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A GENEROSIDADE PERVERSA DO G-8

O G-8 (grupo dos 7 países mais ricos do mundo + Rússia) anunciou dia 11 que anularia parte das dívidas externas de 18 países pobres que foi contraída junto ao FMI, ao Banco Mundial (BM) e ao Banco Africano de Desenvolvimento (BAD). O montante total anulado é da ordem dos 40 mil milhões de dólares. O secretário de Estado dos EUA, John Show, classificou como "histórico" tal acordo.

Verifica-se que os US$ 40 mil milhões anulados correspondem a menos de um quarto dos US$ 370 mil milhões que estes países têm de pagar por ano a título de serviço da dívida (juros+amortizações do principal). Esta anulação representa apenas 10% da dívida total dos países pobres altamente endividados (cerca de US$ 523 mil milhões). A medida poderia ser considerada um passo no bom sentido, no entanto, se não viesse acompanhada de condicionalidades iníquas.
"Os supostos alívios estão condicionados à abertura progressiva das economias do sul aos interesses das transnacionais do norte", acusou o presidente do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo, Eric Toussaint. Isto significa que tais países deverão avançar nas privatizações selvagens dos seus serviços públicos e entregar os seus recursos naturais ao capital estrangeiro. Estas condições lesivas fazem com que o nível de vida das populações submetidas a tal lógica não melhore -- poderá, ao contrário, ser agravado.

Toussaint classificou o gesto do G-8 como "uma cortina de fumo" que não deterá a sangria de capitais que afecta estes países. E esta iniciativa demagógica não inclui os empréstimos concedidos pela banca privada internacional, cujos serviços são ainda mais onerosos que os do FMI, BM e BAD. Em 2005 os 27 países "beneficiados" por tal medida pagarão mais pelos serviços das suas dívidas do que em 2003. É um sarcasmo, nestas condições, falar em 'desenvolvimento sustentável'. E é hipócrita que o G-8, que representa mais da metade da riqueza mundial e só 12% da população do planeta, fale em "alívio da pobreza".


Cambodja: uma vítima da 'ajuda'

por John Pilger

Visto do ar, parecia não estar ninguém ali, nenhum movimento, nem mesmo um animal, como se a imensa população asiática houvesse parado no rio Mekong. Mesmo a colcha de retalhos dos campos de arroz era quase indiscernível; nada parecia ter sido plantado ou estar a crescer, excepto a floresta e linhas de altas ervas selvagens. À beira de aldeias desertas, muitas vezes seguindo um padrão de crateras de bombas, a erva seguia linhas rectas; fertilizada por composto humano, pelos remanescentes de milhares e milhares de homens, mulheres e crianças, ela marcou sepulturas comuns num país em que até dois milhões de pessoas, ou seja, entre um terço e um quarto da população, estão "faltando".

Este foi o Cambodja que encontrei há 26 anos atrás, no rastro do Khmer Rouge, cujo domínio assassino foi seguido por um inferno de bombas americanas. Pouco tempo depois, Jim Howard, engenheiro senior e bombeiro da entidade de beneficência britânica Oxfam, chegou e enviou o seu primeiro telegrama: "Cinquenta a oitenta por cento de destruição material e humana é a realidade terrível. Cem toneladas de leite por semana necessárias, por ar e mar, durante os próximos dois meses a começar já, repito, já".

Então começou uma das mais arrojadas operações de ajuda do século XX, a qual ultrapassou um embargo americano e britânico destinado a punir o libertador do Cambodja, o Vietnam. Através da fina engenhosidade e visão política das suas acções e campanhas internas, o Oxfam salvou e recuperou incontáveis pessoas. Posteriormente, ao exigir que o ocidente parasse de apoiar o Khmer Rouge no exílio, a Oxfam incorreu na hostilidade dos governos Thatcher e Reagan e foi ameaçada com a perda do seu estatuto de entidade caritativa isenta de impostos. Isto era claramente destinado a servir de advertência às organizações de ajuda independentes, ou "ONGs", para que não se tornassem demasiado "radicais". Muitas desde então abraçaram uma versão de corporativo e uma aproximação ao governo britânico, cujas políticas comerciais neoliberais continuam a ser uma fonte de grande parte da pobreza do mundo.

Em 27 de Maio, a organização de vigilância ActionAid publicou um extraordinário relatório de condenação, RealAid : uma agenda para fazer a ajuda funcionar. Com a reunião do G8 em Gleneagles, na Escócia, em Julho, e o governo Blair (e outros governos europeus) a propagarem o disparate de que está ao lado dos pobres, o relatório revela que o governo está a inflar em um terço o valor da sua ajuda que já é mínima aos países pobres. E acrescenta que a maior parte de toda a ajuda ocidental é realmente "ajuda fantasma", o que significa que nada tem a ver com a redução da pobreza.

