Nossa América
Editores : Valter Xéu e Juliana Tito
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27
de março de 2006
CRIADOURO DE
FALCÕES
MV Bill critica minoria que
"retém toda riqueza"
Para o rapper MV Bill, a má distribuição de renda no Brasil é responsável pela injustiça social. Ex-morador de Cidade de Deus, favela carioca que ficou mundialmente conhecida com o livro de Paulo Lins e o filme de Fernando Meirelles, Bill (o MV é uma alusão à expressão Mensageiro da Verdade) acredita que os interesses do país estão na mão de uma minória. À grande maioria, resta a miséria.
"Quando a gente olha para o nosso país, de dimensões continentais. E uma minoria retém toda riqueza, enquanto uma maioria não tem nada: então os interesses do país estão voltados para essa minoria. E a maioria que fica com pouco, o quê sobre pra eles?", questiona o músico. "A miséria. E se a renda não chega até a pobreza, a riqueza vai ter que acabar dividindo as conseqüências da pobreza que eles estão gerando".
Recentemente, Bill tem sido requisitado para falar sobre o tema em todo o país. Resultado da exposição do filme Falcão: "Meninos do Tráfico", produzido pela Central Única de Favelas (Cufa), dele e do produtor Celso Athaíde, exibido em rede aberta de televisão há uma semana. O documentário retrata a vida dos chamados "falcões", jovens encarregados de vigiar a entrada de policiais e traficantes na favela.
Um longa-metragem entra em cartaz nos cinemas em 12 de outubro. O rapper já trabalha nele, que deve se chamar "Falcão, o Sobrevivente". Desta vez, ele vai enfocar o único sobrevivente dos dezessete meninos entrevistados para o documentário. É a história do adolescente que sonhava em ser palhaço de circo. "A gente vai abordar a vida daquele que nunca deixou de sonhar. Que acabou vivo, justamente por estar preso", contou.
Bill revelou que para realizar o segundo documentário terá, mais uma vez, de vender a casa onde mora para financiar a produção. Diz não se importar com isso, porque faz algo em que acredita
Fonte: Agência Brasil
Abracadabra
Discurso no
enterro de Ubagesner Chaves
por Eduardo Galeano
"Aqui não há desaparecidos" foi,
durante trinta anos, a versão oficial no Uruguai. Agora começam a aparecer.
Mortos na tortura, enterrados nos quartéis. O funeral do primeiro deles, em 14
de Março passado, reuniu uma multidão nas ruas de Montevideo.
Em cada 14 de Março, as uruguaias e os uruguaios que foram
prisioneiros da ditadura, celebram o Dia do Libertado.
É algo mais que uma coincidência.
Os desaparecidos que estão começando a aparecer, Ubagesner Chaves, Fernando Miranda,
convocam-nos a lutar pela libertação da memória, que continua presa.
O nosso país quer deixar de ser um santuário da impunidade, impunidade dos
assassinos, impunidade dos ladrões, impunidade dos mentirosos, e nessa direcção
estamos dando, por fim, depois de tantos anos, os primeiros passos.
Este não é um fim de caminho. É um início. Custou muito, mas estamos começando
o duro e necessário percurso da libertação da memória, num país que parecia
condenado à pena de amnésia perpétua.
Todos os que aqui estamos partilhamos a esperança de que, mais cedo que tarde,
haverá memória e haverá justiça, porque a história ensina que a memória pode
sobreviver tenazmente a todas as suas prisões e ensina que a justiça pode ser
mais forte que o medo, quando conta com a ajuda dos homens.
Dignidade da memória, memória da dignidade.
No desigual combate contra o medo, nesse combate que cada um trava a cada dia,
que seria de nós sem a memória da dignidade? O mundo está sofrendo um alarmante
desprestígio da dignidade. Os indignos, que são os que mandam no mundo, dizem
que os indignados são pré-históricos, nostálgicos, românticos, negadores da
realidade.
Todos os dias, em todas as partes, ouvimos o elogio do oportunismo e a
identificação do realismo com o cinismo, o realismo que obriga ao encontrão e
proíbe o abraço, o realismo do vale tudo e do arranja-te como puderes e se não
puderes lixa-te.
O realismo, também, do fatalismo. O mais lixado dos muitos fantasmas que
espreitam, diariamente, o nosso governo progressista, aqui no Uruguai, e outros
novos governos progressistas da América Latina. O fatalismo, perversa herança
colonial, que nos obriga a crer que a realidade pode ser repetida mas não pode
ser transformada, que o que foi é e será, que amanhã não é mais que outro nome
para hoje.
No entanto, acaso não foram reais, acaso não são reais, as mulheres e os homens
que lutaram e lutam para transformar a realidade, os que creram e crêem ainda
que a realidade não exige obediência? Não são reais Ubagesner Chaves e Fernando
Miranda e todos os que estão chegando, desde o fundo da terra e do tempo, a dar
testemunho de uma outra realidade possível? E todas e todos os que com eles
acreditaram e quiseram, não foram, não continuam sendo reais? Foram irreais os
verdugos, irreais as vítimas, irreais os sacrifícios de tanta gente neste país
que a ditadura converteu na maior câmara de torturas do mundo?
A realidade é um desafio.
Não estamos condenados a escolher entre o mesmo e a mesma coisa.
A realidade é real porque nos convida a transformá-la e não porque nos obrigue
a aceitá-la. Ela abre espaços de liberdade e não nos encerra necessariamente
nas cadeias da fatalidade.
Bem dizia o poeta que um galo só não tece a manhã.
Não estive sozinho na vida, e na morte não está só, este crioulo Ubagesner, de
nome tão raro, que é hoje um símbolo da nossa terra e da nossa gente.
Este militante operário encarna o sacrifício de muitas companheiras e de muitos
companheiros que acreditaram no nosso país e na nossa gente, e que por acreditar
apostaram e deram a própria vida.
Viemos aqui dizer-lhes que valeu a pena.
Viemos dizer-lhes que não morreram em vão.
Aqui estamos hoje, reunidos, para dizer-lhes que razão têm aqueles tangos em
que se canta que a vida é um instante, mas há vidas que duram assombrosamente
muito, porque duram em todos os outros, nos que vêm a seguir.
Tarde ou cedo, nós, caminheiros, seremos seguidos, pelos passos dos que hão-de
vir, assim como os nossos passos caminham, agora, sobre as pegadas que outras
passadas deixaram.
Agora que os donos do mundo nos estão obrigando a arrepender de toda a paixão,
agora que está tão na moda a vida frígida e mesquinha, não fica nada mal
recordar aquela palavrita que todos aprendemos nos contos da nossa infância,
”abracadabra”, a palavra mágica que abria todas as portas, e recordar que
abracadabra significa, em hebreu antigo: "Envia o teu fogo até ao
fim".
Esta jornada, mais que um funeral, é uma celebração. Estamos celebrando a
memória viva de Ubagesner e de todas e de todos as mulheres e homens generosos
que neste país enviaram o seu fogo até ao fim, os que nos continuam ajudando a
não perder o rumo, e a não aceitar o inaceitável, e a não nos resignarmos
nunca, e a não deixarmos nunca de cavalgar o belo corcel da dignidade.
Porque nas horas mais difíceis, naqueles tempos inimigos, nos anos de
humilhação e medo da ditadura militar, eles souberam viver para se dar e se
deram inteiros, se deram sem nada pedir em troca, como se vivendo cantassem
aquela antiga copla andaluza que dizia, e diz ainda, e para sempre diz:
"Tenho as mãos vazias,
mas são minhas, as mãos".
14/Março/2006
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/
.
Tradução de Carlos Coutinho.
TUCANO SOB SUSPEITA
Alckmin nega denúncias da Folha e não vai nem
investigar
O governador de São Paulo e presidenciável do PSDB, Geraldo Alckmin, negou com ênfaze neste domingo a matéria de capa do jornal Folha de S. Paulo, de que o banco estatal Nossa Caixa beneficia seus aliados políticos. Alckmin disse que nem pretende investigar o caso, pois avalia que ela “não tem a menor veracidade”.
O suposto escândalo refere-se ao direcionamento de verbas publicitárias da Nossa Caixa. O esquema, segundo reportagem, beneficia políticos da base aliada e veículos ligados ao próprio PSDB. Na capa, ao lado da manchete, figurava um editorial vazado em tom particularmente virulento, acusando o governo Lula de "se aventurar na prática da chantagem e do abuso de poder", como se a Folha desejasse deixar claro que a publicação da denúncia não representava qualquer simpatia pelo presidente Lula.
