contaminação". O novo relatório calcula que a indústria dos
seguros terá de arcar com uma conta que varia em uma faixa que vai de US$ 40
bilhões a US$ 60 bilhões.
O relatório anterior da RMS calculava os
prejuízos totais em US$ 100 bilhões e estimava que as companhias de seguro
teriam gastos que variariam de US$ 20 bilhões e US$ 35 bilhões para ressarcir
seus clientes.
O secretário do Tesouro dos EUA, John Snow,
afirmou que ainda é cedo para saber qual será o custo do Katrina para o governo
dos EUA, mas afirmou que o desastre natural vai elevar os gastos federais
também ao longo de 2006.
"Ainda é muito cedo para se
avaliar", declarou Snow, quando lhe perguntaram sobre as estimativas de
que os custos com o desastre vão exceder US$ 150 bilhões. No entanto, ele
afirmou que não estava surpreso quanto ao fato de os custos continuarem
subindo. "A escala do desastre é enorme", comentou. (Tribuna da
Imprensa)
O custo dos estragos causados pelo furacão
Katrina, que, segundo as previsões, poderia passar de US$ 125 bilhões, ameaça
aumentar diante do surgimento de novos setores que pleiteam sua parte da ajuda.
Até agora, nem a Casa Branca nem o Congresso se mexeram para aprovar os
primeiros fundos de emergência destinados aos desabrigados pelo furacão, que já
superam US$ 62 bilhões.
No entanto, à medida que se começa a
organizar a reconstrução da área devastada, surgem pedidos de dinheiro, não só
dos estados atingidos, mas também dos vizinhos que deram cobertura aos
refugiados e até mesmo de grupos industriais que começam a sentir os prejuízos.
Os principais responsáveis pelo Governo já
chegaram à área para reunir dados de primeira mão e começar a preparar
avaliações de danos. É o que iria fazer ontem a equipe econômica da
Administração, coordenada pelos secretários de Comércio, Carlos Gutiérrez, e de
Trabalho, Elaine Chao.
Outro custo a acrescentar será o atendimento
médico de milhares de pessoas com problemas psicológicos gerados pela tragédia,
a ampliação do Medicaid, o programa de assistência a famílias com poucos
recursos, e a ajuda a estudantes deslocados. Os proprietários das casas
destruídas e dos estabelecimentos comerciais que se viram forçados a fechar
também vão reivindicar sua parte das indenizações.
O mesmo ocorre com as empresas de outros
estados que utilizam o porto de Nova Orleans para distribuir seus produtos, e
com as companhias aéreas, que já pediram ao Governo que reduza as cargas
tributárias do combustível em US$ 600 milhões.
Diante da enxurrada de pedidos, alguns
dirigentes políticos já alertam sobre o risco de fraude em torno do desembolso
de milhões de dólares diários, e aconselham o Governo a pôr ordem e não se
limitar a dar cheques em branco. Pior ainda é a situação que se aproxima
processo de concessões para a reconstrução de estradas, pontes e outras
infra-estruturas. O secretário do Tesouro, John Snow, afirmou, em declarações à
televisão Cnbc, que as ajudas devem ser feitas "de maneira fiscalmente
responsável (...) e que haverá muitas tensões no processo de concessão".
Alguns começam a temer inclusive a
possibilidade de que o Governo, com tanto desembolso, sinta-se tentado a
aumentar os impostos, uma opção que, no entanto, Cheney descartou. Os
congressistas também começam a falar da necessidade de controlar a despesa,
mas, como sempre, não chegam a um acordo. Para o republicano Mike Pence,
"o Congresso deve impedir que uma catástrofe natural se transforme em uma
catástrofe de dívida para nossos filhos e netos".
O senador republicano Tom Coburn disse, por
sua vez, que aprovar US$ 51,8 bilhões de ajuda anteontem "foi realmente um
roubo a nossos netos, porque não temos o dinheiro". Os democratas,
enquanto isso, advertem do perigo de que o dinheiro dos cofres públicos seja
canalizado mediante a Agência Federal de Gestão de Emergências (Fema), alvo de
todo tipo de críticas pela forma como respondeu ao desastre.
