Ano 2 - Edição nº 43 de 24 a 30 de março de 2006
Três anos de ocupação e opressão do povo iraquiano
Não há nada que induza mais a alterar
a graça de Deus e a apressar o Seu castigo
que perpetrar a opressão. Por certo que Deus
escuta o chamado dos oprimidos e observa
de perto os opressores.
Imam Ali ibn Abi Tálib.*
Por Omar
Nasser Filho
No dia 2 de março de 2003, quarenta dias após o início da invasão do Iraque, o
presidente dos Estados Unidos da América, George Walker Bush, numa grande
cerimônia a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln, anunciava para o mundo
que a missão estava cumprida. A grande peça de marketing organizada no convés
da belonave tinha por intuito fazer crer ao mundo que a ação militar havia
chegado a bom termo, com a destituição do ditador Saddam Hussein e a entrada do
povo iraquiano na terra da promissão da democracia liberal e da economia de
mercado.
Após três
anos do anúncio da vitória, o mundo se conscientiza de que foi, mais uma vez,
enganado pelo líder da maior potência econômica e militar do planeta. É clara a
percepção de que o que se viu naquele dia não foi nada mais nada menos do que
isso mesmo: uma peça de marketing . Analisando-se os números vê-se que a realidade
é outra: fria, implacável, desumana, brutal. O saldo da invasão é amplamente
desfavorável para todos, especialmente para os civis iraquianos: 100 mil
mortos, entre mulheres, homens, velhos e crianças. Bilhões de dólares
desperdiçados num conflito que parece não ter fim. A infra-estrutura do país
continua destruída e o Iraque mergulha na guerra civil.
A imprensa
mundial, contudo, deu mais importância ao espetáculo armado a bordo do USS
Abraham Lincoln que ao discurso proferido por Bush, à noite, aos soldados
baseados no Iraque. Disse então ele: A coragem de vocês sua disposição de
enfrentar o perigo por seu país e por vocês fez este dia possível. Neste
momento, Bush colocou às claras o real motivo da invasão e da morte de milhares
de civis inocentes: os interesses do seu país, dos Estados Unidos da América,
ávido por rápido e seguro acesso às fontes de petróleo iraquianas, que
constituem a segunda maior reserva do mundo.
Fazendo-se
uma análise retrospectiva da invasão e ocupação do Iraque, percebe-se hoje, 100
mil vidas de iraquianos inocentes depois, que a guerra foi uma clara
demonstração do risco que corre o mundo. A opressão não tem mais limites e para
justificar suas intenções e atos criminosos os opressores criam as mais abjetas
mentiras. Todos nós nos lembramos do teatro armado pelo general Collin Powel no
Comitê de Segurança da ONU, com diagramas mostrando os caminhões-laboratório de
Saddam, fotografias aéreas das fábricas iraquianas de armas de destruição em
massa e outras fantasias que exatamente por isso, por serem fantasias, nunca
foram encontradas.
Este ano, o
triênio de invasão e ocupação do Iraque é lembrado no dia em que os muçulmanos
rememoram o 40º dia do Martírio do Imam Hussein, neto do Profeta Muhammad. Este
evento, que aconteceu há cerca de 1.320 anos, é fundamental para a história do
Islamismo por ter o Imam se levantado contra o regime opressor de Yazid, o
califa da época, um governante dissoluto que ávido pelo usufruto do poder que
lhe foi conferido por seu pai, Moawia ibn Abu Suffian, praticava a opressão e a
injustiça.