Direcionamento de
verbas
O “banho de ética” que Alckmin prometeu pode ser submetido agora a uma série de investigações na Assembléia Legislativa e no Ministério Público Estadual, segundo disseram ontem integrantes da oposição ao tucano.
Na reportagem, o jornal divulgou documentos mostrando que o Palácio dos Bandeirantes pressionou a Nossa Caixa a direcionar recursos. A lista de favorecidos pelo esquema envolveria desde deputados estaduais da base aliada até o ex-ministro da Comunicação Luiz Carlos Mendonça de Barros (governo Fernando Henrique Cardoso), cotado para compor a equipe econômica de Alckmin, caso ele seja eleito presidente.
Mendonça de Barros foi o criador do site “Primeira Leitura”, um dos veículos beneficiados, e é dono da Quest Investimentos, empresa gestora de fundos que foi escolhida pela Nossa Caixa para gerir cerca de R$ 55 milhões de um novo fundo.
Mensagens eletrônicas trocadas entre os envolvidos revelam como era feito o direcionamento das verbas. As ordens partiriam do assessor especial de Comunicação do governo, Roger Ferreira.
O ex-gerente de marketing do banco Jaime de Castro Júnior foi demitido por justa causa em dezembro por causa das irregularidades. Ele teria comprovado agora, num dossiê de 42 páginas, as pressões, inclusive em trocas de e-mails com outros envolvidos. A sindicância interna da Nossa Caixa teria protegido outros envolvidos nas irregularidades, o que levou o ex-gerente a fazer a denúncia.
Nem punição, nem
investigação
Alckmin afirmou que não demitirá nem punirá Roger Ferreira, apesar do conteúdo das mensagens eletrônicas. Rioger "vai continuar no governo", afirmou.
Indagado se investigaria o caso, negou: "Não. A investigação foi feita pela Nossa Caixa. Ela fez a sindicância, concluiu, encaminhou ao Ministério Público. Há 500 veículos de comunicação e nós estamos falando de cinco casos. Agora, concluir que tenha ingerência política em 500 veículos? É totalmente pulverizada a estratégia de comunicação", disse o pré-candidato.
Com agências
Tutty
Viva o habeas corpus
Nem tudo está perdido: libertaram a mulher presa há quatro meses sob a acusação de roubar um pote de manteiga num mercado de São Paulo.
Recordações do futuro
Estudo da Universidade do Arizona publicado na revista “Science”, o verão de 2100 será tão quente quanto o de 130 mil anos atrás. Quem tem boa memória lembra e quem viver, verá.
Ah, bom!
O bravo caseiro Francenildo disse em depoimento à Polícia Federal que “Lula está escondendo o Palocci”. Podia ser pior: já pensou se estivesse descabelando ou agasalhando o mesmo?
Eternamente infalível
Como se não bastasse a fama de jamais ter falhado na cama, Ziraldo quer agora ser imortal. Vai concorrer à vaga de Josué Montello na Academia Brasileira de Letras.
Mulher de verdade
Ao saber que Ciro Gomes deixará o cargo de ministro na semana que vem para concorrer a deputado federal pelo Ceará, Patrícia Pillar questionou o marido: “O que será do governo Lula sem você, meu amor?”
Tá na moda mentir
Sharon Stone negou em Madri que seja – ou tenha sido - símbolo sexual. Por muito menos Palocci ganhou fama de mentiroso, né não?
Efeito Sharon
Na carona do sucesso da volta de Sharon Stone ao cinema, Roberto Jefferson pode lançar o seu “Instinto primitivo 2” ainda nesse semestre.
Loucos são os outros!
Cesar Maia não deve sair candidato à presidência da República pelo PFL por uma razão muito simples: está tão bom desse jeito, sem fazer nada na prefeitura carioca, né não? Nessas condições trocar o Rio por Brasília, francamente, só louco!
Viúvas de Serra
O PSDB está em depressão pós-parto do candidato Geraldo Alckmin. O que tem de tucano chorando pelos cantos, dá pena!
Barra Pesada
Justiça seja feita, perto dos estudantes de Paris, sem terra brasileiro é tudo anjinho.
Abaixo a liminar
Provavelmente enciumado com o destaque negativo do STF na imprensa, o STJ concedeu liminar suspendendo o julgamento do jornalista Pimenta Neves, que matou a namorada Sandra Gomide em 2000. Merece notícia das grandes.
Fenômero
Justiça seja feita, o touro que contracena com Ronaldinho no anúncio da Brahma está mais gordo que ele.
Não vale palavrão
Se 2005 foi o Ano do Brasil na França, 2006 é o Ano do Brasil na...
Coisa de doido
Quem foi a fonoaudióloga de Marília Pêra na minissérie “JK”? Pegou pesado! A família de dona Sarah Kubitscheck deve estar chateada. Ninguém fala daquele jeito!
A maldição dos 10%
ACM acha que 90% da aliança do PFL com o PSDB está consolidada. “Falta ainda negociar 10%.” É impressionante como tudo no Brasil depende de 10%.
Era feliz e não sabia
Pelos resultados que obteve nas duas primeiras provas do ano – 15a e 10a colocações – Rubinho Barrichello já deve estar com saudades dos mecânicos da Ferrari.
GOVERNO LULA
Mercadante se diz "à
disposição" de Lula para assumir a
Fazenda
Por Bernardo Joffily
O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), tem audiência hoje com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A reunião se segue a um fim de semana em que cresceram os rumores sobre sua possível indicação para o ministério da Fazenda, em substituição a Antonio Palocci. Neste domingo, o senador disse que "qualquer que seja a função que seja necessária ao partido ou ao presidente, eu estou pronto para desempenhar".
"Continuo líder do governo e pré-candidato ao governo de São Paulo, mas coloquei o meu mandato à disposição e, se o presidente Lula precisar, estou à disposição", disse ontem Mercadante, em Campinas (SP).
O inferno de Palocci
Palocci declarou em palestra nesta sexta-feira que está "no inferno". Ele aludia à onda de ataques e denúncias que recrudesceu depois do depoimento do caseiro Francenildo Costa na CPI dos Bingos, dia 14, e da descoberta de que o depoente teve seu sigilo bancário violado. Nesta data, em discurso na tribuna do Senado, o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), deu o sinal para o rompimento de um acordo tácito de não-beligerância, pelo qual a oposição poupava o titular da Fazenda, em atenção à linha que este imprimia à política econômica.
Na imprensa, no fim de semana, alguns analistas davam a queda do ministro como favas contadas. Outros consideravam que tudo se decidiria nesta semana, em especial a partir das conclusões da investigação da Polícia Federal sobre a violação da conta do caseiro na Caixa Econômica federal. O presidente da Caixa, Jorge Mattoso, também objeto de rumores de demissão, depõe na PF nesta manhã.
Dirceu: "Sou o
primeiro, o próximo é Palocci"
Na edição que chegou às bancas neste sábado, a revista Carta Capital avalia que "Palocci balança". E analisa que o ministro "tornou-se peão em um jogo que imaginava controlar. Em vários momentos, ao longo da crise, ele impediu que o governo reagisse com maior firmeza às investidas da oposição. No pequeno grupo de ministros que aconselharam o presidente nos últimos meses, o titular da Fazenda defendia a necessidade de criar pontes com o 'outro lado'. Afagava deputados e senadores oposicionistas. Em troca, recebia mesuras e salamaleques de tucanos e pefelistas", diz o texto de Leandro Fortes e Sergio Lirio.
Mas a revista conclui que essas "ilusões" vieram abaixo. Diz também que, "de certa forma", confirmou-se um vatícinio do ex-ministro José Dirceu poucos dias depois de deixar a Casa Civil: “Sou o primeiro alvo. O próximo é o Palocci”.
"O presidente
não conversou comigo"
Mesmo dizendo-se "pronto", Mercadante não atiçou as chamas do "inferno" de Palocci. "O presidente Lula tem reiterado a sua confiança no trabalho do ministro Palocci, que estabilizou a economia do Brasil, recolocou o país na rota do crescimento e melhorou as condições de salário e emprego. Não há até o momento nenhuma acusação em relação ao desempenho do ministro Palocci na condição de ministro da Fazenda", afirmou.
