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11 de setembro de 2005
Tragédia nos EUA VIII
Tragédia de Nova Orleans:
Cochilo de Bush ou uma volta a mais no torniquete do neoliberalismo?
por Luciano Alzaga [*]
À medida que passam os dias, aumenta a
incompreensão, dentro e fora dos Estados Unidos, diante dos efeitos do furacão
Katrina. Como é possível que o país mais poderoso do planeta tenha respondido
tão lenta e precariamente frente a um fenômeno natural? Por que somente quatro
dias depois é que começaram a tomar algumas tímidas medidas de socorro?
De uma vez por todas, por que o império mais forte de que se tem notícia, que
não permite que seus soldados sejam sequer julgados em outros países, permitiu
que desmorone de forma tão lamentável sua imagem imperial? Foi desprezada
aquela cultura, construída pacientemente durante anos, que nos ensinava que na
"America" (sem acento) não acontecem tais coisas. Essas imagens de
negros pobres, mal vestidos, arrastando seus escassos pertences com a água na cintura
e com cara de desesperança, parecem provir do Haiti, ou da África, nunca da
"America".
Somente quando as previsões de que o furacão "Katrina" entraria no
território norte-americano pela costa sul com ventos arrasadores não deixavam
mais nenhuma margem de dúvida, foi que o presidente Bush, sem interromper suas
férias, fez um comunicado. Foram dois conselhos básicos: fugir das zonas de
risco e, sobretudo, rezar.
Nos dias imediatamente anteriores à passagem do furacão, Governo e meios de
comunicação recomendavam (!?) que, para evitar suas perigosas conseqüências, a
população deveria evacuar Nova Orleans. Em novos discursos, Bush seguia a mesma
linha: tinha certeza de que a brava gente do sul, com seu esforço, superaria as
dificuldades e reconstruiria suas propriedades perdidas, e que juntos
"fariam uma América ainda mais forte".
Suas primeiras decisões práticas demoraram preciosos dias. O Departamento de
Defesa se dispôs a autorizar o envio de quatro navios com provisões, um
navio-hospital e helicópteros. Quatro navios para uma população desabrigada de
mais de um milhão de pessoas! Confirmam-se informações sobre ajuda a
conta-gotas. Mas, sem hesitação, acionam vinte mil homens da Guarda Nacional,
não para os resgates imprescindíveis, mas para o controle da zona e a proteção
da propriedade privada.
INCAPACIDADE ADMINISTRATIVA?
Muitos analistas opinam que o problema se deve à incapacidade da Administração
Bush, e aos volumosos recursos empregados nas guerras, pouco sobrando para o
socorro das vítimas. Outros se perguntam como é possível que Cuba, com uma
população trinta vezes menor, com economia e disponibilidade de recursos
centenas de vezes menor, seja capaz de proteger seus habitantes de maneira
efetiva. Confrontada com a ameaça de furacão, Cuba não "aconselha",
atua.
Eu também me pergunto, e começo a fazer associações com o que ocorreu na década
de 80, nos primórdios do neoliberalismo. Todo o imaginário que havia sido
construído a partir da crise dos anos 30, que implicava na keynesiana intervenção
estatal para guarnecer os desprotegidos (e ao mesmo tempo dinamizar a
economia), foi varrida em poucos anos, com a colaboração passiva dos países do
leste europeu, e ativa dos grandes meios de comunicação. Impôs-se a idéia
generalizada de que o Estado de bem-estar já não era necessário, e que não
havia porque pagar impostos "para sustentar quem não quer trabalhar".
Por conseguinte, uma camada, maior ou menor de acordo com cada país, ficava
fora do sistema, jogada à sua própria sorte.
DECISÃO POLÍTICA
Creio que se deve discutir a possibilidade de que o poder financeiro-industrial
norte-americano, e seu porta-voz Bush, tenham aproveitado essa catástrofe
natural para atarraxar ainda mais o parafuso do neoliberalismo, de modo similar
como fizeram após os atentados nas Torres Gêmeas.
Cada vez fica mais evidente que tomaram a decisão política de não ajudar a
população com o objetivo de estabelecer um ingrediente adicional do ideário
neoliberal: o de que o Estado não tem por função socorrer atingidos por
desastres naturais. Como disse o presidente Coolidge nos anos 20, quando
visitava desabrigados por uma inundação: "Não é uma vergonha o que fez o
rio com a terra desses pobres diabos?". A proposta dos think tanks seria:
de volta à nação de pioneiros, em que cada um cuidava de sua vida e o Estado
restringindo-se a proteger a propriedade dos banqueiros, empresas ferroviárias,
frigoríficos e fazendeiros. Ninguém esperando nada além disso.
Parecem querer nos dizer: "Não esperem ajuda do Estado, inclusive em catástrofes
terríveis como essa. Não vamos gastar recursos com esse fim, dispondo deles ou
não". Momento ideal para lançar essa campanha, com os olhos do mundo
postos no sul dos EUA e em seu flagelo. Dessa forma, grande parte da população
mundial recebe a mensagem de que, a partir de agora, o refrão individualista e yankee
do "keep your ass" imperará ainda que em situações tão
dramáticas como as desencadeadas pelos furacões. E mesmo que seja no
"primeiro mundo".
