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A invocação
abstrata da "democracia" serve de justificativa final às ações da
América, um pouco à maneira do "socialismo", tempos atrás, na União
Soviética
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A invasão e a ocupação do Iraque deram impulso a tendências
geopolíticas poderosas e imprevisíveis no Oriente Médio e além dele. Uma
delas é a dinâmica de democratização e de reforma engajada no mundo árabe,
cujo mérito o governo norte-americano atribui a si próprio. Essa
reivindicação tardia se apóia nas eleições iraquianas e nos recentes
acontecimentos no Líbano. A realidade parece mais complexa. Contraditória nos
seus efeitos, a política estadunidense constitui uma das três vias potenciais
de reforma, ao lado daquelas que se pode qualificar de "islamita" e
de "autóctone progressista”.
Os fundamentos teóricos do projeto norte-americano são conhecidos. A guerra
no Iraque decorre do longo trabalho intelectual e político do pequeno grupo
de neoconservadores, a começar por Norman Podhoretz, Richard Pearle, David
Frum, Bernard Lewis, Fouad Ajami – além do favorito do presidente George W.
Bush, o ex-dissidente soviético e político israelense de direita Natan
Charansky. Todos compartilham a mesma visão de um mundo árabe mergulhado numa
decadência persistente, gerada pelos defeitos culturais, psicológicos e
religiosos das sociedades árabes (ou islâmicas). Essa "genética"
explicaria a onda de violência terrorista cada vez mais virulenta e seria
obstáculo a uma democratização concebida como único remédio a todos esses
males.
Perante este suposto terrorismo – que poderia, a qualquer momento, recorrer a
armas de destruição em massa químicas, bacteriológicas ou mesmo nucleares –,
a América, de acordo com os "neocons", não pode esperar que os
Estados se reformem por si mesmos: deve agir para alterar o curso da história
no mundo arabe-islâmico, liquidando os vícios e forçando-o a se democratizar.
Só os Estados Unidos podem se encarregar disso, recorrendo, se necessário, à
força.
Com sua coerência, este wilsonismo1
de direita tem como seduzir. A invocação abstrata da "democracia"
serve de justificativa final às ações da América, um pouco à maneira do
"socialismo", tempos atrás, na União Soviética. A importância da
guerra do Iraque não traria apenas benefícios a esse país. Ela permitiria a
criação de um novo quadro geopolítico: um sistema global de segurança e de
reforma, administrado a partir de Washington, supostamente em benefício de
todos, incluindo um mundo árabe tolerante.
Enfim, esta guerra representa, na visão dos “neocons”, a passagem das
abstrações – como o “mal” e a “democracia” – para um projeto concreto de
conquista, de ocupação e de transformação. Mas aparecem outras conseqüências.
Os ideólogos de Washington tinham prometido uma transição rápida para um
Estado iraquiano independente, estável, unificado, laico – um modelo de
democratização para o Oriente Médio. Em vez disso, a intervenção desembocou
numa tragédia, que custou a vida de milhares de soldados e dezenas de
milhares de civis, destrói cidades inteiras e reabre salas de torturas, sem
no entanto alcançar a garantia de segurança dos cidadãos nem o seu
abastecimento de água, eletricidade ou gás. Uma sociedade em ruínas, à margem
de uma guerra civil que tem se tornado, de acordo com os serviços de
informações, uma enorme fábrica de terrorismo.

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"Planejamos
o estabelecimento de uma democracia – comenta um funcionário norte- americano
– mas o que realizamos levou a uma forma de república islâmica”
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Por trás
do mito eleitoral
Os observadores mais perspicazes vêem um malogro sem
precedente, ou mesmo um crime que nenhum cenário de reforma regional pode
justificar nem reparar. “Nós tivemos êxito nas eleições", respondem os
neoconservadores, dos quais um teórico elogia a "irresistível
participação popular" de janeiro de 2005, que "teria entregado o
poder a 80% da população iraquiana – os curdos e os xiitas". De acordo
com ele, isso seria mesmo o ponto de partida dos acontecimentos do Líbano, do
Egito e do Golfo. E cita o líder druso Walid Joumblatt, para quem a
"revolução" libanesa "começou na seqüência da invasão
americana do Iraque". As eleições simbolizariam "o início de um
novo mundo árabe". Esse voto, conclui Charles Krauthammer, marca uma
"reviravolta histórica", prova de que "a América está
realmente atada à democracia" e "legitima" não somente a
invasão do Iraque, mas toda a "doutrina Bush, sinônimo de política estrangeira
neoconservadora22".
Tal entusiasmo causa ceticismo. Originalmente, os Estados Unidos não queriam
essas eleições, impostas pelo grande pelo aiatolá Ali Sistani. Os partidos
vitoriosos prometiam a todos uma retirada americana. A "irresistível participação"
atingiu o limite de 58% dos eleitores inscritos, e... 2% nas regiões sunitas.
O editor-chefe do Beirut Daily Star zomba: "Nunca ouvi isso [a
idéia segundo a qual o libaneses teriam se inspirado no Iraque], além da boca
de Walid Joumblatt." A seqüência dos acontecimentos foi, aliás, uma
ducha fria nos eufóricos. Como diz um alto funcionário norte-americano,
"o que nós queríamos fazer jamais foi realizado (...) Estamos nos
livrando deste ”não-realismo” que prevalecia no início. 3" Na última vez que os
estadunidenses se disseram "surpreendidos e tocados” pela “importância
da participação” em uma eleição “apesar de uma campanha terrorista de
desestabilização44”, a percentagem
de eleitores havia atingido 83%. Isso ocorreu no Vietnã, em 1967...
A elevação em potência dos partidos xiitas confirma o caráter faustiano do
pacto que os Estados Unidos concluíram com o clero xiita conservador: as
relações deste último com o Irã opõem-se evidentemente às pretensões
supostamente democráticas do projeto norte-americano. Na difícil elaboração
da Constituição, Washington fez pressão para evitar qualquer ruptura das
negociações, mas também qualquer solução embaraçosa sobre as perguntas
controversas do federalismo e do papel do Islã. Os dois pontos se realizaram:
o fundamentalismo de inspiração iraniana tomou tão fortemente raiz local –
como em Basra, onde os britânicos compraram uma calma relativa deixando
construir-se um regime social estritamente fundamentalista – que certos
xiitas propõem o estabelecimento de uma região autônoma governada pela sua
interpretação da charia. Que paradoxo! "Planejamos o estabelecimento de
uma democracia – comenta um funcionário norte-americano – mas realizamos
progressivamente o que nos levou a uma forma de república islâmica55."

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Coabitação
com o islamismo
A história do Oriente Médio tem sido marcada há muito tempo
pela tensão entre a dominação ocidental e a exigência árabe de independência,
focada no petróleo, na guerra fria, na criação de Israel. No último período,
o islamismo sucedeu o nacionalismo e o socialismo árabes na cabeça da
resistência às pressões do Ocidente. E, no entanto, apesar dos antagonismos
aparentes, Washington e seus aliados europeus sempre coabitaram, de uma
maneira ou de outra, com os movimentos islamitas.
País muçulmano mais conservador do mundo árabe, a Arábia Saudita foi por
muito tempo o maior amigo dos Estados Unidos. O apoio estadunidense ao Xá do
Irã (do ponto de vista de Teerã), e a crise dos reféns em 1979–1980 (do ponto
de vista de Washington) tornaram as relações irano-americanas mais
conflituosas. Na Argélia, o Ocidente aceitou a anulação de eleições
democráticas para impedir a chegada ao poder dos fundamentalistas. Na
Turquia, ao contrário, tolerou a acessão ao poder de um partido de tradição
islamita, porém mais moderado, que não participou na invasão do Iraque. É
verdade também que a perspectiva da adesão à União Européia pesa fortemente
na postura dos atores da vida institucional de Ancara. Como o pesquisador
Mahmood Mamdani sublinha66, o que
guia a política dos EUA é menos a recusa do princípio do fundamentalismo ou
apoio permanente à democracia do que a busca do melhor meio para assegurar a
sua dominação.