"Eu considero que a minha condição de líder do governo e pré-candidato ao governo de São Paulo é o melhor instrumento nesse momento para que a gente possa enfrentar esta conjuntura adversa", disse ainda o senador. E, instado pela imprensa sobre uma possível nomeação: "O presidente não conversou comigo nestes dias a respeito destas informações. Eu deverei conversar ao longo desta semana com ele. Estou evidentemente à disposição do presidente Lula para o que ele precisar de mim".
Momento de
"encruzilhada política"
Mercadante esteve neste domingo no Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região. Falando à militância sindical, analisou que o país vive em um momento de "encruzilhada política" entre a direita "que passou 38 anos no poder" e a reeleição de Lula. "Cada militante tem de ir para a rua e sustentar a candidatura do presidente Lula. Não terá sabor mais amargo na nossa boca se a gente não reeleger o Lula", afirmou.
Outros nomes também são mencionados como possíveis substitutos de Palocci no caso dele deixar a Fazenda. O mais citado depois de Palocci é o presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Guido Mantega. Mas refluiu a hipótese de uma solução doméstica, com a escolha de um nome da atual equipe da Fazenda, como o secretário Murilo Portugal.
Como líder do governo no Senado, Mercadante tem defendido em bloco a conduta de Antonio Palocci na Fazenda. No entanto ele é economista, da escola da Unicamp (Universidade de Campinas), com pensamento próprio. Foi justamente como assessor econômico que projetou-se nos meios sindicais e petistas, e conquistou a confiança de Lula. Caso se confirme a queda de Palocci, e o escolhido para substituí-lo seja mesmo Mercadante, restará ainda por descobrir o que permanece e o que muda na política econômica do governo Lula.
Com agências
ELEIÇÃO NA
ITÁLIA
Entrevista: Arduino Monti quer integração efetiva da
América do Sul
Arduino Monti, candida da Unione pelo Partido da Refundação Comunista, nasceu em Ceprano (região de Ciociaria), em janeiro de 1946. Visitou o Brasil pela primeira vez no fim da década de 70, com a Anistia, e veio em definitivo em 1982. Casado com uma brasileira, é pai de dois filhos e mora no Rio de Janeiro. É professor de italiano na Associação Cultural Italia-Brasil e no Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro.
Formado em sociologia pela Universidade de Paris VIII, Vincennes, em 1973, Colaborou com o “Secu Rouge”, um boletim comunista dos trabalhadores franceses da seguridade social e foi fundador dos jornais “Punto Rosso” e “Forum Democratico”, foi Conselheiro do “Comites” e também seu presidente.
Para Arduino, a idéia de uma "grande pátria" sul-americana pode vir a ser a saída para o continente ter um peso econômico mais marcante internacionalmente, além de autonomia e independência em relação ao hemisfério norte.
Como você vê a esquerda no Brasil e na América do Sul?
“Apesar de estar dividida em muitos partidos, a esquerda brasileira existe e é forte. Seria certamente necessária a convergência de objetivos e uma plataforma programática, pelo menos sobre os temas mais estratégicos, que servisse de fio condutor para todos os partidos da esquerda brasileira e sul-americana.
Enquanto isso não acontece, o que seria necessário para se opor ao neoliberalismo no continente?
Para mim que sou de formação marxista, o neoliberalismo parece ter falido, e não poderia ser de outro modo. È necessário propor uma alternativa, na minha opinião, de caráter bolivariano. É claro que não poderia ser uma visão acrítica, mas neste momento, é necessário contrapor uma outra visão para um mundo melhor.
Então você considera que a idéia de uma ALBA, como propõem Fidel Castro e Hugo Chávez, seria uma saída?
A América do Sul, numa visão macro-econômica, tem que se livrar do peso da condição de continente com as “veias abertas”. Acredito que a solução, ou pelo menos um grande passo a ser dado para que a América do Sul possa se inserir no contexto internacional em situação de igualdade, seja uma maior união entre os países da América do Sul. A idéia bolivariana de criar uma “Grande Pátria” sul americana se adapta perfeitamente a este contexto. É urgente uma mudança para que se passe da condição de mero produtor de matéria prima, àquela de poder ditar as próprias condições a nível mundial. Não podemos nos dobrar às leis dos outros. A China é um exemplo neste sentido: fechou-se por anos e anos e depois , quando se apresentou ao mundo, colocou-se com força.
Fechar, hoje, seria uma saída?
Não digo que tenhamos de nos fechar para nos reforçar, mas que temos que nos unir para criar um nosso próprio mercado, e ter força contratual. Mas somente o mercado não basta. O mercado poderia ser um meio para resgatar as injustiças e os erros seculares. Poderia ser um meio e não um fim.
Por fim, a seu ver, qual a melhor maneira de resgatar a dignidade de viver?
A nossa dignidade se resgata com condições de vida dignas para todos, com escola para todos, com saúde para todos e não por meios políticos “politicamente corretos” de inclusão e de distribuição de renda mas por ações para restituir o que foi tirado e dar aos sul-americanos, segundo suas necessidades e não seus méritos, o que leva à competição, abusos, diferenças, e que faz esquecer que o fim é um mundo melhor, onde a felicidade seja possível e natural.
Da redação
Está a a
administração Bush a planear um holocausto nuclear?
Será que os
EUA lançarão "mini-ogivas" contra o Irão em represália ao "não
cumprimento" de Teerão?
por Michel Chossudovsky [*]
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"Descobrimos
a bomba mais terrível da história mundial. Pode ser o fogo de destruição
profetizado na Era do Vale Eufrates, depois de Noé e da sua famosa Arca....
Esta arma será usada contra o Japão... [Nós] vamos usa-la de forma que apenas
os objectivos militares, e soldados e marinheiros sejam o alvo, e não
mulheres e crianças. Mesmo que os japoneses sejam selvagens, cruéis,
impiedosos e fanáticos, nós como líder mundial para o bem-estar comum, não podemos
deixar cair esta terrível bomba na velha nem na nova capital... O objectivo
será exclusivamente militar... Parece ser a coisa mais terrível alguma vez
descoberta, mas pode ter o mais útil dos resultados." (Presidente
Harry S. Truman, Diário, 25/Julho/1945) |
Desde o lançamento da primeira bomba
atómica sobre Hiroshima, em 6 de Agosto de 1945, a humanidade nunca esteve tão
perto do inconcebível: um holocausto nuclear que potencialmente se poderia
propagar, em termos da radioactividade resultante, numa grande parte do Médio
Oriente.
Todas as protecções da era da Guerra Fria que classificou a bomba nuclear como
"uma arma de último recurso", foram destruídas. Agora são
consideradas como acto de "autodefesa", a utilização de armas
nucleares em acções militares "ofensivas".
A distinção entre as armas nucleares tácticas e o arsenal convencional de
combate foi esbatida. A nova doutrina nuclear de América está baseado numa
"combinação de capacidades de ataque". Esta última doutrina, que se
aplica especificamente ao plano do Pentágono para o bombardeamento aéreo contra
o Irão, considera o uso de armas nucleares em combinação com armas
convencionais.
Tal como no caso da primeira bomba nuclear que, nas palavras de Presidente
Harry Truman, foi "lançada sobre Hiroshima, uma base militar", hoje
as "mini-bombas nucleares" são anunciadas como "seguras para a
população civil envolvente".
Conhecida oficialmente em Washington, como "Publicação conjunta 3-12"
(Joint Publication 3-12), a nova doutrina nuclear (Doutrina para Operações
Nucleares Conjuntas - Doctrine for Joint Nuclear Operations - DJNO) (2005 de
Março) reclama uma "integração de ataques convencionais e nucleares"
sob um comando e controlo unificado e "integrado" (C2).
Esta doutrina descreve longamente o planeamento da guerra como uma gestão do
processo de tomada de decisão, onde os objectivos militares e estratégicos serão
alcançados através da combinação de instrumentos, com pouca preocupação com a
resultante perda de vidas humanas.