APOIO DA MÍDIA
Os grandes meios de comunicação se somam lépidos a esse recrudescimento. Em um
editorial intitulado "Esperando por um líder", o jornal "The New
York Times" criticou, em aparência duramente, um discurso pronunciado por
Bush. O jornal indicava que "a nação esperava um discurso de consolo e de
sabedoria". Digo eu: não esperaria um discurso com medidas de ajuda e
compromisso de disponibilização de todos os recursos necessários para salvar a
população?
Outra idéia que borbulha nos meios de comunicação é que as vítimas que
sobreviveram e permaneceram são vagabundos, imprevidentes que não tiveram
vontade de evacuar da cidade (entenda-se, negros e latinos). E para reforçar a
mensagem, exibem permanentemente imagens de supermercados saqueados, com
comentários do gênero: "alguns roubam comida, no entanto outros roubam
equipamentos eletrônicos, jóias, roupas e armas". Em suma, gente que não
merece ajuda.
Alardeia-se em quase todas as crônicas que um helicóptero foi derrubado e que
um guarda nacional foi ferido a bala. O jornal local The Times Picayune afirma
que a seção de armas e munições da rede Wal-Mart no distrito Lower Garden foi
inteiramente esvaziada pelos saqueadores.
Outro item da salada informativa, em estilo Reader's Digest, é a ênfase
no relato da força desatada da natureza, frente à qual "o homem"
pouco pode fazer. Diante da água contaminada e das enfermidades, anunciam em
tela cheia: "O pior ainda está por chegar".
E como se não bastasse, as autoridades governamentais e a mídia estendem ainda
seu clássico guarda-chuvas, o patriotismo. Todo aquele que critica o governo é
anti-americano. Enquanto isso, embaixo do visor , passa a legenda "Terror
level: elevated".
ARGUMENTOS CLÁSSICOS
Um analista comentava que essa atitude da Administração vai afetar a moral dos
soldados norte-americanos e que muitos jovens irão rechaçar o recrutamento
militar, porque o Estado não socorreu as vítimas do furacão.
Eu penso que será ao contrário. Historicamente falando, alistamento militar se
vincula a fome: o Exército era praticamente o único lugar com comida
assegurada. Agora, certamente (até pelos novos efeitos colaterais do arrocho
neoliberal) vai acontecer o mesmo: milhares de jovens afetados pelo desastre,
na miséria e sem família, não vão encontrar outra solução para sair da pobreza
senão a de se alistarem.
Argumenta-se que 45% da Guarda Nacional do Mississipi e 35% da de Louisiana
estão no Iraque. Entretanto, a Guarda Nacional tem em todo o país dezenas de
milhares de efetivos, que se mostraram muito capazes de organizar pontes
aéreas, em 24 horas, para enviar soldados a Kosovo e ao Afeganistão. Como então
não iria ser possível transladá-los dentro dos EUA, e em ainda menos tempo?
O tenente-coronel Trey Cate, porta-voz do Exército, advertiu que não se fazia
um deslocamento massivo de soldados norte-americanos, alocados no Iraque e
Afeganistão, para ajudar nos esforços de recuperação das áreas atingidas pelo
furacão, "para não afetar o equilíbrio militar". Mas com a situação
saindo fora de controle, não param de chegar mais guardas nacionais e soldados
provenientes do Iraque.
O que estamos vendo é um golpe nas crenças e esperanças de muitos habitantes, e
de muitos analistas, pelo teor dos textos lidos nesses dias, em todo o mundo.
Por outro lado, as pessoas que, devido a seu poder aquisitivo, puderam fugir a
tempo, em seus veículos, com suas famílias e bens de maior valor, estão em
hotéis ou casas de veraneio, sem maiores privações. E certamente pouco lhes
importa o destino dos que ficaram. Já os que vivem em zonas não atingidas,
precisam agradecer a alguma divindade pelo fato de sua casa e da empresa onde
trabalham seguirem de pé, e isso vai lhes permitir seguir consumindo.
DISPONIBILIDADE DE RECURSOS
É claro que em breve haverá um grande bolo a repartir. Os projetos de
reconstrução das cidades desfiguradas pelo Katrina serão suculentos. Alguns
irão propor um monumento para lembrar as vítimas e, nesse momento, não medirão
os gastos. As redes de TV repetirão, minuto a minuto, imagens emocionantes das
cerimônias e seremos obrigados a escutar hinos e louvores sobre a capacidade de
recuperação após a tragédia.
"Nossos corações e preces estão com nossos compatriotas na Costa do Golfo
que tanto sofreram por causa do furacão Katrina", disse o presidente Bush.
O que não está com "nossos compatriotas", leio eu, é
"nosso" imenso orçamento, "nossos" imensos recursos...
Se eclodisse uma revolta popular, encabeçada pelos negros (e alguns brancos) e
latinos pobres, contra a fome e as epidemias que se avizinham, o Estado poria
em operação todo seu maquinário, sem quantificar custos ou conseqüências. A
lógica se repetiria se os EUA decidissem invadir a Venezuela ou qualquer outro
país. Estão nos dizendo o seguinte: de volta ao que valia antes da crise dos
30. O papel do Estado é proteger o poder financeiro e empresarial e ajudar a
colonizar o mundo em busca do lucro.
[*] Editor do sítio web Rebelión (Espanha). Tradução
de Luis Fernando Novoa Garzon (revista pelo autor).
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/
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