Clipping de Notícias Internacionais
Editores : Valter Xéu , Juliana Tito e Camilla Freire
www.patrialatina.com.br * patrialatina@patrialatina.com.br
30 de março de 2006
Ex-presidente da Libéria é levado a corte especial
FREETOWN. O ex-presidente da Libéria
Charles Taylor foi levado ontem a Freetown,
O ex-presidente foi levado de
helicóptero da Libéria para o centro de detenção
O ex-presidente enfrenta 11 acusações
de crimes de guerra e crimes contra a Humanidade. Inicialmente eram 17
acusações, mas elas foram reduzidas para permitir uma acusação mais
concentrada. Visto como responsável por uma rede de guerras regionais que
mataram 300 mil pessoas, Taylor é acusado de receber diamantes em troca do
apoio a rebeldes de Serra Leoa que freqüentemente mutilavam suas vítimas.
— Chegou a hora de Charles Taylor ter o
seu dia no tribunal — disse o porta-voz do governo de Serra Leoa. A
captura amenizou o embaraço criado para a Nigéria pela fuga de Taylor de uma
residência na cidade de Calabar. Ele estava exilado no país como parte de
um acordo para acabar com a guerra civil na Libéria. Em março, a presidente
liberiana, Ellen Johnson-Sirleaf, pediu que a Nigéria o entregasse.
Taylor foi preso ao amanhecer, na
fronteira da Nigéria com a República dos Camarões. Ele viajava num jipe com
placa diplomática, com a mulher e o filho e uma grande quantidade de dinheiro.
Grupos de direitos humanos acreditam
que a rápida extradição envia uma forte mensagem num continente em que muitos
sofrem nas mãos de ditadores, tiranos e rebeldes. O início de seu julgamento,
no entanto, pode demorar meses.
ONU exige que Irã interrompa seu programa nuclear
NOVA YORK. Depois de três semanas de
intensas negociações diplomáticas, o Conselho de Segurança da ONU aprovou ontem
por unanimidade uma declaração que exige que o Irã interrompa seu programa
nuclear. Agora a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) tem 30 dias
para fazer um novo relatório dizendo se Teerã aceitou a determinação das Nações
Unidas. A declaração do conselho lembra que a AIEA “foi incapaz de
concluir que não haja materiais ou atividades nucleares não declaradas no Irã.”
Ela diz que é “essencial construir uma relação de confiança no propósito
exclusivamente pacífico” do programa iraniano e sublinha a “particular
importância do restabelecimento total e continuado da suspensão de todas as
atividades relacionadas a reprocessamento e enriquecimento.” — Demos o primeiro
grande passo para lidar com o programa clandestino de armas nucleares do Irã,
que já tem quase 20 anos — disse o embaixador dos EUA na ONU, John Bolton.
Astronauta brasileiro está em órbita
A
espaçonave russa Soyuz TMA-8 é lançada sem imprevistos com o primeiro
representante do país no espaço
MOSCOU - O primeiro astronauta brasileiro, o tenente-coronel
Marcos Pontes, já está no espaço. O lançamento da Soyuz TMA-8 foi realizado com
sucesso às 23h30 (horário de Brasília) de ontem. Um dos momentos mais perigosos
da missão aconteceu sem sustos.
Depois que seus motores com 20 milhões de cavalos de potência
foram ligados, a nave partiu da base de Baikonur, no Casaquistão, para deixar o
nome de Pontes gravado na história do país. O exato momento da entrada em
órbita pôde ser percebido quando um pequeno urso branco de brinquedo pendurado
sobre o astronauta russo Pavel Vinogradov desapareceu. Em seguida, começou a
flutuar e acabou atrapalhando as imagens ao ficar na frente da câmera. Na
sexta-feira, o veículo espacial chega à Estação Espacial Internacional (ISS).
Na última entrevista antes da viagem, Pontes falou de uma área
isolada por um vidro - por causa da quarentena - junto aos outros membros da
equipe, o russo Pavel Vinogradov e o engenheiro de vôo americano Jeffrey
Williams.
