Clipping - Internacional

 Editor: Valter Xéu

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13 de setembro de 2005

Uma tragédia anunciada.

Este texto do repórter Joel K. Bourne Jr., foi publicado na revista National Geographic de outubro do ano passado. Talvez seja o caso de fazer uma vaquinha e presentear o Bush com uma assinatura da revista:            

F

azia uma tarde tórrida de agosto em Nova Orleans, Louisiana, a Big Easy Os que se arriscavam a sair, moviam-se como se estivessem nadando em mel. Os que ficaram em casa prestavam uma homenagem silenciosa ao homem que inventou o ar condicionado enquanto acompanhavam  pela  TV as “equipes de tormenta” com boletins sobre um furacão no Golfo do México. Nada demais nisso, os furacões em agosto são tão naturais nessa região como as ressacas dos porres de Carnaval nas quartas-feiras de cinzas.

Mas, no dia seguinte a tempestade ganhou força e apontou para a cidade. À medida que o rodamoinho sibilante se aproximava da costa, mais de um milhão de pessoas deixavam suas casas em busca de terras mais altas. Mas cerca de 200 mil permaneceram, os sem carro, os sem casa, os velhos e doentes e os Nova Orleaneses que apostam e buscam qualquer desculpa para dar uma festa.

A tempestade atingiu Breton Sound com a fúria de uma ogiva nuclear levantando grandes ondas no Lago Pontchartrain. A água subiu até o topo do molhe maciço que contem o lago e então se espalhou pela cidade. Aproximadamente 80% de Nova Orleans ficam abaixo do nível do mar – (em alguns lugares, mais de três metros abaixo), correu através dos bares e espeluncas de strip-tease na Bourbon Street, tal e qual o cavaleiro pálido do apocalipse. Quando a água chegou a oito metros de altura, as pessoas subiram aos telhados para escapar.

Milhares se afogaram na mistura lamacenta que logo foi contaminada por esgotos e resíduos industriais. Outros milhares, que sobreviveram à enchente, morreram mais tarde de desidratação e doenças, enquanto esperavam ser resgatados. Foram necessários dois meses para bombear a água e secar a cidade, e então a Big Easy apareceu enterrada sob uma coberta de sedimento pútrido. Um milhão de pessoas estava sem casa e 50.000 mortos. Foi o pior desastre natural na história dos Estados Unidos.

 Quando ocorreu essa calamidade? Não aconteceu – ainda. Mas o cenário de fim de mundo não está longe de ser alcançado. A Agencia Federal para Administração de Crises (FEMA) lista um ataque de furacão a Nova Orleans, como uma das maiores ameaças à nação, junto com um grande terremoto na Califórnia ou um ataque terrorista a Nova Iorque. Até a Cruz Vermelha tem se recusado a abrir novos abrigos contras furacões na cidade, argumentando que o risco para os seus trabalhadores “é grande demais”.

“O assassino da Louisiana é uma tempestade grau três, 72 horas antes de chegar à costa, que evolua para grau quatro, 48horas antes e para grau cinco 24 horas antes, vinda da pior direção”, diz  Joe Suhayda, um engenheiro costal aposentado, da Universidade do Estado da Louisiana, que passou 30 anos estudando o litoral. Suhayda está sentado num restaurante à beira do lago, nessa tarde de agosto, tomando sua limonada e falando sobre as falhas nas barragens que protegem a cidade dos furacões. “Eu acho que as pessoas não percebem como a situação é precária", disse.  Suhayda diz, observando os veleiros deslizando no lago. “Nossa tecnologia é ótima quando funciona. Mas quando falha, ela piora muito as coisas”.

A possibilidade de tal tempestade atingir Nova Orleans num ano pré-determinado é tênue, mas o perigo está crescendo. Os climatologistas prevêem que tempestades poderosas deverão ocorrer com mais freqüência neste século, à medida que o nível do mar for subindo devido ao aquecimento global, pondo assim os litorais baixos em risco maior. “Não se trata de se vai acontecer”, diz o geólogo Shea Penland, da Universidade de Nova Orleans, “trata-se de quando.

A matéria mostra ainda como o governo americano derrubou uma proposta de tentar salvar os mangues e a terra que estão afundando no Litoral da Louisiana à razão de um acre por minuto, totalizando 65 quilômetros quadrados por ano. Esse afundamento deve-se a uma rede de 13 mil quilômetros de canais que transformaram os mangues da foz do Mississipi numa colcha de retalhos que não segura mais os sedimentos do Rio que vão parar direto no Golfo do México. As agências federais, os ambientalistas e as Universidades realizaram um projeto avaliado em 14 bilhões de dólares, investidos em 30 anos para corrigir os problemas do litoral que – entre outras coisas – está afundando devido à exploração de petróleo e gás, que ficam perto da superfície, o que faz a terra ceder quando os depósitos são esvaziados. O governo Bush vetou esse investimento e criou um plano alternativo para gastar dois bilhões em dez anos e apenas tentar remediar a situação. O desastre já provocou danos que poderão chegar a 150 bilhões de dólares.

 

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