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O que guia a
política dos EUA não é a recusa ao fundamentalismo nem o apoio à democracia,
mas a busca do melhor meio para assegurar a sua dominação
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A nova
cartada e suas contradições
A atual administração, joga, há algum tempo uma nova cartada
em relação ao mundo árabe: declara-se pronta a sacudir o status quo em
nome da democracia. A secretária de Estado Condoleezza Rice anunciou há pouco
um novo questionamento radical de sessenta anos de uma diplomacia que
"se inclinava à estabilidade às custas da democracia (...) sem atingir
nenhum dos dois77". Quanto vale
esse compromisso com o ideal “universal” da “democracia em si e para si88”? Washington endossará uma vitória
democrática dos Irmãos Muçulmanos no Egito, dos partidários de Osama Ben
Laden na Arábia Saudita, do Hezbollah no Líbano, do Hamas na Palestina ou,
ainda, do fundamentalismo xiita no Iraque?
A dificuldade é tão manifesta que mesmo certos defensores do presidente Bush
"desesperam-se" com o "desvio democrático" da
"guerra contra o Islã militante9".
Realmente, considerando as contradições entre sua ação, seus interesses e os
resultados, como explicar que oficiais norte-americanos se fechem nessa
estratégia contraproducente de "democracia por si"? Ou eles crêem
poder anular mais facilmente os islamitas radicais com estes no poder?
Trata-se da exposição racional de uma política de objetivos inconfessáveis –
ou que eles ignoram? Conscientes da influência do Likud sobre os
neoconservadores, certos observadores sugerem que estes últimos pretendem
desestabilizar e enfraquecer os estados árabes, ainda que seja ao preço do
fundamentalismo.
O governo Bush quase constitui um enigma, porque as intenções apresentadas
são incompatíveis com os interesses estadunidenses. Quando chefes religiosos
fundamentalistas xiitas tomaram o poder no Irã, os Estados Unidos fizeram
marcha à ré sobre sua retórica dos "direitos do homem". Tendo eles
próprios conduzidos líderes fundamentalistas xiitas ao poder no Iraque, vão
amenizar a sua postura "antiislamita"? E se, amanhã, um movimento
como o Hamas acedesse ao poder em outros países, eles retornariam a pactos de
estabilidade "antifundamentalistas" com elites autoritárias, como
antes do 11 de setembro?

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Várias
formas de fundamentalismo
A confusão das posições ocidentais sobre o islamismo e a
democracia não nos dispensa, árabes e muçulmanos, de clarificar a nossa
própria posição. Existem, para nós, numerosas formas de
"fundamentalismo", mas a relação que cada uma estabelece com a
religião muçulmana é realmente complexa. A maior parte herda uma história de
“quietismo” político, favorável à reforma em nome de princípios islâmicos.
Alguns militam politicamente: assimilam a corrupção e a autocracia dos
estados árabes às formas de laicidade e apostasia, e preconizam a reforma
reislâmica do Estado – quer tomando o controle, quer provocando uma pressão
social neste sentido. Os mais descontentes geraram um novo tipo de islamismo:
esses jihadistas consideram as sociedades árabes modernas corrompidas pela
assimilação dos valores ocidentais heréticos e pretendem, portanto, guerrear
com eles para reconstruir e purificar a oumma. Eles exploram com
discernimento as tensões que existem entre as populações muçulmanas da
Europa, tornando-se o primeiro vetor da divulgação dessa ideologia.
Não se conseguiria compreender o sucesso dos fundamentalistas sem avaliar
como religião, questões de classe, problemas de cultura e de política se
misturam. Em muitos países muçulmanos, as massas populares são afligidas pela
pobreza, perturbadas pelo abalo dos costumes tradicionais, enfurecidas pelas
promessas não cumpridas da mundialização, freqüentemente desesperadas -- mas
incapazes de deixar o seu país enquanto as elites ocidentalizadas percorrem o
mundo. Isso oferece, ao invés de uma alternativa secular e popular, um
terreno favorável às sereias do fundamentalismo. De imediato, toda
possibilidade real de democratização será freqüentemente sinônimo de
islamização.

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A confusão
das posições ocidentais sobre o islamismo e a democracia não nos dispensa,
árabes e muçulmanos, de clarificar a nossa própria posição
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É possível que tenhamos sido demasiado presunçosos diante do
desenvolvimento dessas ideologias apoiadas no Corão. Temos, contudo, os meios
para encarar eficazmente o respeito das nossas tradições e da nossa cultura.
No meu país, o rei Mohamed VI colocou corajosamente em prática a modernização
do código da família, apesar da forte oposição dos grupos islamitas, que
intimidavam muito partidos laicos. Enfim, podemos assinalar, nos nossos
países, o desafio fundamentalista.

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Alternativa
possível
Que minha posição seja clara: sou favorável a uma política
moderada, progressista e aberta a todos os cidadãos, tolerante em relação às
diversas visões do papel da religião na vida política. Mesmo que a
independência das esferas política e religiosa não constitua uma garantia
contra a corrupção ou as políticas reacionárias, eu me oponho a qualquer
forma de regime teocrático, incompatível com uma saudável cultura
democrática. Respeitando o Islã, o Estado deve permanecer independente das
autoridades religiosas, mas também deve evitar "punir" os mais
religiosos reduzindo seu acesso à educação ou à vida pública.
Essas questões devem ser resolvidas num quadro constitucional democrático
aceito por todos os partidos. Isso requer sérias garantias institucionais
mas, num contexto de verdadeira eqüidade política e separação dos poderes, os
movimentos islamitas podem ser parte integrante da vida política do seu país.
Não basta temer o islamismo como força potencial de desestabilização. Ainda é
necessário compreender que se pode transformá-lo, integrando-o na vida
democrática.
Doloroso para as nossas sociedades, o debate sobre o islamismo e a democracia
torna-se explosivo a partir do momento em que se introduzem "dois pesos
e duas medidas" na Palestina e Iraque, a obsessiva "guerra contra o
terrorismo" e os preconceitos onipresentes quando se trata do islã.
Entre os fatores que radicalizaram os fundamentalistas estão a
auto-suficiência dos árabes, mas também a arrogância do Ocidente.
O mundo árabe precisa debater o caminho que deve adotar para a reforma e a
democratização, e também para uma reconfiguração progressiva da fé e da
política. Nós compreendemos o interesse que nossos amigos ao redor do mundo
conferem a esses debates, assim como seu desejo de incentivar as alternativas
mais pacíficas e mais democráticas. Mas não podemos aceitar que uma nação,
qualquer que seja, se arrogue do direito de resolver os nossos problemas pelo
recurso da força militar. A democracia apenas se implantará nas nossas
sociedades se ali ficar raízes e se crescer a partir do interior.
No Irã, a ameaça americana contribuiu para a vitória, surpreendente mas
democrática, de um candidato conservador. Além disso, partidos como o Hamas e
o Hezbollah tiveram êxito em colocar o Islã nos postos avançados de lutas
nacionais, e ganham igualmente eleições democráticas. O Iraque tornou-se um
terreno fértil para todos os extremismos. Em resumo, se o fundamentalismo não
abre -- por si mesmo ou em combinação com a democracia ou o nacionalismo --
uma via desejável para a reforma, ele se torna, a partir do momento em que é
percebido como o único parceiro da democracia ou do nacionalismo, um atalho
inevitável na longa estrada para uma sociedade progressista.
O diálogo, além do mais, deve ser em duplo sentido. Também temos o direito de
acompanhar certos debates importantes dos nossos amigos, para incentivar as
opções que nos parecem mais frutíferas. Além de tudo, somos igualmente partes
interessadas nas soluções que se adotam. E se os críticos estadunidenses do
mundo árabe, mesmo neoconservadores, inegavelmente identificaram tendências
perigosas nas nossas sociedades, podemos devolver-lhes a crítica.

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Não se
conseguiria compreender o sucesso dos fundamentalistas sem avaliar como
religião, questões de classe, problemas de cultura e de política se misturam
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O
integrismo norte-americano
O que emerge sob os nossos olhos é uma nova e potente
configuração política, que mistura o fundamentalismo cristão de direita, o
sionismo norte-americano militante e um militarismo ilimitado. Envolta no
mito da bandeira, da família e da Igreja, a política interna estadunidense se
projeta no exterior sob a forma de política externa agressiva, unilateral e
arrogante. Esse "bloco" conduz à intervenção no Iraque e em outras
partes, justificando assim a violência e desmentindo os seus próprios
discursos altruístas. Daí a dificuldade em alterar essa política
indissociavelmente nacional e estrangeira.
Essa última explica-se também pela dessecularização crescente da política e
do estado nos EUA. Como prova, aponto o conflito feroz sobre o destino de
Terry Schaivo, durante o qual os Dez Mandamentos foram invocados nos
tribunais e se debateu até que ponto o governo deve ser – como disse um
magistrado da Corte Suprema – o "ministério de Deus1010". O próprio presidente julgou
correto intervir num debate sobre a teoria da evolução, e contra os
princípios básicos da ciência. "O Partido Republicano de Licoln
tornou-se um partido teocrático1111",
confessa um membro republicano do Congresso.
Sem dúvida, essa simbiose explica a facilidade com a qual se tolera a tortura
e se investe o principal líder de poderes ilimitados, que lhe permitem
encarcerar indefinidamente pessoas sem julgamento ou mesmo incriminação. Mas
também a incapacidade de uma nação tão potente em relativizar seu próprio
lugar no mundo, reconhecer os seus fracassos e as suas faltas, compreender
que nem todos os países do mundo a imitam. E sua propensão em tomar a
ignorância pela inocência, a arrogância pela superpotência, e a mistura do
dois pela ingenuidade.