O planeamento militar está focalizado no "uso mais eficiente da
força", isto é, numa combinação óptima de diferentes sistemas de armamento
para alcançar os objectivos militares estabelecidos. Neste contexto, o
armamento convencional e nuclear é considerado como fazendo parte da
"caixa de ferramentas" à qual os chefes militares podem recorrer e
escolher os instrumentos que considerarem estarem de acordo com a
"evolução das circunstâncias" no teatro de guerra. (Nenhuma destas
armas da "caixa de ferramentas" do Pentágono, incluindo bombas
anti-bunker, bombas de fragmentação, mini-bombas nucleares, armas químicas e
biológicas são consideradas "armas de destruição maciça" quando
usadas pelos EUA ou pelos seus parceiros de coligação).
O objectivo declarado é:
"garantir o mais eficiente uso da
força e proporcionar aos
líderes dos EUA uma gama alargada de opções de ataque [nuclear e convencional]
para solucionar eventualidades imediatas. A integração de forças convencionais
e nucleares é assim crucial ao sucesso de qualquer estratégia abrangente. Esta
integração assegurará uma óptima selecção dos alvos, com dano colateral mínimo,
e reduzida probabilidade de escalado do conflito." ( Doctrine
for Joint Nuclear Operations p. JP 3-12-13)
A nova doutrina nuclear inverte conceitos
e realidades. Não só nega os impactos devastadores das armas nucleares, como
declara, violentamente, que as armas nucleares são "seguras" e que o
seu uso no campo de batalha garantirá um "dano colateral mínimo e reduzirá
a probabilidade de uma escalada". A questão da precipitação radioactiva é
muito pouco reconhecida no que diz respeito às armas nucleares tácticas. Estas
orientações que descrevem as armas nucleares como sendo "seguras para os
civis" constituem um consenso entre os militares, o qual é então
introduzido nos manuais militares, dando um "sinal verde" aos
comandantes geográficos no teatro de guerra.
Acções "defensivas e "ofensivas"
Enquanto a Revisão de Postura Nuclear 2001 – ( 2001
Nuclear Posture Review ) fixa as condições para o uso antecipativo (preemptive)
de armas nucleares no Médio Oriente, especificamente contra o Irão, a Doutrina
para Operações Nucleares Conjuntas (DJNO) dá um passo mais adiante,
confundindo as diferenças existentes entre acções militares
"defensivas" e "ofensivas":
"A nova tríade oferece uma combinação
entre capacidades estratégicas ofensivas e defensivas, que incluem capacidade
de ataque nuclear e não-nuclear, defesas activas e passivas, e uma sólida
infra-estruturas de investigação, desenvolvimento, e industrial, capaz de
desenvolver, construir, e manter sistemas de forças ofensivas e defensivas... "
(Ibíd.) (conceitos chave em itálico)
Porém, a nova doutrina nuclear vai para
além de actos antecipativos de "autodefesa", reclamando uma
"acção antecipada" usando armas nucleares contra um "inimigo
pária" que supostamente planeia desenvolver ADM num futuro indefinido:
Um plano de segurança responsável exige
uma preparação adequada às ameaças realmente possíveis, embora talvez
improváveis no presente momento. As lições da história militar continuam a
ser claras: os conflitos imprevisíveis e irracionais acontecem. As forças
militares têm de se preparar para avaliar o armamento e as capacidades
existentes ou que venham a existir a curto prazo, mesmo que não se esteja
perante um provável cenário de uma guerra a acontecer no imediato. Por forma a
impedir ao máximo o uso de ADM, é essencial que as forças dos EUA estejam
preparadas para usar armas nucleares de uma forma efectiva, e estas forças dos
EUA estão determinadas a utilizar armas nucleares se necessário for para
prevenir ou retaliar o uso de ADM. (Ibíd., p. III-1, itálicos do autor)
As armas nucleares serviriam para impedir
um programa não existente de ADM (por exemplo do Irão) antes do seu
desenvolvimento. Esta formulação retorcida vai para além das premissas da
Revisão de Postura Nuclear 2001 e do NPSD 17, a qual declara que os EUA podem
retaliar com armas nucleares se forem atacados com ADM:
"Os Estados Unidos tornarão claro que
se reservam o direito de responder com força esmagadora – incluindo
potencialmente armas nucleares – ao uso de [armas de destruição maciça] contra
os Estados Unidos, contra as nossas forças no estrangeiro, e contra os nossos
amigos e aliados."... (NSPD 17)
"Integração" dos planos de armas
nucleares e convencionais
A Doutrina
para Operações Nucleares Conjuntas (DJNO) esboça os procedimentos que
regulamentam o uso de armas nucleares e a natureza da relação entre operações
de guerra nucleares e convencionais.
A DJNO declara que o:
" o uso de armas nucleares num teatro
de [guerra] requer que os planos nucleares e convencionais sejam integrados
na maior extensão possível"
(DJNO, p. 47, para mais detalhes consulte "Nuclear
War against Iran", Janeiro de 2006 de Michel Chossudovsky , itálicos
do autor)
As implicações desta
"integração" são de longo alcance porque uma vez que a decisão seja
tomada pelo Comandante em Chefe, isto é, o Presidente dos Estados Unidos,
lançar uma operação militar conjunta convencional e nuclear, leva a que exista
o risco de que armas tácticas nucleares possam ser usadas sem a subsequente
aprovação presidencial. Nestes termos, a execução dos procedimentos que se
encontrem sob a jurisdição dos comandantes em zona de guerra quem têm armas
nucleares à sua responsabilidade, são descritos como "flexíveis e permitem
modificações perante a situação":
"Os comandantes geográficos de
combatentes são responsáveis pela definição dos objectivos do teatro de
operações e pelo desenvolvimento dos planos nucleares requeridos para suportar aqueles
objectivos, incluindo a selecção dos alvos. Quando assumida, o CDRUSSTRATCOM,
actuando como apoio do comandante em zona de guerra, providencia planos de
suporte detalhados para ajustar a planificação requerida. Todo o planeamento da
acção nuclear no teatro de operações, segue o prescrito nos procedimentos do
Sistema de Execução e da Planificação da Execução Conjunta (Joint Operation
Planning and Execution System) para formular e implementar uma efectiva
resposta dentro do prazo permitido pela crise.
Desde que não existam opções para os cenários em presença, os comandantes em
zona de guerra deverão ter a capacidade para elaborar um plano de acção para a
crise e executar esses planos. O plano de acção para a crise fornece a
capacidade de desenvolver novas opções, ou modificar as opções existentes,
quando as actuais se revelem limitadas ou quando as principais opções de
resposta forem inadequadas.
...O comando, o controlo, e a coordenação devem ser suficientemente flexíveis
para permitir ao comandante do combatente geográfico atingir objectivos em
tempo hábil tais como plataformas móveis de lançamento de mísseis" (DJNO)
. (itálicos do autor)
Operações nucleares em teatro de guerra
(Theater Nuclear Operations, TNO)
Enquanto a aprovação presidencial é formalmente requerida para lançar uma
guerra nuclear, os comandantes de combatentes geográficos responsáveis pelas
Operações em Teatro Nuclear (Theater Nuclear Operations, TNO) teriam mandato
não só para implementar como para formular decisões de comando relativas a
armas nucleares. (DJNO)
.
Já não estamos a lidar com "o risco" associado a "um lançamento
nuclear acidental ou inadvertido" como esboçado pelo anterior secretário
da Defesa Robert
S. McNamara , mas sim com um processo de tomada de decisão militar que dá
aos comandantes militares, do Comandante em Chefe até os comandantes
geográficos, poderes discricionários para a utilização de armas nucleares
tácticas.
Além disso, como estas armas nucleares tácticas "menores" foram
"reclassificadas" pelo Pentágono e consideradas "seguras para a
população de civil envolvente", e portanto "minimizam o risco de
danos colaterais", passa a não existir qualquer restrição absoluta que
impeça o seu uso. (ver Michel Chossudovsky, "The Dangers of a Middle East
Nuclear War" , Global Research, Fevereiro de
2006).
Uma vez tomada umaa decisão
de lançar uma operação militar (por exemplo, ataques aéreos sobre o Irão), os
comandantes em zona de guerra têm um certo grau de liberdade. O que isto
significa na prática é que, uma vez tomada a decisão presidencial, o USSTRATCOM
em ligação com comandantes em zona de guerra pode decidir o alvo e o tipo de
armamento a ser utilizado. É considerado agora que armas nucleares tácticas
armazenadas são uma parte integrante do arsenal de campo de batalha. Por outras
palavras, as armas nucleares tornaram-se "parte da caixa de
ferramentas", a ser usada em teatros de guerra convencionais.