O brasileiro destacou o orgulho de levar o Brasil à era espacial
pela Missão Centenário.
- Acho que a sensação como um todo pode ser resumida em uma
palavra: satisfação - afirmou.
Nas últimas horas no planeta, antes da jornada, os tripulantes
passaram dormindo e participando dos muitos rituais tradicionais que precedem o
embarque. Enquanto isso, os técnicos terminavam os preparativos da Soyuz TMA-8,
acoplada ao foguete Soyuz FG.
O astronauta teve um encontro com sua família, a mulher Fátima e
os filhos, Fábio e Ana Carolina. Antes de dormir, os tripulantes assistiram o
filme soviético ''O sol branco do deserto''. A comédia, ambientada no cenário
da guerra civil na Rússia no início do século passado, faz uma paródia dos
filmes do Velho Oeste. A prática foi iniciada pelo cosmonauta Yuri Gagarin
antes do lançamento do foguete Vostok, em 1961.
Pouco depois de tomar café da manhã, a equipe preparou a bagagem,
que, no caso de Marcos Pontes é cheia de simbolismos. Além de uma bandeira
brasileira e um uniforme da seleção e uma bola, o astronauta levou uma réplica
do chapéu usado por Santos Dumont no seu primeiro vôo, há cem anos.
Em seguida, os tripulantes brindaram simbolicamente com champanhe
e pepinos
A equipe também recebeu a bênção de um padre Ortodoxo, enquanto
ferraduras foram colocadas no ônibus que os esperava.
Finalmente, os três cosmonautas, acompanhados por alguns
especialistas, foram levados à rampa de lançamento. No caminho, um último
tributo à tradição, mencionada pela autoridades russas com constrangimento.
Pontes, Williams e Vinogradov saíram do veículo para urinar na pista de decolagem.
Segundo a lenda, Gagarin teria pedido para fazer o mesmo local.
Às 20h30, os tripulantes entraram na Soyuz e, nas três horas que
restavam para o lançamento da Soyuz, se dedicaram à checagem dos sistemas da
nave.
O brasileiro vai testar experimentos na ISS, durante a missão que
custou US$ 10 milhões.
França
Centrais sindicais convocam nova greve nacional
Estimuladas pelo êxito das manifestações de
terça-feira, as centrais sindicais e entidades estudantis francesas decidiram
ontem convocar uma nova greve nacional para 4 de abril. Também será promovida
naquele dia uma nova manifestação popular em todo o país - a quinta em pouco
mais de duas semanas. "O movimento vai prosseguir com mais intensidade, a
menos que o Contrato Primeiro Emprego seja retirado pelo primeiro-ministro
Dominique de Villepin", declarou Bruno Julliard, presidente da União
Nacional dos Estudantes. Segundo ele, há ainda margem para mobilizar um número
superior de ativistas. Os sindicatos e as entidades estudantis estimam em 3
milhões o total de manifestantes que tomaram as ruas de Paris e de outras 135
cidades francesas na terça-feira - 1,5 milhão, segundo a polícia. Ainda ontem,
63 das 84 universidades francesas permaneciam em greve.
Israel
"Objetivo já não é a paz, é gerenciar o conflito"
Medidas
unilaterais como a desocupação da Faixa de Gaza são as únicas plausíveis no
momento, afirma diplomata
Ex-diretor da chancelaria israelenseEntrevistaO veterano Shlomo
Avineri, ex-diretor-geral da chancelaria israelense na época de Yitzhak Rabin,
já viu de tudo na política do país. Menos o que aconteceu nas eleições de
terça-feira. Para Avineri, que hoje é ligado à Universidade Hebraica de
Jerusalém, os resultados provam que houve uma mudança histórica de paradigma na
política israelense. Segundo ele, o povo está pronto para devolver territórios
aos palestinos, sem promessas vãs de paz ou utopias.
Como o sr. explica o resultado dessas eleições?
