Clipping de Notícias dos principais jornais

 

Editores : Valter Xéu , Juliana Tito e Camilla Freire

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30 de março de 2006

  

 

  

 

   

 

    

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

‘O mensalão foi uma realidade’

Bernardo de la Peña

BRASÍLIA 

Nove meses de investigação sobre o escandaloso esquema do valerioduto resultaram ontem num relatório de mais de 1.800 páginas, no qual o relator-geral da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), poupou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu filho Fábio Luiz Lula da Silva por pressão dos governistas mas foi duro com o governo e o PT. O texto pede o indiciamento por corrupção de dois ex-ministros, José Dirceu e Luiz Gushiken, e não só confirma a existência do pagamento de mesadas a deputados, o mensalão, como refuta a tese de que se tratavam apenas de recursos de caixa dois eleitoral. A aprovação do relatório na semana que vem, porém, não está garantida por causa das divergências entre oposição e governo.

O presidente Lula é citado, mas apenas como tendo tomado conhecimento da existência do que o ex-deputado Roberto Jefferson apelidou de mensalão. O texto informa que Lula ouviu Jefferson e pediu providências ao então ministro da Articulação Política, Aldo Rebelo, hoje presidente da Câmara. Serraglio não acusa Lula de omissão, mas sugere que ele poderia ter tomado conhecimento dos fatos anormais.

Além de Dirceu e Gushiken, Serraglio pediu o indiciamento de outras 120 pessoas, entre elas todos os ex-dirigentes do PT responsáveis, direta ou indiretamente, pelo esquema do empresário Marcos Valério. Dezenas de diretores e ex-diretores de estatais envolvidos em irregularidades deste governo e do passado, dirigentes de fundos de pensão e parlamentares que receberam dinheiro das contas de Valério também tiveram o indiciamento pedido. Assim como o ex-governador e ex-presidente do PSDB Eduardo Azeredo, o único senador incluído na lista.  Valério foi o que recebeu o maior número de pedidos de indiciamento: nove, inclusive por peculato, lavagem de dinheiro e corrupção ativa. Outras 50 pessoas terão de ser investigadas pelo Ministério Público para aprofundar apurações que a CPI não teve condições de concluir. A lista de indiciamentos inclui os 19 parlamentares que passaram pelo Conselho de Ética da Câmara e mais o senador tucano Azeredo, que recebeu empréstimos de R$ 9 milhões irregulares de Valério na sua campanha pela reeleição para o governo de Minas em 1998.

 

Dirceu é citado como responsável

Sobre o mensalão, Serraglio foi incisivo: “Meses de investigação se passaram, e a consciência da existência do mensalão se impôs àqueles que deram de ombros ou quiseram ignorar a verdade expressa pelos fatos. Este relatório é a narrativa desse enredo político em detalhes e mostra que o mensalão foi uma realidade”.  Dirceu é citado primeiro como o responsável pelo esquema e depois por causa das reuniões que teve com dirigentes dos bancos BMG e Rural — que também tiveram seu indiciamento solicitado. Há ainda referência ao fato de a ex-mulher do ex-ministro ter conseguido, por intermédio de Valério, um emprego no BMG e um empréstimo para compra de um apartamento.  Já Gushiken, que continua no governo como chefe do Núcleo de Assuntos Estratégicos, teve o indiciamento pedido por corrupção ativa e tráfico de influência. Como era chefe da Secretaria de Comunicação, foi responsabilizado por irregularidades na contratação das agências de Valério, por adiantamentos feitos pelo Banco do Brasil ao empresário e pela influência nos fundos de pensão que também foram investigados.  Toda a antiga cúpula do PT está na lista de pessoas que tiveram o indiciamento solicitado ao Ministério Público: o ex-presidente José Genoino, o ex-secretário-geral Silvio Pereira, o ex-tesoureiro Delúbio Soares e o ex-secretário de Comunicação Marcelo Sereno.  Sereno foi indiciado no relatório do deputado Antônio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) junto com outras 49 pessoas pela sua influência nos fundos de pensão.  Serraglio retirou do texto os pedidos de indiciamento de alguns dirigentes e ex-dirigentes por formação de quadrilha, que o pefelista havia feito. Além de dirigentes de 12 fundos, o relatório pede o indiciamento de diretores de corretoras e investidores que lucraram com negócios irregulares. Os principais problemas foram encontrados em operações da Prece, Núcleos, Real Grandeza e Refer.

O episódio da lista de Furnas — que continha os nomes de mais de 150 parlamentares que teriam recebido doações ilegais de um suposto esquema de corrupção na estatal — faz parte do relatório, mas os pedidos de indiciamento neste caso são para os que divulgaram a lista, Nilton Monteiro e Luiz Fernando Carceroni, porque, segundo o relatório, o documento era falso.  Duda também tem indiciamento pedido O publicitário Duda Mendonça, que também teve o indiciamento pedido, deve continuar sendo investigado. A CPI não conseguiu descobrir a origem dos recursos que abasteceram as suas contas no exterior. Porém, há uma diferença de cerca de US$ 400 mil entre o registrado nos extratos da conta Dusseldorf e o que ele disse ter recebido. O relatório pede que ele ainda seja investigado por evasão de divisas.  Além disso, quatro saques feitos na conta do publicitário em 18 de junho de 2003, no total de US$ 1,3 milhão, teriam alimentado contas ligadas a ele mesmo, indicando mais uma operação para ocultação dos valores no próprio BankBoston International na Flórida e no Bankhaus suíço.

A descrição das irregularidades nos Correios, estatal que batizou a CPI, ocupam, juntamente com a apresentação do relatório, as primeiras 474 páginas do documento.  Foram encontrados contratos superfaturados que somam cerca de R$ 100 milhões nas áreas de transportes, publicidade, franquias e informática. Por causa disso, Serraglio, que reproduziu o trabalho do deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), pediu o indiciamento de 20 pessoas. Entre elas dois presidentes da estatal no governo Fernando Henrique, Hassan Gebrin e Egydio Bianchi.

O relator criticou o uso de hábeas-corpus concedidos pelo STF pelos depoentes. E citou até a Bíblia. “Se disseres ‘eu não sabia’, Aquele que sabe os corações perceberá, Aquele que atenta para as almas saberá, e retornará a cada qual segundo os seus procedimentos”.