Ataques aéreos planeados contra o Irão
Um plano operacional para empreender ataques aéreos ao Irão está em "em
estado de prontidão" desde Junho de 2005. O hardware militar essencial
para empreender esta operação foi instalado. (para mais pormenores ver "Nuclear
War against Iran", Michel Chossudovsky , Janeiro/2006).
O vice-presidente Dick Cheney ordenou que o USSTRATCOM traçasse um "plano
de contingência" que "incluísse uma ampla operação aérea contra o
Irão empregando armas convencionais e nucleares tácticas". (Philip
Giraldi, Attack on Iran: Pre-emptive Nuclear
War , The American Conservative, 02/Agosto/2005).
O USSTRATCOM teria a
responsabilidade de vigiar e coordenar tanto o desenvolvimento como o
lançamento da operação militar. (para pormenores, Michel
Chossudovsky, Nuclear War against Iran , Janeiro/2006).
Em Janeiro de 2005 foi implementada uma mudança significativa no mandato do
USSTRATCOM. O USSTRATCOM foi identificado como "líder do comando em zona
de guerra para integração e sincronização dos grandes esforços do Departamento
de Defesa no combate às armas de destruição maciça". Para implementar este
mandato foi criada uma nova unidade especial de comando intitulada Comando
Conjunto de Componentes Funcionais para Ataque Espacial e Global, ( Joint Functional
Component Command Space and Global Strike - JFCCSGS)
Supervisionado pelo USSTRATCOM, o JFCCSGS seria responsável pelo lançamento de
operações militares que "utilizem armas nucleares ou convencionais"
conforme a nova doutrina nuclear da administração Bush. As duas categorias de
armas seriam integradas numa "operação de ataque comum" sob um
Comando e Controlo unificado.
Segundo Robert S. Norris e Hans M.
Kristensen, no Bulletin of Atomic Scientists:
"O Departamento de Defesa está a
actualizar o seu plano de ataque nuclear de forma a reflectir a nova orientação
presidencial, e fazer uma transição do planeamento de guerra desde o anterior
peso-pesado Plano Operacional Integrado Único da Guerra Fria para uma família
de planos de ataque menores e mais flexíveis destinados a derrotar os
adversários de hoje. O novo plano de guerra estratégico central é conhecido
como OPLAN (Plano de Operações) 8044.... Este plano revisto e pormenorizado,
disponibiliza opções mais flexíveis para encorajar aliados, e dissuadir,
intimidar, e se necessário, derrotar adversários numa ampla gama de
contingências....
Um membro da nova família é o CONPLAN 8022, plano idealizado para o uso rápido
de armamento nuclear, convencional, ou capacidades de informação de guerra,
para destruir, antecipadamente se necessário, "objectivos temporalmente
urgentes" em qualquer lugar no mundo. O secretário da Defesa Donald
Rumsfeld emitiu uma Ordem Alerta no início de 2004 dirigida ao exército no
sentido de pôr o CONPLAN 8022 em acção. Como resultado, a política antecipativa
da administração Bush encontra-se agora operacional em termos de bombardeiros
de longo alcance, submarinos estratégicos em patrulhas de dissuasão, e
presumivelmente mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs)".
A implementação operacional de um Ataque
Global ficaria sob o Concept Plan (CONPLAN) 8022, que consiste agora num
"plano real que a Marinha e a Força Aérea traduzem em "pacotes"
de ataque para os seus submarinos e bombardeiros", ( Japanese Economic
Newswire, 30/Dezembro/2005. Para mais pormenores ver Michel
Chossudovsky: "Nuclear War against Iran", op. cit.).
O CONPLAN 8022 é "o plano global
guarda-chuva para a espécie de cenários estratégicos pre-planeados que envolvam
armas nucleares."
"Ele está especificamente focalizado nestes novos tipos de ameaças – o
Irão, a Coreia do Norte – proliferadores e potenciais terroristas também",
disse ele. "Não há nada a dizer que eles não podem usar o CONPLAN 8022 em
cenários limitados, tanto contra a Rússia e como contra objectivos
chineses." (de acordo com Hans Kristensen do Projecto de Informação
Nuclear, citado em Japanese Economic News Wire, op. Cit)
Autorização de instalação de armas nucleares
O planeamento dos bombardeamentos aéreos do Irão teve inicio em meados de 2004,
de acordo com a formulação do CONPLAN 8022 no inicio de 2004. Em Maio de 2004,
foi emitida a Directiva Presidencial para a Segurança Nacional (National Security Presidential
Directive-NSPD 35) intitulada Autorização de Instalação de Armas Nuclear.
O conteúdo deste documento altamente confidencial continua cuidadosamente
guardado como segredo de estado. Não houve qualquer menção ao NSPD 35 nos media
nem mesmo durante os debates no Congresso. Enquanto o seu conteúdo permanece
classificado, a presunção é de que este NSPD 35 faz parte da instalação de
armas nucleares tácticas no teatro de guerra do Médio Oriente conforme o CONPLAN
8022.
Neste contexto, um recente artigo de imprensa publicado em Yeni Safak (Turquia)
sugere que os Estados Unidos estão actualmente:
"a instalar armas nucleares tácticas
tipo B61 no sul do Iraque como parte de um plano para atacar o Irão a partir
desta zona, se e quando o Irão responder a um ataque israelense às suas
instalações nucleares." (Ibrahim Karagul, "Os EUA estão a instalar
armas nucleares no Iraque contra o Irão", Yeni Safak, 20/Dezembro/2005,
citado pela BBC Monitoring Europe ).
Esta instalação de armas nucleares no
Iraque parece estar de acordo com o NSPD 35 .
O que o relatório de Yenbi Safak sugere é que aquelas armas
convencionais seriam usadas em primeiro lugar e, se o Irão retaliasse em
resposta a ataques aéreos dos EUA ou de Israel, poderiam então ser lançadas
armas tácticas termonucleares B61. Esta retaliação com utilização de armas
nucleares tácticas seria consistente com os procedimentos contidos na Revisão
de Postura Nuclear 2001 e NSPD 17 (ver acima).
O armazenamento de armas convencionais e nucleares por Israel
Israel faz parte da aliança militar e está destinado a ter um papel
importante nos ataques planeados contra o Irão. (para pormenores ver Michel
Chossudovsky: "Nuclear
War against Iran" , Janeiro/2006).
Confirmado por vários artigos de imprensa, Israel recebeu, a partir de Setembro
de 2004 cerca de 500
bombas anti-bunker BLU 109 produzidas nos EUA ( WP, 6 de Janeiro de
2006). A primeira encomenda de BLU 109 [Bomb Live Unit] data de Setembro de
2004. Em Abril de 2005, Washington confirmou que Israel iria receber 100 das
mais sofisticadas bombas anti-bunker GBU-28 produzidas pela Lockheed Martin
(Reuters, 26/Abril/2005). A GBU-28 é descrita como "uma munição
convencional de 5.000 libras (2268 kg) guiada a laser que usa uma ogiva
penetrante de 4.400 libras (1996 kg)". Foi usada no teatro de guerra
iraquiano:
O Pentágono [declarou] que... a venda a
Israel de 500 ogivas de combate de BLU-109, pretendeu "contribuir
significativamente para os objectivos estratégicos e tácticos dos EUA."
Montadas em bombas guiadas por satélite, as BLU-109 podem ser disparadas de
caças F-15 ou F-16, caças fabricados nos EUA e que fazem parte do arsenal de
Israel. Este ano Israel recebeu de Washington, o seu principal aliado, o
primeiro avião de uma frota de 102 F-16I de longo raio de acção. "Israel
fabrica muito provavelmente as suas próprias bombas anti-bunker, mas não são
tão robustas como as BLUs de 2,000 libras (907 kg)", declarou Robert
Hewson, editor de Jane's Air-Launched Weapons . ( Reuters, 21/Setembro/2004)
O artigo não confirma se Israel armazenou
e instalou a versão termonuclear da bomba anti-bunker. Nem indica se as bombas
anti-bunker fabricadas pelos israelenses estão equipadas com ogivas nucleares.
Refere-se que este armazenamento de bombas anti-bunker ocorreu poucos meses
depois da disponibilização do NPSD
35, Autorização de Instalação de Armas Nucleares (Maio/2004).