Eu apresentaria o que aconteceu como uma mudança de paradigma. O
paradigma histórico era a tentativa de chegar à paz com os palestinos. A esquerda
queria isso estendendo a mão. A direita preferia fazer isso à força. Mas todos
falharam. Hoje em dia, a percepção em Israel é a de que não há futuro nas
negociações de paz. Passamos da idéia de "'resolução de conflitos"'
para a de "gerenciamento de conflito". O objetivo agora não é mais a
paz utópica, mas sim a diminuição da tensão e da violência entre dois povos.
Mas como isso explica os resultados do pleito?
Isso é a chave para entender os resultados das eleições. Os
israelenses votaram em Olmert porque acreditam que ele possa tomar decisões
difíceis, sem esperar o consentimento do outro lado. Assim como fez Sharon com
a retirada unilateral da Faixa de Gaza, que foi um sucesso.
O unilateralismo não pode piorar o relacionamento com os
palestinos?
Todas as propostas israelenses recentes encontraram objeções não
só dos palestinos como de aliados de Israel, como os EUA, sem contar a Europa.
Foi assim também com a retirada de Gaza. Quando Sharon começou a falar que
pretendia sair de Gaza, no final de 2003, Abu Mazen (o presidente palestino,
Mahmud Abbas) saiu imediatamente contra dizendo que a idéia não passava de um
truque. No fim, acabou telefonando para Sharon para parabenizá-lo. A verdade é
que esses passos unilaterais são as únicas propostas plausíveis, no momento.
Quem tiver outra, que apresente.
Olmert vai conseguir realizar a retirada da Cisjordânia mesmo
tendo obtido só 28 cadeiras na Knesset? Ele tem o consentimento do público para
isso?
Realmente, as pesquisas davam mais cadeiras ao Kadima. Mas, apesar
do erro, elas acertaram em apontar duas tendências: a vitória do Kadima e a
autodestruição do Likud, que só obteve 11 cadeiras. Isso quer dizer que o
público não concorda mais com a ideologia do Likud de manter a ocupação dos
territórios palestinos com mão-de-ferro. Essa é uma mudança histórica. O Kadima
terá de fazer coalizões para conseguir maioria parlamentar, mas não terá
dificuldades. Vai apelar para partidos que concordam com a retirada, como o
Trabalhista, para partidos ambivalentes, como o Shas (ultra-ortodoxo).
No discurso da vitória, Olmert não citou o Hamas. Está ignorando a
nova realidade da Autoridade Palestina?
Por que Olmert deveria citar o Hamas? Se há algo que ele aprendeu
com Sharon é falar pouco e agir muito.
Decretada prisão de porta-voz da ETA
Um juiz da Audiência Nacional, maior instância judicial da
Espanha, decretou ontem à noite a prisão preventiva de Arnaldo Otegi, líder do
proscrito partido Batasuna, apontado como braço político da ETA. Otegi é
acusado de incitação ao terrorismo. "A menos que pague uma fiança fixada
em 250 mil, ele permanecerá detido", informou um porta-voz do tribunal.
Petrobrás reage à ameaça boliviana
Com
negociações interrompidas, presidente da estatal afirma que investimentos no
país podem ser suspensos
Irany
Tereza
Kelly
Lima
O presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, rompeu o
silêncio e reagiu duramente, pela primeira vez, à forma que a Bolívia está
tratando os negócios da empresa no setor de gás e refino naquele país. Protestou
contra a interrupção das negociações do governo boliviano com a empresa desde o
final de fevereiro e contra o tom de ameaça de declarações de autoridades
bolivianas. Disse que não queria fazer ameaças, mas informou que os
investimentos da Petrobrás na Bolívia dependem da retomada das negociações.
"Caso contrário, se forem decisões unilaterais (do governo boliviano), as
posições se tornarão também radicalizadas. Vamos reagir unilateralmente também.
E isso não é bom para ninguém."