 

 

 

 

A verdadeira origem do dinheiro eram cofres públicos e empresas privadas, diz

Bernardo de la Peña

 

BRASÍLIA. Um dos motivos de maior polêmica entre governo e oposição ficou por esclarecer no relatório da CPI dos Correios: a origem dos recursos que abasteceram as contas de Marcos Valério, que distribuía o dinheiro aos políticos aliados do governo. Dos cerca de R$ 55 milhões repassados por Valério, a CPI encontrou entre recursos públicos e privados cerca de R$ 31 milhões, segundo a complexa descrição do esquema feita no relatório do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR). O assunto é tratado no capítulo “A verdadeira origem dos recursos”.  A maior parte desse dinheiro, segundo o documento, teria saído do Banco do Brasil, por intermédio da Visanet. A Brasil Telecom e a Usiminas também são apontadas no relatório como fontes do valerioduto. Serraglio disse ontem que foram encontradas notas fiscais falsas na prestação de contas da DNA Propaganda, agência de Valério, à Visanet e que pelo adiantamento de R$ 12 milhões ainda não há explicação.  “A DNA Propaganda, e, em decorrência, seu principal dirigente, Marcos Valério, auferiu ganhos no total de R$ 23.911.422,00. Além desse ganho financeiro, o Banco do Brasil, proporcionou a Marcos Valério a possibilidade de utilização, dos valores adiantados pela Visanet, como garantia das operações financeiras...”, afirma o texto.  Diretoria do BB autorizou adiantamentos à DNA Num dos capítulos, “As vantagens de Marcos Valério”, Serraglio diz que de forma indiscriminada a diretoria do Banco do Brasil autorizou os adiantamentos à DNA o que permitiu que Valério os usasse conforme suas necessidades e auferisse vantagens de várias maneiras. O relatório cita ainda o uso dos recursos da Visanet como garantia de empréstimo tomado por Valério no BMG e repassado ao PT.

“O escritório Lanza Tolentino & Associados, em 26/04/2004, contratou empréstimo junto ao BMG no valor de R$ 10 milhões garantido por aplicação financeira em CDB realizada em 22/04/2004 pela empresa DNA naquela instituição. Os recursos aplicados pela DNA são provenientes do adiantamento da Visanet no valor de R$ 35 milhões, inicialmente depositados na conta n601.999 em 15/03/2004 e aplicados integralmente em fundo de investimento do BB vinculado a esta mesma conta. Na data em que foi comprado o CDB no BMG, foram resgatados daquele fundo e transferidos para o banco BMG R$ 10 milhões líquidos”, explica o texto.  Quando trata dos recursos privados que entraram nas contas de Valério e foram destinados ao esquema, Serraglio cita a Usiminas e a Brasil Telecom como principais fontes, com aproximadamente R$ 3,5 milhões cada uma.

“Os trabalhos da CPI conseguiram alcançar resultados que comprovam que os recursos obtidos também com as empresas privadas alimentaram o valerioduto”, afirma o texto.  Para citar a Brasil Telecom, Serraglio usou como base as informações remetidas à CPI pelos novos advogados da companhia. Eles informaram que a então presidente da BrT, Carla Cicco, encomendou, em julho de 2004, sem passar pelo departamento de marketing da empresa, a elaboração de trabalhos específicos às agências de Valério. “No caso, a contratação paralela ainda veio com a instrução de que os respectivos pagamentos, que somaram R$ 3,5 milhões fossem realizados antes da entrega dos serviços contratados”, diz o documento remetido à CPI. “Estranhamente, os trabalhos acima somente foram encaminhados à área de marketing da companhia este ano, quando as indigitadas agências já eram alvo das mais variadas suspeitas, dentre elas a de receber por serviços inexistentes”.  À época, a direção da companhia travava uma guerra com os fundos de pensão para manter o controle da empresa.  Pagamentos de R$ 3,5 milhões da Usiminas Em relação à Usiminas, o texto afirma: “Em análise detalhada dos registros de contas a pagar do grupo Usiminas e respectivas notas fiscais da SMP&B foi possível verificar ainda que, no período de agosto a setembro de 2004, foram feitos diversos pagamentos que montam a R$ 3,429 milhões suportados por notas fiscais cuja descrição dos serviços importam em dúvidas quanto à prestação real dos serviços”.  Serraglio cita ainda como indício de participação da Usiminas no valerioduto o caso do deputado Roberto Brant (PFL-MG), que informou em agosto do ano passado que o dinheiro que havia recebido das contas de Valério se tratava de uma doação irregular para sua campanha feita pela empresa mineira.

 

 

 

 

A via que abastece o tráfico

Dicler Simões 

Policiais rodoviários federais apreenderam ontem de madrugada na Via Dutra (BR-116), no Sul Fluminense, cerca de cinco mil projéteis, principalmente para armamento pesado, e quase meia tonelada de maconha em duas operações. A droga e a munição vinham de Foz do Iguaçu para o Rio. Segundo a polícia, a estrada, que liga Rio e São Paulo, é a principal rota usada hoje pelos traficantes de armas, munição e maconha. O delegado Carlos Oliveira, titular da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos, disse que o transporte ilegal de munição pela Dutra é atualmente uma das grandes preocupações da polícia:

— São carros particulares que carregam de dois mil a cinco mil cartuchos e isso dificulta muito o combate — disse o delegado.

De acordo com policiais rodoviários responsáveis pelas apreensões, as quadrilhas que usam a Dutra haviam interrompido as atividades por causa das operações do Exército em morros em busca das armas roubadas de um quartel. Agora, estariam intensificando o tráfico para reabastecer bandidos de favelas do Rio.  Uma das apreensões foi feita em Penedo, distrito de Itatiaia. Policiais encontraram 4.830 projéteis para fuzis FAL e AR-15, metralhadora e pistola no forro das portas e debaixo dos tapetes de um Santana, com placa de Foz do Iguaçu, dirigido pelo motorista de van Antônio Aparecido Pereira de Jesus. Ele foi preso no quilômetro 311, após ser parado num bloqueio. A maioria das balas (2.454) era de calibre 7.62, para FAL. Cem eram para pistola 9mm. Também foram apreendidos um carregador de escopeta e nove coronhas da mesma arma.  Motorista diz que receberia mil reais Na versão contada aos policiais rodoviários, Antônio Aparecido disse que ganharia mil reais para transportar a munição e o pagamento seria recebido no Rio. Já no depoimento na 99 DP (Itatiaia), ele contou que um casal alugara seu carro em Foz do Iguaçu para viajar a Resende, onde os filhos estariam doentes. O casal, no entanto, segundo essa versão, teria descido em Aparecida (SP), mandando-o seguir até o Restaurante Graal, na rodoviária de Resende, onde o motorista receberia o dinheiro. Ainda de acordo com o depoimento, a munição teria sido escondida no Santana sem que ele soubesse.  Segundo policiais civis, Antônio Aparecido mora nas proximidades da Ponte da Amizade, que liga o Brasil ao Paraguai, e tem uma van que transporta passageiros ao país vizinho. A munição, pesando 140 quilos, foi avaliada em R$ 50 mil.