Israel possui 100 a 200 ogivas
nucleares estratégicas . Em 2003, Washington e Tel Aviv confirmaram que
estavam a colaborar na "instalação de mísseis de cruzeiro Harpoon
fornecidos pelos EUA armados com ogivas nucleares para a frota de submarinos
classe Dolphin de Israel". (The
Observer, 12/Outubro/003) . Em desenvolvimentos mais recentes, que
coincidem com a preparação do ataque contra o Irão, Israel recebeu dois novos
submarinos de fabrico alemão "que poderiam lançar mísseis de cruzeiro
armados com ogivas nucleares para um "segundo ataque" dissuasor ( Newsweek,
13/Fevereiro/2006. Veja também Base de
dados do CDI ).
As capacidades de armamento nuclear táctico de Israel não são conhecidas
A participação de Israel nos ataques aéreos também terá o efeito de uma bomba
política em todo o Médio Oriente. Contribuiria para uma escalada dos acontecimentos,
com uma zona de guerra que se poderia estender inicialmente ao Líbano e à
Síria. Toda a região oriental do mediterrâneo até à Ásia central e a fronteira
ocidental do Afeganistão seria afectada.
O papel de Europa Ocidental
Vários países europeus ocidentais, oficialmente considerados como "estados
não-nucleares", possuem armas nucleares tácticas fornecidas por
Washington.
Os EUA forneceram umas 480 bombas termonucleares B61 a cinco países
não-nucleares da NATO: Bélgica, Alemanha, Itália, Países Baixos e Turquia, e um
país nuclear, o Reino Unido. Normalmente desconsiderado pela organização de
Controlo Nuclear da ONU, baseada em Viena, os EUA têm contribuído activamente
para a proliferação de armas nucleares na Europa Ocidental.
Como parte deste armazenamento europeu, a Turquia como aliado dos EUA contra o
Irão ao lado de Israel, possui umas 90 B61 bombas termonucleares anti-bunker na
base aérea nuclear de Incirlik. (National Resources Defense Council, Nuclear
Weapons in Europe, Fevereiro/2005).
Em consistência com a política nuclear dos EUA, o armazenamento e a instalação
de bombas termonucleares B61 na Europa Ocidental destina-se a serem utilizadas
em objectivos localizados no Médio Oriente. Além disso, conforme "os
planos de ataque da NATO", estas bombas anti-bunker B61 termonucleares
(armazenadas por estados "não-nucleares") poderiam ser lançadas
"contra objectivos localizados na Rússia ou em países do Médio Oriente,
tais como a Síria e o Irão" (citado em National Resources Defense
Council, Nuclear Weapons in Europe , Fevereiro/2005).
Por outro lado, foi confirmado pelo (parcialmente) desclassificado documento
(divulgado no âmbito do US Freedom of Information Act):
"Em meados dos anos 90, foram feitos
ajustes para permitir o uso de forças nucleares norte-americanas na Europa,
fora da área de responsabilidade de Comando Europeu dos EUA (EUCOM). Como
resultado destes arranjos, o EUCOM apoia agora as missões nucleares do
CENTCOM no Médio Oriente, incluindo, potencialmente, contra o Irão e a
Síria". (citado em: http://www.nukestrat.com/us/afn/nato.html
).
Com a excepção do EUA, nenhuma outra
potência nuclear "tem armas nucleares destinadas a serem lançadas por
países não-nucleares" (National Resources Defense Council, op cit).
Enquanto estes "estados não-nucleares" acusam Teerão de desenvolver
armas nucleares, sem que disso tenham prova documental, são eles próprios que
têm capacidades de obter ogivas nucleares que são apontadas para o Irão. Dizer
que este é um caso claro de "dois pesos duas medidas" utilizado pelo
AIEA e a pela "comunidade internacional", é uma declaração
insuficiente (understatement).
Alemanha: De facto uma potência nuclear
Entre os cinco "estados não-nucleares" a "Alemanha continua a
ser o país mais nuclearizado, com três bases nucleares (duas delas estão
completamente operacionais), podendo armazenar até 150 bombas [B61 anti-bunker]
" (Ibid). De acordo com os "planos de ataque da NATO"
(mencionados acima) estas armas nucleares tácticas também estão apontadas para
o Médio Oriente.
Não sendo a Alemanha oficialmente uma potência nuclear, produz no entanto
ogivas nucleares para a marinha francesa. Ela armazena ogivas nucleares e tem a
capacidade de fornecer armas nucleares. A European
Aeronautic Defense and Space Company (EADS) , um empreendimento conjunto
franco-alemão-espanhol, controlado por Deutsche Aerospace e o poderoso Grupo
Daimler, é o segundo maior produtor militar da Europa, fornecendo o míssil
nuclear M51 da França.
A França endossa a doutrina nuclear antecipativa
Em Janeiro de 2006, o presidente francês Jacques Chirac anunciou uma mudança
importante na política nuclear da França.
Sem mencionar o Irão, Chirac anunciou que as armas nucleares da França deveriam
ser usadas na forma de "ataques mais focalizados" contra países que
estavam "a considerar" o desenvolvimento de Armas de Destruição de
Maciça (ADM).
Ele deu a entender também a possibilidade de poderem ser usadas armas nucleares
tácticas em teatros de guerra convencionais, muito na linha de doutrina nuclear
dos EUA e da NATO (ver "Chirac
shifts French doctrine for use of nuclear weapons" , Nucleonics
Week, 26/Janeiro/2006).
O presidente francês parece ter abraçado a "guerra ao terrorismo"
patrocinada pelos EUA. Ele acabou por apresentar as armas nucleares como um
meio para construir um mundo mais seguro e para combater o terrorismo:
Não significa que as armas nucleares
venham a ser usadas contra "terroristas fanáticos", não obstante
"os líderes dos estados que usem meios terroristas contra nós, como também
aqueles que considerarem usar, numa ou noutra forma, armas de destruição
maciça, tem que entender que se estão a expor a uma firme e apropriada resposta
do nosso lado...".(Ibid)
Embora Chirac não tenha feito qualquer
referência ao uso preventivo de armas nucleares, a sua declaração reproduz as
premissas da Revisão de Postura Nuclear 2001 da administração Bush que reclama
o uso de armas nucleares tácticas contra ''estados párias" e
"organizações terroristas não-estatais".
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Clique para ver
pormenores e o mapa das instalações nucleares localizadas em 5 estados
europeus não-nucleares |
Construindo um pretexto para um ataque nuclear preventivo
O pretexto para empreender uma guerra, essencialmente contra o Irão, assenta em
duas premissas fundamentais que fazem parte da doutrina de Segurança Nacional
da administração Bush.
1. A alegada posse de "armas
destruição maciça (ADM)" pelo Irão, mais especificamente o seu programa de
enriquecimento nuclear.
2. O alegado apoio a "terroristas islâmicos" pelo Irão.
Estas são as duas declarações
interrelacionadas que constituem uma parte integral da campanha de propaganda
desinformação dos media.
A declaração das "armas de destruição maciça (ADM)" é utilizada para
justificar a "guerra antecipativa" contra os "estados
patrocinadores do terrorismo", isto é, países como o Irão e a Coreia
Norte, que supostamente possuem ADM. O Irão é identificado como um estado
patrocinador de "organizações terroristas não-estatais". Estas por
sua vez, possuem também ADM, constituindo potencialmente uma ameaça nuclear. As
organizações terroristas não-estatais são apresentadas como uma "potência
nuclear".
"Os inimigos nesta [longa] guerra não
são um exército convencional tradicional, mas sim redes terroristas globais
bastante dispersas, que exploram o Islão para conseguir objectivos políticos
radicais. Estes inimigos têm o objectivo declarado de adquirir e usar armas
nucleares e biológicas para assassinar centenas de milhares de americanos e
outros cidadãos por todo o mundo". (2006 Quadrennial
Defense Review )
Em contraste, a Alemanha e Israel produzem
e possuem ogivas nucleares e não são considerados "potências
nucleares".
Nos últimos meses, o pretexto para uma guerra, construído com base nesta
ligação entre o terrorismo islâmico e as ADM, tem sido destacado "ad
nauseam", diariamente, nos media ocidentais.