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Se os
críticos estadunidenses do mundo árabe identificam tendências perigosas nas
nossas sociedades, podemos devolver-lhes a crítica
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Há tempos que essas questões são alvos de debate nacional nos
Estados Unidos. Amigos respeitosos, nós encorajaremos as resoluções
compatíveis, aos nossos olhos, com as tradições democráticas que forjaram
desde sempre nossa admiração por este país. Eis porque, em matéria de
reforma, não queremos nem o caminho neoconservador, nem o dos
fundamentalistas. Haverá outro, num futuro próximo? Concebê-lo em todo caso é
difícil, dadas as repercussões tão profundas quanto imprevisíveis da guerra
do Iraque.
O que farão os EUA diante do Irã? Para os observadores razoáveis, a encrenca
iraquiana torna inconcebível a hipótese de uma nova ação militar, já que a
liderança xiita iraquiana rejeita qualquer devaneio de agressão. E as
desculpas apresentadas a Teerã pelos novos líderes de Bagdá para a guerra
Irã–Iraque (1980-1988) estabeleceram as bases de uma nova aliança militar:
eles não juraram que não permitiriam nunca um ataque contra o seu vizinho a
partir do seu território?
Essas considerações, no entanto, não silenciaram a retórica agressiva contra
Teerã, mais uma vez sob pretexto de “armas de destruição em massa”. O
vice-presidente Richard Cheney ameaça até mesmo atacar o país com armas
nucleares na eventualidade de um novo atentado terrorista nos Estados Unidos
– ainda que Teerã não tenha nada a ver com isso. Para os neoconservadores, se
o Hamas ou o Hezbollah podem esperar, o Irã, em contrapartida, é um Estado
potente, que a destruição do seu principal inimigo (os talibans, o regime
iraquiano) ainda reforçou. Ele exerce doravante uma influência importante
sobre o Iraque e inspira uma esfera regional de influência xiita
transnacional. É, além disso, uma potência militar temível, capaz de produzir
armas nucleares – ainda que nada ateste tal intenção.
É isso que poderia levar Washington a considerar a destruição do Irã como a
única maneira de impedir o país de se tornar um obstáculo irreversível à
dominação americano-israelense sobre a região. Para "o
neoconservadorismo no poder", seria, além de tudo, uma extensão lógica
da sua estratégia de "destruição criadora1212".
Tal ataque, mesmo efetuado por forças israelenses com a concordância dos
Estados Unidos, mergulharia, contudo, o Oriente Médio numa desastrosa
engrenagem de violência e instabilidade.

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O
vice-presidente dos EUA ameaça atacar o Irã com armas nucleares, na
eventualidade de novo atentado terrorista nos Estados Unidos – ainda que
Teerã nada tenha a ver com isso
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Os sinais
de evolução
O Oriente Médio continua, por outro lado, a evoluir. Sinal de
fraqueza da Síria, a sua retirada do Líbano pode também lhe permitir reunir
suas forças, sem saber se isso conduzirá a uma reforma democrática, à
repressão de uma possível rebelião (sunita ou curda), ou a uma resistência
contra as ameaças norte-americanas. Liberado da ocupação síria, o Líbano
voltará a mergulhar na guerra civil ou se reconciliará democraticamente, sem
ingerência estrangeira, as suas dezessete confissões, dos maronitas aos
xiitas? No Egito, acabamos de assistir ao início ou ao fim da abertura
democrática? Na Arábia Saudita, as eleições municipais muito controladas
beneficiaram os wahhabitas duros. De agora em diante, será difícil conter
sociedades civis árabes ousadas. Nesse contexto incerto, os países moderados
como o Marrocos, o Bahreïn e a Jordânia deram passos hesitantes para a
reforma.
Mas uma verdadeira reforma – autóctone, progressista e apta a satisfazer as
necessidades e aspirações dos nossos povos – deve ir além desta tímida
democratização, feita de eleições restritas e de constitucionalismo limitado.
Ela exige acabar com que o que o Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD) qualifica, no seu Relatório sobre o Desenvolvimento
Humano Árabe (2004), de "buraco negro do Estado árabe1313". De acordo com esse documento,
a concentração de poder nas mãos do poder executivo – seja monarquia,
militar, ditatorial ou procedente de eleições presidenciais nas quais se
apresenta um candidato único – criou “uma espécie de ‘buraco negro’ no
coração da vida política" e "reduz o seu ambiente social a um
conjunto estático, em que nada se move". Para sair, são necessárias
reformas políticas e jurídicas fortes e imediatas, que respeitem as
liberdades fundamentais de opinião, de expressão e de associação, garantindo
a independência da justiça e abolindo esse "estado de emergência (...)
que tem se tornado permanente mesmo na ausência de perigos que o
justifiquem".

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Numa
situação marcada por tantos fatores negativos, o dever dos progressistas
consiste, às vezes, em manter viva a possibilidade do positivo
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Notável
relatório do PNUD
Documento notável, o relatório do PNUD passa das análises
históricas e teóricas sobre o conceito de liberdade no mundo árabe e islâmico
à crítica de "toda forma de infração à dignidade humana, como a fome, a
doença, a ignorância, a pobreza e o medo". Respeitoso com as culturas
locais, denuncia o "ambiente de repressão que prevalece" e
argumenta em favor de uma reconfiguração das "estruturas econômicas,
políticas e sociais" que permitem aos atores sociais e políticos
progressistas utilizar "a crise dos regimes autoritários e totalitários
a seu favor".
Ele atribui uma responsabilidade específica à "vanguarda intelectual e
política da região", que, até agora, "omitiu-se de desempenhar seu
papel social enquanto consciência e líder da nação". Alguns acharão
severo esse julgamento que negligencia a coragem dos jornalistas e
dissidentes diante de uma impiedosa repressão. Os representantes da sociedade
civil devem, no entanto, "encontrar um meio justo para eles e para o mundo
árabe, sem ceder à influência de grandes potências nem para tanto ceder ao
desespero e violência, para os quais poderiam se deixar arrastar numerosos
jovens enraivecidos, privados de qualquer perspectiva de ação política
pacífica e eficaz".
A amplitude da tarefa nos desanima. Pode mesmo parecer impossível, ou mesmo
inútil, procurar uma saída para o apocalipse preparado pelos dois
adversários- cúmplices da "destruição criadora1414"
– que vêem no outro a encarnação do "mal" a se aniquilar por uma
guerra total. Essa é, porém, a nossa missão. Às vezes, numa situação marcada
por tantos fatores negativos, o dever dos progressistas consiste simplesmente
em manter viva a possibilidade do positivo. A política retornará. Cidade após
cidade, país após país, região após região, devemos multiplicar o número de
atores que recusam o apocalipse e preferem desempenhar o papel de
construtores de uma existência livre e melhor.
(Trad.: Marcelo de Valécio)