A outra apreensão aconteceu no quilômetro 227, no alto da Serra das Araras, em Piraí. Ali, policiais rodoviários recolheram 497 quilos de maconha no bagageiro de um ônibus da Jovem Tur. Foi preso Valmir Santiago Rodrigues, de 26 anos. O número da poltrona que ele ocupava estava nos etiquetas coladas nas malas com os tabletes da drogas. Segundo a inspetora Marina Maggessi, chefe do setor de investigações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, boa parte da maconha que abastece os traficantes do Rio vem do Paraguai.  — Quase toda a droga que chega ao Rio é trazida pelas estradas. Por isso é preciso fazer um grande combate nas rodovias — afirmou.

 

 

 

 

 


Mensalão, enfim, é oficial

Relatório final descarta existência de empréstimos e aponta seis empresas e duas estatais como financiadoras do valerioduto

Fernando Exman e Mariana Santos  

BRASÍLIA - O relatório final apresentado pelo deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) atesta que a existência do mensalão “é uma realidade”. De acordo com o parlamentar, a palavra “mensalão” resume o conceito da “prática ilícita de cooptação política, contrária ao interesse público, financiada com dinheiro escuso de cofres públicos e privados. Sintetiza a degradação de um escambo imoral de favores, que teve membros importantes da classe política como protagonistas”.

O documento redigido por Osmar Serraglio afirma que as fontes do mensalão – cuja soma alcançou R$ 55 milhões – não foram apenas empréstimos concedidos pelos bancos Rural e BMG ao publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza. É falsa a alegação de que os recursos distribuídos pelo PT a partidos da base aliada foram utilizados para o pagamento de dívidas de campanhas eleitorais.

As principais fontes do valerioduto, segundo o relatório lido ontem no plenário da CPI, são a Visanet, a mando do Banco do Brasil, e as empresas Brasil Telecom, Usiminas, Telemig, Amazônia Celular, Fiat e Cosipa. Também aparecem entre os financiadores do valerioduto as empresas públicas Correios, Eletronorte, além dos ministérios do Trabalho e do Esporte.

Entre janeiro de 2003 e fevereiro de 2004, quando os recursos foram distribuídos, descreve o relatório, a base aliada ao Palácio do Planalto aumentou e votações de interesse do governo foram realizadas na Câmara. Nos dez dias que antecederam a votação da Reforma Tributária, por exemplo, R$ 2,02 milhões foram sacados das contas de Valério por assessores e pessoas ligadas a políticos.

Incluindo as somas retiradas por operadores desconhecidos do mensalão, aponta o relatório de Serraglio, R$ 14,83 milhões foram sacados das contas de Valério durante o período de votação das reformas da Previdência e Tributária. Os operadores identificados pela CPI movimentaram R$ 5,25 milhões.

O cruzamento de dados também identificou uma movimentação de R$ 3,59 milhões entre agosto e setembro de 2004, meses que antecederam as eleições municipais realizadas naquele ano. Somente em setembro foram sacados R$ 2,16 mi.

Mas o relatório pondera que as movimentações feitas em agosto e setembro de 2004 não acompanharam o padrão verificado anteriormente. Passaram a ter valores menores e quebrados, elevados e redondos.

“O mensalão mostra-se como uma espécie de Fundo de Recursos para consecução de objetivos político-partidários”, diz o relatório.

Tais conclusões podem causar um embate político entre oposição e governistas na próxima terça-feira, quando o relatório produzido por Serraglio devera ser votado no plenário da CPI dos Bingos.

 

 

Lula determinou providências em vão

Relatório final mostra que presidente foi incapaz de acabar com o mensalão

BRASÍLIA  

Depois de 10 meses de investigação, a CPI dos Correios concluiu que o mensalão – denunciado pelo Jornal do Brasil em setembro de 2004 – existiu e nada tem a ver com despesas não declaradas de campanha eleitoral. O relatório final da comissão diz que houve pagamento de mesada a deputados da base governista. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi poupado de um pedido de indiciamento ou impeachment, sob a alegação de que “não se tem qualquer fato que evidencie haver se omitido”. No entanto, assinalou que “não parece que havia dificuldade” para Lula perceber a corrupção. Ficou evidenciada a falta de pulso do presidente, já que exigiu providências e nada foi feito.

O documento de 1.839 páginas pede o indiciamento de pelo menos 118 pessoas. Entre elas, dois ex-ministros da equipe de Lula por suposta corrupção ativa (José Dirceu e Luiz Gushiken), além do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza e do ex-tesoureiro petista Delúbio Soares, apontados como operadores do mensalão.

Foram incluídos ainda no relatório, com pedido de indiciamento a ser encaminhado à Polícia Federal e ao Ministério Público, dirigentes do diretório nacional do PT entre 2003 e 2004, como o ex-presidente da sigla José Genoino e o ex-secretário-geral Silvio Pereira. Um ex-assessor direto do ex-ministro José Dirceu, Marcelo Sereno, também consta da lista.

O senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e o atual vice-governador mineiro, Clésio Andrade (PTB-MG), também tiveram pedido de indiciamento, mas apenas por crimes eleitorais, que já estariam prescritos.

Azeredo afirmou ter recebido com “estranheza e indignação” a notícia. Incluído no relatório por ter usado R$ 9 milhões não contabilizados na campanha ao governo de Minas Gerais em 1998, cobrou que Lula também seja tratado de acordo com o mesmo parâmetro.

Um pedido de vistas coletivo adiou para terça-feira a votação do relatório final da CPI dos Correios. O presidente da comissão, senador Delcídio Amaral (PT-MS), disse que assim haverá tempo para o documento ser lido por todos os integrantes.

Depois disso, o texto pode sofrer alterações, já que os parlamentares devem apresentar sugestões de mudança no relatório final.

Uma das possibilidades em estudo pela ala governista é apresentar um relatório paralelo. Esse relatório alternativo livraria a maior parte dos nomes citados no texto original. Outra hipótese é a apresentação de destaques, que podem alterar o texto original.

 

 

Que país será este?