O anseio
pelo mundano grassava na corte e, para preservar os nobres preceitos da
religião islâmica, Hussein e seus seguidores partiram de Medina, na Arábia,
rumo a Kufa, no Iraque, onde Moawia instalara sua corte, para enfrentá-lo. A
promessa de apoio do povo de Kufa não se realizou e o Imam e seus 70 seguidores
foram massacrados na região de Karbalá. O Martírio de Hussein e seus
apoiadores, contudo, não foi em vão. Revoltas surgiram em todo o império e o
governo Omíada não durou muito tempo mais. Além da derrocada do governo
opressor de Moawia e seus sequazes, o levantamento de Hussein logrou uma vitória
de longo prazo: a lembrança permanente do seu Martírio traz para o dia-a-dia
dos muçulmanos a certeza de que os opressores não se eternizam no poder. Deus
está atento aos que obram e mantém-Se firme ao lado dos oprimidos.
* O Imam
(líder) Ali ibn Abi Tálib foi o quarto califa (sucessor) do Profeta Muhammad.
Era seu primo e genro. Seus seguidores (ou xi'at Ali ) deram origem à Escola
Xiita.
Omar
Nasser Filho , jornalista, economista e mestrando em História
pela Universidade Federal do Paraná. É responsável pelo setor de comunicação
social da Sociedade Beneficente Muçulmana do Paraná.
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Desenvolvimento
sustentável para o Oriente Médio
PROBLEMAS À VISTA: Príncipe jordaniano teme por um
ataque ao Irã e diz que desigualdade é motor de conflitos na região
No Brasil para
participar da conferência Principais problemas de uma Agenda Global, na UniFMU,
o príncipe jordaniano El Hassan Bin Talal falou em entrevista coletiva sobre a
situação política no Oriente Médio. Entre outros assuntos, pediu a reforma da
ONU e disse que o tratamento dado a Estados Unidos e Reino Unido, se referindo
ao assunto das armas nucleares, deve ser o mesmo dado a países árabes e
islâmicos. Hassan teme por um ataque ao Irã, pois acredita que isto criará um
sentimento generalizado de tensão na região e um quadro muito pior do que o
atual Iraque. Para ele, a distribuição da renda e das riquezas dos países do
mundo árabe é o principal passo para a estabilização da região, já que acredita
que o motor dos conflitos é a perda de perspectiva de vida.
Clique
aqui e veja mais sobre a conferência e a entrevista de Bin Talal no Brasil
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Teatro e aprendizado no Marrocos
Maria Lúcia de Souza Barros Pupo
Professora titular da Escola de Comunicações e Artes da USP fala ao Icarabe
sobre o trabalho que desenvolveu durante um ano e dez meses na cidade de
Tetuán, Marrocos. No país árabe, onde foi parar por acaso, desenvolveu o
trabalho que procurava fazer um diálogo entre a improvisação cênica e textos
narrativos. O projeto que começou na USP e teria como base textos e crônicas de
autores brasileiros, como Carlos Drummond de Andrade, terminou como uma
experiência de trabalho apoiada nas Mil e Uma noites e na literatura
contemporânea árabe.
Clique
aqui e leia a entrevista no site
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26 DE MARÇO: Lançamento do
CD Carlinhos Antunes e Orquestra Mundana
No domingo, Carlinhos Antunes e a Orquestra Mundana fazem o
segundo show do lançamento do CD "Carlinhos Antunes e Orquestra
Mundana", no Museu da Casa Brasileira. O primeiro show ocorre hoje, no
Sesc Santana
Horário: dia
24 (às 21h); dia 26 (às 11h)
Locais: dia
24, no Sesc Santana - Av. Luiz Dumont Vilares, 579 (entrada de R$ 2 a R$8) /
dia 26, no Museu da Casa Brasileira, Av. Brigadeiro Faria Lima, 2705 (entrada
Franca)
27 DE MARÇO: Debate As
charges de Mahomé e a liberdade de expressão
Retomando os
Diálogos franco-brasileiros, a Aliança Francesa promove debate que discute o
recente caso das charges do profeta Muhammad e as repercussões que teve ao
redor do mundo. Com a presença do escritor Contardo Calligaris, do colunista da
Folha de S. Paulo Demétrio Magnoli, do jornalista Reinaldo Azevedo e do
vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe Murched Taha.
