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- Prensa Latina
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02 de dezembro de 2005
França - Um ano fora do comum
Por: Hugo Alonso*, E-mail:
Embora Maio de 1968 serviu de exemplo de quantos males arrastava então a
sociedade francesa, o outono (boreal) de 2005 foi o da rebelião de seus
marginalizados, cujo alcance é ainda hoje impossível de avaliar.
As amostras de violência, as piores dos últimos 40 anos, são conseqüência do
drástico aumento no último decênio das desigualdades sociais em um mundo
globalizado do que a França não é uma exceção.
Para as atalhar, o governo do presidente Jacques Chirac abriu mão da lei do
estado de emergência de quando a guerra de Argélia (1954-1962), enquanto
anunciava paliativos de ordem social e econômica para evitar sua repetição.
A crise de identidade e contra o sistema ocorrida nos 700 guetos onde se
amontoam, nos subúrbios das grandes cidades, os imigrantes das ex-colônias ou
territórios de ultramar, aliviou, porém, as condições de exclusão nas quais
vivem.
Seus filhos não escapam dessa sorte, e muito menos da discriminação pela cor da
pele e da procedência geográfica.
40 por cento -e às vezes o dobro- dos menores de 25 anos nesses bairros não
encontram trabalho. Essa falta de oportunidades, de desigualdade diante do
futuro, está relacionado ao sistema, cujo modelo de inserção social acaba de
mostrar seu estrepitoso fracasso.
Todos os anos mais de 160 mil estudantes, a maioria pertencentes a grupos
minoritários, abandonam os estudos na França.
Outros, com títulos de altos estudos inclusos, não conseguem pôr em prática
seus conhecimentos nem encontrar trabalhos adequados a sua qualificação.
Ocorrido-o nas periferias de Paris e outras grandes urbes francesas como
expressão do sentimento de exclusão em muitos de seus jovens, deu também arma à
direita no poder para reforçar seu controle da situação e acautelar que se
repita.
Longe de dividi-la, como deram a entender os meios de difusão, os distúrbios
serviram à classe dominante para deixar de lado diferenças conjunturais a
respeito de como atuar.
Assim, o chefe de governo, Dominique de Villepin, e o ministro do Interior,
Nicolas Sarkozy, muito parecidos em sua comum aspiração a deslocar Chirac nas
eleições de 2007, coincidiram na necessidade de equilibrar a firmeza com a
Justiça.
Não há indícios de que Chirac vá destituir Sarkozy, muito criticado por sua
política de mão dura por seu enfoque sem matizes dos participantes nos
distúrbios, como apontasse em plena crise o jornal Le Monde.
Pelo contrário, o Ministro mantém, conforme pesquisa, um grande apoio entre os
eleitores em que pese a que a violência contra as pessoas segue alta, em
particular a que exerce a polícia, conforme pesquisa.
De volta à carteira do Interior depois de dois anos e meio, seu titular
impulsionou nestes meses finais de 2005 um endurecimento da política
imigratória.
Também uma legislação antiterrorista concebida ao calor dos atentados em Nova
Iorque e Washignton (2001), Madrid (2004) e Londres, em julho passado.
Falou, também, nas linhas mestres do programa econômico de um projeto de
mudança social para fazer da França um país mais competitivo, o modelo do qual,
é obvio, estão excluídos os imigrantes, embora obtenham a cidadania, que não é
o comum.
A sublevação dos guetos, não sua ruptura com o sistema, como muitos de seus
participantes declararam à imprensa, foi o segundo reverso da direita francesa
neste ano, depois do rechaço ao Tratado Constitucional europeu no referendum de
maio passado.
O "não" à chamada Constituição Européia refletiu a divisão entre os
franceses a respeito de um projeto de corpo legislativo que desconhecem e, como
o resto dos europeus, percebem alheio a seus interesses elementares.
Este fracasso baliza também um ano de esforços do Governo por reduzir o déficit
público como exige o Pacto de Estabilidade e de endurecimento de posições
diante das negociações da Ronda Doha da Organização Mundial de Comércio.
No plano europeu, fizeram-se evidentes os desencontros com a Grã-Bretanha, que
ocupa neste segundo semestre a presidência rotativa do Conselho Europeu, em
torno do orçamento comunitário para 2007-2013.
Paris não cedeu em sua cota de benefícios da Política Agrária Comum (os
generosos subsídios à agricultura), nem Londres em renunciar a um reembolso de
parte de sua contribuição à arca comum européia.
Com os Estados Unidos, o esfriamento de relações a que deu lugar à postura de
Paris frente à agressão ao Iraque, vai cedendo a uma aproximação de posições em
temas comuns e a salvaguarda de um sistema que ambas as partes compartilham.
Esse sistema é, precisamente, que quiseram perturbar neste ano os marginalizados
das periferias urbanas francesas.
*O autor é jornalista da Redação da Europa de Prensa Latina.