Na semana passada, o ministro de Hidrocarbonetos (Energia)
boliviano, Andrés Solíz, criticou a Petrobrás e o governo brasileiro, acusando
o Brasil de tratar a Bolívia como uma "semicolônia". Solíz disse que
podem ocorrer "as piores coisas que se pode imaginar" nas negociações
sobre mudanças nos contratos de venda de gás com Argentina e Brasil. É o mesmo
ministro que, ao assumir o cargo, em janeiro, prometeu à Petrobrás
"tratamento especial do governo boliviano".
Gabrielli disse estar preocupado. "Confiamos que pudesse se
reverter essa situação na Bolívia. Estávamos num processo negocial que vinha
caminhando para encontrar pontos comuns. Recentemente, esse clima vem se
modificando. A imprensa tem publicado uma série de declarações que nos deixa
preocupados", afirmou, dizendo ter sido uma opção sua manter as discussões
longe dos holofotes para facilitar um consenso.
"Objetivamente avançamos em determinado ritmo de negociação.
Queremos continuar avançando e negociando para encontrar caminhos comuns. Mas
as portas estão se tornando muito opacas", reclamou o executivo, tentando
dosar a agressividade. Evitou, por exemplo, falar em suspensão definitiva dos
investimentos na Bolívia. "Você está avançando numa coisa que não estou
querendo dizer", argumentou.
Mas foi firme ao afirmar que, na Bolívia, a Petrobrás é uma
empresa produtora de gás. "Não queremos ser uma prestadora de
serviços", declarou, sobre a possibilidade, já divulgada pelo governo
boliviano, de as reservas serem nacionalizadas e as empresas estrangeiras serem
apenas remuneradas pela exploração e produção do gás. Gabrielli ressaltou que a
empresa não quer discutir a autonomia do governo boliviano, lembrando que as
leis sancionadas pela Bolívia têm de ser cumpridas pelos investidores. Mas,
reclamou que "todo o setor de hidrocarburetos" boliviano está com
problemas. "Queremos encontrar soluções, mas além de não termos
interlocução, estamos vendo ameaças pela imprensa", protestou.
Segundo ele, está afastada a possibilidade de desabastecimento
imediato de gás no Brasil, em caso de endurecimento das relações comerciais com
a Bolívia. Lembrou que o País ainda não está utilizando a capacidade máxima
contratada no gasoduto Bolívia-Brasil, de 30 milhões de m3, e que o contrato
vale até 2019.
"Não é só o Brasil que tem interesse em negociar com a
Bolívia. O que há é uma dependência mútua. O que a Bolívia exporta? Quem mais
compra gás da Bolívia na proporção que o Brasil compra hoje? E, num futuro
próximo, onde a Bolívia pode garantir esta mesma fonte de renda?",
indagou.
Cerca de dez dias antes da declaração de Solíz, o presidente da
Bolívia, Evo Morales, prometeu que até 12 julho sancionará esta lei. A
Petrobrás, principal empresa em atuação na Bolívia, já investiu US$ 1,5 bilhão
naquele país nos últimos 12 anos.
'O Brasil precisa do gás da Bolívia'
Segundo
o presidente da Petrobrás, ninguém sabe o que significa a
nacionalização das reservas bolivianas José
Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobrás
O presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, diz não saber o
que significa a nacionalização do petróleo boliviano. Confira os problemas em
jogo nesta entrevista concedida segunda-feira a Celso Ming.
O que a Bolívia pretende e quais os interesses em questão?
Nós precisamos do gás da Bolívia. Hoje recebemos de
Para quem essas empresas vendem o gás?
Vendem para a Yacimientos Petroliferos Fiscales Bolivianos (YPFB),
que vende o produto para o Brasil e para a Argentina. Nosso contrato vai até o
ano 2019.
E o que diz a lei boliviana?
A lei foi aprovada antes do governo do Evo Morales mas precisa de
regulamentação. A eleição para a Constituinte que redefinirá as regras e
instituições básicas do país está marcada para meados deste ano.
Enquanto isso, o que está fazendo a Petrobrás?
Um grupo de negociadores está discutindo a regulamentação da lei e
as propostas deles para o novo quadro regulatório. Nós precisamos investir lá e
eles precisam do nosso investimento.