Seminário promovido na Casa Brasil mostra que educação e política são os pilares para o desenvolvimento brasileiro  

Que país será este? A resposta depende da solução para o atraso do Brasil na área de educação - fundamental para o desenvolvimento de qualquer nação. O diagnóstico passa não só por investimentos mas pela estratégia que será traçada pelo governo federal e pelo setor privado para recuperar o tempo perdido, de décadas de escolhas erradas dos líderes brasileiros. Não falta dinheiro para alfabetizar as crianças. Falta, principalmente, um programa de ensino atraente para os jovens alunos, capaz de estimular o raciocínio e a criatividade.

Da educação dependem o crescimento econômico, a ética e a eficiência na política e no Judiciário. E não cabe só ao governo a solução. O setor privado, com práticas de responsabilidade social, também pode e deve ajudar a construir o Brasil do futuro. Este foi o tema do seminário Brasil: Por dentro do seu futuro realizado, ontem, na Casa Brasil, promovido pelo Jornal do Brasil e pela Gazeta Mercantil, com apoio da Coca-Cola e do Sesc.

O seminário foi o segundo do ciclo que pretende analisar e discutir os problemas e soluções para o país, e o primeiro realizado na Casa Brasil. O presidente do Jornal do Brasil e da Gazeta Mercantil, Nelson Tanure, destacou que a Casa Brasil será um centro para a produção de arte, cultura e debate de idéias, inclusive para as áreas empresarial e econômica.

O diretor de Relações Institucionais da Coca-Cola, Marcos Simões, explicou que a empresa participou da iniciativa por preocupar-se em estimular o debate e contribuir com o desenvolvimento do país. A companhia investirá, este ano, no Brasil, R$ 700 milhões. Só na área social, a contribuição é de R$ 40 milhões por ano. Os dois principais projetos são de educação - para manter crianças na escola - e reciclagem de alumínio e material plástico.

- A experiência da Coca-Cola pelo interior do Brasil vem das 18 fabricantes regionais, que participam ativamente da vida das comunidades onde atuam - destacou Marcos Simões.

O diretor executivo da consultoria Visão Sustentável, José Pascowitch, enfatizou o papel do setor privado no desenvolvimento social do país. O especialista lamenta que o investimento do Brasil na área ainda é muito baixo. E alerta para a importância, também, de conservação do meio ambiente.

A preocupação das empresas privadas com a responsabilidade social e o desenvolvimento surgiu da cobrança da sociedade e tornou-se pré-requisito para o sucesso nos negócios. Balanços sociais e certificações na área se tornaram sinônimo de competência empresarial. Pascowitch lembra o papel do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e do Instituto Ethos como forma de a sociedade e, principalmente os consumidores, acompanharem o desempenho das empresas.

- A partir da cobrança da sociedade, surgiram normas e certificações de responsabilidade social das companhias. Até a Bolsa de Valores de São Paulo lançou, no ano passado, um índice para medi-la - disse Pascowitch.

 

 

A política dita os rumos do desenvolvimento  

O diretor de Jornalismo da Editora JB, Augusto Nunes, mostrou-se otimista com manifestações de indignação da sociedade, embora incipientes. No seminário, sublinhou os problemas decorrentes da inexistência de partidos reais. No Brasil, segundo o jornalista, vota-se em pessoas, não em partidos. Rememorou a seqüencia de presidentes para afirmar que todos tiveram de conviver com o poder do Exército – o “partido armado”. Lembrou, ainda, que o Brasil tem o único presidente suicida do mundo, Getúlio Vargas.

– A República nunca completou uma corrida de revezamento que incluísse quatro presidentes exercendo seus mandatos sem rupturas. Fernando Henrique consolidou a democracia brasileira.

O vice-presidente JB Marcos Troyjo lembra que a dependência brasileira da liquidez internacional é uma conseqüência política:

– Passamos os últimos 25 anos sendo um país tomador de empréstimos, enquanto a China foi comerciante e atraiu investimentos.

O presidente da Fecomércio, Orlando Diniz, discute o papel do estado no desenvolvimento. Aponta que o planejamento estratégico para criar um ambiente propício aos negócios cabe ao governo.

– A China é muito criticada pelo controle do governo, mas o país foi construído com planejamento estratégico.

Armando Castelar, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), lembra que a atração de investimentos depende da segurança jurídica e das reformas que dormem no Congresso.

– O desafio do crescimento no Brasil não é mais de diagnósticos ou de propostas. É de políticas. A carga tributária passou duas décadas estabilizada em 25% do PIB. Hoje, o Brasil é campeão na cobrança de impostos, com o índice chegando a 37% do Produto Interno Bruto.

O presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Sérgio Cavalieri, garante, porém, que a reforma do Judiciário não será suficiente para diminuir a insegurança jurídica. O investimento em modernização seria a melhor solução.

– Não adianta resolver o problema da Justiça no atacado. É preciso um choque de gestão. Temos de arregaçar as mangas para atender a demanda.

 

 

Opinião

O preço do conformismo

Carlos Roberto Innig

Administrador financeiro  

Enquanto Palocci vai descansar, o país desperta da hipnose dos juros mais altos do mundo. Logo o mercado literário será inundado por ensaios de brasilianistas tentando teorizar sobre os motivos que levaram o governo de uma nação em desenvolvimento e carente de recursos a queimar R$ 600 bilhões em cinco anos para aplacar o fogo da inflação e, ao final, mantê-la em patamar próximo do qual se encontrava em dezembro do ano 2000.

Infelizmente - e conquanto tenhamos uma legião de ótimos economistas - os ensaios teóricos mais uma vez virão de fora, inclusive porque no Brasil pouco cultuamos o hábito de duvidar cientificamente, portanto, sem paixão, de decisões tomadas por momentâneos detentores de poder oficial.

A dúvida, a discussão e o contraditório científico estão na raiz dos principais avanços da humanidade. Quando o tema é economia e finanças, nossas universidades pouco estimulam a apresentação e o debate de teses que questionem os caminhos propostos por governos para alcançar um objetivo. Perdemos todos, especialmente os governantes

Parecemos condenados mais uma vez a pagar o vexame de ver os professores estrangeiros dos nossos doutores domésticos ganharem dinheiro vendendo-nos livros explicando não ser plausível gastar, à custa de endividamento, a gigantesca soma de recursos como o estamos fazendo, para alcançar aquilo que é apenas um dos objetivos de uma política econômica equilibrada.

Não culpemos a ganância do mercado pelo estrago: nem em sonhos os credores imaginavam exigir os altos juros que a nação pagou para rolar sua dívida. Com o vulto alcançado pelo débito, o poder de negociação não está em suas mãos. Dados recentes informam que o crédito ao setor privado mal consegue bater os R$ 450 bilhões. Enquanto isto, a dívida pública federal, estadual e municipal está ao redor de 1,2 um trilhão. Ou seja, o setor público ''aluga'' 70% dos recursos financeiros existentes no mercado. Quem então tem o poder de fixar preço?