O líder da minoria democrata no Senado, Harry
Reid, questionou: "Após o que vimos na semana passada, há alguém nos EUA
que ainda acha que devemos confiar na Fema para dirigir a resposta federal a
esta tragédia?" O senador republicano David Vitter apóia certas garantias
para evitar que se assinem cheques a torto e a direito, mas insiste que é
necessário um compromisso total com a reconstrução. O mais otimista parece ser
o presidente George W. Bush, que afirmou onteme que os Estados Unidos
"podem superar qualquer desafio" porque têm os recursos e a
determinação para isso. (com agências internacionais)
BRUXELAS - O Conselho Atlântico, o principal órgão político da
Otan, decidiu ontem mobilizar os meios logísticos e de transporte naval e aéreo
necessários para fazer chegar aos Estados Unidos a ajuda destinada aos
desabrigados pelo furacão Katrina.
"Os aliados da Otan aprovaram uma
operação naval, com elementos aéreos, para levar provisões de emergência da
Europa para os EUA a fim de ajudar este país a se recuperar do furacão
Katrina", anunciou à imprensa o secretário-geral da organização, Jaap de
Hoop Scheffer.
Trata-se, por um lado, de "dois ou três
navios" de transporte de veículos pertencentes ao componente naval da
Força de Resposta da Otan (NRF), com uma capacidade total de carga para 600
grandes caminhões com reboque. Por outro lado, a Aliança ofereceu vários
aviões, embora o secretário-geral não tenha especificado seu número exato.
Fontes aliadas disseram que se trata de aparelhos Boeing 707 que fazem parte da
frota de aviões-radar Awacs da organização, mas que são utilizados normalmente
para treinamento e que podem ser adaptados para o transporte de carga.
EFE
JACKSONVILLE (EUA) - Equipes federais de socorro estão enviando ajuda
humanitária a regiões que não precisam de auxílio, revelou um oficial da Força
Aérea dos Estados Unidos. Persistentes problemas de comunicação têm causado
atrasos que mantêm cargas e cargas de ajuda internacional às vítimas do furacão
Katrina paradas numa base da Força Aérea dos EUA no Estado norte-americano de
Arkansas.
Motoristas de caminhões civis contratados
para transportar cargas de ajuda humanitária aos Estados de Louisiana e
Mississippi foram enviados a localidades que não eram carentes de ajuda ou que
não estavam preparadas para receber os suprimentos, disse o sargento Bret
Archbold, supervisor da distribuição da ajuda procedente do exterior na Base da
Força Aérea de Little Rock, em Jacksonville.
"Agora estamos com a ajuda parada aqui
porque os caminhões deveriam desempenhar duas missões por dia, mas a maioria
saiu há dois dias e não voltou ainda", relatou Archbold. O major John
Thomas, porta-voz de uma força-tarefa conjunta dos Governos federal e estadual
em Baton Rouge, Louisiana, também disse ontem que um centro de distribuição de
ajuda no Estado tem enfrentado problemas ocasionais no que diz respeito ao
envio de ajuda a lugares que não precisam.
Ainda de acordo com ele, algumas tentativas
de contornar trâmites burocráticos têm causado confusão sobre o paradeiro de
algumas cargas. Archbold revelou que parte da ajuda britânica em alimentos
recebida na quarta-feira a bordo de um avião russo está retida em Arkansas por
causa de preocupações com a qualidade da carne.
Segundo ele, a Agência Federal de
Gerenciamento de Situações Emergenciais (Fema, por suas iniciais em inglês)
está à espera de aprovação do Departamento de Estado para enviar a carne
britânica à Louisiana. Christian Sharpless, porta-voz da chancelaria britânica,
disse ter sido informado sobre a retenção da carne, mas as autoridades
norte-americanas não disseram se a preocupação delas é com a doença da vaca
louca, que não afeta animais na Grã-Bretanha desde 1986.
Em Arkansas, os motoristas que conseguiam
retornar à base aérea contavam histórias desoladoras de busca por agentes
humanitários capazes de armazenar e distribuir a ajuda. O caminhoneiro Cheryl
Neil relatou ter feito três paradas antes de finalmente encontrar um galpão da
Cruz Vermelha e conseguir entregar a ajuda. (com agências internacionais)
O diretor da Agência Federal de Gestão de
Emergências (Fema), Michael Brown, foi afastado ontem da coordenação dos
trabalhos de emergência na área devastada pelo furacão Katrina. Seu sucessor
será o vice-almirante e chefe de Pessoal da Guarda Costeira, Thad Allen,
nomeado "principal responsável federal" pelas tarefas de emergência,
anunciou em entrevista coletiva o secretário de Segurança Nacional, Michael
Chertoff. Até agora, Allen estava encarregado de coordenar os trabalhos de resgate
e ajuda na cidade de Nova Orleans.
Chertoff disse que tinha pedido a Brown, alvo
de críticas pela má gestão da resposta federal ao desastre, que retornasse a
Washington, onde continuará como diretor da Agência Federal. Segundo o
secretário de Segurança Nacional, "pedi a Mike Brown que volte a
administrar a Fema em nível nacional".