Para quem venderão o gás se o Brasil deixar de comprar?
Toda nação tem lá suas complicações que não são lógicas.
O senhor parece sugerir que as forças que chegaram ao poder não
sabem o que pretendem nem tratam os novos temas com a necessária
racionalidade...
Isso é o que está na imprensa. Nas negociações eles não são assim.
Estamos negociando com técnicos, não trato pela imprensa o que falo com eles.
Quem conduz as negociações pelo Brasil: a Petrobrás, o Itamaraty
ou diretamente o presidente Lula?
A Petrobrás negocia com a YPFB. O Itamaraty trata com o Ministério
das Relações Exteriores da Bolívia e o presidente Lula fala com Evo Morales.
O que na prática significa a nacionalização do petróleo na
Bolívia?
Ninguém sabe. Nem eles têm definição sobre isso.
Eles podem incorporar a Petrobrás?
Não sei. Temos investimentos legais, estamos legítima e legalmente
instalados lá. Há regras e contratos
Que outro tipo de poder de barganha tem a Petrobrás?
A Petrobrás tem hoje uma posição de negociação mais confortável do
que os outros produtores na Bolívia. Que tipo de pressão podemos fazer?
Abandonar? Nós não vamos fazer isso. Precisamos da Bolívia, vamos ter de
negociar para conseguir o melhor resultado.
O gás da reserva da Bacia de Santos pode fortalecer a posição da
Petrobrás?
Esses investimentos só vão maturar dentro de cinco ou seis anos.
No pico da produção, fornecerão 30 milhões de metros cúbicos por dia. O
problema é que a demanda por gás vai crescer no Brasil dos 40 milhões de metros
cúbicos diários para 100 milhões em 2010. O fornecimento da Bolívia vai
continuar sendo importante.
Quanto ao preço, o que os bolivianos querem?
Eles querem um reajuste.
Pediram quanto?
Não há clareza sobre isso.
O supergasoduto que vai da Venezuela à Argentina entra na
negociação?
Se for construído, o gasoduto vai mudar o mercado do gás na
América do Sul. Mas é coisa apenas para 2020 ou 2025.
E é verdade que vai custar R$ 50 bilhões?
Não há detalhamento que permita avaliar o custo. A previsão de
hoje é que sairá por US$
Reunião 'secreta' da OMC no Rio irrita argentinos
Representantes
dos EUA, Europa e Brasil vão tentar aproximar posições sobre tarifas para
acordo
Jamil
Chade
O governo do presidente Néstor Kirchner deixou claro ao comissário
de Comércio da União Européia (UE), Peter Mandelson, que não serão possíveis
avanços na negociação da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Entre os empecilhos indicados pelo governo argentino está a resistência da UE
em adotar uma redução "mais agressiva" dos subsídios agrícolas.
Mandelson retrucou, indicando que a Argentina e o resto do
Mercosul (o país atualmente exerce a presidência pro-tempore do bloco) deveriam
abrir mais o setor de indústrias e serviços.
A ministra da Economia, Felisa Miceli, que se reuniu com
Mandelson, explicou ao enviado europeu que "existe um compromisso da
Argentina para que a rodada consiga um resultado satisfatório, mas é preciso
que tenhamos garantias de que os países em desenvolvimento sejam os mais beneficiados
nesta negociação". Miceli segue a cartilha do presidente Kirchner e
defende a proteção ao setor industrial argentino, o que já causou vários
conflitos com o principal sócio do Mercosul, o Brasil. ARIEL PALACIOSA reunião
entre Brasil, Estados Unidos e Europa neste fim de semana, no Rio de Janeiro,
para tentar desbloquear as negociações da Organização Mundial do Comércio
(OMC), irritou a Argentina. Em Genebra, o embaixador argentino para temas
comerciais, Alberto Dumont, pediu que o processo inclua todos os países:
"Ninguém fala em nome da Argentina."