A luta por metas de inflação é essencial e é um objetivo indeclinável. Todos concordamos. E que esta guerra tem um custo, também nem se discute. O que não podemos é desconhecer outras armas e modos de combate e pagar o preço mais caro, sob pena de sermos reconhecidos futuramente como grandes bobos.

É um imenso equívoco aplicar continuamente solução clássica para país rico num país em desenvolvimento e extremamente endividado. Não podemos segurar a inflação pagando juros com o dinheiro que não temos. É simples. Ali adiante precisaremos de mais impostos inflacionários para resolver os problemas que nós mesmos criamos.

O que está em dúvida não é a necessidade de estabilidade monetária, mas as alternativas de preço para alcança-la e mantê-la. A dificuldade de Palocci não foi de diagnóstico e sim de prescrição de tratamento. A posologia dos juros preventivos mais altos do mundo está exaurindo as forças do paciente. Da mesma forma como seria totalmente inadequado mudar-lhe radicalmente o tratamento e permitir-lhe o prazer de reconfortantes excessos e compensações, no caso, uma farra de gastança orçamentária a altura de apetites eleitorais.

É urgente estimular-se o exercício da dúvida. A política monetária se sobrepõe à política macroeconômica? Dispomos de outros instrumentos que não os juros altos e onerosos ao tesouro para controlarmos a inflação? Existe modo de fazer melhor, mais barato e de forma socialmente mais justa? Qual a política econômica (e isto é mais do que monetária) que o país deveria ter para ajustar-se a uma determinada meta da inflação que permitisse um crescimento ao menos igual ao da média da América Latina e com menor comprometimento de superávit primário para pagamento de juros? Provavelmente um dia os nossos profetas do passado irão quantificar. Antes disto faremos fila nas sessões de autógrafos dos brasilianistas. Exceto se nossas entidades empresariais conseguirem estimular nossas universidades a duvidar, ainda que por mero exercício científico.

 

 

Receita investiga vazamento de dados

Fisco admite que dois funcionários são suspeitos de acessar informações sigilosas de contribuintes

Fernando Nakagawa  

BRASÍLIA - Em tempos de quebra de sigilo fiscal e vazamento de informações bancárias para a imprensa, a Receita Federal admitiu que está realizando investigações sobre possíveis ações indevidas dentro do próprio órgão. Um dia após a saída do ministro Antônio Palocci, que se viu envolvido com a divulgação de dados bancários do caseiro Francenildo dos Santos Costa, o Fisco informa que a Corregedoria-Geral da Receita está investigando o trabalho de dois servidores.

De acordo com comunicado enviado à imprensa, supostos acessos indevidos de dois servidores às informações fiscais de contribuintes estão em análise há mais de 30 dias. Segundo a nota, apesar de haver a investigação, ainda não há indícios de irregularidade.

“Ressalte-se que, até o momento, não há qualquer indicativo de divulgação de informações protegidas por sigilo fiscal”, destaca a nota.

O comunicado da Receita Federal foi divulgado no mesmo dia em que veio o jornal Folha de São Paulo trouxe a informação de que auditores teriam violado o sigilo de seis mil contribuntes. A violação teria sido liderada por três auditores fiscais e incluiria nomes conhecidos como o do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, o ex-ministro das Comunicações Eunício Oliveira e o empresário Marcos Valério de Souza, acusado de ser operador do mensalão. O jornal diz que das informações obtidas pelos auditores, dados de empresas de Valério teriam vazado para a imprensa.

“As informações divulgadas na reportagem não correspondem, necessariamente, aos trabalhos em andamento. Apenas ao final das investigações é que se poderá identificar a quantidade de eventuais acessos indevidos”, diz o comunicado da Receita.

O Fisco observa ainda que há punições classificadas como severas para funcionários que acessam informações sem motivo e/ou divulgam informações a terceiros. O comunicado divulgado ontem explica que o acesso sem motivação às informações bancárias é, juridicamente, diferente da violação de sigilo, que ocorre quando há divulgação das informações a terceiros.

 

 

Forte cinco estrelas

Projeto prevê transformação em hotel de unidade do Exército no Gragoatá

Charles Rodrigues  

No lugar de armas e soldados, turistas e diversão. Esta é uma das propostas de um projeto em análise na Câmara municipal que propõe a construção de um hotel cinco estrelas na área do Forte do Gragoatá. O objetivo da medida é a regulamentação do setor hoteleiro e a retomada do turismo na cidade, estabelecendo normas de localização, edificação e classificação dos serviços e meios de hospedagem no município. Atualmente, a cidade conta com 1,5 mil leitos divididos em 10 hotéis e 12 pousadas.

O autor do projeto, vereador Wolney Trindade (PMDB), afirma que a cidade tem uma vocação turística comprovada, mas ainda carece de uma legislação para normatizar a construção de unidades hoteleiras para corresponder ao crescimento da demanda de turistas.

- Niterói é uma cidade conhecida em todo o país pela sua qualidade de vida e belezas naturais. Temos registrado aumento na demanda de turistas, mas a oferta de leitos não tem acompanhado esse crescimento, em grande parte por falta de uma legislação adequada - salientou Trindade.

Favorável ao projeto, o presidente da Empresa Niterói, Lazer e Turismo (Neltur), José Mauro Haddad ressaltou também a necessidade de incentivos para atrair a iniciativa privada a investir no setor hoteleiro da cidade.

- É louvável esse interesse do legislativo em criar leis especiais para incentivar o turismo. Este ano tivemos 100% de ocupação nos leitos no carnaval. O setor vem crescendo a cada ano e necessita de uma legislação voltada para a criação de incentivos a investimentos, oriundos principalmente da iniciativa privada - analisou Haddad.

Já o secretário municipal de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia, Rodrigo Neves, destacou o crescimento do turismo de negócios.

- Também apoiaremos os projetos de incentivos ao turismo de negócios, que aumentou a reboque do crescimento econômico - finalizou.

 


 Dirceu é apontado como idealizador do esquema

Parecer enfatiza que ex-ministro coordenava decisões sobre o mensalão; Roberto Jefferson teria cometido 3 crimes e Marcos Valério, 9

Eugênia Lopes

João Domingos

BRASÍLIA  

O relatório final da CPI dos Correios foi contundente quanto à participação do ex-ministro e ex-deputado José Dirceu no esquema do mensalão. "O ex-ministro José Dirceu desponta como o grande idealizador desse esquema de corrupção, destinado a garantir uma base de apoio ao governo na Câmara dos Deputados", concluiu o relator Osmar Serraglio (PMDB-PR). Ele pediu o indiciamento do petista pelo Ministério Público pelo crime de corrupção ativa.