O estudo Action Aid descreve um regabofe de "assistência técnica" e "consultorias" com preços exagerados, de carreirismo e contabilização deficiente. Os britânicos frequentemente exageram os seus números da ajuda (com a inclusão de reduções na dívida); e os EUA atam a sua ajuda ao comércio e ideologia aos seus "interesses". A ajuda real, de facto, representa apenas 0,1 por cento do rendimento nacional combinado dos países ricos. Comparado ao "objectivo" mínimo das Nações Unidas de 0,7 por cento, isto mal chega a umas migalhas.

O Cambodja é um exemplo excelente. Apesar de ser um dos países mais pobres do mundo, nunca foi permitido ao Cambodja que se recuperasse do trauma infligido por Richard Nixon, Henry Kissinger e Pol Pot. Durante a década de 1980, depois de Pol Pot ser expulso pelos vietnamitas, um embargo americano e britânico tornaram a reconstrução quase impossível. Ao invés disso, foi inventada uma "resistência" pelos americanos, com a SAS britânica contratada para treinar os Khmer Rouge em campos secretos na Tailândia e na Malásia. Em 1990, quando as Nações Unidas finalmente chegaram aos Cambodja para organizar a "democracia", isto trouxe corrupção numa escala sem precedentes, bem como SIDA e "ajuda". Isto foi deturpado como um "triunfo" da "comunidade internacional".

O Cambodja hoje é uma vítima desta "ajuda". Tal como em África, os "doadores" (o ocidente e o Japão) perpetuaram os mitos de um "caso perdido": que os cambodjanos não podem fazer nada por si próprios e que ajuda genuína ao desenvolvimento e capitalismo predador são compatíveis. Não há símbolo mais adequado para o Cambodja do que as florescentes oficinas de exploração (sweatshops) que fabricam bens por uma fracção do seu preço de retalho no ocidente, fazendo vista grossa a lugares onde crianças brincam junto a esgotos a ceu aberto transmissores de malária.

Naturalmente, ajuda falsificada ou "fantasma" e capitalismo rapinante são compatíveis. O ActionAid menciona citações de Brad Adams do Human Rights Watch: "Na década de 1980, havia ali uma T-shirt popular que satirizava os anúncios de recrutamento do US Army com o slogan, 'Aliste-se no exército. Viaje para terras exóticas e distantes. Encontre pessoas estimulantes e inabituais. E mate-as'. Neste novo milénio, isto podia ser reformulado: 'Aliste-se na comunidade de ajuda. Viaje para terras exóticas e distantes. Encontre pessoas estimulantes e inabituais. E ganhe uma fortuna' ".

Cerca da metade de toda a ajuda ao Cambodja é gasta em "assistência técnica", ou AT. Entre 1999 e 2003 esta montou a 1,2 mil milhões de dólares. O que é AT? É uma invasão de "conselheiros internacionais" com os quais foram gastos mais de 70 milhões de dólares só em 2003. Some-os aos "consultores internacionais", cada um dos quais custam mais de 159 mil dólares. Em contraste, o custo de um trabalhador genuíno em ajuda externa numa ONG verdadeiramente independente é menos de 45 mil dólares, e o custo de recrutar um perito cambodjano é um oitavo disto.

Mais de 740 conselheiros e peritos estrangeiros ganham aproximadamente tanto quanto 160 mil funcionários civis cambodjanos, os quais recebem tão pouco como 25 dólares por mês. Em muitos ministérios, o pagamento de conselheiros estrangeiros excede todo o orçamento anual. É mais do que o dobro do orçamento do Ministério da Agricultura e quatro vezes aquele do Ministério da Justiça.

Os trabalhadores estrangeiros da ajuda queixam-se constantemente acerca da corrupção local, muitas vezes com razão. Mas eles raramente identificam e medem a sua própria corrupção legitimizada. "Não tem havido qualquer análise sistemática da efectividade da AT no Cambodja", afirma a ActionAid. "Responsáveis do governo do Cambodja sugeriram que isto é porque os doadores não querem reconhecer a ineficácia da sua ajuda". O Conselho para o Desenvolvimento do Cambodja diz que os estrangeiros criam sistemas paralelos ao governo. Eles não transferem capacidade. Os peritos apenas fazem relatórios que ninguém lê... os doadores queixam-se sempre acerca da falta de recursos humanos [mas] os cambodjanos são seres humanos..."

O relatório cita um esquema para proteger aldeões de inundações no qual está envolvido o Departamento de Desenvolvimento Internacional britânico. Apesar de ser promovido como "baseado na comunidade", três quartos do orçamento está a ser gasto com consultores estrangeiros, gabinetes e administração. O Cambodja tem três planos económicos nacionais distintos, cada um deles concebido por uma agência estrangeira diferente. Um dos maiores doadores é a agência USAID do governo americano, notória pelas suas sangrentas intervenções políticas por todo o mundo. A USAID financia grupos cambodjanos de oposição, "conselheiros de direitos humanos" e jornais que estão alinhados à ideia de Bush de "boa governação". Mesmo a ajuda humanitária mais básica está ligada aos negócios americanos. Os sais de rehidratação oral, por exemplo, que nos trópicos são essenciais, devem ser comprados nos Estados Unidos a um preço cinco vezes maior do que o do mesmo produto fabricado no Cambodja.