A reunião começa amanhã e terá a presença do chanceler Celso
Amorim, do representante de Comércio dos EUA, Rob Portman, e da Europa, Peter
Mandelson. O objetivo é aproximar as posições entre os negociadores, a um mês
do fim do prazo para que haja acordo sobre como ocorrerão os cortes de tarifas
de produtos industriais e agrícolas. "Fiquei surpreso ao saber da reunião
pelo jornal. Liguei para o escritório do (Pascal) Lamy (diretor da OMC) e
confirmaram o encontro", disse Dumont. "A questão não é só ser
transparente e relatar o que ocorre nos encontros, mas permitir a
participação." Segundo ele, a Argentina levou o caso para discussão no
G-20, grupo de países emergentes liderado por Brasil, Índia e China.
A Argentina teme que o Brasil ceda à pressão e aceite uma abertura
de mercado para produtos industriais que o país não estaria disposto a acatar.
O Itamaraty indicou que só poderia aceitar corte de 50%, mas os países ricos
esperam cerca de 75%.
Na OMC, o encontro no Rio parecia secreto. Embaixadores do Brasil
e EUA se negavam a dizer se haveria reunião. O embaixador americano Peter
Allgeier disse que "não sabia" de nada, e até o embaixador brasileiro
na OMC, Clodoaldo Hugueney, desconversou.
Lamy disse que aceita participar dessas reuniões só se algumas
condições forem preenchidas. Uma delas é que ele tem o direito de relatar o
conteúdo das conversas a todos os membros da entidade. Mas a realidade é que
nem sempre todas as informações são repassadas.
"Com essas reuniões fora da OMC, todo o processo fica à
espera do que é decidido", disse Dumont. Na sede da entidade, os
negociadores cumprem só uma agenda tímida, esperando orientações que saem
desses encontros. Segundo vários diplomatas, as definições dessas reuniões têm
grande chance de se transformar em arcabouço de um acordo para a OMC.
País negocia com a China antes de restrições
Renata
Veríssimo
O Brasil deve iniciar na próxima semana o processo de consulta ao
governo chinês para tentar restringir as importações de sete produtos. A
negociação é a primeira etapa para abertura dos pedidos de salvaguardas contra
a China, que pode levar à aplicação de cotas ou de uma sobretaxa às importações
daquele país. O Departamento de Defesa Comercial (Decom) do Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, recebeu cerca de 30 pedidos de
salvaguardas, mas só sete já têm embasamento técnico para a abertura do
processo.
As primeiras notificações englobam os seguintes setores: óculos e
armação, alto-falantes, óculos de sol, escovas de cabelo, ferro silício,
brinquedos e pedivela (equivalente ao pedal) de bicicleta. O decreto que
regulamentou o mecanismo da salvaguarda estabeleceu um prazo de negociação com
o governo chinês para possibilitar um acordo que acabe com os danos causados à
indústria nacional.
Após receber a notificação, o governo chinês terá dez dias para
manifestar interesse em fazer a consulta e, em caso positivo, até 30 dias para
que ela seja concluída. Não havendo sucesso, abre-se o processo de
investigação, no qual os chineses terão novo prazo de consultas. Se também
nessa segunda negociação não houver uma proposta que atenda aos interesses do
setor envolvido, o governo pode aplicar as medidas de proteção comercial.
A legislação prevê a possibilidade de adoção de salvaguardas
provisórias antes da conclusão das investigações. Nesse caso, o mais comum e
mais rápido é a definição de cotas para a entrada de produtos chineses no País.
Outro dispositivo incluído nos textos permite a adoção de salvaguardas
preventivamente por desvios de comércio.
Assim, caso um terceiro país aplique barreiras comerciais contra a
China, aumentando o volume das exportações chinesas para o Brasil, o mecanismo
de proteção comercial poderá ser acionado.
O secretário de Comércio Exterior do Ministério do
Desenvolvimento, Armando Meziat, disse que, em alguns casos, os pedidos de
salvaguardas ou foram entregues recentemente ou ainda está faltando
documentação. Por isso, ainda não há como abrir uma investigação. O setor que se
sentir prejudicado, além do surto de importação, deve comprovar desorganização
em seu mercado, queda nos preços e na participação no mercado interno.