"O então ministro estava a par de todos os acontecimentos e coordenava as decisões, junto com a diretoria do PT. Isso fica evidente no depoimento da sócia do empresário Marcos Valério, Renilda Santiago, que declarou à CPI, no dia 25 de julho de 2005, que Valério tinha lhe dito que Dirceu sabia dos empréstimos", argumentou o relator.

Serraglio lembrou que o ex-ministro teve fundamental participação na indicação de dirigentes de fundos de pensão - como a de Arlindo Magno, ex-diretor-financeiro da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae), patrocinadora do Prece.

O relator também sugeriu ao Ministério Público o indiciamento do autor das denúncias do mensalão, ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), em três tipos de crime: eleitoral, contra a ordem pública e por corrupção passiva. Jefferson foi o primeiro parlamentar ligado ao esquema cassado pelo plenário da Câmara.

Já o empresário Marcos Valério incorreu em nove crimes, de acordo com o relatório final da comissão. A deputada Denise Frossard (PPS-RJ) comentou que Valério carregava "metade do Código Penal atrás de si": falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, tráfico de influência, corrupção ativa, supressão de documento, fraude processual, contra a ordem tributária, peculato e improbidade administrativa.

 

DELÚBIO

O ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, outra peça-chave do esquema - que teria ajudado Marcos Valério a montar o caixa 2 para financiamento do partido e de legendas aliadas -, teve seu indiciamento pedido por falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, corrupção ativa, crime eleitoral e peculato.

De acordo com o relatório de Serraglio, o ex-presidente do PT José Genoino terá de responder por três crimes: falsidade ideológica, corrupção ativa e crime eleitoral.

O secretário do Núcleo Estratégico do governo, Luiz Gushiken - que era titular da Secretaria-Geral de Comunicação do Governo na época do escândalo -, foi enquadrado pelo relator por envolvimento com o mensalão e com os fundos de pensão. Ele poderá responder por tráfico de influência e corrupção ativa. Seu ex-protegido e hoje desafeto Henrique Pizzolato, ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil, pode ser indiciado por falsidade ideológica, peculato e lavagem de dinheiro.

A diretora-financeira da agência SMPB, Simone Vasconcelos, que distribuía o dinheiro do valerioduto, poderá ser indiciada por lavagem e corrupção ativa. Rogério Tolentino, sócio de Valério, poderá ser indiciado por falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. Cristiano Paz, outro sócio, também responderá por lavagem de dinheiro e corrupção ativa.

O ex-presidente do BB Cássio Casseb responderá por condescendência criminosa.

Kátia Rabelo, dona do Banco Rural, e Ricardo Guimarães, proprietário do BMG, serão indiciados por fraude na administração de sociedade por ações, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

 


 

 

 ESCÂNDALO DO "MENSALÃO"/ O RELATÓRIO

Presidente também foi poupado pelo relator, que disse não ter encontrado nenhum fato que evidenciasse sua omissão no caso

Serraglio recua e exclui filho de Lula

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA  

Alterações feitas de última hora no texto do relatório final da CPI dos Correios retiraram o nome do filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva do item que trata do caso Gamecorp e, ao menos por ora, livraram de pedido de indiciamento parlamentares citados no esquema do "mensalão".

Numa versão preliminar de anteontem obtida pela Folha, o filho de Lula não só era citado nominalmente como também a Gamecorp, que recebeu aporte de R$ 5 milhões da Telemar no início de 2005, era tratada como uma empresa de "raro sucesso".

A empresa (especializada em videogames), conforme a Folha revelou, recebeu, além dos R$ 5 milhões iniciais, outros R$ 5 milhões para gasto anual com patrocínio e produção de programas de TV.

Apesar de omitir o nome do filho de Lula, o relatório final afirma que, "sem dúvida, cabe ao Ministério Público, angariar novas informações e esclarecer a nação sobre esta questão delicada que desacata a cidadania e fere a credibilidade política do país".

No item dos fundos de pensão, Serraglio identifica a Gamecorp como de "propriedade de um dos filhos do presidente da República". Não cita o nome de Fábio, mas diz que a Petros (fundo de pensão da Petrobras e acionista da Telemar) "não demonstrou interesse em esclarecer, da atribulada compra, por aquela empresa de telefonia, das debêntures conversíveis da firma Gamecorp, de propriedade de um dos filhos do presidente da República". E completa: "Neste caso, não deve haver a presunção de ilícito, mas não se pode descartar o delicado aspecto político e ético, por envolver investidores cujos interesses dependem de regulação oficial".

A Folha teve acesso a uma versão preliminar do relatório, com última atualização às 15h30 de anteontem. Confrontado com o texto final do relator Osmar Serraglio (PMDB-PR), verifica-se que o deputado cassado José Dirceu deixou de sofrer dois tipos de pedido de indiciamento. O texto de anteontem acusava o petista de corrupção ativa, peculato e formação de quadrilha. Já no relatório final, é pedido indiciamento apenas pelo crime de corrupção ativa.

Uma reviravolta a seu favor também teve Luiz Gushiken, ex-ministro da Secom e atual presidente do NAE (Núcleo de Assuntos Estratégicos) da Presidência. Das acusações preliminares de peculato, tráfico de influência, corrupção ativa e formação de quadrilha, restou-lhe pedidos de indiciamento por tráfico de influência e corrupção ativa.

O presidente da CPI, senador Delcídio Amaral (PT-MS), esteve anteontem à noite no Palácio do Planalto para tratar justamente do fechamento do relatório.

As mudanças de última hora também beneficiaram os ex-dirigentes petistas Delúbio Soares e José Genoino, isentados da acusação de formação de quadrilha.

Os "mensaleiros" também ganharam um respiro. Até anteontem, 17 atuais ou ex-deputados apareciam no texto como "beneficiários do Valerioduto, que incorrem no crime de corrupção passiva". No relatório entregue ontem não há pedido direto de punição aos parlamentares, mas o relator disse que pedirá o indiciamento.

O relator Osmar Serraglio (PMDB-PR) entendeu que não há fatos que sustentem uma eventual "omissão" do presidente Lula diante do esquema montado por dirigentes do PT com o empresário Marcos Valério de Souza.