Há pessoas boas nas ONGs estrangeiras no Cambodja, e há um certo número de esquema efectivos. Mas "partenariado" com pessoas locais é uma palavra que tanto os governos como as agências de ajuda abusam. Os cambodjanos obtêm o que lhes é dado, tal como "empréstimos" do Banco Mundial e do FMI com a espécie de condições ultrajantes que prejudicaram países como a Zâmbia.

Mais de 600 mil cambodjanos foram mortos por bombas americanas na década de 1970. Como admitiu posteriormente a CIA, a devastação proporcionou um catalisador para o horror do Khmer Rouge. Milhares de mortes de crianças foram provocadas posteriormente por um bloqueio económico apoiado pelo governo britânico.

Vejo que Tony Blair, assim como locutores e outras celebridades, tem estado a usar a faixa da moda "Tornar a pobreza história". É perverso. Tal como aqueles países na África, Ásia e América Latina há muito pilhados em nome dos "interesses" ocidentais, o Cambodja tem direito a reparações incondicionais a fim de poder atender às necessidades urgentes do seu povo, não às exigências daqueles que dizem ajudar.

O original encontra-se em http://pilger.carlton.com/print

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


Migalhas imperiais

por Néstor García Iturbe

Como todos os anos, o Departamento de Agricultura do Governo dos Estados Unidos (USDA) anunciou as quantias destinadas à ajuda alimentar, a distribuir pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), de acordo com o Programa Internacional McGovern-Dole, assim chamado em honra dos ex-senadores, George McGovern e Robert Dole que se distinguiram no desenvolvimento de um compromisso mundial pela alimentação escolar e pela nutrição infantil.

Para o ano de 2004 foram orçamentados para este programa 50 milhões de dólares, destinados à alimentação de dois milhões de crianças. Estes fundos deveriam beneficiar as crianças da Bolívia, da República Dominicana, da Guatemala, do Afeganistão, do Congo, da Costa do Marfim, da Eritreia, da Gâmbia, do Quénia, do Kirgistão, do Malawi, da Moldova e de Moçambique, num total de 13 países.

Para 2005, foi orçamentada a quantia de 91 milhões de dólares, neste caso com o propósito de contribuir para a alimentação de 3,4 milhões de crianças que vivem em 15 países: Bolívia, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Afeganistão, Costa do Marfim, Guiné-Bissau, Quénia, Quirguistão, Líbano, Moldova, Nepal, Paquistão, Uganda e Vietname.

Quando tomamos em consideração as quantias destinadas para esta ajuda e os milhões de crianças que com ela se pretende alimentar, temos como resultado que no ano de 2004, com este Programa, o governo dos Estados Unidos destinou 25 dólares anuais à alimentação de dois milhões de crianças, o que não chega nem para gastar um dólar diário durante um mês nesta "caritativa" missão. Em cada um dos 13 países foram beneficiados em média, durante esse mês 153 846 crianças, que não representam nem 2 por cento da população infantil dos ditos países.

Fazendo uma análise similar em relação aos fundos de 2005, podemos concluir que os US$91 milhões se destinam à alimentação de 3,4 milhões de crianças, pelo que a média destinada a cada criança será de 26,76 dólares anuais, o que, com muita dificuldade, poderia assegurar durante um mês a alimentação de cada um deles. Quanto aos países beneficiados, são 15 em 2005, pelo que o número de crianças por país seria 226 666, um ligeiro aumento relativamente a 2004, mas ainda insuficiente, pois tal número não chega a representar 3 por cento da população infantil desses países.

Do mesmo modo que em 2004, em 2005 o Departamento de Agricultura do governo dos Estados Unidos, comprará em solo norte-americano, a empresas norte-americanas, os alimentos que enviará aos países mencionados, e assim o negócio fica em casa; as empresas livram-se dos seus excessos de existências, a um preço vantajoso e nos países receptores da ajuda não vêm nem um centavo de dólar, nem podem procurar melhores preços para fazer com que os créditos que lhe concedeu o "magnânimo" país do norte lhes rendam um pouco mais.

Quando se analisam as centenas de milhares de milhões de dólares que os Estados Unidos gastam anualmente em consequência da sua política guerreira e os milhares de milhões que recebe dos países mais pobres do mundo devido à exploração a que estes se vêm submetidos, é ridículo que se destinem essas irrisórias quantias à alimentação das crianças, umas migalhas, que se anunciam como se com elas se resolvesse um problema, o que está muito longe da triste realidade em que vive a população infantil mundial.


O original encontra-se em http://www.cubasocialista.cu/texto/cs0153.htm

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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