TENDÊNCIAS
INTERNACIONAIS
COMÉRCIO
Putin acusa EUA de atrasar entrada na OMC
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse ontem que os Estados
Unidos estão atrasando a entrada de seu país na OMC (Organização Mundial do
Comércio), processo que já dura 12 anos.
"Infelizmente, recebemos recentemente dos nossos colegas
americanos uma lista exigindo novos acordos que consideramos terem sido
deixados para trás há muito tempo", afirmou Putin, que acrescentou que
esses pedidos "levam artificialmente o processo de negociação para
trás".
O presidente russo não disse especificamente quais haviam sido os
pedidos dos Estados Unidos.
O chefe do USTr (espécie de Ministério do Comércio Exterior dos
EUA), Rob Portman, rebateu as acusações de Putin, dizendo que os problemas
levantados por seu país não eram novos, mas sim assuntos sobre os quais os
Estados Unidos já haviam se posicionado ao longo das negociações de acessão da
Rússia.
EMBARGO
Sem
russos no mercado, preços desabam, não há espaço para armazenagem e produtores
abatem e enterram animais
Rússia leva setor de carnes ao fundo do poço
MAURO
ZAFALON
DA
REDAÇÃO
As exportações de carne suína recuaram 40% na primeira quinzena
deste mês em relação às do mesmo período de fevereiro. As demais carnes -de
frango e bovina- também seguem tendência de queda.
Os estoques crescem e os armazéns especiais para estocagem já não
têm mais espaço. As carnes começam a ser estocadas em contêineres de carretas.
Essa redução nas exportações das três carnes provoca forte disputa pelo
consumidor interno. Ganha o frango, que já é comercializado por menos de R$ 1
por quilo, no varejo.
Essa situação é provocada quase que exclusivamente pelo embargo
russo, segundo Pedro Camargo Neto, presidente da Abipecs (Associação Brasileira
da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína).
O excesso de carnes suína e bovina no mercado interno se deve aos
embargos em decorrência da febre aftosa
Para Camargo, "o embargo russo não tem lógica e sua
continuidade desestabilizará o setor, principalmente o de carne suína, que
cresceu exatamente para atender à demanda russa".
Para o presidente da Abipecs, o embargo não tem consistência
técnica. Ele cita o exemplo do Rio Grande do Sul, mercado que nunca poderia ter
sido fechado pelos russos, não só pelas regras da OIE (Organização Mundial de
Saúde Animal) e da OMC (Organização Mundial do Comércio), mas também devido ao
protocolo sanitário assinado por Brasil e Rússia.
Camargo diz que os russos prejudicam o Brasil e que só o governo
poderia enfrentá-los, mas "ele [o governo] não se mexe".
Odilson Ribeiro, diretor do Departamento de Assuntos Sanitários e
Fitossanitários do Ministério da Agricultura, não concorda com Camargo. Ele diz
que o governo tem estado em contato diariamente com os russos para tentar
reverter esse embargo. "Muitas vezes temos recebido respostas que não nos
agradam, mas não podemos forçar e ir além do razoável", diz Ribeiro.
Ele acredita, no entanto, que as negociações possam avançar com a
vinda do primeiro-ministro russo ao Brasil
A ausência da Rússia praticamente inviabiliza o mercado brasileiro
de carnes. Dos 4,9 milhões de toneladas exportadas no ano passado, um quinto
foi para os russos. As receitas do setor somaram US$ 7,8 bilhões, sendo que US$
1,6 bilhão veio da Rússia.
O setor mais dependente é o de suínos. Das 625 mil toneladas
exportadas em 2005, 404 mil (65%) tiveram como destino a Rússia.
A capacidade de armazenagem do país é de 300 mil toneladas e já
está toda ocupada, segundo José Roberto Moreira Leite, ex-presidente da Abiaf
(Associação Brasileira da Indústria de Armazenagem Frigorificada).