Numa exposição destinada à Comissão do Senado para o Orçamento, a secretária de
Estado Condoleezza Rice acusou o Irão e a Síria de desestabilizarem o Médio
Oriente e darem apoio a grupos islâmicos militantes. Ela definiu o Irão como
"o banqueiro central do terrorismo", não obstante o facto amplamente
documentado de que a Al Qaeda foi apoiada e financiada no seu início nos anos
80 por mais ninguém senão a CIA. (ver Michel Chossudovsky, Who is Osama bin Laden ,
Global Research 2001)
"Não é apenas o programa nuclear do
Irão, mas também o seu apoio ao terrorismo em todo o mundo. Eles são com
efeito, o banqueiro central para o terrorismo". (declaração na Comissão do
Senado para o Orçamento, 16/Fevereiro/2006)
"O segundo 11/Setembro": o
"Plano de Contingência" de Cheney
Enquanto a "ameaça" das alegadas ADM do Irão é inscrita para debate
no Conselho Segurança da ONU, informa-se que o vice-presidente Dick Cheney deu
instruções ao USSTRATCOM para preparar um plano de contingência a ser utilizado
no caso de se verificar novo ataque terrorista do tipo 11/Setembro nos Estados
Unidos". Este "plano de contingência" para atacar o Irão utiliza
o pretexto de um "segundo 11/Setembro", que contudo ainda não
aconteceu, para preparar uma importante operação militar contra o aquele país.
O "plano de contingência", que se caracteriza como um fortalecimento
militar na antecipação de possíveis ataques aéreos contra o Irão, está em
"estado de prontidão".
O que é diabólico é que a justificação para travar uma guerra contra o Irão assenta
no envolvimento daquele país num ataque terrorista à América, o qual ainda não
aconteceu:
O plano inclui um ataque aéreo de grandes
proporções contra o Irão, empregando armas nucleares tácticas e convencionais.
Existem mais de 450 objectivos estratégicos principais no Irão, incluindo
numerosos locais suspeitos de desenvolvimento de programas de armas nucleares.
Muitos dos objectivos estão fortemente protegidos ou estão localizados em
instalações subterrâneas e não podem ser atingidas por armas convencionais, daí
a opção nuclear. Tal como no caso de Iraque, a resposta não está condicionada
ao facto de o Irão estar envolvido directamente em actos de terrorismo
dirigidos contra os Estados Unidos. De acordo com informações, vários oficiais
de alta patente da Força Aérea, envolvidos no planeamento, estão horrorizados
com as implicações daquilo que estão a fazer – que o Irão tem vindo a ser
definido para um ataque nuclear não provocado – mas nenhum deles está preparado
para prejudicar a sua carreira colocando objecções. (Philip Giraldi, Attack on Iran: Pre-emptive Nuclear
War, The American Conservative , 02/Agosto/2005)
Será legitimo entender que os planeadores
militares dos EUA estão no limbo à espera de um segundo 11/Setembro a fim de
lançar uma operação militar dirigida contra o Irão, o qual está actualmente num
"estado de prontidão"?
O proposto "plano de contingência" de Cheney não se concentra na prevenção
de um segundo 11/Setembro. O plano Cheney baseia-se na presunção de que o Irão
estaria por trás de um segundo 11/Setembro e de que bombardeamentos punitivos
seriam imediatamente activados, antes mesmo de se iniciar uma investigação,
muito na linha do aconteceu com os ataques contra o Afeganistão em Outubro de
2001, alegadamente em represália pelo papel do governo Taliban no apoio aos
terroristas do 11/Setembro. Vale a pena notar que o bombardeamento e a invasão
do Afeganistão haviam sido planeados bem antes do 11/Setembro. Tal como Michael
Keefer destaca num incisivo artigo de revista:
Num nível mais profundo, isto implica que
'ataque terroristas tipo 11/Setembro' são reconhecidos pelo gabinete de Cheney
e pelo Pentágono como meios apropriados para legitimar guerras de agressão
contra qualquer país seleccionado para esse tratamento pelo regime e pelo seu
sistema corporativo de propaganda-amplificação.... (Keefer,
Fevereiro/2006)
Keefer conclui que "um ataque ao
Irão, o qual presumivelmente envolveria o uso de um número significativo de
bombas nucleares penetrantes extremamente "sujas", poderia muito bem
ser fabricado para se seguir a um ataque com bombas sujas nos Estados Unidos, o
qual seria descrito nos media como tendo sido executado por agentes
iranianos" (Keefer,
Fevereiro/2006)
A batalha pelo petróleo
As companhias de petróleo anglo-americanas estão inequivocamente por trás do
"plano de contingência" de Cheney para travar a guerra contra o Irão.
A guerra destina-se a exercer controlo territorial e corporativo sobre as
reservas de petróleo e de gás, assim como sobre as rotas dos pipelines.
Há continuidade nos planos de guerra dos EUA para o Médio Oriente, desde os
democratas aos republicanos. As características essenciais de discurso
neoconservador já estavam estabelecidas na administração Clinton. A estratégia
do Comando Central dos EUA (US Central Command's - USCENTCOM) em meados dos
anos 90, foi orientada para assegurar, do ponto de vista económico e militar, o
controlo do petróleo do Médio Oriente.
"Os amplos interesses e objectivos
para a segurança nacional interna expressos na Estratégia de Segurança Nacional
do Presidente (President's National Security Strategy - NSS) e na Estratégia
Militar Nacional do Presidente (Chairman's National Military Strategy (NMS),
concorrem para o estabelecimento do teatro estratégico do Comando Central dos
Estados Unidos (United States Central Command - USCENTCOM). O NSS está dirigido
para a implementação de uma estratégia de contenção dual dos estados párias
Iraque e Irão tanto quanto esses estados representarem uma ameaça aos
interesses dos EUA, aos outros estados da região, e aos seus próprios cidadãos.
A contenção dual é estabelecida para manter o equilíbrio de forças na região
sem depender do Iraque ou do Irão. O teatro estratégico do USCENTCOM é
baseado no interesse e focalizado na ameaça. O compromisso proposto pelos EUA,
tendo em conta a NSS, é proteger o interesse vital dos Estados Unidos na
região, isto é, garantir um ininterrupto e seguro acesso ao petróleo do Golfo
pelos EUA e seus aliados.
(USCENTCOM, http://www.milnet.com/milnet/pentagon/centcom/chap1/stratgic.htm#USPolicy
, itálcos do autor)
O Irão possui 10 por cento das reservas
mundiais de petróleo e de gás. Os EUA são a primeira e a principal potência
militar e nuclear do mundo, mas possuem menos de 3 por cento das reservas
mundiais de petróleo e de gás.
Por outro lado, os países habitados por muçulmanos, inclusive o Médio Oriente,
norte de África, a Ásia central, oeste e África central, Malásia, Indonésia e
Brunei, possuem aproximadamente 80 por cento das reservas mundiais de petróleo
e de gás.
A "guerra contra o terrorismo" e a campanha de ódio dirigida contra
os muçulmanos, que ganhou ímpeto nos últimos meses, reforça a ideia de que
existe uma relação directa dessas campanhas com a "guerra por petróleo no
Médio Oriente". Qual a melhor forma de conquistar estas vastas reservas de
petróleo localizadas em países habitados por muçulmanos? Construir um consenso
político contra os países muçulmanos, classificando-os como
"incivilizados", denegrir a sua cultura e a sua religião, implementar
o perfilamento étnico contra os muçulmanos nos países ocidentais, promover o
ódio e o racismo contra os habitantes dos países produtores de petróleo.
Dizem que os valores de Islão estão vinculados ao "terrorismo
islâmico". Os governos ocidentais agora acusam o Irão de "exportar o
terrorismo para o Ocidente" nas palavras do primeiro-ministro Tony Blair:
"Há um vírus de extremismo que provém
do cocktail de fanatismo religioso e de repressão política no Médio Oriente que
está agora a ser exportado para o resto do mundo". "Só garantiremos o
nosso futuro se tratarmos de cada aspecto deste problema. A nossa segurança
futura depende de estabilizar aquela região". "Nunca se pode dizer
nunca em qualquer destas situações". (citado no The Mirror, 07/Fevereiro/2006)
Os muçulmanos são demonizados,
identificados despreocupadamente como "terroristas islâmicos", os
quais são também descritos como constituindo uma ameaça nuclear. Por sua vez,
os terroristas são apoiados pelo Irão, uma república islâmica que ameaça o
mundo civilizado com armas nucleares mortais (as quais ele não possui). Em
contraste, as armas nucleares humanitárias da América "serão precisas,
seguras e fiáveis".