"Como é de sabença, não incide, aqui, responsabilidade objetiva do chefe maior da nação, simplesmente por ocupar a cúspide [o topo] da estrutura do Poder Executivo, o que significaria ser responsabilizado independentemente de ciência ou não. Em sede de responsabilidade subjetiva, não parece que havia dificuldade para que pudesse lobrigar [perceber] a anormalidade com que a maioria parlamentar se forjava. Contudo não se tem qualquer fato que evidencie haver se omitido", diz o relatório.

(EDUARDO SCOLESE, LEONARDO SOUZA, RUBENS VALENTE, FERNANDA KRAKOVICS E LUCIANA CONSTANTINO)

 

 

 

 

HERANÇA MILITAR

Boal receberá indenização por exílio de 8 anos

 

O teatrólogo e dramaturgo Augusto Pinto Boal, 75, foi declarado ontem anistiado político pela Segunda Câmara de Comissão de Anistia, do Ministério da Justiça, e receberá uma indenização mensal de R$ 11 mil, além de R$ 1,86 milhão referente aos pagamentos retroativos a agosto de 1992. A indenização é por reparação econômica. Criador do Teatro do Oprimido, que transformava o espectador em participante ativo das peças teatrais, Boal foi preso e exilado em 1971. Na ocasião, foi detido por policiais e levado para o DOPS (antigo Departamento de Ordem Política e Social) de São Paulo. Teve sua casa e o teatro de Arena, onde atuava e dirigia, invadidos e seus documentos apreendidos. Boal se exilou na Argentina e só retornou ao Brasil após a Lei da Anistia, em 1979. Durante anos, vinha tentando obter uma declaração de anistiado para garantir sua aposentadoria junto ao INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

 

 

 

CAMPO MINADO

Sem terra são presos sob a acusação de furto de boi 

Seis trabalhadores sem terra ligados à Federação dos Trabalhadores na Agricultura foram presos anteontem em Marabá (PA) acusados de tentar furtar e ferir dois bois da fazenda Balão. Eles foram autuados por formação de quadrilha, tentativa de furto qualificado, seqüestro e cárcere privado.

Os advogados Regina Barros e Jorge Luís Ribeiro, da Comissão Pastoral da Terra, classificaram a prisão como arbitrária porque consideram que não há provas contra os sem terra.

 

 

 

 

CAMPO MINADO

No RS, agricultores fazem protesto em frente ao BC 

Cerca de 1.800 pequenos agricultores ligados ao MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores) protestaram ontem em Porto Alegre , em frente à sede do Banco Central. Antes de chegar ao BC, o grupo fez uma caminhada por ruas de Porto Alegre. Os manifestantes foram recebidos pela gerência do BC e lhe entregaram sua pauta de reivindicações, que inclui incentivos, prolongamento de dívidas, previdência e disponibilidade de crédito aos agricultores.

 

 


 SEGURANÇA PÚBLICA

Retrato de um país

Estudo mostra por que a Baixada Fluminense, no Rio, é uma das líderes em violência. Pesquisadores propõem saídas para reduzir a criminalidade e acreditam que esse cenário se repete em outras regiões brasileiras

André Carravilla

Da equipe do Correio  

Exemplo do que há de pior e melhor no país, o Rio de Janeiro é um poço de contradições sociais que se reproduzem em municípios do Oiapoque (AP) ao Chuí (RS). Estudo realizado por três entidades e duas universidades do estado revelam as razões da violência que assombra os 13 municípios que compõem a Baixada Fluminense, região metropolitana da cidade considerada cartão-postal brasileiro.

O trabalho, que será apresentado ao Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana amanhã, exatamente um ano após a chacina que vitimou 29 pessoas na região, explica a criminalidade e propõe 29 soluções para o problema, muitas delas aplicáveis ao resto do país.

“A Baixada Fluminense é uma das maiores concentrações urbanas do Brasil e da América Latina. Nela configura-se uma realidade socioespacial onde se condensam as mais dramáticas contradições vivenciadas pela sociedade brasileira”, defende o estudo de 75 páginas, elaborado pelo Laboratório de Análises da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), o Viva Rio, a Justiça Global, a Universidade Cândido Mendes, o SOS Queimados e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A pesquisa sustenta que boa parte dos índices de criminalidade do Rio de Janeiro, considerada a terceira mais violenta do país, pode ser atribuído à Baixada, onde a quantidade de homicídios chega a ser 20% maior do que no restante do município.

 

Semelhanças

Um dos autores da pesquisa, o sociólogo e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro Inácio Cano, defende que o estudo estabelece “algumas particularidades e algumas semelhanças com o resto do país”. Prova disso, segundo Cano, são os altos índices de violência em regiões periféricas dos grandes centros urbanos e o descaso da mídia por crimes ocorridos nessas áreas.

As áreas férteis para o crescimento da violência são os locais onde a ausência do Estado virou regra e a miséria faz parte do cotidiano das comunidades. O estudo aponta que a Baixada Fluminense, quarto mercado consumidor do país e onde se concentra quase 25% do eleitorado do Rio de Janeiro, possui alguns indicadores socioeconômicos comparáveis aos das regiões mais pobres do país.

De acordo com os pesquisadores, a ausência de políticas públicas começa pela falta de segurança e termina com a precária rede de saneamento ambiental da Baixada que, muitas vezes, causa a morte de habitantes da região. “A quantidade de famílias abaixo da linha da pobreza, a inexistência de acesso à educação infantil, ao esporte, ao lazer e à cultura e os altos custos do transporte são alguns dos exemplos dos processos geradores e reprodutores da desigualdade”, defende o estudo.

O trabalho sustenta que, além da importância da implantação de políticas urbanas que assegurem a moradia e os direitos básicos, é preciso criar políticas voltadas para a juventude. Este é o segmento mais afetado e envolvido pelo crime. “A carência financeira aliada a um grande apelo ao consumo, à falta de perspectivas de emprego e a inexistência de uma política cultural tornam esses jovens vítimas e algozes da violência.”

Os pesquisadores acreditam que as comunidades carentes não compreendem que políticas públicas são um direito e não um favor. “Em muitos casos, as políticas públicas, que por princípio e por direito deveriam ser para todos, ficam sob o controle das oligarquias políticas locais que, por meio do clientelismo, transformam direitos em privilégios, limitando o conceito de cidadão a meros usuários e beneficiários dos serviços”, defende o estudo.

 

Carência de policiais

A negligência do Poder Público na Baixada pode ser verificada pela carência de policiais. O município do Rio conta com quase dois policiais para cada mil habitantes. Para maioria dos habitantes dos 13 municípios da Baixada, a relação é outra: menos de um policial para cada mil habitantes.

