Clipping - Internacional

 Editor: Valter Xéu

www.patrialatina.com.br * patrialatina@patrialatina.com.br

11 de setembro de 2005

Pedro Doria

O dia que não acaba mais

Quatro anos depois, o Onze de Setembro não vai embora. Quatro anos após a invasão da Polônia pelo Terceiro Reich, os nazistas já haviam perdido a Batalha de Stalingrado e a Itália estava sendo invadida pelos Aliados. Quatro anos após a morte do arqueduque Franz Ferdinand, a Rússia já havia feito sua Revolução e a Primeira Guerra estava prestes a chegar ao fim. Quatro anos após a Queda da Bastilha, a Convenção estava desandando, o Terror começava e Napoleão já aparecia na esquina. Mas quatro anos depois do Onze de Setembro, nada do que disparou aquele processo mudou.

É um pouco pior, talvez. De certa forma, o mundo ainda não decidiu o que aconteceu naquela manhã ensolarada de setembro, em Nova York e Washington. Um atentado terrorista perpetrado por muçulmanos radicais, claro. Mas: por quê?

Há aqueles, como os seguidores do cientista político Samuel Huntington, que enxergam uma guerra de civilizações. É a resistência do atraso contra a vitoriosa cultura ocidental. Mas há quem veja o oposto, o anseio libertário do mundo pobre de enfrentar o Império norte-americano. Também existem os que põem a culpa no Islã, o Islã não passou por um iluminismo, o Islã é intolerante às diferenças.

Enquanto ninguém decide as causas, as conseqüências pioram. Desde aquele 11 de setembro, quando o ocidente descobriu o terror islâmico, houve Beslam, na Rússia, houve Madri, houve a boate em Bali, houve Londres – e incontáveis ataques na Turquia, no Líbano, em Israel, na Arábia Saudita, no Paquistão e no Iraque. No Iraque é quase todo dia. A essas alturas, ninguém mais tem uma lista confiável de mortos. Não há um número. E nenhum vestígio de solução.

A Guerra Fria durou quase cinco décadas, entre 1945 e 89, é verdade. Mas não havia gente morrendo assim, toda hora. Houve medo de ataque nuclear iminente ali entre finais dos anos 50 e início dos 60, é verdade. Só que era um medo paranóico, neurótico, embora insuflado – com um quê de razão – pelos governos. Este medo que se tem em grandes capitais européias e norte-americanas e do Oriente Médio, medo de pegar metrô ou avião ou mesmo de andar na rua e entrar num lugar movimentado, isso não é paranóico. É medo com fundamento.

Houve terror antes na Europa. Era um terror que se compreendia: o IRA quer a Irlanda unificada; o ETA quer a independência basca. E os terroristas eram conhecidos, e eram encontrados, e eram presos, e com eles se negociava porque sempre tiveram braços políticos com mais ou menos legitimidade. Mas, com a al-Qaeda, como é que se negocia? Aliás, a al-Qaeda anda sumida dos jornais. De uma coisa específica ali no Afeganistão, foi ao longo destes quatro anos virando uma névoa, uma idéia, um anseio sedutor a cada vez mais jovens bem educados de origem árabe.

É um período novo, uma coisa nova na história. É tão novo e diferente que, entra mês, sai mês, e algum artigo em algum jornal ou revista importante do mundo se sai com um novo paralelo histórico que continua sem responder nada.

Não quer dizer que, só porque não há esperança ou definições, não existam fatos. A guerra contra o Afeganistão talibã isolou bastante a chefia da al-Qaeda. A guerra contra o Iraque de Saddam Hussein revigorou, se não a al-Qaeda, o movimento que ela representa. Abriu um campo de treinamento caótico e sem precedentes para o terror muçulmano. E concentrou o ódio, deu motivo, razão concreta para o ódio. Antes as razões eram difusas.

Nunca países como França, Inglaterra, Itália e Alemanha tiveram tanta preocupação com os imigrantes que lá vivem. A quantidade de jovens cujas famílias vieram da Ásia Central, Oriente Médio e norte da África que são cidadãos franceses, britânicos, italianos ou alemães e que também são potenciais terroristas é assustadora.

Cada um lida com isso da maneira que pode. Na Inglaterra é com muitos dedos, muita cautela. Na França, confiante de que nada tinha com as guerras, foi proibindo símbolos religiosos nas escolas públicas. Seguem o raciocínio de que a República é laica e que cidadãos franceses devem seguir os preceitos da República – ponto. Amores, não desperta. Na Itália, criam dificuldades imigratórias e, cada vez mais, morrem de medo de que seja seu país a próxima vítima. Não há porque não ser.

Na confusão que impera, é inegável a importância do presidente norte-americano George W. Bush. Um homem como ele, ligado tão intimamente ao negócio do petróleo e ao pior da corrupção saudita, corresponde ao pior perfil possível de um chefe de Estado dos EUA para um momento destes. Jogue-se na sopa da personalidade uma tendência messiânica e uma propensão a não ter dúvidas, só certezas, e a coisa só piora.

Mas Bush, com sua particular capacidade de piorar o ódio aos EUA e, por conseqüência, a dois terços do ocidente, ainda tem três anos e meio de mandato pela frente. E, com a vontade que tem de confrontar países como o Irã – da Síria, já desistiu – não há porque acreditar que tudo possa piorar ainda mais. É claro que não é uma boa idéia o Irã se tornar uma potência nuclear – é uma péssima idéia. Mas só a animosidade declarada do governo norte-americano já faz de qualquer negociação algumas vezes mais difícil.

Talvez, e apenas talvez, Israel seja motivo de esperança. Se em um ou dois anos o premiê Ariel Sharon conseguir esvaziar todas as colônias na Cisjordânia e se, a partir disto, algum acordo sobre a divisão de Jerusalém for possível, aí quem sabe haverá Palestina. Bush por certo comemorará como vitória sua. Mas ao menos, aí, haverá um motivo para crer que a paz é possível.

É motivo vago. Parte da não compreensão do que aconteceu há quatro anos é proposital. O governo dos EUA confunde propositalmente porque não tem como explicar porque não faz nada na Arábia Saudita. O governo dos Sauds tem que chegar ao fim. É corrupto, sanguinário, incentiva um séquito islâmico ainda mais sanguinário e intolerante. Mas há que ser pragmático: sem o petróleo saudita, a economia mundial entra em frangalhos. Se o Iraque pudesse ser pacificado rapidamente; se aí iniciasse uma indústria petrolífera lá, então nuns cinco ou dez anos o mundo – e principalmente os EUA, viciados e sustentados por gasolina barata – poderiam mexer prescindir da Arábia Saudita. Mas o Iraque não vai ser pacificado. Isto está muito, mas muito longe.

O terror islâmico declarou guerra faz quatro anos hoje. Não tem qualquer chance de ganhar. Mas tem pela frente ainda muito tempo para espalhar muito sangue.
[ 5 comentários]

pdoria@nominimo.ibest.com.br 

Voltar