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* Fundador do Instituto de Estudos Contemporâneos sobre a
África do Norte, o Oriente Médio e a Ásia Central da Universidade de
Princeton (Estados Unidos). Antigo conselheiro do representante especial das
Nações Unidas no Kosovo, responsável pelos direitos do homem e das
comunidades. Além disso, é primo do rei do Marrocos, Mohammed VI.
1 - Do nome de presidente Andrew Wilson que, no dia seguinte da Primeira
Guerra Mundial, com os seus "Catorze Pontos", defendeu
vigorosamente o direito à autodeterminação dos povos... e a substituição da
Grã-Bretanha pelos Estados Unidos no Oriente Médio.
2 - Charles Krauthammer,
“The Neoconservative Convergence” Commentary, Nova York, julho-agosto
de 2005.
3 - Robin Wright, Ellen Knickmeyer, “U.S. Lowers Sights On What Can Be
Achieved in Iraq”,
Washington Post, 14 de agosto de 2005.
4 - “US Encouraged by Vietnam Vote”, New York Times, 4 de setembro de
1967.
5 - Robin Wright, Ellen Knickmeyer, op. cit.
6 - Good Muslim, Bad Muslim. America,
the Cold War and the Roots of Terror, Three Leaves Publishing, Nova York, 2005.
7 - “Secretary Rice Urges Democratic Change in the Middle East ”,
http://usinfo.state.gov/mena/Archive/2005/Jun/20-589679.html, 20 de junho de
2005.
8 - Charles Krauthammer, op. cit.
9 - Andrew C. McCarthy, cidado em Justin Raimondo, “Recanting the War: The
neocons can't keep their troops in line”, www.antiwar.com/justin, 24 de
agosto de 2005.
10 - Antonin Scalia, “God’s Justice and Ours”, First Things 123,
http://www.firstthings.com/ftissues/ft0205/articles/scalia.html,maio de 2002.
11 - Christopher Shays, representante republicano no Congresso, New York
Times, 23 de março de 2005.
12 - Michael Ledeen, “Creative Destruction: How to Wage a Revolutionary War”,
Natinal Review Online, setembro de 2001.
13 - PNUD, Rapport sur le développement humain dans le monde arabe,
2005. As citações que seguem foram tiradas desta obra.
14 - Ler Walid Charara, “Instabilité constructive”, Le Monde Diplomatique,
julho de 2005.

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A 33a. sessão da Conferência Geral da Unesco deve, neste mês
de outubro de 2005, submeter à aprovação dos Estados membros o anteprojeto de
Convenção sobre Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais.
O objetivo é conferir força de lei à Declaração Universal sobre Diversidade
Cultural, adotada por unanimidade logo em seguida aos acontecimentos de 11 de
setembro de 20051 . Elevando a
diversidade à categoria de “patrimônio da humanidade”, esta declaração se
opôs aos “enclausuramentos fundamentalistas ante a perspectiva de um mundo
mais aberto, mais criativo e mais democrático2
”. O paradigma ético da “diversidade em diálogo” seria o oposto da tese de
Samuel Huntington sobre a fatalidade do “choque das culturas e das
civilizações”
Embora em 2001 todos os Estados tenham aprovado, no plano dos princípios, a
pluralidade de alteridades como instrumento capaz de “humanizar a
globalização”, isso não aconteceria novamente, dois anos mais tarde, no
momento da decisão que abriu caminho à redação do anteprojeto de Convenção.
Entre o pequeno número de países que se abstiveram figuravam os Estados
Unidos. Não haviam esquecido o duplo fracasso de sua diplomacia, uma década
antes, fervorosamente contrária ao princípio de proteção da “exceção
cultural” -- reformulado posteriormente em proteção da “diversidade
cultural”: Primeiro em 1993, frente à União Européia, durante a fase
final do Ciclo do Uruguai do Acordo Geral sobre as Tarifas e o Comércio
(GATT), que deu à luz a Organização Mundial do Comércio (OMC); e depois
frente ao Canadá, durante a assinatura do Acordo de Livre Comércio
Norte-Americano (NAFTA), que entrou em vigor em 1994. Duas negociações que,
reconhecendo o estatuto particular dos “produtos do espírito”, haviam ao
mesmo tempo legitimado políticas públicas, mais especificamente no campo do
audiovisual.

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Entre o
pequeno número de países que se abstiveram figuravam os Estados Unidos,
escaldados por dois fracassos anteriores
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O Canadá e a França – que desempenhou um papel central na
formulação da doutrina da “exceção” – são os maiores responsáveis pela
implementação do anteprojeto de Convenção. A França mobilizou os países de
língua francesa. O Canadá, por sua vez, estabeleceu uma Rede Internacional
pela Política Cultural (RIPC) e conseguiu agregar cerca de sessenta ministros
da Cultura para discutir de maneira informal os meios para reforçar a
diversidade, em acordo com diversas associações e outras organizações
culturais. Além disso, Ottawa garante desde setembro de 2001, em conjunto com
o governo do Quebec, apoio financeiro a uma coalizão internacional de
organizações profissionais da cultura pela diversidade cultural, formada por
uma rede de coletivos nacionais.

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Muito
além do audiovisual
O campo de aplicação do projeto de Convenção ultrapassa os
limites do audiovisual e das indústrias culturais, uma vez que se destina à
“multiplicidade de formas pelas quais as culturas de grupos e de sociedades
encontram sua expressão”. Formas que concernem tanto às políticas da língua
quanto à valorização dos sistemas de conhecimento dos povos autóctones. Isso
não impede que, para a crítica, sejam exemplos emprestados às indústrias da
imagem que ilustram os riscos que a diversidade cultural corre por conta da
globalização neoliberal. O departamento de Estado dos EUA e a Motion Picture
Export Association of América (MPEA) – criada em 1945 e rebatizada Motion
Picture Association (MPA) em1994, porta-voz dos interesses das majors
– pressionaram governos como os do Chile, da Coréia do Sul, do Marrocos ou
dos antigos países comunistas para forçá-los, em acordos comerciais
bilaterais, a renunciar a seu direito de implementar políticas na área de
cinema, em troca de compensações em outros setores.
Três sessões de reuniões governamentais, a última em junho de 2005, foram
necessárias para finalizar o texto submetido à Conferência geral. Os
redatores tentaram a mediação entre duas posições. Uma, majoritária e que
incluía a União Européia, defendia o princípio de um direito internacional
que ratifique o tratamento especial dos bens e serviços culturais, porque
“portadores de identidade, de valores e de sentidos”. A outra, sustentada por
governos como os dos Estados Unidos, da Austrália e do Japão, propensos a
enxergar nesse texto apenas uma expressão de protecionismo a um setor que
deveria supostamente, como todos os outros serviços, seguir a regra única do
livre-comércio. Entre os dois, um conjunto disparatado de argumentos, alguns
formulados por Estados que temiam ver desaparecer a coesão nacional, contaminada
pelo princípio de diversidade. Deste ponto de vista, o texto também é
resultado de uma produção intercultural.
Resultado: um conjunto de regras gerais relativas aos direitos e às
obrigações dos Estados: “As partes”, diz o artigo 5, “reafirmam (...) seu
direito soberano de formular e colocar em prática suas políticas culturais e
de adotar medidas para proteger e promover a diversidade de expressões
culturais, bem como para reforçar a cooperação internacional a fim de atingir
os objetivos da presente Convenção.” Pilar do edifício jurídico, o princípio
da soberania: um Estado pode recuperar o direito à editar políticas culturais
que tenha alienado anteriormente.

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No pilar do
edifício jurídico, o princípio da soberania: um Estado pode recuperar o
direito à editar políticas culturais que tenha alienado anteriormente
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OMC,
ameaça onipresente
Para que a Convenção adquira caráter normativo em caso de
litígio, é crucial definir sua relação com outros instrumentos
internacionais. Aí reside toda a problemática do artigo 20, que confirma que
as relações da Convenção com os outros tratados deverão ser guiados pela
idéia de “apoio mútuo, de complementaridade e de insubordinação.” Quando às
Partes, lê-se, “interpretam e aplicam outros tratados dos quais fazem parte,
ou quando se comprometem com outras obrigações internacionais, levam em conta
as disposições pertinentes da presente Convenção.” O artigo 21, por sua vez,
faz do acordo e da coordenação com “outros circuitos internacionais” (não
identificados) uma das premissas de aplicação do precedente.
Estes “outros circuitos” são aqueles onde se joga igualmente a sorte
da diversidade cultural. É o caso da OMC e, em particular, do Acordo Geral
sobre o Comércio de Serviços (GATS, em inglês), onde os serviços audiovisuais
e culturais estão na ordem do dia das liberalizações, na perspectiva da
conferência ministerial da OMC prevista para este dezembro em Hong Kong. É
também o caso da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI),
ligada à privatização crescente de bens públicos e comuns, como testemunha a
apropriação privada dos saberes e conhecimentos, estes também fonte de
criatividade.
O calcanhar de Aquiles da Convenção continua sendo, entretanto, o que se
segue à ela: a questão das sanções no caso de infração e a fragilidade dos
mecanismos de resolução dos litígios.
O princípio de soberania está envolto por um conjunto de outros princípios
diretores: respeito aos diretos humanos, igual dignidade e respeito à todas
as culturas, solidariedade e cooperação internacionais, complementaridade de
aspectos econômicos e culturais do desenvolvimento, desenvolvimento
sustentável, acesso eqüitativo, abertura e equilíbrio. Para colocar em
prática o princípio de acesso eqüitativo e de solidariedade e cooperação
internacionais, os artigos 14 a 19 prevêem, entre outra coisas, um
“tratamento preferencial para os países em desenvolvimento” e o
estabelecimento de um fundo internacional para a diversidade cultural
financiada por contribuições voluntárias públicas ou privadas.
Seria interessante investigar a experiência de projetos semelhantes.
Principalmente o da Cúpula Internacional sobre a Sociedade de Informação,
organizada por outra agência das Nações Unidas, a União Internacional das
Telecomunicações (UIT). A primeira fase ocorreu em Genebra, em dezembro de
2003. A segunda está prevista para novembro de 2005, na Tunísia. Há
dificuldade de mobilizar recursos públicos nos grandes países industriais, a
fim de financiar um “fundo de solidariedade digital” que permitiria lutar
contra a desigualdade de acesso ao ciberespaço. Sente-se o interesse das
fundações filantrópicas das multinacionais da indústria de informação em
preencher o vazio.