Horário:
18h30
Local:
Aliança Francesa General Jardim, 182 (entrada Franca)
Veja mais informações na Agenda do ICArabe
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OÁSIS DE
COLUNAS
Por Lelia
Maria Romero
Contam que se tornou
grande porque omíada, e resiste ao poder que a criou. Mil anos avançam sobre
ela e ao invés de debilitar, imprimem força. Ainda que adulterada e invadida,
não há templo comparável à Grande Mesquita de Córdoba.
Da grandiosa
cidade do califado há poucos vestígios. As milhares de lojas e ateliês, as
estalagens onde se abrigavam os viajantes e seus animais, escolas, bibliotecas,
numerosos banhos públicos, os hammans apreciados por qualquer cidadão comum. Nada disso é
visto na Córdoba atual e as ruínas de Madinat-al-Zahra' passam por
escavações. Alguma peça da época pode ser apreciada no Museo Arqueológico
Provincial . Porém, ainda que longe do aspecto original, o
monumento é tão vivo que no seu interior é possível ver além.
A Grande Mesquita
nasceu e cresceu com os omíadas. A sede do califado, centro comercial e pólo
irradiador do legado da sabedoria grega, se expandia como reflexo da extensão
do poder da dinastia, cujo ponto alto foi o reinado de Ab al Rahman III. Houve
várias ampliações porque a cidade abrigava um número cada vez maior de
moradores e visitantes. A mesquita foi construída a partir de um templo
visigodo, edificado sob ruínas romanas. Contam que, dividido por um muro,
servia de local de oração para cristãos e muçulmanos. Isso acabou
quando Ab al Rahman I, o sobrevivente, plantou ali as bases da mesquita,
no século VIII.
"O arco em
forma de ferradura, que acreditamos ser um protótipo da estética muçulmana, na
verdade fazia parte da tradição arquitetônica das igrejas da Espanha
pré-muçulmana. Os arcos duplos, com sua aparência singular e quase alucinatória
em branco e vermelho, podem ser vistos em aquedutos romanos, um dos quais,
imponente, encontra-se em Mérida, não muito distante de Córdoba." (M.R.Menocal)
Depois de
atravessar o Patio
de los Naranjos , cheio de palmeiras e laranjeiras, nos perdemos no
interior da mesquita entre pilares e arcos. Por mais de 800 colunas, a
profundidade se alonga e a perspectiva movediça nos convida a dar mais um
passo, e mais outro, e outro nos lança ao recolhimento. Não há um altar central
porque o próprio chão é o lugar de oração: o ponto escolhido para rezar
torna-se o centro do templo. O mihráb, nicho de oração onde se guarda o Alcorão, sinaliza
a direção de Meca. Bem conservado até hoje, o mihráb foi decorado por
artistas vindos de Constantinopla. A pedido do filho e sucessor de Ad-al-Rahman
III, Al-Hakam II, vieram ao al Andaluz ensinar a lavra do mosaico bizantino.
Porém, o fundamento técnico da composição, está ancorado no estilo geométrico
da arte islâmica al andaluza. A cúpula, de acústica extraordinária, foi
construída a partir de um só bloco de mármore.
A beira do Guadalquevir, uma ponte romana do tempo de Julio César
nos leva ao templo. Abaixo da ponte há restos de moinhos árabes, onde
funcionava a noria
, roda d'água que extraía água do rio. O vizir Hasdai e o médico
Maimônides caminharam por ali. Averrois fez preces no chão coberto de esteiras,
depois de lavar as mãos na fonte do pátio da Grande Mesquita. Meu olhar se
encontrou com o olhar de Ibn Hazm, o poeta, nas contas do mosaico do mihráb ,
ambos sem palavras, cada qual com as indagações do seu coração e tempo, diante
da beleza imponderável, testemunha do que já não é. A Grande Mesquita reserva
emoção e surpresa. E muitas outras histórias.

Lelia Maria Romero é escritora
e autora de Andaluza"