O mundo está numa encruzilhada crítica
Não é o Irão que é uma ameaça para segurança global, mas sim os Estados Unidos
da América e Israel.
Em recentes desenvolvimentos, governos europeus ocidentais – incluindo os
estados denominados "não-nucleares" que possuem armas nucleares –
juntaram-se ao vagão da banda. A Europa Ocidental e os estados membros da
Aliança Atlântica (a NATO) endossaram a iniciativa militar conduzida pelos EUA
contra o Irão.
Os planeados ataques aéreos do Pentágono ao Irão envolvem "cenários"
que utilizam tanto armas nucleares como convencionais. Mesmo que não implicasse
a utilização de armas nucleares, o perigo potencial de um holocausto nuclear no
Médio Oriente deve, no entanto, ser considerado muito seriamente. Isto deve
tornar-se um ponto central do movimento anti-guerra, particularmente nos
Estados Unidos, Europa Ocidental, Israel e Turquia.
Também se deveria entender que a China e a Rússia são (não oficialmente) aliados
do Irão, fornecendo-lhe equipamento militar avançado e um refinado sistema de
defesa míssil. É improvável que a China e a Rússia assumam uma posição passiva,
se ou quando os bombardeamentos aéreos forem executados.
A nova doutrina nuclear antecipativa defende a "integração" das
operações "defensivas" e "ofensivas". Além disso, a
importante distinção entre armas convencionais e nucleares foi diluída.
Do ponto de vista militar, os EUA e os seus parceiros de coligação, inclusive
Israel e Turquia, estão "num estado de prontidão."
Através da desinformação dos media, o objectivo é galvanizar a opinião pública
ocidental em defesa de uma guerra conduzida pelos EUA contra o Irão como
retaliação ao seu desafio à comunidade internacional.
A propaganda de guerra consiste na "fabricação de um inimigo"
enquanto veicula a ilusão de que o mundo ocidental está sob o ataque de
terroristas islâmicos, os quais são directamente apoiados pelo governo de
Teerão.
"Tornar o mundo mais seguro",
"prevenir a proliferação de dispositivos nucleares sujos por
terroristas", "implementar acções punitivas contra o Irão para
assegurar a paz", "combater a proliferação nuclear pelos estados
párias"...
Com apoio dos media ocidentais, foi
instalada uma atmosfera generalizada de racismo e xenofobia contra os
muçulmanos, particularmente na Europa Ocidental, o que proporciona uma falsa
legitimidade à agenda de guerra dos EUA. Esta é apresentada como uma
"guerra justa". A teoria da "guerra justa" serve para
camuflar a natureza dos planos de guerra dos EUA, dando uma face humana aos
invasores.
O que se pode fazer?
O movimento anti-guerra está, em muitos aspectos, dividido e mal informado
acerca da natureza da agenda militar dos EUA. Várias organizações
não-governamentais culparam o Irão, por não cumprir com as "exigências
razoáveis" da "comunidade internacional". Estas mesmas
organizações, que estão comprometidas com a paz mundial, tendem a subestimar as
implicações do proposto bombardeamento americano ao Irão.
Reverter esta tendência exige uma campanha maciça com uma vasta rede a fim de
informar os povos de todas as terras, no país e no estrangeiro, em bairros,
locais de trabalho, paróquias, escolas, universidades, municipalidades, acerca
dos perigos de uma guerra patrocinada pelos EUA que contempla a utilização de
armas nucleares. A mensagem deveria ser estrondosa e clara: O Irão não é
ameaça. Mesmo sem a utilização de armas nucleares, os bombardeamentos
aéreos propostos poderiam resultar numa escalada, conduzindo finalmente a uma
guerra que pode abranger grande parte do Médio Oriente.
O debate e a discussão também devem ter lugar dentro da comunidade militar e de
inteligência, nomeadamente acerca da utilização de armas nucleares tácticas,
nos corredores do congresso dos EUA, em municipalidades e a todos os níveis do
governo. Em última análise, a legitimidade dos actores políticos e militares em
altos cargos deve ser desafiada.
Os media corporativos têm igualmente uma forte responsabilidade pelo
encobrimento dos crimes de guerra patrocinados pelos EUA. Devem por isso ser
vigorosamente desafiados pela cobertura enviesada que têm feito da guerra do
Médio Oriente.
No ano passado Washington travou um "braço de ferro diplomático" a
fim de recrutar países para apoio da sua agenda militar. É essencial que, ao
nível diplomático, países do Médio Oriente, da Ásia, África e América Latina
tenham uma posição firme contra a agenda militar dos EUA.
Condoleezza Rice viajou pelo Médio Oriente, "exprimindo preocupação sobre
o programa nuclear do Irão", procurando o apoio inequívoco dos governos da
região contra Teerão. Enquanto isso, a administração Bush disponibilizava
fundos para apoio de grupos de dissidentes iranianos dentro do Irão.
O que devemos fazer é romper com a conspiração do silêncio, denunciar as
mentiras e distorções dos media, enfrentar a natureza criminosa da
administração dos EUA e dos governos que a apoiam, a sua agenda militar assim
como a sua chamada "Agenda de Segurança Interna" que já estabeleceu
os contornos de um estado policial.
O Mundo está na encruzilhada da crise mais séria da história moderna. Os EUA
embarcaram numa aventura militar, "uma longa guerra" que ameaça o
futuro de humanidade.
É essencial trazer o projecto bélico dos EUA para o primeiro plano do debate
político, particularmente na América do Norte e na Europa Ocidental. Os líderes
políticos e militares que se opõem à guerra terão de adoptar uma posição firme,
no interior das suas respectivas instituições. Os cidadãos devem adoptar,
individual e colectivamente, uma posição contra a guerra.
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Anexo A Plano de campanha (Campaign Plan, CAMPLAN):
Plano para uma série de operações militares relacionadas destinadas a cumprir
um objectivo estratégico ou operacional num dado tempo e espçao (exemplo: o
plano de campanha para o Iraque, incorporando um certo número de planos
específicos subordinados). Plano de operações (Operations Plan,
OPLAN): Um plano completo exigido quando há interesse nacional irrefutável,
quando existe uma ameaça específica e/ou quando a natureza da contingência
exige planeamento pormenorizado (exemplo: Coreia do Norte). Os OPLANs contem
todos os anexos formatados (ver abaixo), e Time Phased Force and Deployment
Data (TPFDD), uma base de dados contendo as unidades a serem instaladas, a
sequência da sua instalação, as datas de movimento de forças, pessoal,
logística e exigências de transporte. Um OPLAN podem ser usado como base para
o desenvolvimento de uma Ordem de operações (Operations Order, OPORD). Plano de operações apenas em forma de
conceito (Operations Plan in Concept Form Only, CONPLAN): Um plano de
operações num formato abreviado preparado para contingências de interêsse
nacional menos urgentes do que para os OPLANs e para ameaças não especificadas.
Um CONPLAN exige expansão ou alteração para ser convertido em OPLAN ou OPORD.
Isto normalmente inclui uma declaração do Conceito Estratégico e anexos A-D e
K (ver abaixo). CONPLANs que têm TPFDDs habitualmente são desenvolvidos
devido a acordos ou tratados internacionais. Planos funcionais (Functional plans,
FUNCPLAN): Um plano de operações que envolve a condução de operações
militares em tempo de paz ou ambiente não hostil (exemplo: ajuda em
desastres, assistência humanitária, operações anti-droga ou de manutenção da
paz). Planos de cooperação de segurança em teatro
e de compromisso em teatro (Theater Security Cooperation and Theater
Engagement Plans, TSCPs e TEPs): Planos de dia-a-dia para ajustar as
condições iniciais à futura acção militar em termos de capacidades
multinacionais, acesso militar americano, inter-operabilidade de coligação, e
inteligência. |
[*] Autor do bestseller internacional A
Globalização da Pobreza , publicado em português e mais dez idiomas.
É professor de economia na Universidade de Ottawa, director do Center for Research on Globalization e
colaborador da Enciclopédia Britanica. O seu livro mais recente é America's
"War on Terrorism" , Global Research, 2005.
A parte 1 deste texto foi publicado num artigo separado:
Os
perigos de uma guerra nuclear no Médio Oriente
A nova doutrina do Pentágono: As mini-bombas nucleares são "seguras para a
população civil envolvente"
O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/ . Tradução de MJS.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/
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