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A Unesco
criou sua própria censura sobre os anos 70, quando a reflexão sobre as
políticas culturais acontecia junto com o debate sobre o papel da comunicação
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Diversidade
sem Comunicação?
A construção de políticas culturais é dificilmente concebível
sem passar pela questão das políticas da comunicação. Porém, a Convenção e,
mais fundamentalmente, a própria filosofia de ação da Unesco em relação à
diversidade cultural, tendem não somente a dissociar as duas problemáticas,
como também a ignorar a segunda. Na versão final do anteprojeto aparecem duas
alusões à diversidade das mídias. Uma, no tópico 12 do prefácio, lembra que
“a liberdade de pensamento, de expressão e informação, assim como a
diversidade das mídias, permitem a manifestação das expressões culturais no
seio das sociedades”. A segunda, no artigo 6, enumera, no final da lista de
medidas a tomar (ponto h) “aquelas que visam promover a diversidade das
mídias, inclusive por meio do serviço público de radiodifusão”.
O que seria esta “diversidade das mídias” não se sabe. Nem adianta procurar a
palavra “concentração”, por exemplo: o conceito se altera. Medo de espantar
os Estados Unidos, que contribuem em 20% para o orçamento da Unesco e
voltaram a participar ativamente em 2003, após a haver abandonado em 1984
para marcar seu desacordo com as demandas do movimento dos países
não-alinhados em favor de um reequilíbrio de fluxos através de uma Nova Ordem
Mundial da Informação e da Comunicação (Nomic)? Certamente. Compartimentação
das tarefas entre divisões de uma grande máquina burocrática? Também. Mas
ainda há mais.
A instituição criou sua própria censura sobre esse período dos anos 1970,
onde a reflexão sobre as políticas culturais acontecia junto com o debate
sobre as políticas de comunicação. A reflexão sócio-econômica sobre as indústrias
culturais situava-se então, na categoria das questões fundamentais, os
fenômenos de concentração econômica e financeira acentuados pela
internacionalização3 . Os temas do
“diálogo das culturas” e do “desenvolvimento harmonioso dentro da diversidade
e do respeito mútuo” inspiravam os trabalhos da comissão internacional para o
estudo dos problemas de comunicação, nomeada pelo diretor geral da Unesco na
época, o senegalês Mohtar M’Bow, e presidida pelo irlandês Sean MacBride,
prêmio Nobel da Paz. Comissão plural que comportava personalidades como
Hubert Beuve-Méry, fundador do jornal Le Monde, ou o romancista
Gabriel Garcia Márquez. Primeiro documento originário de uma instituição
internacional sobre a desigualdade das trocas culturais e informacionais, o
relatório MacBride, ratificado pela conferência geral da Unesco de 1980 e
publicado sob o título simbólico de Vozes múltiplas. Um só mundo,
mostrava porque se tornava urgente pensar o direito à comunicação como
expressão de novos direitos sociais4.

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Antes e
durante a elaboração do anteprojeto, a sociedade civil provocou a tomada de
consciência das autoridades, e as incitou a tomar posição
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Sociedade
civil, papel ativo
Se a Convenção for aprovada, apesar da hostilidade surda dos
Estados Unidos, ela vai se impor como referência com a qual os interventores
públicos e privados deverão inevitavelmente se alinhar. Daí a necessidade,
para os novos atores sociais, de se apropriar dela. Não somente para
colocá-la em prática, mas também para alargar seus limites.
No curso do processo de elaboração do anteprojeto e antes da própria
aprovação da idéia de um instrumento jurídico, estes atores efetivamente
provocaram, em vários pontos do planeta, a tomada de consciência das
autoridades públicas, e as incitaram a tomar posição. É uma grande lição de
mobilização, em plano nacional e internacional, de dois tipos de redes: as
que estão ligadas ao movimento social e a que reúne coletivos nacionais de
organizações profissionais da cultura.
As primeiras teceram um fio vermelho ligando os debates sobre a Convenção e
os que se desenrolaram durante a Cúpula Mundial sobre a Sociedade de
Informação. Fizeram o discurso de defesa dos direitos à comunicação convergir
com as problemáticas da diversidade cultural e midiática. Diversidade das
fontes de informação, da propriedade das mídias e dos modos de acesso à
estas, apoio ao serviço público e às mídias livres e independentes. A
segunda, constituída por cerca de trinta coletivos nacionais construídos em
menos de quatro anos, mostrou que é possível conjugar os assuntos da cultura
com a cidadania, sem se fechar em defesa de interesses corporativos.
Na declaração final da assembléia, ocorrida em Madri, em maio de 2005 –
véspera dos últimos retoques dados ao anteprojeto, os Estados membros da
Unesco foram chamados a “resistir às pressões que tentam diluir o conteúdo da
Convenção” e “àqueles que buscam adiar sua adoção até a conferência geral da
Unesco em 2007, ou mesmo depois, o que comprometeria de maneira significativa
seu impacto”. Nada está definido. A bola, por enquanto, está com os Estados.
(Trad.: Patrícia Andrade)

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*Professor de ciências da informação e da comunicação na
universidade Paris 8. Autor de Diversité culturelle et mondialisation,
La Découverte, Paris, 2005.
1 - Ler Bernard Cassen, “Une norme culturelle contre le droit de commerce?”, Le
Monde Diplomatique, ed. francesa, setembro de 2003.
2 - Koïchiro Matsuura, diretor geral da Unesco, “La diversité culturelle du
monde”, in Unesco, Déclaration universelle sur la diversité culturelle,
Paris, 2002, série “Diversité culturelle”, n° 1, p. 3.
3 - Sobre o tema: Les Industries culturelles. Un enjeu pour la culture,
Unesco. Paris, 1982 ; Les Industries
culturelles, division de développement culturel, Unesco, Paris, 1980.
4 - Relatório MacBride), Voix multiples, un seul monde,
Unesco/La Documentation française, Paris, 1980.
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A fúria
implacável do Katrina atingiu todos os cantos, deixando na sua passagem uma
devastação digna de Hiroshima
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O furacão que destruiu Nova Orleans é produto de uma grande
perturbação atmosférica que aconteceu no dia 23 de agosto, a 200 km das
Bahamas. Mas, ao passar pelo golfo do México durante quatro dias, “a tempestade
tropical Katrina” se transformou em um verdadeiro monstro. Absorvendo a vasta
quantidade de energia acumulada pelas águas do golfo, extraordinariamente
quentes – três graus centígrados acima do nível normal para o mês de agosto
–, ela se transforma em um furacão de categoria cinco, com ventos de 290 km
por hora, engendrando uma gigantesca onda de tempestade de 10 metros de
altura.
A quantidade de calor concentrada pelo Katrina foi tal que, “depois de sua
passagem, em certas zonas do Golfo, a temperatura caiu brutalmente passando
de 30 para 26 graus” 1 .
Horrorizados, os meteorologistas admitem ter raramente observado tal aumento
de força em um furacão caribenho. E saber se o crescimento explosivo do
Katrina é um indicador do efeito do aquecimento climático do planeta sobre a
intensidade dos ciclones provoca um grande debate entre os pesquisadores.
Quando chega ao litoral, na manhã de segunda feira de 29 de agosto, em
Plaquemines, na Louisiana, no delta do Mississipi, o Katrina já passara para
a categoria quatro (ventos de 210 a 249 km/hora). Era apenas um pequeno
consolo para os habitantes dos portos petrolíferos, pequenos povoados e vilas
de pescadores francófonos que tiveram a infelicidade de estar no caminho do
furacão. Em Plaquemines e ao longo de todo o litoral do Mississipi e do
Alabama, a fúria implacável do Katrina atinge todos os cantos, deixando na
sua passagem uma devastação digna de Hiroshima.