Todas as críticas se dirigiam contra ele
desde o primeiro momento pela lentidão da resposta governamental a uma
catástrofe de tamanha dimensão e por sua inexperiência neste campo. Os democratas
estavam há dias pedindo sua renúncia porque, segundo alguns, está à frente da
Fema por "amizade", ou seja, por ser um simpatizante político do
presidente George W. Bush.
Seu afastamento acontece apenas uma semana
depois que o próprio presidente dos Estados Unidos elogiou publicamente seu
trabalho. "Brownie estás fazendo um trabalho tremendo", disse então,
carinhosamente, Bush. A polêmica em torno dele aumentou por causa de uma
informação publicada pela revista "Time", segundo a qual o diretor da
Fema tinha menos experiência nesse campo do que se tinha afirmado e o que se
apresentou em sua biografia oficial como um posto de direção no setor da gestão
de desastres, foi de fato um de menos responsabilidade.
A Fema é o órgão do Governo encarregado de responder
a catástrofes de grandes dimensões e desde a passagem doe Katrina, que em 29 de
agosto assolou Mississippi, Louisiana e Alabama, recebeu um vendaval de
críticas sobre sua lentidão em atender os atingidos.
Na troca de acusações desencadeada após a
passagem do furacão Katrina, vem ficando claro que os principais responsáveis
pela assistência às vítimas tinham pouca experiência neste campo, mas sim
muitas conexões políticas.
A resposta ao desastre desagradou a maioria
dos norte-americanos, que, segundo as pesquisas, acham que o presidente George
W. Bush deveria ter feito mais, e boa parte do Congresso - democratas e
republicanos - pede a cabeça de alguns.
A maioria dos dirigentes da Administração
Federal para a Gestão de Emergências (Fema), órgão encarregado de ajudar os
desabrigados pelo furacão Katrina, careciam de experiência na gestão de
desastres, segundo o jornal "The Washington Post". O jornal afirma
que cinco dos oito principais gerentes da Fema eram praticamente inexperientes
e despreparados para decidir o que fazer diante de desastres naturais. No
entanto, todos tinham conexões políticas com o presidente dos Estados Unidos,
George W. Bush.
O "Post" revela que três dos
principais dirigentes da Fema - seu diretor, Michael Brown; o diretor de
gabinete, Patrick Rhode, e o subdiretor de gabinete, Brooks Altshuler -
chegaram a suas funções após terem participado da campanha presidencial de Bush
em 2000 ou por terem laços com a Casa Branca.
Outros dois dirigentes do órgão são um
ex-vice-governador republicano de Nebraska e um ex-funcionário da Câmara de
Comércio dos EUA que já se dedicou à política, acrescenta o jornal.
Especialistas independentes, com ampla experiência, foram demitidos nos últimos
dois anos, segundo o "Post".
As autoridades disseram ontem que, por
enquanto, não foi encontrada em Nova Orleans a quantidade de corpos que
esperavam achar após a passagem do furacão Katrina. Terry Ebbert, chefe do
Departamento de Segurança Nacional da Louisiana, disse ontem que as primeiras buscas
feitas na cidade visando a encontrar cadáveres indicam que a cifra de mortos em
decorrência da catástrofe "não será tão alta como se previa".
As autoridades, entre elas o prefeito de Nova
Orleans, Ray Nagin, tinham estimado que o número de mortes nesta cidade poderia
chegar a 10 mil. As equipes de resgate estiveram até agora imersas em uma dupla
tarefa: por um lado tinham que persuadir todos a sair da cidade e a evitar
doenças e, por outro, precisam recuperar cadáveres. "Os números (de
mortos) são, até agora, menores, em comparação com as projeções feitas de cerca
de 10 mil", disse Ebbert.
Atualmente, as equipes de resgate têm um
total de 25 mil sacos para cadáveres para o caso de haver uma localização
maciça de corpos à medida que forem avançando as tarefas de drenagem da cidade.
Ebbert ressaltou também que as tarefas de recuperação de cadáveres estão sendo
feitas "com dignidade" e com o objetivo de não ferir a sensibilidade
de ninguém.
Obviamente o presidente Bush não é culpado
pela chegada do furacão Katrina. As forças da Natureza o enviaram, como tinham
desencadeado pouco antes o tsunami da Ásia. Mas a contribuição do modelo
perverso defendido pelo governo Bush para a extensão trágica dos efeitos do
furacão também é óbvia - e tem sido analisada como tal pelas pessoas de bom
senso, desde o início do desastre.