“A Baixada Fluminense apresenta um índice elevadíssimo de homicídios, inclusive em comparação com a capital e com o resto da região metropolitana, cujos valores já são dramáticos. Por sua vez, a violência não letal está no mesmo patamar do que o resto da região metropolitana, enquanto que os crimes contra o patrimônio, os roubos, apresentam uma incidência menor na Baixada do que na capital ou Niterói”, sustenta o estudo.

Para os pesquisadores, esse resultado não é surpreendente, já que os crimes contra a propriedade costumam afetar com maior intensidade as regiões mais ricas, enquanto homicídios são um problema de áreas carentes.

 

Nela (na Baixada) configura-se uma realidade socioespacial onde se condensam as mais dramáticas contradições vivenciadas pela sociedade brasileira

 

Trecho do estudo feito por universidades fluminenses e ONGs

 

O número

13 cidades formam a Baixada Fluminense, o quarto mercado consumidor do país

 

Pressão da sociedade

O estudo sobre as causas de violência na Baixada Fluminense, no Rio, sugere que a vigilância da mídia inibe a violência. Para os pesquisadores, a imprensa não dedica à periferia o mesmo espaço que aos crimes cometidos em áreas nobres. De maio a setembro de 2004, o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes acompanhou a produção jornalística sobre violência na Baixada realizada por nove jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Das 2.514 matérias publicadas, apenas 48,2% das notícias tratavam especificamente do Rio de Janeiro. Desse percentual, somente 5,4% referiam-se a municípios da Baixada Fluminense.

Para o o sociólogo e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) Inácio Cano, em locais onde a mídia está ausente, o Poder Público se sente menos pressionado para atender às demandas da sociedade. Como ilustração, ele sustenta que o número de homicídios em Nova Iguaçu e, sobretudo, em Queimados, diminuiu significativamente no trimestre seguinte à prisão dos policiais militares acusados pela morte de 29 pessoas, em 31 de março de 2005. A chacina teve enorme repercussão, provocou o interesse dos jornais e levou o Estado a tomar providências para impedir que o fato se repetisse.

Ainda assim o estudo adverte para a possibilidade de uma cobertura maciça contribuir para aumentar os preconceitos em relação às comunidades mais carentes. “Notícias de crimes e tragédias tendem a estigmatizar áreas das cidades, quando as associa sistematicamente a eventos que se repetem, aparentemente sem solução, como se fossem a confirmação infinita de uma violência ‘natural’ destes locais, sem que os jornais acompanhem seus desdobramentos de forma séria e eficiente.”

A chacina ocorrida em Queimados, na avaliação de Cano, reflete uma realidade que se repete em diferentes partes do país. “Existem municípios no Nordeste que, embora não tenham uma taxa de homicídios tão alta quanto a da Baixada, se verifica a atuação de grupos de extermínio ligados aos líderes políticos”, entende. Ele salienta que, na Baixada, a média de assassinatos por ano gira em torno de 2 mil. “Ou seja, mais de 70 homicídios para cada 100 mil habitantes. Uma das maiores da América Latina”, acrescenta o professor, lembrando que em mais de 90% dos casos de homicídios, a polícia não consegue identificar a autoria dos crimes nem constituir processo. (AC)

 

 

Governo volta a negociar com servidor

Luciano Pires

Da equipe do Correio  

Representantes do governo se reuniram com um grupo de sindicalistas ontem para tentar encontrar uma solução e acabar de vez com a novela em que se transformou o anúncio do reajuste dos funcionários do Plano de Classificação de Cargos (PCC). Cordial e extremamente didático, segundo relato de um dos participantes, o encontro serviu para apaziguar os ânimos.

Dirigentes da Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef) tiraram dúvidas que ainda pairam sobre a proposta do Ministério do Planejamento, feita na semana passada. Técnicos da Secretaria de Recursos Humanos (SRH) responderam a todas as perguntas, explicaram em detalhes até onde é possível avançar e sinalizaram que poderão analisar a contraproposta que está sendo elaborada pela Condsef. O projeto alternativo será votado amanhã em uma plenária nacional.

O convite para voltar à mesa de negociação foi elogiado pelos trabalhadores, que — ainda que não tenham recebido sinais claros de que a oferta oficial será alterada — ao menos disseram ter conseguido restabelecer o canal com a SRH. Até segunda-feira, as entidades sindicais reclamavam de desgaste nas relações, o que teria causado atrito entre governo e parte dos funcionários do Executivo.

Em greve desde o dia 15, servidores do PCC dos ministérios da Fazenda, Agricultura e Educação, entre outros, protestaram ontem contra a política de pessoal implantada durante a administração Luiz Inácio Lula da Silva. Pela manhã, um grupo de cerca de 500 pessoas caminhou na Esplanada dos Ministérios, chegando até o Palácio do Planalto. O ato foi um dos maiores já realizados desde o início da paralisação, que ainda é localizada e pouco expressiva. Hoje, funcionários do MEC prometem fazer um apitaço em frente ao ministério. Servidores denunciam que estão sendo impedidos de entrar no prédio por terem aderido ao movimento.

 


 Justiça Federal pára em 11 estados e no DF

Servidores fazem paralisação-relâmpago para forçar a aprovação do plano de cargos e salários do Judiciário 

Servidores da Justiça Federal de onze estados e do Distrito Federal realizaram paralisações ontem para pedir a aprovação do plano de cargos e salários do Judiciário, que tramita no Congresso Nacional, segundo informações do Sindicato dos Servidores das Justiças Federais do Rio de Janeiro. O presidente do sindicato, Roberto Ponciano, diz que o projeto está parado na Câmara dos Deputados desde janeiro deste ano.

No município do Rio, a Justiça Federal de primeira instância paralisou parcialmente as atividades de cartórios durante todo o dia. O Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) e o Tribunal Regional Federal da 2ª Região pararam por duas horas. Segundo Ponciano, a mobilização não atingiu o interior do estado.

"A nossa paralisação está sendo feita no sentido de forçar a votação do projeto, que já está na Comissão de Finanças. É uma greve de 24 horas, mas apontando para uma paralisação na semana que vem também. Se o projeto não for votado, há a possibilidade de a gente radicalizar e parar por mais dias", afirmou Ponciano.

A preocupação, segundo Ponciano, é o Orçamento da União de 2006, que ainda não foi votado. Segundo ele, será preciso fazer acordos políticos para que seja liberada a verba para o projeto no Congresso Nacional.

Servidores da Justiça Federal também realizaram paralisações no DF e nos estados da Bahia, São Paulo, Piauí, Santa Catarina, Pernambuco, Amazonas, Maranhão, Goiás, Roraima e Paraná.



 

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