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Os diques
destruídos eram claramente insuficientes para proteger os bairros mais pobres
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Proteção
de papel
Inicialmente, Nova Orleans e seus 1,3 milhão de habitantes
supostamente estariam protegidos. Porém, a trajetória do furacão desviou para
a direita e seu centro se deslocou para 55 km à leste da cidade. Embora
poupada por rajadas de vento mais violentas, a capital da Louisiana – que se
encontra abaixo do nível do mar, bordejada por duas grandes lagunas de água
salgada, o Lago Ponchartrain ao norte e o lago Borgne ao leste – sucumbiu à
fúria das águas.
É destes dois lagos que a onda de tempestade impulsionada pelo furacão rompeu
os diques claramente insuficientes – e menos elevados que os dos bairros
ricos – que supostamente protegeriam os bairros majoritariamente negros e o
leste da cidade e o subúrbio operário branco adjacente a Saint Bernard. Na
ausência de alerta oficial, a subida das águas se transformou em uma
armadilha mortal para centenas de habitantes surpreendidos quando dormiam.
Próximo ao meio-dia, um dique claramente mais resistente da zona do canal da
Rue 17 também cedeu.
A inundação poupou as zonas turísticas como o Vieux Carré e o Garden District
e também certos bairros mais ricos como Audubon Park, construído em um plano
mais alto. Mas, por todos os lados, o dilúvio chegou ao nível dos tetos,
afetando ou destruindo cerca de 150 mil unidades de habitação. A cidade
recebeu então o apelido de “Lago George” em homenagem irônica ao presidente
que tinha se revelado totalmente incapaz de auxiliar os habitantes quanto de
assegurar a construção de novos diques.

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Não há
nenhum aspecto da catástrofe que não tenha sido marcado pelas desigualdades
de classe e de raça
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Marcas de
classe e raça
Mesmo depois de ter aventado a possibilidade de que a
“tempestade não foi discriminatória”, até mesmo George W.Bush acabou
admitindo: não há nenhum aspecto da catástrofe que não tenha sido marcado
pelas desigualdades de classe e de raça. O furacão não só pôs a nu as
promessa enganosas do Ministério da segurança interior, encarregado de proteger
todos os americanos, bem como expôs de forma retumbante as conseqüências
devastadoras do abandono no qual são deixadas pelo governo federal as grandes
metrópoles com maioria negra e hispânica e suas infra-estruturas vitais.
Quanto à incrível incompetência da Agência federal de gestão das urgências, a
Federal Emergency Management Agency (FEMA), ela demonstra o absurdo de
confiar cargos de responsabilidade pública tão vitais aos cortesãos políticos
ineptos e cegos por sua hostilidade ideológica à intervenção do Estado.
Quando pensamos nos prodígios de lerdeza burocrática manifestados pela FEMA,
só podemos nos admirar com a rapidez com a qual Washington agiu para
suspender as normas salariais em vigor, em virtude do Davis-Bacon Act 2, e abrir as portas de Nova Orleans, para
a reconstrução e a “segurança”, aos predadores de colarinho branco de
sociedades como a Halliburton, o Shaw Group e Blackwater Security, mantendo
exatamente os mesmos lucros fáceis acumulados sobre os rios do Tigre.
Se a agonia de Nova Orleans se deve, amplamente, à incúria das autoridades
federais, o governador do Estado e a Prefeitura da cidade têm, também, sua
responsabilidade. É o prefeito (democrata) Ray Nagin – um rico empreiteiro
afro-americano, dirigente de uma sociedade de televisão a cabo e eleito em
2002 com 87% dos votos dos eleitores brancos3
– que era responsável, em última instância, pela segurança de seus
administrados, sendo que cerca de um quarto deles era muito pobre ou muito
deficiente para possuir um veículo. Sua incrível incapacidade de mobilizar os
recursos necessários para a evacuação dos habitantes não motorizados e dos
pacientes dos hospitais – apesar do sinal de alerta que constituía a falta de
preparo da municipalidade diante da ameaça do furacão Ivan em setembro de
2004 – reflete mais que uma simples incompetência pessoal: ela personifica o
egoísmo de classe das elites da cidade, quer sejam brancas ou negras,
perfeitamente insensíveis à sorte dos concidadãos pobres das cidades
destruídas e das zonas marginais.

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Na história
dos Estados Unidos, nenhum desastre foi antecipado com tal grau de precisão
como o Katrina
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Catástrofe
anunciada
História de uma catástrofe anunciada ? De fato, ao longo da
história dos Estados Unidos nenhum desastre foi antecipado com tal grau de
precisão, contrariamente às afirmações falaciosas do ministro da segurança
interior, Michael Chertoff. Se for verdade que os especialistas foram
surpreendidos pelo rápido aumento do poder do Katrina, eles não alimentavam
nenhuma dúvida sobre as conseqüências de um furacão maior.
Desde a nefasta experiência do furacão Betsy – uma tempestade de categoria
dois que já tinha inundado em setembro de 1965 boa parte dos bairros do leste
da cidade devastados pelo Katrina –, a vulnerabilidade de Nova Orleans foi
estudada a fundo e de maneira completa; e os resultados destes estudos foram
amplamente difundidos. Em 1998, depois da passagem do felizmente benigno
furacão Georges, redobraram-se os esforços de pesquisa, e uma simulação
digital avançada efetuada pela Universidade da Louisiana mencionou a
“destruição virtual” da cidade por um ciclone de categoria quatro vindo do
sudoeste4. Os diques e os muros de
contenção de Nova Orleans são preparados para resistir no máximo a um furacão
de categoria três. Mas, depois de novas simulações efetuadas em 2004, pelo
corpo da Engenharia do exército, mesmo este nível de proteção constatou-se
ser ilusório.
A erosão permanente das ilhas costeiras e de zonas pantanosas do litoral da
Louisiana (que faz com que desapareçam entre 60 e 100 quilômetros quadrados
de costa por ano) se traduz por um aumento do poder das ondas de tempestade
no momento em que elas atingem Nova Orleans, enquanto a própria cidade em si
e seus diques afundam-se lentamente. Mesmo um furacão de categoria três, se
sua trajetória é suficientemente lenta, pode inundá-la quase inteiramente5.

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Nova Orleans
é uma cidade majoritariamente negra, cujos eleitores fazem, muitas vezes,
pender a balança em favor dos democratas
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Negligência
federal
Para fazer com que os responsáveis políticos compreendessem
estas previsões, outros estudos ofereciam uma avaliação precisa dos estragos
antecipados em caso de impacto direto de um ciclone. Todas as simulações em computador
reproduziam os mesmos números aterradores: ao menos 160 quilômetros quadrados
de superfície urbana completamente submersa, entre 80 mil e 100 mil mortos.
Em 2001, à luz destes estudos, a FEMA tinha anunciado que a inundação de Nova
Orleans, depois de um ciclone, seria uma das três mega-catástrofes mais
prováveis em um futuro próximo em território dos Estados Unidos (os dois
outros seriam um sismo na Califórnia e um ataque terrorista em Manhattan). Em
2004, após os meteorologistas terem anunciado uma forte retomada da atividade
de ciclone, as autoridades federais organizaram um exercício de simulação
sofisticado, a operação “Furacão Pam”, que confirmou, mais uma vez, que as
vítimas poderiam ser contabilizadas em dezenas de milhares.
Em resposta, a administração Bush rejeitou as exigências urgentes do estado
da Luisiana em matéria de prevenção de inundações. Ela pôs em prática um
importante plano de revitalização das zonas pantanosas da costa, o projeto
Coast 2050 – fruto de um decênio de pesquisa e de negociação –, e cortou por
diversas vezes o orçamento de manutenção e de construção de diques, deixando
inacabadas as infra-estruturas de contenção ao redor do lago Pontchartrain.
A Engenharia militar do exército foi, ela também, vítima de cortes orçamentários
que refletem em boa medida as novas prioridades de Washington: forte baixa
dos impostos para os ricos, financiamento da guerra no Iraque e –
ironicamente – aumento das despesas de “segurança interior”. Sem contar as
motivações políticas: Nova Orleans é uma cidade majoritariamente negra, cujos
eleitores fazem, muitas vezes, pender a balança em favor dos democratas
quando das eleições na Louisiana. Por que uma administração tão
descaradamente partidária deveria ser presenteada por seus adversários outorgando
os 2,5 milhões de dólares necessários para construir um sistema de proteção
de categoria cinco em redor de Nova Orleans 6?