Com a falta de compradores e as dificuldades de armazenagem,
alguns produtores de frango já suspendem a produção, abatem e enterram os
animais, afirma Leite. A crise deve chegar ainda mais forte na produção,
segundo o ex-presidente da associação. Para Leite, vários investimentos no
setor estão sendo interrompidos devido à insegurança dos produtores.
No caso da carne suína, os Estados do Sul são os mais
prejudicados. O Rio Grande do Sul, que já tem 60 mil toneladas de carne
estocadas -o normal é ter apenas 15 mil- vive a maior crise desde 1978, quando
ocorreu a peste suína. Em vista dessa dificuldade, os gaúchos vão solicitar ao
governo uma linha de crédito de R$ 150 milhões a R$ 200 milhões.
CRISE
NUCLEAR
ONU dá 30 dias para Irã ceder
Em
declaração sem força mandatória, Conselho de Segurança exige que regime
islâmico suspenda enriquecimento de urânio e aceite inspeções. Americanos e
europeus discutem hoje estratégia a seguir
Da
redação
O Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou ontem por
unanimidade uma declaração que dá prazo de um mês para que o Irã adeqüe seu
programa nuclear às exigências feitas pela Agência Internacional de Energia
Atômica (AIEA) — entre elas a suspensão do enriquecimento de urânio, atividade
que alimenta suspeitas quanto à pretensão do regime islâmico de obter armas
nucleares. O texto do Conselho, objeto de duras negociações nas últimas três
semanas, não pede a aplicação automática de sanções contra o governo de Teerã.
Em vez disso, prevê nova discussão sobre o Irã ao final do prazo fixado, com
base em relatório atualizado da AIEA.
A declaração, que não tem força de lei, convoca o Irã a “tomar as
medidas requeridas pela AIEA, essenciais para estabelecer a confiança (da
comunidade internacional) no caráter exclusivamente pacífico de seu programa
nuclear”. Destaca ainda “a importância de retomar de forma completa e duradoura
a suspensão de toda atividade ligada ao enriquecimento de urânio”. Em sua
reação inicial, o embaixador iraniano na ONU, Javad Zarif, minimizou a
importância do texto e reafirmou o “compromisso categórico” do país com o
Tratado de Não-Proliferação de armas nucleares. “O Irã está comprometido com
suas obrigações não apenas porque estão previstas em tratado, mas porque estão
baseadas em nossos editos religiosos e históricos”, disse Zarif.
A fórmula aprovada havia sido anunciada à tarde pelos
representantes dos cinco membros permanentes do Conselho — Estados Unidos,
Rússia, Reino Unido, França e China —, que têm poder de veto sobre as decisões
do plenário. Os governos de Washington, Londres e Paris, que desde o início
acenavam com a ameaça das sanções, tiveram de ceder às objeções de Moscou e
Pequim. Ambos os governos mantêm relações próximas com Teerã — a Rússia coopera
com o programa nuclear iraniano — e pressionaram para que fosse delegada à AIEA
a posição central na crise.
O embaixador dos EUA na ONU, John Bolton, procurou demonstrar satisfação
com o teor do documento, embora ele não tenha o caráter mandatório de uma
resolução. “Enviamos uma mensagem clara (ao Irã) para que suspenda as
atividades de enriquecimento de urânio e processamento de plutônio”, comentou
Bolton. A secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, se reúne hoje
em Berlim com os colegas da Alemanha, França e Reino Unido para traçar a
estratégia a seguir na campanha para impedir o Irã de desenvolver um arsenal
atômico.
Durante todo o processo de negociações, Bolton enfatizou a posição
de seu governo em favor de que o uso da força seja mantido como opção para
lidar com o impasse, caso o regime islâmico siga resistindo às exigências da
AIEA. Em Moscou, porém, o chanceler Sergei Lavrov aproveitou a aprovação da declaração
do Conselho de Segurança para reafirmar a oposição da Rússia. “Como frisaram
mais de uma vez nossos colegas europeus e chineses, pressões e ameaças de uso
da força para solucionar essa questão são contraproducentes e não podem ser
apoiadas”, disse Lavrov.