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- Prensa Latina
KR
02 de fevereiro de 2006
Randy Weston: 80 anos de jazz
Por: Fauto
Triana (Prensa Latina) *
Panamá.-
O homem e o sorriso, a música que lhe brota em cada palavra, como se pôr suas
enormes mãos no teclado fosse coisa fácil. Diz que tem 80 anos de jazz porque
quando nasceu seus primeiros gritos soavam melodiosos.
Randy Weston parece não perder nunca o senso
de humor. Embora o peso de suas oito décadas de vida imprime lentidão a seus
movimentos, já quisessem muitos octogenários mostrar a dinâmica deste pianista
americano.
Conversou com Prensa Latina com
intermitências, porque as noites de "descargas" no III Festival
Internacional de Jazz do Panamá não permitiram um diálogo pausado, mas foi
eloqüente, solícito e generoso em cada resposta.
Mais de 45 discos em sua existência, a saga
de Duke Ellington, Fats Waller, Thelonius Monk, Dizzy Gillespie e Billie
Holiday marcando sua rota musical, este homem de quase dois metros de altura
tem veludo em seus dedos para pular com os teclados.
-É certo que Louis Amstrong disse que você
foi o primeiro improvisador do jazz?
-A história sempre tem matizes e cada qual
lhe dá a interpretação que queira. Eu respeito muito aos grandes professores do
jazz e minha carreira se concentrou basicamente em investigar e pôr em seu
justo lugar as raízes africanas que, em meu critério, são as mais
enriquecedoras. Amstrong foi um super astro e é indiscutivelmente o primeiro
improvisador da história do jazz.
Nascido no Brooklyn, Nova Iorque, seu pai
era descendente de panamenhos, Weston debutou em 1949 com os grupos de George
Hall e Art Blakey. Entretanto, sua consagração aos temas africanos o fez
radicar-se bastante tempo no continente negro.
-A história, a cultura e a espiritualidade
africana estiveram presentes em minha vida desde muito pequeno. Sem a
estampagem africana, gêneros tão deliciosos como SAMBA, bossa-nova e blues não
existiriam.
De tantas fusões como falam os
especialistas, teríamos que ser atinados em uma fonte de riqueza incalculável
da qual me nutri ao longo de minha carreira para tentar oferecer um jazz de
universo próprio.
O cristianismo, o islã e o yoruba marcam as
linhas de minha música e até fiz um experimento muito interessante com a China.
Sou muito aberto a todas as tendências e gêneros.
-O que o latino-americano tem?
-A corda latina da música é também uma
contribuição significativa à criação melódica contemporânea, embora siga
pensando que aprecia seu acento africano e longe de negar suas origens, lhe
contribui com características especiais.
Eu vejo uma simbiose que neste mundo, cada
vez mais próximo, terminará por consolidar-se. Falo da música
afro-norteamericana, a afro-cubana e suas enormes contribuições, afro-jamaicana
e, assim, chegamos ao Brasil e ao mesmo tempo ao Panamá. Então celebremos a
maturidade do jazz.
Especializado nos rituais curativos da
música Gnawa, com longos períodos de residência no Tánger e Marrocos, Weston,
com um estilo magistral, é capaz de se aprofundar nos 250 anos de existência do
piano e voar bem alto até paquerar com o clássico.
No Tánger fundou em 1970 o African Rhythm
Cultural Center, um audaz projeto que consolidou seus interesses com aquela
zona do mundo.
-O que aprecia mais em sua trajetória, os
prêmios Grammy, os reconhecimentos dos críticos ou suas composições?
-Tudo em seu lugar. Sempre é agradável ser
premiado e escutar gente que fala bem de sua música. Mas o que me agrada acima
de tudo é o público, quando se obtém uma comunicação e a gente sabe que está
chegando ao coração da gente.
Também a fonte do conhecimento que adquire.
Sou um tipo privilegiado, que conheceu muitos gênios do jazz. Finalmente, beber
nas águas da música e esses ritmos extraordinários que nos dá a África, é muito
reconfortante.
-fala-se muito de seus discos Spirit of our
ancestors, seu só de piano no Marrakech in the cool of the evening, e o mais
recente Nuit africaine. Alguma preferência especial?
-Eu gosto muito do Spirit., mas Marrakech
foi algo muito emocionante e Nuit digamos que é como retomar meu eterno tributo
a tudo o que aprendi da África. Pudesse mencionar a comemoração ao Gillespie,
Sorriso africano, que é igual muito sentido.
A cidade de Boston teve a honra de receber
ao Weston em 1981 para presenciar o que muitos ainda consideram, um de seus
concertos mais memoráveis. Ali estreou sua suíte Three African Queens com a
Boston Pops Esplanade Orchestra dirigida por John William.
-Como se sente quando dizem: Randy Weston,
lenda viva do jazz, o professor?.
-Isso de lenda é como se estivessem
despedindo. Um adeus, e olhe, a verdade, já está bem conhecida que tenho 80
anos, mas tampouco terá que recordá-lo tão freqüentemente.
Professores, bom, Louis Amstrong, Duke
Ellington que nos deu de presente a magia de saborear com as notas do
pentagrama, e Nat King Penetre, com o piano e sua incrível voz deixou um legado
imperecível.
-A quem lhe parece que terá que recordar
sempre no jazz?
-Hum, a tantos. Deixar fora de uma galáxia
de excelências a Monk, Waller, Dizzy Gillespie, Billie Holiday, Art Blakley,
Kenny Durham, Chano Pozo, Miles Davis, Charlie Parker, seria um pecado, como o
pode ser que a memória jogasse a meus anos uma omissão involuntária.
ag/ft
*Correspondente de Prensa Latina.