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Não contente
com as proezas orçamentárias, a Casa Branca empenhou-se, de maneira
irresponsável, em esvaziar a FEMA
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Em
benefício das empresas
Na verdade, quando o chefe da Engenharia, um ex-congressista
republicano, protestou em 2002 contra a asfixia orçamentária dos programas
contra inundações, Bush obrigou-o a se demitir. Mas não sejamos injustos:
Washington gastou imensas quantias na Louisiana... Mas essencialmente para os
trabalhos de infra-estrutura beneficiando os interesses das empresas
portuárias e marítimas e os distritos eleitorais sob hegemonia republicana7.
Não contente com estas proezas orçamentárias, a Casa Branca empenhou-se
também, de maneira irresponsável, em esvaziar a FEMA. Quando seu diretor (que
tinha então o estatuto de ministro) era James Lee Witt, este organismo era
uma das jóias da administração Clinton. Quando da enchente no Mississipi em
1993 e do tremor de terra de Los Angeles em 1994, sua eficácia na organização
do socorro tinha sido saudada por unanimidade.
Entretanto, quando os Republicanos tomaram a direção da FEMA, em 2001,
comportaram-se como se tivessem conquistado um país. Seu novo chefe, Joe M.
Allbaugh, ex-diretor da campanha de Bush, tomou o cuidado de cancelar boa
parte dos principais programas de prevenção de inundações e tempestades.
Depois de ter deixado seu cargo em 2003, ele se converteu em consultor
regiamente pago para assessorar empresas na busca de contratos no Iraque
(dando seqüência às suas idéias, ele acaba de reaparecer na Louisiana, onde
manifesta seus talentos de iniciado em benefício das empresas desejosas de
conseguir sua parte nos apetitosos lucros da reconstrução). Desde que ela foi
integrada ao departamento da segurança interior, em 2003 (e que perdeu o
estatuto de Ministério), obras inteiras da FEMA foram desmanteladas e
paralisadas. Em 2004, funcionários deste organismo escreveram ao Congresso
denunciando “a troca de gestores competentes em matéria de prevenção de
catástrofes por comerciantes jogando em favor de interesses políticos e de
noviços sem experiência nem conhecimentos sérios8”.

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Quando as águas
começaram a submergir Nova Orleans, foi praticamente impossível contatar
qualquer responsável pelo telefone
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Negligência
e despreparo
O sucessor de Allbaugh, Michael Brown, é a perfeita encarnação
disso tudo. Uma semana após ter recebido os elogios do presidente, este
advogado republicano totalmente profano em matéria de prevenção de
catástrofes, que tinha falsificado seu curriculum vitae, foi despedido.
Sob sua direção, a FEMA tinha continuado a ser despojada de suas competências
polivalentes e de seus orçamentos, para se dobrar aos objetivos monomaníacos
da luta contra o terrorismo e à construção de uma linha Marginot contra a
ameaça da Al Qaida.
No dia 28 de agosto, domingo, em uma vídeo-conferência, o diretor do
Observatório nacional de furacões de Miami, Max Mayfield, preveniu o
presidente Bush (em férias no Texas) e os funcionários do departamento de
segurança interior que o Katrina estava a ponto de devastar Nova Orleans.
Brown estava pronto: “Estamos completamente preparados para enfrentar este desafio.
Há anos que nos antecipamos a este tipo de desastre natural”. Há muitos meses
o diretor da FEMA e o Ministro da segurança interior exibia os méritos do
novo plano nacional de urgência, pronto para garantir uma coordenação sem
precedente entre os diversos organismos governamentais, em caso de uma
catástrofe maior.
Entretanto, quando as águas começaram a submergir Nova Orleans e seus
subúrbios, foi praticamente impossível conseguir contatar qualquer
responsável pelo telefone. As equipes de socorro e os funcionários municipais
se encontraram desprovidos de qualquer meio de comunicação funcional, sem
contar a penúria de provisão vital – rações alimentares, água potável, sacos
de areia, óleo, sanitários móveis, ônibus, barcos e helicópteros – que a FEMA
deveria ter providenciado de maneira preventiva. Chertoff nem esperou 24
horas após a inundação para classificar o desastre como “calamidade de
importância nacional” – estatuto jurídico indispensável para decretar a
mobilização geral dos recursos federais.

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Como nem
ônibus ou trem estavam previstos pelas autoridades, os pobres eram obrigados
a deixar a cidade a pé
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Lentidão
fatal
A infinita lentidão com a qual o cérebro de dinossauro da
segurança interior registrou o tamanho do desastre foi fatal para centenas de
habitantes de Nova Orleans, agonizando sobre os tetos ou num leito de
hospital. No dia 2 de setembro, Chertoff ainda explicava a um repórter
escandalizado da rádio pública nacional que as cenas de caos e de desespero
no interior do Superdome, difundidas pelas televisões do mundo inteiro, não
passavam de “boatos anedóticos”... Quanto ao senhor Brown, ele se apegava
essencialmente ao fato de que as vítimas, segundo ele, se tornaram
responsáveis por “não levar em conta as palavras de ordem de evacuação”, como
se tudo isso não tivesse nada a ver com a ausência de veículo ou à
dificuldade de se dirigir ao Baton Rouge em cadeira de rodas. Simulações
tinham demonstrado que ao menos um quinto da população estava incapacitada de
deixar a cidade por seus próprios meios. 9
Segundo o ministro da defesa, Donald Rumsfeld, a tragédia do Katrina não
tinha nada a ver com o Iraque. Porém, desde o início da catástrofe, a
ausência de mais de um terço dos membros da Guarda nacional da Louisiana e de
uma boa parte de seu equipamento pesado limitou de forma grave as operações
de salvamento. Socorros teriam também sido úteis nos arredores do Paço
Municipal: o posto de comando de urgência ficou fora de serviço desde o
início por falta de combustível para alimentar o gerador de socorro. Como
nenhum telefone funcionava, o prefeito e seus colaboradores estavam desligados
do mundo exterior durante dois dias. Esta paralisia do aparelho de gestão
municipal é chocante porque, desde 2002, a prefeitura tinha utilizado 18
milhões de dólares de subvenção federal para treinar seu pessoal para
enfrentar este tipo de situação.
Em setembro de 2004, o senhor Nagin já tinha sido severamente criticado por
sua passividade diante do furacão de categoria três Ivan (cuja trajetória
desviou da cidade no último momento): nesta oportunidade, nada tinha sido
previsto para evacuar os pobres. Diante destas críticas, a municipalidade
produziu, destinados aos bairros pobres, 30 mil vídeos (nunca distribuídos)
cuja mensagem era a seguinte: “Não espere a intervenção da municipalidade,
não espere a intervenção do Estado, não espere a intervenção da Cruz
Vermelha, (...) parta”. Como nem ônibus ou trem estavam previstos para estes
casos pelas autoridades, os pobres eram, portanto, obrigados a deixar a
cidade a pé; quando as condições de higiene e de segurança no interior do
Superdome se tornaram insustentáveis, foram centenas que tentaram deixar a
cidade a pé atravessando a ponte que ligava o subúrbio branco de Gretna, mas
eles foram enxotados por policiais municipais apavorados que disparam suas
armas sobre suas cabeças.

