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02 de fevereiro de 2006

Hedy Lamarr, a Vênus de oropel    

Por: Rodolfo Santovenia (Para Prensa Latina) *

   Um dia se necessitou uma jovem que não pusesse condições para atuar em um filme muito audaz e apareceu Hedwig Kiesler, corpo de ninfa, cabeleira negra e grandes olhos assombrados.

   O filme, chamado Extasis, narrava a história de uma formosa moça que se casa, não encontra o amor-paixão sonhado e o busca de novo até achá-lo em outro homem.

   Pôde-se fazer um drama de alta eficácia como os que tanto êxito deram ao cinema tcheco ou austríaco por aqueles anos. Mas Gustav Machaty, cineasta brilhante, abordou o tema do amor erótico diretamente, sem mascará-lo depois dos convencionalismos habituais e o dotou de seu mais autêntico e nobre valor: a exaltação.

   Hoje em dia, Extasis (1933) e Gustav Machaty são apenas uns nomes cada vez com menos significativos que se apagam lentamente como uma velha lápide de um cemitério. E, entretanto, aquela foi uma grande fita e ele um grande produtor que fez contribuições valiosas ao desenvolvimento da sétima arte.

   A história da jovem Kiesler é bem distinta. Instalada em Hollywood por Luis B. Mayer, adotou o nome artístico de Hedy Lamarr (1915-2000) e em 1938 debutou no Argel, versão nortenha de Pepe le Moko francês, dirigido por Julien Duvivier dois anos antes. E embora Hedy não era Mireille Balin, nem Charles Boyer era Jean Gabin, o filme resultou um divulgado êxito de bilheteria.

   Mas logo o processo de sofisticação não se fez esperar de acordo com os cânones da indústria aplicados a outras atrizes, e a Kiesler foi convertida em uma Vênus de oropel, em uma vampira de porcelana, em uma mulher exótica em vasilha de luxo a quem o departamento de publicidade da MGM proclamou  "a mais bela do século".

   Desta maneira desaparecia como por encanto a vital moça que tinha atuado na fita européia mencionada e se dava passo a um manequim que só alcança a sorrir porque expressar era muito pedir. Nascia um rígido personagem de bela aventureira, elegante e fria, tal como ficasse fixado em seu primeiro grande êxito do Argel.

   Isso não impediu que durante 20 anos rodasse numerosos filmes que contribuíram com somas colossais às companhias produtoras e se fizesse acompanhar sempre pelos galãs melhor cotados, como Clark Gable, Spencer Tracy ou Robert Young. E por excelentes diretores, como King Vidor, Jack Conway ou Victor Fleming.

   Com freqüência se escreveu sobre ela como uma estrela esquecida desde que em 1958 fizesse seu último filme, A outra mulher. É certo só pela metade, posto com posterioridade a seu retiro do cinema, claramente prematuro, a imprensa especializada se ocupou pontualmente da atriz.

   Primeiro, como resultado de seu sexto matrimônio. Logo, quando foi acusada e levada a julgamento por roubar em uns armazéns. Depois como protagonista de uma inflamada batalha judicial desatada pela publicação de uma muito indiscreto autobiografia titulada O Extasis e eu. Minha vida como mulher.

   Mais adiante, ao correr o rumor de que seus famosos olhos de cor verde esmeralda não viam já. E finalmente, depois de afirmar-se, um tanto folhetinescamente que, além de semiciega, arruinada e sozinha, Hedy tinha solicitado ajuda à Segurança Social.

   O espisodio do roubo resultou muito desagradável. Foi surpreendida quando furtava mercadorias por valor de 86 dólares. Entre tomado figuravam um vestido, uma carteira, um colar de contas, dois biquínis, oito cartões de felicitação, e uma cajita de sombra para os olhos. Todo o qual ocultou em uma grande bolsa de sua propriedade e idôneo para conter bom lote de coisas.

   O fato deu lugar a um processo judicial que durante semanas dividiu à opinião pública do país. E foi a fofoca dos leitores viciados na imprensa sensacionalista, quem, periodicamente, recebiam todo tipo de pormenores sobre o caso.

   Aquilo, é obvio, afundou-a definitivamente. E marcou um triste e amargo final para quem tinha sido atriz mimada e cheio os sonhos de milhões de pessoas durante os anos prévios e posteriores a II Guerra Mundial, época em que gozou de uma grande celebridade.

   Sempre distante, longínqua. Estrela nada dócil, inconforme, sua independência chocou mais de uma vez com as medidas que se aplicavam rigorosamente nas produtoras. Como a oportunidade em que impôs ao tirânico Louis B. Mayer seu famoso penteado (uma raia ao médio que partia em dois seu formoso cabelo negro) que depois copiaram as mulheres norte-americanas apesar de que o magnata se negou a isso.

   Hedy Lamarr foi uma das bonecas mais deliciosas do cinema de Hollywood. Pertenceu ao seleto círculo de estrelas que sempre apareciam envoltas em encaixes e tules, com magníficos e elegantes vestidos ou com o breve e simples traje negro. E se viam acariciadas pelo encanto de uma luz difusa e suave criada para elas pelo ás do lente de volta.

   Com o passado do tempo, sua grande beleza, sua maravilhosa beleza, tão radiante nos anos de juventude, converteu-se em uma formosura "refrigerada" e se produziu o ocaso.

   Uma boneca não pode ser atriz. No máximo é um motivo de decoração. Hollywood fazia dela um peixe de vidraça incapaz de nadar em um mar verdadeiro.

ag/rs

                 *Historiador e crítico de cinema. Autor do primeiro

                  Dicionário de Cinema da América Latina. Colaborador

                  de Prensa Latina.

 

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