No próprio momento em que o governo dedica-se
à operação de controle de danos ("relações públicas", nada mais), na
esperança de reabilitar sua imagem e a do presidente perante o público interno
e externo, aparecem complicadores para subverter o esforço liderado pelo
marqueteiro oficial Karl Rove. Um dos complicadores atuais é o corte de US$ 10
bilhões no programa Medicaid, de assistência médica aos pobres.
Claro que os americanos e o resto do mundo
não entenderiam, em momento como esse, a redução de US$ 10 bi nos recursos
previstos para fins tão necessários e nobres. Assim, ante a ameaça de um
desastre de relações públicas, os republicanos do Congresso foram instruídos às
pressas a retardar a votação do corte. Retardar, apenas. A aprovação do corte
virá fatalmente quando a tragédia sair das manchetes.
Na tragédia fica mais fácil perceber o
caráter perverso e a total insensibilidade do atual governo dos EUA. Nos seus
quatro anos e meio na Casa Branca, Bush ampliou largamente a distância entre
ricos e pobres, fez crescer insolitamente a população abaixo da linha da
pobreza, enfraqueceu brutalmente os sindicatos e aumentou em milhões a
população não coberta por qualquer plano de saúde.
Tudo isso sem falar na tentativa do
presidente de transferir para contas privadas (a fim de injetar indiretamente
mais recursos no mercado de ações, onde bolhas como a da internet empobrecem
pequenos investidores e ampliam o ganho de especuladores e manipuladores) parte
dos recursos do Social Security - o histórico programa criado pelo presidente
Franklin Roosevelt e odiado pela elite financeira.
A justificativa para o corte de verbas de
programas sociais é a necessidade de reduzir o déficit monumental de Bush, que
recebeu o governo com superávit do seu antecessor democrata Bill Clinton. E a
razão do déficit, além das centenas de bilhões de dólares enterrados nas guerras
de Bush, é o generoso corte de impostos com que o presidente, como um Papai
Noel, presenteou a camada mais rica da população.
Para gastar bilhões em guerras e no presente
insólito dado aos ricos - não por acaso, os mesmos que financiaram suas
campanhas eleitorais - Bush e sua gente têm de fazer "ajustes"
orçamentários. Assim, optaram por reduzir a um quarto os recursos previstos
para enfrentar desastres naturais como o furacão Katrina e planejaram o corte de
US$ 10 bi nas verbas para a assistência médica aos pobres.
Nem a tragédia de Nova Orleans - que no
balanço final, quando a água baixar, pode totalizar sete vezes mais mortes do
que o 11/9 - faz os republicanos desistirem de reduzir o Medicaid. O presidente
da Comissão de Orçamento da Câmara, Jim Nussle, sintetizou a obsessão dele e da
maioria republicana: "Não estamos cortando o Medicaid. Estamos reformando
o governo".
Ou seja, reformar o governo, para Bush e sua
turma, é aplicar a receita do Robin Hood ao contrário, tão cara ao
neoliberalismo - tirar dos pobres para dar aos ricos. Para essa gente, os
inimigos da responsabilidade fiscal são os pobres que a política perversa
fabrica em toda parte (a imagem deles em Nova Orleans escandalizou o mundo).
Por isso cortam programas sociais, assistência à saúde, projetos sanitários,
etc.
O governo Bush e sua base parlamentar não
desistem de esvaziar o Medicaid. Como uma medida assim, neste momento, serviria
para escancarar a perversidade, escandalizando Deus e o mundo, resolveram adiar
a votação no Congresso. Mas ela virá inevitavelmente depois - apesar dos
protestos de dois senadores republicanos, Olympia Snowe e Gordon Smith, que
insistem num "adiamento indefinido".
A maioria republicana é esmagadora na Câmara
e no Senado, dois ou três dissidentes não vão fazer diferença. No fundo a
questão foi corretamente diagnosticada por Paul Krugman, o economista de
Princeton que se tornou duro crítico do governo Bush no "New York
Times": não é só o despreparo do presidente, é a hostilidade ideológica à
própria idéia de usar o governo para servir ao bem público.
A direita republicana dos neoconservadores e
dos teocráticos (evangelistas do tipo Pat Robertson & Jerry Falwell), que
durante um quarto de século vêm denegrindo o setor público, nunca entenderá que
governos têm papel relevante a desempenhar - e que a redução obsessiva do
tamanho do governo, além de nada resolver, só agrava ainda mais os problemas.
Essa a grande lição do atual fracasso de Bush.