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O objetivo é
transformar Nova Orleans em um grande parque de atrações e retirar os pobres
da vista dos turistas
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Mais
branca e mais segura
Uma parte dos habitantes abandonados à mercê das águas saberá
interpretar a incrível incúria de seu prefeito à luz da profunda fratura
social e racial que caracteriza Nova Orleans. Ninguém ignora que as elites
econômicas locais e seus aliados do Centro da cidade sonham em expulsar os
habitantes mais pobres, aos quais eles atribuem a elevada taxa de
delinqüência. Aqui, residências populares que compõem há muito tempo sua
paisagem foram arrasadas para dar lugar a imóveis de luxo e a um supermercado.
Fora daí, os habitantes das cidades podem ser expulsos se seus filhos violam
o estado de emergência. O objetivo parece ser transformar Nova Orleans em um
grande parque de atrações e de retirar os pobres da vista
dos turistas, forçando-os a morarem na periferia, nas margens dos braços do
rio Mississipi, nos parques de caravanas e penitenciárias.
Desde então, para alguns partidários de uma Nova Orleans mais branca e mais
segura, o Katrina é uma divina surpresa. É isso que um líder republicano de
Louisiana confiava a comerciantes de Washington: “Finalmente, as cidades de
Nova Orleans foram limpas. O que nós não conseguimos, Deus se encarregou de
fazer10.” Da mesma forma, para o
prefeito Nagin, as ruas desertas e os bairros em ruína são uma dádiva: “Pela
primeira vez, nossa cidade está livre da droga e da violência e nós queremos
muito conservá-la neste estado.”
Na verdade, sem um esforço maciço das autoridades locais e federais, para
fornecer habitações de baixo custo para as dezenas de milhares de locatários
pobres, hoje refugiados nos abrigos sem nenhuma escolha, nos quatro cantos do
país, Nova Orleans corre o risco de conhecer uma espécie de limpeza étnica.
Já se fala em transformar alguns bairros mais desfavorecidos, situados acima
do nível do mar, como o Lower Ninth Ward, em bacias de retenção destinadas a
proteger os bairros mais ricos. “O que impediria alguns habitantes mais
pobres da cidade de voltar a se instalarem em seus bairros”, ressalta, acerca
desse assunto, o Wall Street Journal11.

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O impacto
imediato do Katrina foi a queda brutal da popularidade do presidente – e da
presença americana no Iraque
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Hegemonia
republicana ameaçada
O prefeito Nagin já tomou o cuidado de velar pelos interesses
da “alta sociedade” anunciando a designação de uma comissão especial de
reconstrução de dezesseis membros: oito brancos e oito negros, enquanto que
75% da população é afro-americana. Por outro lado, os bairros brancos – base
de inquietante sucesso eleitoral do neonazista David Duke, nos inícios dos
anos 1990 – também têm a intenção de defender a sua causa. E o status quo
republicano do Mississipi vizinho não quer deixar a estrela aos democratas da
metrópole da Louisiana. Em meio a todos estes conflitos de interesse, pode-se
duvidar se os bairros negros tradicionais de Nova Orleans – verdadeiro berço
da sensibilidade festiva da cidade e de seu patrimônio jazzístico – consigam
se safar dessa jogada.
Quanto à administração Bush, ela espera sair-se com uma espécie de mistura de
cripto-keynesianismo orçamentário e de engenharia social ultraconservadora.
Sabe-se que o impacto imediato do Katrina foi uma queda brutal da
popularidade do presidente – e da presença americana no Iraque. A hegemonia
republicana pareceu, momentaneamente, ameaçada. Pela primeira vez, desde os
distúrbios raciais em Los Angeles, em 1992, os velhos temas democráticos como
a pobreza, a desigualdade racial e a intervenção do Estado dominaram o debate
público, a ponto de o Wall Street Journal ter exortado os Republicanos
a “retomar a ofensiva no plano intelectual e político” antes que os
progressistas como o senador Edward Kennedy ressuscitassem as manias do New
Deal – que inclui o projeto de uma agência federal de prevenção das
inundações e de revitalização ecológica do litoral do Golfo do México12.
Em busca de uma estratégia para tirar Bush do burburinho de Louisiana, a
ultraconservadora Heritage Foundation multiplicou os seminários acolhendo
ideólogos reacionários, congressistas republicanos e alguns reconciliados
como Edwin Meese, ex-ministro da justiça de Ronald Reagan.

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Os
republicanos prometem fazer surgir dos escombros da catástrofe uma verdadeira
utopia capitalista
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Tudo para
a livre iniciativa
No dia 15 de setembro, o presidente escolheu cenário deserto
mas iluminado de Jackson Square, uma praça tradicional de Nova Orleans, para
pronunciar seu discurso sobre a reconstrução. Radiante, prometeu aos dois
milhões de vítimas do Katrina que a Casa Branca, apesar do déficit orçamentário,
pagaria o essencial da fatura do desastre, ou seja, 200 bilhões de dólares (o
que não o impede, de forma nenhuma, propor novas baixas de impostos maciços
para as grandes fortunas)!
Depois disso, anunciou toda uma série de reformas cobiçadas por sua base
ultraconservadora: um sistema de controle para a educação e o alojamento, o
reforço do papel das igrejas, generosos descontos de impostos para o setor
privado, a criação de uma “zona regional de oportunidade econômica” e a
suspensão de toda uma série de regulamentações federais abordando,
principalmente, controles de meio ambiente para as perfurações petroleiras.
Para aqueles acostumados com a linguagem presidencial, o discurso na Jackson
Square tem um encantador gostinho de “já vimos este filme”: já não tínhamos
ouvido promessas semelhantes nas margens do rio Eufrates? Segundo o cruel
comentário do colunista Paul Krugman, depois de ter frustrado a tentativa de
transformar o Iraque “em um laboratório do neoliberalismo”, a Casa Branca
vai, a partir de então, utilizar como cobaia os habitantes traumatizados de
Biloxi e do Ninth Ward13. Segundo o
congressista Mike Pence, um dos animadores do poderoso Republican Study Group
que contribuiu para a elaboração do programa de reconstrução do presidente
Bush, os republicanos vão fazer surgir dos escombros da catástrofe uma
verdadeira utopia capitalista: “Vamos fazer do litoral do Golfo um pólo de
atração magnético para a livre iniciativa. Não se trata, absolutamente, de
reconstruir uma Nova Orleans dominada pelo setor público14.”
É muito sintomático que o corpo da Engenharia de Nova Orleans seja, a partir
de então, comandado pelo mesmo oficial que era encarregado da supervisão dos
trabalhos públicos no Iraque15. Não
importa que o Lower Ninth Ward tenha desaparecido sob as ondas; os
proprietários de tabernas do Vieux Carré já esfreguem as mãos, ansiosos: não
está longe o dia em que os trabalhadores de Halliburton, os mercenários de
Blackwater e os engenheiros de Bechtel virão despejar seus dólares federais
na Bourbon Street. Como dizem as populações francófonos na Louisiana e
certamente, também, na Casa Branca: “Deixe o bom tempo passar!”
(Trad.: Celeste Marcondes)

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* Autor,
entre outros, de The Monster at Our Door. The Global Threat of Avian Flu,
The New Press, New York,
2005.Último livro publicado em francês: Génocides tropicaux. Catastrophes
naturelles et famines coloniales (1870-1900), pela Editora La Découverte,
Paris, 2003.
1 - Quirin Schiermeier, “The power of Katrina”, Nature, n. 437,
Londres, 8 de setembro de 2005.
2 - NT: Legislação do tempo do New Deal que obriga as obras públicas a
respeitarem o salário mínimo local. Ela é há muito tempo alvo dos
republicanos conservadores.
3 - Se a Louisiana votou majoritariamente em Bush em 2004 (56,7%), entretanto
Nova Orleans é tradicionalmente democrata.
4 - Estudo realizado por Joseph Suhayda e descrito no Richard Campanella, Time
and Place em Nova Orleans: Past Geographies in the Present Day, Gretna,
Los Angeles, 2002, p.58.
5 - Travis, op. cit., p. 1657.
6 - Alfred C. Naomi, do corpo de engenheiros do exército, citado por Andrew
Revkin e Christopher Drew, “Intricate Flood Protection Long a Foocus of
Dispute”, The New York Times, 1º de setembro de 2005.
7 - Editorial, “Katrina´s
Message on the Corps”, The New York Times, 13 de setembro de 2005.
8 - Ken Silverstein, “Top FEMA jobs: No Experience Required”, Los Angeles
Times, 9 de setembro de 2005.
9 - Tony Reichhardt, Erika Check e Emma Morris, “After the flood”, Nature,
n. 437, 8 de setembro de 2005.
10 - Conceito do congressista Richard Baker (Baton Rouge), citado pelo Wall
Street Journal, Nova York, 9 de setembro de 2005.
11 - Jackie Calmes, Ann Carrns e Jeff Opdyke, “As Gulf Prepares to Rebuild,
Tensions Mount Over Control”, Wall Street Journal, 15 de setembro de
2005.
12 - Editorial, “Hurricane Bush”, Wall Street Journal, 15 de
setembro de 2005.
13 - “Not the New Deal”, The New York Times, 16 de setembro de 2005.
14 - John Wilke e Brody Mullins, “After Katrina, Republicans Back a Sea of
Conservatrice Ideas”, Wall Street Journal, 15 de setembro de 2005.
15 - Editorial, “M. Bush in New
Orleans”, The New York Times, 16 de setembro
de 2005.
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